🩸 Capítulo 1.6

Estávamos preparando os cavalos, do lado de fora do casarão, quando reparei numa figura acenando para mim por detrás de um arbusto. Aproximei-me, intrigado, e logo pude ver que era Nico quem me chamava.

— Ei, não me diga que já vai embora sem se despedir! — ele disparou, em tom acusatório.

— Calma, Nico! — respondi, sorrindo. — Vou apenas acompanhar meu pai na caçada de hoje, mas logo estaremos de volta.

— Bom, se é assim, sem problemas — respondeu ele, aliviado. — Tenho algo a te pedir, aliás.

— Pode dizer, se estiver dentro do meu alcance...

— Imagino que não saibas, mas amanhã é aniversário de dona Mariana — ele revelou. — Eu e os outros alunos estamos organizando uma surpresa. Nossas mães estão preparando bolos e outras guloseimas para celebrarmos. Se puderes, apareça no celeiro, tenho certeza de que ela ficará feliz.

Eu realmente não fazia a mínima ideia sobre a data, mas fiquei contente por ter sido avisado.

— Sem problemas, Nico — respondi. — Podes contar com minha presença!

— Certo, até amanhã então! — ele se despediu. — Boa sorte nessa caçada, depois quero saber de todos os detalhes!

Apenas concordei, sorrindo, e retornei para onde os vampiros estavam.


***


O percurso até o covil das Gárgulas foi feito em silêncio. Ao chegarmos no local, que era, basicamente, uma grande caverna cravada na base de um morro, um dos vampiros batedores desceu de seu cavalo e foi na frente, para se certificar de que a área permanecia vazia, como eles haviam deixado na noite anterior. O batedor demorou apenas alguns minutos e logo estava de volta, fazendo sinal de que estava tudo em ordem.

Descemos de nossas montarias e nos preparamos para explorar o local. Antes, porém, meu pai se aproximou de mim e me entregou uma tocha, que ele acendeu em seguida.

— Ainda não tens os poderes de visão noturna dos vampiros, e vais acabar tropeçando se entrares lá sem iluminação — ele explicou.

Era apenas em momentos como aquele que eu sentia vontade de que o tempo passasse rapidamente e eu fosse enfim transformado. Mas, no fundo, eu também sabia que, ao deixar de ser humano, não viriam apenas os poderes, mas também uma série de desvantagens e responsabilidades que eu não tinha certeza se estaria apto a encarar.

— Algumas instruções — meu pai continuou, alheio aos meus pensamentos. — Fique sempre atrás de mim, atento a qualquer comando que eu possa dar. E o principal — ele frisou, em tom sério — não toque em nada! Entendido?

— Sim, papai.

O interior da caverna era composto por uma série de galerias, que se estendiam em direção ao subsolo. Um humano que se atrevesse a explorar aquele lugar sozinho certamente teria grandes chances de se perder e nunca mais encontrar a saída — isso se não se deparasse com uma Gárgula antes, o que seria ainda pior.

As ações da comitiva dos vampiros eram sempre as mesmas: a cada nova galeria que alcançávamos, eles reviravam o lugar da cabeça aos pés, procurando entender a rotina daquelas criaturas ou encontrar qualquer pista que os ajudasse a localizar novos esconderijos. Nas primeiras salas que adentramos, o nervosismo me consumia, e o medo de nos depararmos com um daqueles monstros ainda me assombrava. Entretanto, após passarmos as primeiras horas repetindo exatamente os mesmos procedimentos, sem que nada ou ninguém aparecesse para nos atrapalhar, comecei a ficar entediado.

Veja bem, não é que eu realmente desejasse que uma Gárgula aparecesse apenas para tornar as coisas mais divertidas, mas admito que a ideia de sair em uma caçada com meu pai havia parecido muito mais interessante na teoria do que na prática. Como eu estava preso naquele lugar e não poderia retornar à fazenda enquanto os vampiros não terminassem sua investigação, decidi eu mesmo explorar o espaço em que nos encontrávamos com a minha tocha. Quem sabe eu não encontraria alguma coisa de interessante?

— Papai, posso olhar daquele lado? — perguntei, para evitar problemas.

— Certo — ele respondeu, sem me dar muita atenção. — Só não saia desta galeria.

Fui na direção oposta à onde os vampiros vasculhavam e comecei a me atentar aos detalhes da toca escura. Havia algumas pinturas nas paredes, desconexas, semelhantes aos rabiscos que uma criança de cinco anos seria capaz de fazer. Ao longo dessas mesmas paredes, pedaços de rocha eram utilizados para apoiar os utensílios primitivos daqueles seres — coisas como cumbucas, adereços, facas e outros cacarecos pouco elaborados. Também consegui identificar algumas pilhas de palha seca, misturada com penas de aves, que deduzi servirem como camas para as criaturas. Estava prestes a voltar até meu pai quando minha tocha iluminou algo brilhoso, que despertou minha atenção.

Aproximei-me do local, ao lado de um dos montes de palha, e encontrei uma pequena tigela, apoiada sobre uma rocha. Ali dentro havia pequenas pedras brilhantes; eram diferentes tipos de minérios, que muito provavelmente alguma das criaturas havia encontrado no leito do rio ou dentro da própria caverna. Precisei admitir para mim mesmo que, apesar de primitiva, aquela Gárgula, em específico, tinha bom gosto, já que a coleção de pedrinhas que ela reunira era bastante bela.

Ao observar os minérios mais atentamente, deparei-me com uma pedra oval, de superfície lisa e com uma cor verde profunda, uniforme. Imediatamente lembrei-me de Mariana e de como eu não tinha nenhum presente para dar a ela no dia seguinte, seu aniversário. Talvez ela pudesse levar aquela pedra a um joalheiro e transformá-la num broche ou anel; assim teria alguma recordação minha depois que eu partisse da fazenda.

Lembrei-me das ordens de meu pai, no entanto, dizendo para que eu não tocasse em nada. Mas as Gárgulas estavam todas mortas, não estavam? Já havíamos revirado aquele lugar e não havia nem sinal delas... E elas nem eram tão inteligentes assim, para dar falta de uma única pedrinha, quando todo o seu covil havia sido revirado da cabeça aos pés... Convencido com meu raciocínio, peguei o minério verde e guardei-o no bolso de meu colete.

O restante da expedição prosseguiu sem grandes surpresas. Apenas em uma das últimas salas tive a chance de ver um dos corpos das Gárgulas abatidas na noite anterior. Os vampiros haviam queimado quase todos os cadáveres, para garantir que não se regenerassem, mas aquele, em específico, havia ficado para trás, pois havia sido um dos últimos a serem mortos, já quando o sol estava prestes a nascer. A criatura era mesmo assustadora, e agora eu entendia o motivo de ter sido apelidada como "Gárgula". Se ficasse de pé, tenho certeza de que teria mais de dois metros de altura; sua pele era grossa e escamosa, como a de um lagarto; havia ainda grandes caninos saindo para fora de sua bocarra e imensas asas de morcego pendiam de suas costas. Se um único monstro daqueles, morto, já me causava arrepios, imaginei o quão aterrorizante seria ser atacado por um exército composto por tais seres.


***


Retornamos à fazenda quando surgiam os primeiros raios de sol. Surpreendi-me ao encontrar Mariana de pé, na varanda do casarão.

— O que fazes acordada tão cedo? — perguntei, curioso. — Caístes da cama?

Mariana puxou-me para seus braços, me pegando completamente desprevenido.

— Que bom que estás bem — ela disse, beijando meus cabelos. — Nico me contou que tu havias saído para caçar com teu pai e fiquei morrendo de preocupação de que algo ruim acontecesse...

Ruborizei ao ouvir tal afirmação. A minha relação com Mariana tinha se fortalecido ao longo daquelas semanas, mas não imaginava que ela já me estimava a tal ponto para se preocupar comigo daquela forma.

— Desculpe se te alarmei — eu disse. — Mas não aconteceu nada de anormal, vês? Estou inteiro!

Mariana riu e me abraçou apertado outra vez. Naquele instante, recordei-me que já era um novo dia e, por consequência, havia chegado o aniversário da filha do barão.

— Trouxe algo para ti — anunciei. — Sei que hoje é teu aniversário. Não tive como arranjar nada melhor, mas espero que gostes.

Enfiei a mão no bolso do colete e a estendi para Mariana, oferecendo a ela a pedra verde.

— Que linda! — ela exclamou, tomando-a em suas mãos e a examinando mais de perto. — Onde a encontraste?

— No leito do rio — menti.

— Muito obrigada! — ela agradeceu. — Da próxima vez que eu for à cidade, farei questão de transformá-la em algo que eu possa usar todos os dias, assim sempre me recordarei de ti.

Não tive tempo de responder, no entanto, já que meu pai logo se aproximou de nós.

— Leocaster, já para o quarto, sim? Ficamos a noite toda fora, precisas descansar.

Apenas me despedi de Mariana com um aceno de mão e fiz tal qual fora instruído por meu pai.

Uma vez em meus aposentos, o rei dos vampiros me surpreendeu ao adentrar o recinto com uma taça em suas mãos.

— Fiquei bastante satisfeito contigo essa noite, Leocaster — ele declarou. — Não ouvi reclamações tuas e nem percebi nada de errado em seu comportamento. Se continuares assim, tenho certeza de que se tornarás um grande vampiro.

Aquelas palavras me desconcertaram, por dois motivos. Primeiro, por não estar acostumado a ouvir aquele tipo de elogio vindo de meu pai. E segundo, por saber que minha conduta não havia sido tão correta assim. Porém, por mais imprudente que aquilo pudesse parecer, optei por não dizer nada e aproveitar aqueles louros, ainda que eles não fossem inteiramente merecidos.

— Venha comigo, tenho algo para ti — ele disse, apontando a porta que levava ao quarto dele. Ao entrar no local, reparei que havia outra taça como a que ele segurava em suas mãos, colocada sobre a mesa.

— Sente-se — ele disse. — Hoje foi o primeiro passo que destes para deixar de ser um menino e se tornar um homem. Devemos brindar a isso!

Arregalei os olhos ao vê-lo abrir uma garrafa de vinho e encher a taça sobre a mesa. Eu tinha apenas onze anos naquela ocasião e nunca havia provado nenhuma bebida alcoólica.

— Não se preocupe — ele disse, como se tivesse lido meus pensamentos. — É vinho suave, doce, com baixo teor alcoólico. E não tomarás mais que um copo.

Sentei-me de frente para ele e segurei a taça em minhas mãos.

— Ao reino dos vampiros, e ao seu futuro príncipe, Leocaster! — meu pai exclamou, erguendo sua própria taça. Repeti o gesto e bati levemente minha taça na dele, levando o líquido a boca em seguida. O sabor era doce, como ele havia prometido, apenas um pouco mais forte que suco de uva. Logo tomei todo o conteúdo. Meu pai apenas sorriu, assistindo-me em silêncio.

— Agora já podes ir dormir — por fim falou, e logo entendi que ele queria ficar sozinho.

Retornei aos meus aposentos e deitei-me em minha cama, sentindo meu corpo levemente entorpecido. Seria aquele o resultado de apenas uma taça de vinho? Sem dúvidas, o efeito da bebida devia ter se somado ao cansaço de passar a noite toda em claro, explorando o covil das Gárgulas. Não poderia dormir muito, no entanto, caso contrário correria o risco de me atrasar para a comemoração do aniversário de Mariana. Mas eu ainda tinha tempo. Não faria mal nenhum descansar por algumas horas, concluí. E foi logo depois disso que apaguei, caindo num sono profundo, sem sonhos, alheio ao que me aguardava assim que eu acordasse.


***

Votem e comentem, por favor! Obrigado!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top