48. A vez em que um jovem lobo partiu em uma missão de espionagem

Vi Davi andar de um lado do quarto para o outro, inquieto. As perguntas que eu fizera o colocaram num estado de ansiedade extrema e, pelo o que eu conhecia dele, sabia que não ia demorar muito tempo até meu namorado decidir agir.

— Lobo, vem cá — ele me chamou finalmente, retornando para a cama.

Fiz o que Davi pediu e me sentei junto a ele. Reparei que ele trazia Órion e o grimório consigo.

Velum oblivionis — Davi declamou baixinho, sem avisar.

Logo senti uma cortina mágica descer do teto do quarto e envolver todo o espaço ao nosso redor.

— Espera um pouco... — eu disse, em reconhecimento. — Esse é o mesmo feitiço que a irmã da Poliana usou pra esconder a cidade antes da batalha, não é?

— É isso mesmo — ele confirmou. — Só repeti numa escala muito menor, o suficiente pra esconder a gente por um tempinho e eu poder usar minha magia e conversar com você normalmente, sem chamar a atenção dos vampiros.

— E o que você pretende fazer agora? — perguntei, curioso.

— Em primeiro lugar, uma ligação — informou ele. — Fica aqui do meu lado, pra você conseguir ver.

Sem perder tempo, Davi pegou seu celular e iniciou uma chamada de vídeo. Quem atendeu e apareceu na tela foi Tatianna.

— Davi, tá tudo bem com vocês? — ela quis saber, preocupada.

— Você tá sozinha? — ele logo perguntou. — Podemos conversar em particular agora? Não tem ninguém aí por perto?

— Estou sim, só os meus filhos estão aqui comigo neste aposento — confirmou ela. — Já revistamos nosso quarto inteiro e não encontramos câmeras ou escutas escondidas. Estamos seguros por enquanto. E vocês, como estão? E o Leocaster? Alguma notícia?

— Estamos bem, usei um feitiço pra esconder a gente temporariamente — Davi explicou. — Já alimentei o Leo, mas ele tá dormindo de novo, lá no quarto dele, com o Buwan de guarda. A gente acha que os homens do Babylon estão mantendo ele dopado, mas não temos certeza. Mas não é por isso que eu tô te ligando... — ele continuou, pragmático. — Preciso de um favor e acho que só você vai ser capaz de me ajudar. Você tem acesso à internet aí, né?

— Tenho sim — ela confirmou. — O que você quer que eu faça?

— Vou enviar uma data pra você — informou Davi, apressado. — O dia em que aconteceu o acidente na fábrica da minha família, aquele que acabou resultando na morte dos meus pais. Também vou enviar o meu login e a minha senha de administrador, pra você acessar o sistema da empresa do meu pai.

— Por que você tinha uma senha dessas? — eu não resisti e perguntei, impressionado com aquela informação.

— Eles me deram esse acesso depois que eu assumi a presidência e passei a trabalhar lá. Eu usava pra consultar os bancos de dados e pegar as informações que eu precisava pra fazer minhas divulgações e campanhas publicitárias — ele explicou, sem tirar os olhos da tela do celular —, mas agora pensei em outra forma da gente utilizar esse recurso.

— Ok, entendi, e o que você quer que eu faça nesse sistema, exatamente? — a vampira indagou, atenta.

— Tem um registro dos nossos funcionários lá, na área de recursos humanos. Você vai procurar o mês do acidente. Vai localizar a lista com os nomes de todos que estiveram na fábrica nesse período — ele instruiu, sério. — Quando você estiver com essa lista em mãos, eu quero que você descubra se havia outros vampiros trabalhando lá além do Alphaeos. E, em caso afirmativo, se havia algum morcego presente no dia do acidente. Se alguém da sua espécie foi ferido ou morreu. Você consegue fazer isso?

— Sim, posso colocar esses nomes do seu sistema no banco de dados dos vampiros e ver se correspondem aos nomes falsos que nós usamos para nos envolver com humanos comuns — ela confirmou. — Não será difícil.

— Certo, vou enviar os dados agora, por mensagem de texto — Davi informou. — Me avise assim que tiver uma resposta, por favor.

— Deixa comigo — respondeu Tatianna, desligando em seguida.

— Será que ela vai encontrar alguma coisa? — perguntei, enquanto Davi enviava o restante das informações para a vampira.

— Não faço ideia, mas não custa nada tentar... — respondeu ele, agoniado.

— E o que você pretende fazer agora? — eu quis saber, igualmente ansioso.

— Vou concentrar toda a minha magia e atenção neste grimório. Ainda tem muitas páginas em branco que eu não fui capaz de acessar — ele explicou. — Foi aqui que eu achei o Perennis Requiem, o feitiço que usamos pra derrotar Bakunawa. Deve ter mais algum recurso que a gente consiga usar pra se proteger do Babylon...

— Tem alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar? — perguntei.

— Infelizmente não, lobo — respondeu Davi, com um sorriso triste. — Se você quiser tirar um cochilo, não tem problema. Só de você estar aqui comigo já vale muito. Você me ajuda a me sentir mais seguro.

Sorri em retorno, tentando animá-lo, e me deitei ao lado dele, observando-o enquanto ele devorava aquelas páginas atentamente. O sono foi chegando aos pouquinhos, deixando meus olhos pesados, e não demorou muito até eu adormecer de fato. Não sei quanto tempo se passou até eu sentir alguém me cutucar, porém.

— Lobo! — Davi me chamava, tentando manter a voz baixa. — Ei, acorda! Acho que tem alguém tentando entrar pela nossa janela...

Aquelas palavras me fizeram despertar imediatamente e me colocaram em estado de alerta.

— O seu feitiço ainda está ativo? — perguntei, sussurrando. — Ainda estamos escondidos?

— Sim, estamos — ele confirmou.

— Vamos até lá investigar então — eu recomendei. — Se for mesmo um inimigo, teremos vantagem e poderemos pegá-lo de surpresa. Fique a postos e se prepare pra lutar, caso seja necessário.

Davi assentiu em concordância e se posicionou bem próximo a mim. Juntos, caminhamos em silêncio até a janela do quarto. Logo vimos o vidro ser aberto por fora e alguém colocar a cabeça no interior do aposento. Estava prestes a avançar sobre o intruso, quando reconheci a voz que falava conosco.

— Não me ataquem por favor, sou eu! — disse o visitante, pulando para dentro do quarto.

— Roman? — Davi perguntou, confuso. — O que você tá fazendo aqui?

— Minha criadora disse que vocês tinham entrado em contato e pedido a ajuda dela — o vampiro caçula explicou. — Ela já conseguiu fazer o que você solicitou, Davi. E me mandou trazer a resposta pessoalmente.

— Por que ela não me ligou de volta? — Davi indagou, ainda sem entender.

— Ela precisou acessar alguns arquivos dos vampiros pra verificar se os nomes batiam com a lista de funcionários da empresa do seu pai — Roman explicou. — Só que mal ela tinha terminado de fazer isso, o acesso foi revogado... Bloquearam a conta dela quase que instantaneamente. Achamos que alguém percebeu o que ela estava fazendo e não gostou nem um pouco. Ela teve medo de falar com você por telefone e acabar sendo descoberta de alguma forma. Por isso eu vim pessoalmente trazer essas notícias.

— Mas ela tá bem? — me apressei em perguntar. — Alguém foi tirar satisfação sobre isso? Fizeram alguma coisa com ela?

— Não, ninguém entrou em contato até o momento — o jovem morcego respondeu. — Mas achamos que agora devem ter colocado um alvo bem grande em cima dela. Seria arriscado minha criadora sair do alojamento e vir até aqui. Por isso eu me ofereci pra vir. Sou o mais jovem e fraco do que restou da minha família, então tinha menos chances de alguém reparar em mim. O Eugene ficou lá com ela, pra não deixar nossa mãe sozinha.

— Obrigado por se arriscarem por mim — Davi respondeu, sério. — Acho que nunca vou ser capaz de recompensar vocês pelo tanto que já me ajudaram. Mas preciso ir direto ao ponto... A Tatianna descobriu alguma coisa?

Roman olhou em direção a porta do quarto, receoso.

— Ninguém vai nos ouvir, pode ficar tranquilo — Davi se apressou em dizer. — Eu protegi o quarto com um feitiço, estamos ocultos por enquanto.

— Havia sim vampiros trabalhando na fábrica do seu pai, Davi — nosso amigo morcego revelou. — Não eram a maioria, mas eram um número considerável, algo em torno de cinquenta indivíduos, nas mais variadas funções.

— E onde eles estavam no momento do acidente? — meu namorado quis saber, ansioso. — Eles conseguiram escapar?

— Então, é aí que as coisas ficam estranhas... — prosseguiu Roman. — Todos os funcionários vampiros tinham uma frequência exemplar. Nunca faltavam ao trabalho sem uma boa justificativa. Mas, exatamente no dia do acidente...

— Nenhum deles foi trabalhar — Davi interrompeu, antes que o vampiro concluísse sua fala.

— Sim, isso mesmo — Roman confirmou. — Todos faltaram. Todos saíram ilesos do acidente.

— Espera... — eu disse, finalmente entendendo a gravidade daquilo tudo. — Isso quer dizer que eles sabiam que o acidente ia acontecer! Eles foram avisados com antecedência! Foi tudo planejado...

— O que significa que meus pais não morreram num acidente — Davi concluiu, amargo. — Eles foram assassinados, junto com todos aqueles trabalhadores inocentes.

— Eu sinto muito, Davi — disse Roman, comovido.

— Mas por que os vampiros fariam isso? — eu perguntei, inconformado. — Pra poder tomar conta da empresa? Eles já não são bilionários?

— Não foi por dinheiro, nunca foi — Davi respondeu. — O alvo era a minha família. Deve ter sido uma queima de arquivo. Meus pais precisavam sair de cena, sabe-se lá porquê. E como eu não estava diretamente envolvido nos negócios deles, só deram um jeito de me mandar pra cá. Pro "depósito de criaturas perigosas que os vampiros não queriam ter o trabalho de lidar".

— E o que você pretende fazer com essa informação? — Roman quis saber, apreensivo.

— Nós devíamos falar com os mais velhos, na pousada — eu sugeri. — Benjamin, sua tia. Eles vão saber nos aconselhar melhor.

— Eu acho uma boa ideia — reforçou Roman. — Quanto mais cabeças pensando juntas, melhor. Antes que a gente acabe fazendo alguma besteira.

Davi permanecia imóvel no meio do quarto, em silêncio.

— Tá tudo bem, bambi? — perguntei, preocupado.

Foi só ouvir aquela pergunta que um turbilhão de lágrimas surgiu dos olhos do meu namorado. Roman foi mais rápido e correu até ele, o envolvendo em um abraço apertado.

— Tá tudo bem, amigo, a gente tá aqui com você — o vampiro dizia, em tom acolhedor. — Pode colocar tudo pra fora, não precisa se segurar.

Aproximei-me dos dois e me juntei àquele abraço coletivo, envolvendo Davi e Roman junto a meu peito.

— A gente vai te ajudar a resolver tudo isso — fiz questão de reforçar. — Vai ficar tudo bem.

Continuamos ali, consolando Davi por mais alguns minutos, até ele finalmente se acalmar.

— Pode ligar pro seu irmão, lobo — ele me pediu, com a voz ainda embargada. — Quero saber o que ele e o resto do pessoal acham de tudo isso que descobrimos.

Fiz como Davi pediu e pressionei os comandos na tela do meu celular, iniciando uma nova vídeo chamada. Benjamin não demorou a atender e eu pedi que ele reunisse todos os nossos amigos que ainda estavam na pousada. Agora mais calmo, Davi fez um relato de tudo o que havia acontecido desde que chegamos ao castelo e também revelou o que descobrimos a respeito do acidente na fábrica e a sua provável relação com os vampiros.

— A situação é ainda mais grave do que imaginávamos — Ben admitiu, apreensivo. — E me pergunto que tipo de interesse teria Babylon pra chegar ao ponto de forjar um acidente nessas proporções e matar tantos inocentes...

— Você não descobriu mais nada sobre esse morcego desgraçado, Ben? — perguntei, frustrado.

— Não, maninho — ele confessou, desanimado. — As Gárgulas continuam à solta e não encontramos nenhuma outra pista. Não saímos do lugar...

— E aquilo que o vô Chico te disse, lá no berço dos lobos? — eu lembrei, tentando encontrar uma solução de qualquer forma. — Quando você perguntou a ele sobre o rei dos vampiros?

— Ele só falou pra eu investigar o nome escolhido pelo rei, e eu já fiz isso — explicou meu irmão. — Mas não cheguei a lugar nenhum. Babylon. Babilônia. Uma metrópole antiga da Mesopotâmia. A "porta dos deuses", numa das possíveis traduções. Há centenas de referências a esse local ao longo da História. Não consigo saber o que o rei dos vampiros tinha em mente quando adotou esse título. Não sei se ele tinha um interesse histórico, político, religioso, místico... Se eu soubesse pelo menos para onde olhar...

— A gente vai ter que colocar a mão na massa outra vez — declarou Davi, sério. — Já estamos infiltrados dentro da casa do nosso inimigo. Não dá pra gente ficar aqui de braços cruzados, esperando alguma coisa acontecer. Precisamos ir atrás dessas informações que estão faltando.

— E como você pretende fazer isso? — indagou Ben, preocupado.

— Tenho uma ideia de onde podemos começar a procurar — Davi respondeu, decidido. — Quero voltar naquela sala secreta que encontramos, no dia que o castelo foi atacado pelos lobos. Onde estavam aqueles caixões dos vampiros. Tenho certeza que deve haver mais coisas escondidas lá, a gente não teve tempo de olhar com calma daquela vez. E eu não esqueci do desenho estranho que eu vi gravado dentro de uma daquelas caixas de transporte. Podemos tirar uma foto e mandar pra você investigar, Ben. Talvez essa seja a pista que está nos faltando.

— Eu poderia dizer o quão arriscado é fazer isso, mas eu sei que você vai fazer de qualquer jeito, Davi — disse Ben, com um suspiro. — Só me resta pedir pra vocês todos tomarem muito cuidado. Se virem que não vão conseguir, desistam e voltem pra trás. Se preocupem em sair daí vivos, acima de tudo.

— A gente vai tomar cuidado, Ben, eu prometo — fiz questão de dizer. — Não vou sair do lado do Davi.

— E eu vou junto com vocês — Roman declarou. — Tenho mais familiaridade em andar pelo castelo. Vou garantir que vocês cheguem até esse lugar sem se perder.

— Me mantenham informado — pediu Benjamin. — Ficarei no aguardo dessa foto e do que mais vocês encontrarem por aí.


***


Fizemos os preparativos para deixar o quarto e nos infiltrarmos nas demais áreas do castelo. Levaríamos conosco apenas nossos aparelhos celulares, Órion e o grimório de Davi.

— Como faremos pra vocês não serem notados? — perguntou Roman. — Tá cheio de vampiros soldados fazendo ronda nos corredores do castelo.

— Eu pensei em usar outro feitiço — disse Davi. — Aquele que a Poliana usou pra esconder o Fred nas sombras, quando a gente chegou do reino dos vampiros e ainda não sabíamos que ele tinha ressuscitado. Eu pedi que a Eleonora me ensinasse como fazer, lá na pousada — continuou ele. — Mas lembrem-se que ele é bem limitado, não podemos fazer nenhum barulho, ou seremos descobertos imediatamente. E eu também não faço ideia da quantidade de tempo que eu consigo manter ele ativo... Não tenho toda a experiência da irmã da Poliana e nem pude treinar muito...

— Concentre-se em esconder vocês dois — Roman recomendou. — Eu sou um vampiro, se alguém acabar me vendo, é muito mais fácil contornar a situação. Posso dar uma desculpa e dizer que estou apenas indo fazer alguma tarefa qualquer.

— E como a gente vai sair do quarto sem ninguém perceber? — perguntei. — Tem um vampiro de vigia na nossa porta. A gente vai atacar ele?

— Acho muito arriscado — opinou Roman. — Os soldados precisam reportar sua posição de tempos em tempos. Não vai demorar até perceberem que há algo de errado com ele e virem verificar. O ideal é eles nem sonharem que vocês saíram daqui.

— Vamos ter que ir pela janela então — Davi sugeriu. — Igual o Roman fez.

— Você viu a altura que a gente está, bambi? — perguntei, assustado com a ideia. — Se a gente cair lá embaixo, já era...

— Eu posso levar vocês até o telhado, um de cada vez, nas minhas costas — propôs Roman. — A gente pode seguir por lá até onde for possível, e entrar por alguma janela quando chegarmos perto dessa sala que vocês querem investigar. Vocês sabem reconhecer esse lugar, aliás?

— Ficava num corredor que levava até o topo de uma torre — Davi lembrou. — A gente subiu a torre, saiu pela sacada e desceu num jardim, nos fundos do castelo. E de lá corremos até a muralha. A sala ficava escondida atrás de uma pintura enorme do Babylon.

— Hum, eu sei qual torre é essa que você está falando, de frente para o jardim — Roman informou. — Estamos um pouco longe dela, mas consigo guiar vocês até lá. Vocês estão prontos? Podemos ir?

Assentimos e seguimos o jovem vampiro até a janela. Ele olhou para fora, para se certificar de que a área estava livre, e me chamou, me fazendo subir em suas costas. Agarrei-me o melhor que pude e fechei os olhos, sem ter a mínima vontade de olhar para baixo. O vampiro foi ágil e escalou as paredes do castelo com facilidade, me colocando no telhado em segurança. Em instantes, ele estava de volta, dessa vez trazendo Davi.

— Agora é minha vez — disse meu namorado, concentrando sua magia e lançando o feitiço de invisibilidade sobre nós dois. — Obumbratio!

Roman seguiu na frente, mostrando o caminho, e fomos logo atrás dele, fazendo o possível para não tropeçar nas imperfeições do telhado e acabar entregando a nossa posição. Não demorou muito até vermos uma torre no horizonte, nosso destino final.

— Vamos ter que entrar no castelo novamente — disse o vampiro. — Esperem aqui. Me deixem ir na frente, pra ver se o caminho está livre e encontrar uma janela que a gente consiga atravessar.

Ficamos ali, sozinhos, em silêncio, aguardando Roman retornar. Mas os minutos foram se passando e não víamos nenhum sinal do filho caçula de Tatianna.

Será que pegaram ele? — perguntou Davi, apreensivo, por meio do laço lunar.

Vamos esperar mais um pouco. Não vamos nos desesperar. Precisamos confiar no Roman — eu disse, tentando também me convencer de que estava mesmo tudo bem.

Porém, mais de meia hora se passou e o vampiro ainda não tinha retornado.

A gente precisa continuar sozinhos — disse Davi. — Não dá pra ficar muito mais tempo aqui. Vão acabar notando a nossa ausência no quarto. E o Roman pode estar em perigo. Pode estar precisando da gente.

Vamos ir direto até a torre então, aqui mesmo, pelo telhado — eu sugeri, enxergando a construção mais adiante. — Sem o Roman, tenho medo de acabarmos nos perdendo. É melhor ir até a torre e fazer o caminho contrário, entrando pela sacada. Pelo que eu me lembro, aquela sala ficava bem no meio do corredor, entre o topo da torre e o térreo. Não vai fazer diferença se a gente chegar até lá vindo de baixo ou de cima.

Tudo bem — Davi concordou. — Vai na frente então.

Fiz como ele pedira e continuei me movimentando em direção à torre, agora cada vez mais visível. Havia um vampiro vigia na sacada, mas, graças ao feitiço de invisibilidade, conseguimos passar por ele sem sermos notados e logo estávamos do lado de dentro. Assim que nos afastamos da sacada e do vigia, Davi colocou Órion no chão do corredor e falou com ele, sussurrando.

— Vai lá, amiguinho. Mostra aquela sala escondida de novo pra gente.

A serpente de Davi não perdeu tempo e foi descendo o corredor escuro, nos mostrando exatamente aonde ir. Logo reconhecemos o enorme retrato de Babylon na parede e entendemos que havíamos finalmente chegado ao nosso destino. Antes que Davi pudesse fazer o feitiço para revelar a porta escondida ali, porém, pudemos ouvir o som de passos, num claro sinal de que alguém subia o corredor rumo ao topo da torre e logo chegaria até onde estávamos.

E agora, o que a gente faz? — eu perguntei para Davi, desesperado.

Encosta na parede e prende a respiração, rápido — ele instruiu. — Deve ser algum guarda fazendo ronda, é só não deixar ele perceber que estamos aqui.

Seja lá quem fosse que estivesse subindo o corredor, definitivamente estava apressado, pois o som de passos vinha num ritmo constante e acelerado. Será que havíamos sido descobertos e os vampiros finalmente estavam vindo em nosso encalço?

Quando a figura misteriosa apareceu no corredor, no entanto, percebi que eu conhecia o rosto na penumbra. Era Roman outra vez, com uma notável expressão de desconforto.

— Estamos aqui — disse Davi, em voz baixa, desfazendo o feitiço e revelando a nossa posição.

— Que bom que vocês estão bem — suspirou ele, aliviado. — Um guarda me viu no corredor depois que eu desci do telhado. Eu disse que estava entediado, dando uma volta pra me distrair. Ele me deu uma bronca e me acompanhou de volta até o meu quarto. Disse que eu não tinha autorização para ficar zanzando pelo castelo. Só foi embora depois que me viu entrar nos nossos aposentos — explicou ele. — Tive que esperar ele se afastar e fazer todo o caminho de volta até o telhado. Procurei vocês por lá, mas não os encontrei. Então vim verificar se vocês tinham conseguido chegar até aqui por conta própria...

— Tá tudo bem — eu o acalmei. — Chegamos aqui sem problemas. Estamos inteiros, não se preocupe.

— Aconteceu mais alguma coisa, Roman? — Davi perguntou, atento. — Você tá com uma cara de preocupado...

— Sim, aconteceu — ele confirmou, aflito. — Quando o guarda me levou até o meu alojamento, fomos por dentro do castelo, não pelo telhado, obviamente. E acabamos encontrando outros vampiros pelo caminho, nos corredores. Eu não consegui enxergar com clareza, foi tudo muito rápido, mas havia uma grande movimentação de soldados e eu tenho certeza de que eu vi o príncipe entre esses vampiros. Ele estava de cabeça baixa, cambaleando, não me parecia muito bem. E aquele vampiro estrangeiro, a nova mão esquerda do rei, tava puxando ele pelo braço, como se estivesse mostrando o caminho. Não consegui ver mais do que isso, mas fiquei me perguntando o que eles estavam fazendo com o mestre Leocaster. Por que o tiraram do quarto naquele estado. Para onde estavam levando ele. Não saí de lá com um bom pressentimento...

— Vamos terminar logo o que viemos fazer aqui — sugeri. — Quanto mais rápido voltarmos, mais rápido poderemos descobrir o que esses morcegos estão aprontando e pensar em alguma forma de ajudar o Leo. Um problema de cada vez.

Davi não perdeu mais tempo, estendendo a mão em direção ao retrato do Vampiro Rei e repetindo o encantamento para revelar a entrada secreta.

Ostende mihi!

A parede se iluminou, mostrando uma passagem oculta. Entramos sem perder mais tempo, desesperados para encontrar as respostas que tanto precisávamos. Porém, o que encontramos do outro lado foram apenas mais e mais perguntas. 


[representação aproximada do retrato de Babylon na parede, créditos: Naranbaatar]


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O que acharam do capítulo dessa semana? Ansiosos para descobrir o que nossos heróis encontraram do outro lado da parede?

Se preparem porque estamos chegando num ponto crítico da história e, daqui pra frente, é só paulada atrás de paulada!

Enquanto os novos capítulos não chegam, peço mais uma vez o voto e os comentários de vocês, por favor! Muito obrigado por acompanharem até aqui! 🖤


Próximo capítulo: A vez em que um jovem órfão adentrou uma câmara misteriosa


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