35. A vez em que uma loba dourada recepcionou uma comitiva real

As folhas das árvores se agitavam, preguiçosas, movidas pela brisa fresca da manhã, e saudavam um dia que havia acabado de nascer. Apesar do cenário bucólico, nós, por outro lado, não compartilhávamos da mesma sensação de calmaria, e já estávamos todas bem despertas e atentas a tudo o que Tatianna teria a nos ensinar.

— Vocês têm mesmo certeza de que é seguro treinar aqui? — a vampira fez questão de se certificar mais uma vez, olhando para o espaço verde e deserto ao nosso redor.

— É sim, esse bosque também faz parte da propriedade da tia do Davi, junto com a pousada — Bárbara explicou. — Praticamente ninguém entra aqui sem ser convidado.

— E eu consigo sentir que aplicaram neste lugar a mesma magia da Deusa que foi usada pra consagrar e proteger o terreno do casarão — completou Poliana. — Estamos seguras. Pelo menos por enquanto.

Eu havia decidido aceitar o convite de Tatianna para treinarmos juntas, em preparação ao inevitável confronto com os lobos da Caçada Voraz. A oferta também fora estendida aos demais moradores da pousada e, como resultado, Bárbara, Inara e Poliana haviam se juntado a nós. Por fim, o bosque aos fundos do casarão havia sido escolhido como nosso campo de treino, devido à proximidade e à privacidade que o lugar nos oferecia.

— O Fred não quis vir? — Inara inocentemente perguntou à Poliana.

— E eu vou lá saber?? — nossa colega retrucou, áspera como sempre. — Virei babá de marmanjo agora???

— Desculpa, é que vocês não se desgrudam mais desde que... Bem, desde que ele morreu e você trouxe ele de volta, por isso achei que você saberia dizer onde ele tava... — Inara ainda tentou se justificar.

— Você tá querendo insinuar alguma coisa sobre mim e o Fred, é isso?? — Poliana rebateu, ainda mais irritada. — Eu entendi direito???

— Er... Não, imagina... — Inara gaguejou. — Não precisa ficar tão brava, eu não pensei nada de mais, eu só...

— Ele não vem — interrompi, tentando acalmar os ânimos e salvar Inara de se meter em mais uma enrascada. — Como a minha mãe saiu com a Anne pra ajudar na evacuação da cidade, o Fred achou melhor ficar na pousada, vigiando, pra casa não ficar desprotegida enquanto a gente estiver aqui fora, ocupadas com o treino. A Lia, a Teresa e a Larinha também estão lá, então é melhor mesmo que elas não fiquem sozinhas, sem ninguém pra defendê-las caso algo aconteça.

— Certo, podemos começar então? — Tatianna quis saber, retomando o nosso objetivo ali. Assim que confirmamos, a vampira abriu uma sacola de tecido que ela trazia consigo. — Estendam as mãos, por favor — ela nos pediu.

Fizemos como indicado e Tatianna foi depositando flores de plástico na palma de nossas mãos, que eu logo reconheci terem vindo de um arranjo artificial que costumava ficar num dos corredores da pousada. Cada uma de nós recebeu uma flor, sem entendermos muito bem para que elas serviriam.

— A primeira parte do treinamento é bastante simples — a vampira explicou. — Vocês precisam colocar essas flores em mim. Podem prendê-las nos meus cabelos ou nas minhas roupas, tanto faz, elas apenas precisam ficar fixas sobre o meu corpo de alguma forma, sem cair no chão. Eu não vou correr, me esconder ou revidar qualquer investida. Só vou me esquivar e tentar evitar que vocês consigam fazer isso.

— Vale qualquer coisa? — Poliana quis saber, pragmática. — Eu posso usar a minha magia, por exemplo?

— Vocês podem usar qualquer habilidade que possuam, então a magia tá liberada. A Maia e a Bárbara também podem se transformar em suas formas animais caso prefiram, sem problemas. Vocês decidem.

Confesso que não era bem aquele tipo de treinamento que eu estava esperando, mas, de qualquer forma, a tarefa me pareceu divertida e eu tive vontade de tentar imediatamente. Bárbara e eu nos despimos e fizemos nossa metamorfose, enquanto Poliana e Inara concentraram energia mágica ao redor de si. Eu não fazia ideia de quais habilidades Inara tinha desenvolvido desde que fora escolhida pelos espíritos superiores como o Guerreiro Forjado na Terra, mas eu estava ansiosa para descobrir; e ela também tinha acabado de voltar de um retiro espiritual na floresta, então havia grandes chances de que nos mostrasse um pouquinho do que tinha aprendido no período em que ficou isolada.

— Podemos começar? — meu amigo perguntou à vampira, numa voz grave e mudando sua postura e expressão, enquanto uma corrente de magia natural envolvia seu corpo. Pelo visto, Araní estava de volta.

— Sim, podem vir, individualmente ou todos de uma vez, estou pronta.

Assim que ouviu aquilo, Araní foi com tudo para cima de Tatianna, optando por uma abordagem corpo a corpo, estendendo seu braço com agilidade e tentando colocar a sua flor nos cabelos dela. A guerreira morcega, porém, era capaz de movimentar sua cabeça com maestria e numa alta velocidade, que nossos olhos mal conseguiam acompanhar, fazendo com que Araní falhasse em todas as suas tentativas.

Assim que meu amigo recuou para recuperar o seu fôlego, eu e Bárbara tentamos uma abordagem diferente. Segurando as flores com as nossas bocas, eu e a pantera rodeamos Tatianna e nos revezamos em investidas com saltos, tentando derrubá-la no chão com o impacto das nossas patas dianteiras para, então, colocarmos as flores nela. Mais uma vez, porém, a vampira conseguiu desviar dos nossos avanços com extrema facilidade, praticamente sem sair do lugar, apenas dando pequenos passos de um lado para o outro e sempre prevendo como iríamos atacar em seguida, por mais que tentássemos surpreendê-la e não repetir nenhum padrão de ataque. Após finalmente nos darmos por vencidas, foi a vez de Poliana fazer a sua aproximação.

— Hunf, amadores — ela resmungou, com desdém, enquanto concentrava energia das trevas em suas mãos e fazia sua flor flutuar diante de si.

Para nossa surpresa, porém, a jovem sacerdotisa de Hécate utilizou sua magia para criar dezenas de réplicas perfeitas da flor original, sendo praticamente impossível distinguir as cópias da verdadeira.

— Poliana, acho que dá pra considerar isso como um tipo de trapaça, não? — Araní mencionou, incomodado. — Cada um de nós só recebeu uma única flor...

— A vampira disse que a gente podia usar nossas habilidades como bem entendesse, então fica quieto aí no seu canto e não me atrapalha. Você já teve a sua chance e fracassou.

— Tá tudo bem — Tatianna interferiu, fazendo um sinal de positivo com o polegar. — Pode continuar, Poliana, tô ansiosa pra descobrir o que você tem em mente.

Sem perder tempo, a garota movimentou as mãos mais uma vez e fez as flores voarem com velocidade na direção da vampira, como se fossem uma saraivada de tiros. Frustrando minha colega, entretanto, Tatianna mais uma vez desviou de todas as flores e elas foram caindo no chão, uma a uma. Quando a última flor foi evitada, Poliana voltou a falar, visivelmente frustrada.

— Isso ainda não acabou!!! — ela exclamou, decidida. — Você não perde por esperar!!!

Movendo suas mãos, Poliana fez as flores flutuarem e atacarem a vampira novamente. Nessa segunda tentativa, porém, os objetos não mais iam ao solo quando Tatianna desviava deles. Pelo contrário, as flores faziam voltas no ar, recalculavam sua rota e tornavam a perseguir seu alvo, quase como se fossem pequenos mísseis teleguiados.

Pela primeira vez naquela manhã, Tatianna precisou usar um pouco mais de suas habilidades e se mover num raio ligeiramente maior. Ainda assim, após alguns minutos se esquivando, a vampira soltou um suspiro de tédio e expandiu sua aura mágica de uma vez só, numa explosão repentina, gerando uma onda de impacto que fez todas as réplicas se desmancharem no ar, sobrando apenas a flor original, que a vampira apanhou entre seus dedos e fez virar pó em questão de segundos.

— Acho que já está bom — ela anunciou, sem se abalar, como se toda aquela demonstração de sua força fosse a coisa mais comum do mundo. O nosso grupo, enquanto isso, a encarava boquiaberto e sem reação. — Não preciso nem dizer que todos vocês fracassaram, não é mesmo? — Tatianna sorriu, por fim.

— Como se a gente tivesse alguma chance, pra começo de conversa — Poliana resmungou. — Você é uma velha caquética, já viveu mais de séculos, é óbvio que ia se sair melhor do que a gente!

Tatianna deu uma risada alta e pareceu não ter se ofendido com o comentário de Poliana.

— Você não está completamente errada, Poliana, mas eu preciso contar algo que muito provavelmente nenhum de vocês percebeu — a vampira prosseguiu, tranquila. — Eu tenho quase certeza que, dentre todos os que estão aqui agora, eu sou a mais fraca, com uma grande margem de diferença.

— Oi? — Bárbara, já de volta à sua forma humana, perguntou, confusa. — Você se esqueceu que você deu conta da gente em poucos minutos? Como assim você é a mais fraca?

— Eu não tenho nenhum talento especial além dos traços comuns à minha espécie. Em outras palavras, sou apenas uma vampira como qualquer outra — ela explicou. — Não tenho nenhum dom raro herdado ao nascer nem nenhum vínculo com qualquer deus ou entidade. Meu único trunfo é a minha vasta experiência, como a Poliana muito bem apontou. Vocês, por outro lado, formam um grupo extremamente singular. Eu acredito de verdade que não foi por acaso que vocês se encontraram e acabaram se unindo nesta jornada. Não tem como tudo isso ser apenas uma grande coincidência — continuou ela. — Sim, eu já vivi séculos, é verdade, mas nunca testemunhei um poder tão grande quanto o de vocês. E é importante que vocês tenham plena consciência disso.

— Se a gente é assim tão mais forte que você, porque não conseguimos te alcançar e colocar as flores então? — Poliana insistiu, ainda contrariada.

— Vocês têm muita força bruta, mas falta experiência — a vampira respondeu. — Vocês ainda são muito jovens, se jogam com tudo, na impulsividade, e não pensam mais adiante. Usam todas as suas cartas de uma vez só. Não criam estratégias. É tudo ou nada. É por isso que o resultado do nosso desafio não poderia ser outro. Enquanto não mudarem de mentalidade e lapidarem seus talentos, vocês continuarão perdendo para inimigos mais fracos, não importando o quanto de poder possuam.

— Faz sentido — comentei, pensativa. — Foi assim que eu me senti quando enfrentei a Lavínia. Eu sabia que eu era capaz de vencê-la, então fui com tudo o que eu tinha, mas, de repente, ela me surpreendeu com um poder da relíquia dela que eu não tava esperando e a luta acabou ali mesmo. Não consegui fazer mais nada...

— Não se cobre tanto, Maia — Araní recomendou, em tom acolhedor. — Você tá fazendo o melhor que pode... Nós somos testemunhas disso...

— E reconhecer o seu ponto fraco é uma etapa importantíssima para o sucesso em qualquer coisa que vocês decidam fazer — completou Tatianna.

— Você vai ajudar a gente a usar melhor a nossa força? — Bárbara quis saber, focada como sempre.

— Claro que sim, é por isso que estamos todos aqui — a vampira respondeu. — Mas chega de falação. Acho que está na hora de partirmos para a segunda parte do treinamento.

Ao dizer aquilo, Tatianna revirou sua bolsa mais uma vez. Agora, porém, no lugar de flores, foram pequenas tiras de tecido que saíram de lá.

— Peguem esses pedaços de pano, se distanciem uns dos outros e vendem bem os olhos de vocês — a vampira instruiu. — Bárbara e Maia, vocês podem permanecer na forma humana nessa segunda etapa.

Assentimos em silêncio e fizemos tal qual a vampira havia nos pedido, mantendo uma certa distância entre nós.

— Agora é a minha vez de atacar — Tatianna explicou. — Eu vou me aproximar do jeito mais sorrateiro possível e vou tentar colocar flores no cabelo de cada um de vocês. O objetivo, nesta nova fase, é segurar a minha mão antes que eu consiga fazer isso.

— E como é que você espera que a gente te impeça de olhos fechados? — Poliana protestou, confusa.

— Vocês têm um corpo inteiro capaz de sentir e enxergar o mundo ao redor de vocês — replicou a vampira, pacientemente. — Deixem essa magia imensa fluir como uma cascata e banhar cada célula desse corpo. Sintam essa energia envolver vocês e se expandir em direção ao ambiente ao seu redor. Se concentrem e vocês conseguirão perceber qualquer tipo de aproximação. Vocês não precisam de olhos para enxergar, nunca precisaram, lembrem-se disso. Eu vou começar a minha investida agora — ela anunciou, por fim.

Procurei me concentrar nas instruções da vampira e deixei a energia do Lobo do Sol se expandir dentro de mim. Pouco a pouco, fui acalmando meu coração e permitindo que os instintos animais da minha loba assumissem o controle, se sobrepondo à minha consciência e atuando em sincronia com a minha racionalidade. Progressivamente, meu corpo foi despertando e registrando os estímulos ao meu redor: o calor do sol, o frescor da brisa, o som dos animais do bosque e das árvores se movendo com o vento. Todas aquelas manifestações de vida se intercalavam e se combinavam em harmonia, como se fossem diferentes instrumentos de uma orquestra, afinados e conduzidos por um maestro competente.

Permaneci ali, inerte, atenta, desperta, acompanhando os movimentos daquela sinfonia natural, até que finalmente senti. Começou como algo discreto, uma corrente de vento frio, que rasgava o fluxo natural da brisa ao meu redor e se aproximava de maneira assíncrona, destoando das ondas de energia que me rodeavam harmoniosamente até então. Era isso, essa era a deixa que eu precisava, o momento certo de agir. Assim que a corrente de ar frio chegou a milímetros do meu rosto, ergui minha mão depressa e segurei o braço de Tatianna com força.

A vampira usou sua mão livre para remover a venda dos meus olhos. Assim que recuperei a visão, reparei que Tatianna estava parada bem na minha frente, sorrindo, e eu de fato tinha sido capaz de segurar o braço dela, mesmo tendo os olhos vendados. Porém, notei que a mão da vampira estava vazia e, quando toquei meus próprios cabelos, percebi que a flor já estava lá. Eu tinha me atrasado alguns milésimos de segundo e ela tinha sido mais rápida do que eu, conseguindo colocar o objeto em mim sem que eu percebesse ou pudesse impedir.

— Ei, não tem porque fazer essa cara! — ela me animou, provavelmente ao notar meu desapontamento por ter falhado mais uma vez. — Você se saiu muito bem e foi a única que conseguiu segurar o meu braço, Maia. Agora é só continuar treinando — a vampira prosseguiu, se dirigindo também ao restante do grupo, todos já sem venda e com flores em seus cabelos, indicando que, assim como eu, também haviam fracassado. — Ter iniciativa é muito importante numa batalha, mas saber analisar o cenário estrategicamente e reagir de maneira apropriada é mais importante ainda. Vocês deram um grande passo hoje, não se esqueçam disso.

Poliana estava prestes a abrir a boca e fazer mais um de seus comentários característicos quando fomos interrompidas pelo som de um aparelho celular tocando.

— Desculpa, esqueci de colocar no silencioso — disse Tatianna, tirando seu telefone do bolso e atendendo à chamada. A conversa foi breve e, assim que desligou, a vampira nos encarou com uma expressão preocupada.

— O que foi, Tati? — Bárbara quis saber, preocupada. — Tá tudo bem?

— Sim, tá tudo certo, mas precisamos voltar pra pousada imediatamente — ela revelou. — O Vampiro Rei está a caminho de Esmeraldina e me convocou. Precisamos estar todos a postos quando ele chegar.


***


Algumas horas mais tarde, todo o grupo de moradores da pousada havia se reunido, contando ainda com a presença de Anne, de Eleonora, do Pajé e da minha mãe. Após nos dividirmos em alguns carros, seguimos todos até a rodovia e estacionamos no terreno do antigo posto de combustíveis, que agora abrigava as ruínas do Lacrimosa. Pouca coisa havia sobrado em pé após o clube de Leocaster ter sido incendiado pela Caçada Voraz, e chegava a ser desolador perceber que um lugar outrora luxuoso e cheio de vida havia se reduzido a cinzas e escombros em tão pouco tempo (e, em meu íntimo, eu temia que Esmeraldina acabasse tendo o mesmo destino ao final daquela guerra).

— O que a gente veio fazer aqui, no meio do nada? — Poliana indagou, impaciente.

— Esse foi o ponto de encontro indicado pelo senhor Alphaeos, a mão direita do rei — Tatianna explicou.

— E como ele vai trazer todo o exército dele até aqui? — Inara quis saber, curiosa. — Vão usar automóveis e cavalos, como os lobos fizeram? Ou vão vir de avião?

— Nem um, nem outro — respondeu a vampira. — Em situações como essa, o rei usa o seu imenso poder para abrir um portal e trazer todos os seus súditos.

— Um vampiro consegue fazer isso? — Bárbara perguntou, impressionada. — Achei que apenas bruxos conseguissem fazer esse tipo de coisa.

— Ele não é qualquer vampiro — Tatianna apontou, séria. — Ele é o Vampiro Rei. Esse título carrega muito mais implicações do que apenas o direito de ocupar um lugar ao trono.

— E o que um Vampiro Rei tem de diferente dos demais? — Fred insistiu, curioso.

— A monarquia dos vampiros descende das linhagens mais puras e mais antigas a caminharem sobre o nosso planeta — Eleonora explicou, no lugar de Tatianna. — Além de muito poderosos, os vampiros são intelectuais e estudiosos por natureza. Graças à sua longevidade, as famílias reais dos diferentes reinos vampíricos conseguiram acumular grande conhecimento sobre as mais variadas formas de magia que existem ou já existiram neste mundo, e conseguem usar seus poderes de maneira semelhante a nós, bruxos. Às vezes, eles se tornam até mesmo melhores do que nós no uso da magia, sendo bem sincera — ela mencionou, com um sorriso amarelo. — Vampiros Reis tem um histórico de serem magos poderosíssimos e, apesar do Babylon ser um dos reis mais jovens atualmente, eu imagino que o nível mágico dele ainda assim deva ser muito elevado — a irmã de Poliana completou.

— Então, abrir um portal desse tipo não deve ser esforço nenhum para ele... — o Pajé apontou, pensativo.

— Eu não gostaria de estar no lugar daqueles lobos da Caçada Voraz, sabendo que teria que enfrentar um inimigo tão poderoso assim — completou Anne, sintetizando o pensamento que muito provavelmente ocorrera a todos os presentes ali.

— Mas porque ele escolheu aparecer justamente aqui, tão longe da cidade? — Fred indagou, confuso. — Achei que eles fossem logo de cara atacar aquela fazenda, onde a maior parte dos lobos está reunida agora... — ele mencionou, se referindo à minha antiga casa.

— Este terreno em que estamos agora pertence aos vampiros, não pertence? — mencionou Eleonora.

— Sim, o Leo falou pra gente que tinha comprado este lugar pra poder abrir o Lacrimosa — Bárbara respondeu.

— Muito provavelmente, o fato de já existir um vínculo oficial dos vampiros com estas terras deve facilitar a abertura do portal — opinou Eleonora. — Mesmo os contratos dos humanos comuns são grandes catalisadores de poder. A escolha certamente não foi por acaso...

— Gente, o que é aquilo brilhando? — Inara chamou nossa atenção, apontando o dedo em direção às ruínas do Lacrimosa.

De fato, algo reluzia um pouco além dos escombros. Assim que nos aproximamos do local, vimos uma grande esfera de energia vermelha flutuando no ar.

— Eles chegaram — Tatianna anunciou, solene.

Tal qual a vampira tinha indicado, a esfera escarlate se expandiu até se transformar num portal com pelo menos cinco metros de diâmetro e, de lá de dentro, saiu um grupo com cerca de trinta pessoas.

— Só isso? — Poliana comentou, com desdém. — Cadê o tal exército poderoso dos vampiros que eu não tô vendo?

— Essa é apenas a comitiva real — Tatianna explicou, com a mesma paciência de sempre. — Eles provavelmente vão fazer alguns preparativos antes de trazer todo mundo pra cá. Venham comigo, eles estão nos esperando.

Nosso grupo se aproximou dos indivíduos que haviam acabado de sair do portal. Assim que chegamos mais perto, porém, notei algo que fez meu coração bater mais rápido.

— Ian? Ben? — eu perguntei, ainda incrédula com o que via. Porém, assim que vi meus dois irmãos sorrirem para mim, não tive mais dúvidas e corri em direção a eles, ansiosa. Ian me encontrou no meio do caminho e me envolveu num abraço apertado e, enquanto eu o abraçava, consegui ver minha mãe se aproximando e abraçando Benjamin, tão emocionada quanto eu. Finalmente, o que restara da minha família havia se reunido outra vez.

— Davi, é você? — ouvi Inara perguntar, ao meu lado. Logo ela e Bárbara correram e abraçaram meu amigo ex-cabelo de maionese, que também tinha chegado através do portal (e eu me dei conta de que, com toda aquela mudança de visual de Davi, eu teria que encontrar um novo apelido para ele o quanto antes).

Assim que soltei Ian, abracei também Benjamin e Davi, e ficamos todos ali, apenas curtindo aquele momento de reencontro, o nosso estimado Clube da Lua enfim reunido outra vez depois de tantos meses. Por alguns instantes, foi quase como se não houvesse uma guerra prestes a acontecer e como se nós não fôssemos ter que lidar com as consequências de tudo aquilo muito em breve. Infelizmente, aquele nosso momento de alegria não durou muito e logo fomos arrastados de volta à uma dura realidade.

— Boa tarde! Peço a atenção de todos, por favor — um dos homens da comitiva disse, se aproximando de nós.

— Espera um pouco, aquele não é o advogado do Davi? — Bárbara perguntou em voz baixa, confusa, apontando para o homem que havia acabado de falar. — Eu lembro de já ter visto ele na pousada algumas vezes...

— É ele mesmo — Davi confirmou, em tom fúnebre. — Ele se chama Alphaeos e também é um vampiro, mas depois eu explico tudo pra vocês...

Assim que o silêncio se espalhou e todas as atenções se voltaram para o tal advogado vampiro, ele voltou a falar conosco.

— Agradeço ao grupo de vocês por ter respondido ao chamado do Vampiro Rei e por ter vindo ao nosso encontro — ele prosseguiu. — O Rei Babylon gostaria de se apresentar.

Logo um grupo de vampiros uniformizados que também havia saído do portal desfez sua formação e vimos duas pessoas se aproximando por detrás deles. Assim que chegaram mais perto, reconheci Leo, acompanhado de um outro vampiro mais velho e trajando vestes imponentes, que eu deduzi ser o tal rei e pai do nosso amigo morcego.

— É um prazer conhecê-los! — Babylon nos cumprimentou, com uma voz áspera e intimidadora. — Meu filho falou muito de vocês, mas finalmente tive a chance de vê-los de perto! Obrigado por terem ajudado minha súdita Tatianna a se libertar e por terem se dado ao trabalho de saírem das casas de vocês e virem aqui nos receber.

Após o Vampiro Rei dizer aquilo, Tatianna se encarregou de apresentar a ele cada um dos presentes. Imaginei que, depois de passarmos todas aquelas formalidades, Leo fosse se aproximar de mim e dos meus amigos e interagir conosco. O príncipe vampiro, porém, se manteve distante e sequer acenou para nós durante toda a rodada de apresentações, se mantendo sempre à sombra do pai, o que me pareceu muito estranho vindo dele. Quando todos já haviam sido devidamente apresentados, o Pajé finalmente fez a pergunta que mais nos preocupava.

— Quando falaremos sobre essa guerra iminente? — o pai de Inara indagou. — Tentamos negociar com o líder dos lobos pra levar essa batalha pra longe da cidade, mas não tivemos sucesso. Gostaria de saber se os vampiros estão abertos ao diálogo.

— Não tenha dúvidas — Babylon respondeu, sem pestanejar. — Isso já estava nos meus planos e teremos a oportunidade de discutir todos esses detalhes muito em breve. Eu só preciso providenciar a acomodação da minha comitiva primeiro.

— E onde vocês pretendem ficar? — Anne perguntou, inocentemente. — Não sobrou muito dessa propriedade de vocês, mas, com a cidade evacuada, acho que não teremos problema em encontrar alguma acomodação adequada...

Ao ouvir aquilo e contrariando qualquer protocolo diplomático, o pai de Leo riu ao ouvir a pergunta de Anne, sem nem ao menos tentar disfarçar.

— Não se preocupe, minha cara pantera — ele por fim respondeu, em tom condescendente. — Imagino que vocês não estejam nada familiarizados com a maneira como os vampiros atuam, mas fique tranquila, porque eu vou resolver essa questão da nossa acomodação agora mesmo. Apenas observe.

Tão logo ele disse aquilo, o tal Alphaeos se aproximou, trazendo nas mãos um cajado ornamentado, de madeira escura, quase preta, com adornos dourados, que ele respeitosamente entregou ao rei. Segurando o objeto com destreza, Babylon estendeu o cajado na direção das ruínas do Lacrimosa e recitou um encantamento numa língua que eu desconhecia. Para nossa surpresa, porém, em instantes a terra diante de nós começou a tremer e a se abrir em rachaduras e, numa demonstração assombrosa de poder, vimos um castelo monumental sair de dentro do chão e se assentar na superfície, imponente, parecendo ter vindo direto do período medieval.

— Mas o que é isso...? — o Pajé perguntou, abismado.

— Essa é a minha casa — Babylon explicou, como se aquilo não fosse nada de extraordinário. — É aqui que eu e os meus súditos vamos nos abrigar a partir de agora. 



*************************************************************

Gostaram do treinamento da Tatianna? Concordaram com a vampira quando ela disse que a Maia e seus aliados são muito mais fortes do que imaginam? 🌹

E o que falar da chegada do Vampiro Rei em Esmeraldina? Os morcegos definitivamente sabem como causar uma primeira impressão impactante, não acham? Como vocês acham que o Babylon irá agir agora? 🏰

❌ Antes de ir, alguns avisos sobre nosso cronograma de postagens ❌: neste ano, postarei mais um capítulo na semana que vem. Ele deve chegar até o dia 23/12, no máximo. Depois disso, vou sair de férias e fazer uma pausa nas postagens, para descansar e recarregar as energias. Devo voltar com capítulos novos no dia 07 de janeiro de 2022, mas aviso vocês caso aconteça algum imprevisto.

Por hoje é só! Muito obrigado pela leitura, pelos votos e pelos comentários e até semana que vem! 💖💖💖


Próximo capítulo: A vez em que um jovem lobo se viu cercado por inimigos

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top