22. A vez em que um jovem lobo atravessou a fronteira

Benjamin guiava o carro com velocidade pelas ruas de Foz do Iguaçu, com o olhar fixo na estrada à sua frente, sem dizer uma palavra sequer. Ele vinha agindo daquela forma, com cara de poucos amigos, desde que eu escapara do ataque no banheiro do posto de combustíveis e viera correndo até ele, contando o que tinha acontecido.

— Você vai mesmo continuar me ignorando? — perguntei, incomodado. — Não sei se você reparou, mas eu tô com um probleminha aqui e a sua ajuda faria muita diferença! — mencionei, encarando minhas mãos, ainda peludas e com garras de lobo.

— Tenho certeza de que você vai dar um jeito nisso sozinho — ele respondeu, seco, pisando ainda mais fundo no acelerador.

— Ei!!! Dá pra maneirar um pouco? — protestei. — Se continuar dirigindo desse jeito, igual um maluco, vai acabar chamando atenção! Daqui a pouco aparece uma viatura da polícia atrás da gente!

Sem avisos, Ben freou do nada e manobrou o carro para fora da pista, me fazendo levar um solavanco no banco do passageiro. Assim que o jipe parou por completo, meu irmão colocou as mãos por entre seus cabelos e apoiou a cabeça no volante, aparentemente exausto.

— Você tá bem? — perguntei, preocupado. — Por que não me fala logo o que tá te incomodando?

— Porque assim que eu abrir a boca, não vai ter mais como eu voltar atrás — ele respondeu, sério. — Uma palavra dita nunca pode ser apagada. Por isso que muitas vezes eu prefiro ficar calado do que dizer alguma coisa no calor do momento, que eu vá me arrepender depois.

— Você tá bravo comigo, não tá? — arrisquei. — Eu te conheço, Ben. Fala logo o que você tá pensando. Eu aguento.

— "Bravo" não é a palavra mais apropriada — ele suspirou, erguendo o rosto e encarando o teto do veículo. — Acho que "decepcionado" é o termo mais correto.

— Mas o que foi que eu fiz?? — questionei, confuso.

— Não foi algo que você fez, mas sim o que você deixou de fazer — ele retrucou. — Droga, Ian, o futuro da nossa família e da nossa alcateia tá nas nossas mãos! Nesse momento, eu só posso contar com você e com mais ninguém! E você vai e dá uma bobeira dessas??

— Eu ainda não tô te entendendo... — rebati, acuado.

— Como você se enfia num banheiro e não consegue nem prestar atenção no que tá acontecendo ao seu redor?? Como você deixa uma pessoa te surpreender por trás e te render com tanta facilidade?? Aonde você tava com a cabeça???

— Eu não sei!!! — protestei, constrangido. — Foi tudo muito rápido, quando dei por mim, ele já tinha me agarrado...

— Você precisa acordar pra vida, cara!! — ele rebateu, severo. — Eu e o papai cansamos de te treinar e você me faz um papelão desses? Um erro de principiante? Logo você, que sobreviveu ao ritual do suplício prateado e já enfrentou inimigos muito mais terríveis? Você já passou do nível de um lobo comum, Ian! Como você se atreve a quase morrer desse jeito ridículo???

Aquelas palavras foram um pouco duras demais e eu imediatamente senti meus olhos se encherem de lágrimas. E o que Ben dizia doía mais não por conta da raiva que ele estava sentindo de mim, mas por eu saber que tudo o que ele apontava em suas acusações era verdade. Eu tinha mesmo pisado na bola, e pisado feio.

— Me desculpa... — foi só o que consegui dizer. — Prometo que vou tomar mais cuidado...

— Eu tô contando com isso — respondeu ele, ainda distante. — Sabe o que me preocupa mais? — ele me perguntou, continuando logo em seguida, sem esperar que eu respondesse. — Ninguém sequer chegou perto de mim ou tentou me atacar lá no posto, enquanto eu abastecia o carro. Eles foram direto atrás de você, porque já devem ter percebido que você é a parte mais vulnerável de nós dois. O elo fraco da corrente. E eles quase conseguiram o que queriam, não foi? Eu não duvido nada de que tentem te atacar novamente, agora que viram o quão fácil foi te atingir. E se eu não estiver por perto pra te ajudar? E se você não conseguir se safar sozinho da próxima vez?

— Eu já falei que vou tomar mais cuidado!!! — protestei, irritado com aquelas reprimendas.

— Eu preciso de mais do que promessas, Ian... — Ben replicou, descrente. — Eu preciso de atitudes. Eu preciso ter certeza de que eu posso contar com você. E esse episódio do banheiro me mostrou que você ainda não tá pronto. Você pode até ter vivido experiências dramáticas e descoberto novos poderes junto com os seus amigos, mas, lá no fundo, você ainda continua sendo o mesmo garoto imaturo de seis meses atrás. Eu sinceramente não consigo ver diferença entre esse Ian que tá aqui, agora, do meu lado, e o Ian que a gente encontrou chorando no meio da floresta, apavorado, na noite em que o Rojão morreu. Vai precisar fazer bem mais do que isso se quiser mesmo salvar a todos e vingar a morte do papai.

— Eu amadureci sim!! — protestei, sem conseguir segurar as lágrimas. — Você tá sendo injusto comigo... Eu acabei de ver o meu pai ser assassinado na minha frente... Como você espera que eu fique todo equilibrado e alerta, pronto pra encarar qualquer perigo, depois de passar por algo assim?? Eu tive que abandonar tudo, minha casa, meus amigos, meu namorado... É muito difícil lidar com tudo isso!!!

— Você vem falar isso logo pra mim?? Eu também era filho do papai e passei pelo mesmo que você, caso você tenha se esquecido!!! — ele retrucou, elevando o tom de voz. — Você se separou do seu namorado?? Pois eu também deixei uma esposa e uma filha pra trás, que sequer têm poderes pra se defenderem sozinhas! Você não sabe o que é estar na minha pele, Ian. Você não faz ideia do que eu tô sentindo!

— Então me fala, ué!!! — gritei. — Eu não sou adivinho, não tem como eu descobrir o que se passa na sua cabeça se você não me falar!!!

Foi só então que eu reparei num detalhe alarmante, que tinha me passado despercebido até então. Lágrimas haviam começado a escorrer pelo rosto do meu irmão. Ben estava chorando. E aquilo era algo que eu tinha visto acontecer pouquíssimas vezes durante toda a minha vida. Benjamin sempre fora o alicerce, a razão, o ponto de equilíbrio a que todos sempre recorriam. Por isso era tão inesperado e assustador vê-lo naquele estado de vulnerabilidade.

— Eu me sinto culpado por tudo que aconteceu — ele enfim admitiu, enxugando o rosto com a manga da camisa. — Droga, eu tava dentro da Caçada Voraz, trabalhando diretamente com o Conselho dos Sete, e não consegui perceber nada do que estava acontecendo debaixo do meu nariz!!! Se eu tivesse prestado mais atenção, talvez eu pudesse ter feito alguma coisa pra impedir o Navalha... Talvez o papai ainda estivesse vivo... Mas eu não fui bom o suficiente pra isso...

— Você não tem culpa de nada, mano... — eu o consolei, comovido. — Se for pra pensar dessa forma, todo mundo é culpado então... Nenhum de nós conseguiu prever ou fazer alguma coisa pra impedir aquele desgraçado... Não tem porque você trazer essa culpa pra cima de você, isso não vai ajudar a gente em nada, pelo contrário, só vai atrapalhar... Não fica assim... Tenho certeza de que o papai não te culparia por nada do que aconteceu, seja lá onde ele estiver agora...

— Obrigado... — Ben respondeu. — E desculpa por pegar tão pesado com você. Eu tô apavorado, Ian. Eu acabei de perder uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu modelo, meu melhor amigo, meu herói. E quando eu mal me recuperei dessa pancada, eu quase perco você logo em seguida! Você tem ideia do quanto você me deixou assustado?? Eu não dou conta de perder mais ninguém, maninho. Por favor, não faz isso comigo, pelos deuses que nos protegem. Eu preciso de você, aqui, do meu lado. Sozinho eu não consigo...

— Eu sinto muito, de verdade — respondi, chorando outra vez. — Eu não fazia ideia de como você tava se sentindo, Ben. Me desculpa por te deixar preocupado, eu não tinha intenção...

— Tudo bem, já passou — ele respondeu, enxugando minhas lágrimas e tentando esboçar um sorriso. — Só toma mais cuidado daqui pra frente, ok?

— Tá bom, pode deixar — assegurei. — Mas, agora que já nos entendemos, será que dá pra gente discutir o fato de eu ter um par de mãos peludas e com garras e não fazer ideia de como me livrar delas?

— Sobre isso, eu tô tão perdido quanto você — ele admitiu. — Eu nunca vi nada assim, pra ser sincero. E não faço ideia de como resolver isso. Talvez você devesse tentar se transformar completamente em lobo e depois fazer o processo reverso, voltando à forma humana... Pode ser que suas mãos voltem ao normal junto com o resto do seu corpo...

— Não custa nada tentar — opinei. — Só precisamos encontrar um lugar seguro e reservado pra eu fazer a metamorfose.

— Vamos atravessar a fronteira primeiro, pode ser? — ele sugeriu. — Quando estivermos num território menos hostil, a gente reserva um tempo pra fazer isso. Quem sabe até lá suas mãos não voltam ao normal por conta própria?

— Por mim tudo bem — assenti. — Vamos logo dar o fora desse país então?

— Deixa isso comigo! — Ben respondeu, tornando a ligar o carro e pisando no acelerador.


***


Ao chegarmos à fiscalização aduaneira, na hora de atravessarmos para território argentino, minhas mãos ainda estavam transformadas, então as mantive escondidas embaixo do meu casaco. Os policiais revistaram o porta malas do carro muito rapidamente, completamente desinteressados em nós, e apenas nos perguntaram o motivo da viagem enquanto conferiam nossos documentos. Respondemos que estávamos viajando a turismo e eles não nos fizeram mais perguntas. Dirigimos em silêncio por mais alguns minutos após aquilo e, assim que perdemos o posto de fiscalização de vista, finalmente conseguimos respirar aliviados. A primeira parte do plano tinha dado certo. Nós tínhamos conseguido deixar o território brasileiro para trás.


***


Assim que encontramos um trecho deserto da rodovia, paramos o carro no acostamento, com a intenção de ir até um pequeno bosque que enxergamos um pouco mais adiante, para que eu pudesse me transformar. O tal bosque não começava imediatamente ao lado do acostamento, no entanto, e, para chegar até ele, seria preciso caminhar por cerca de cem metros num terreno descampado, coberto por terra cinza. Ben teve medo de acabar atolando o jipe em toda a areia que havia por ali, por isso optamos por descer do carro e ir andando até o nosso destino.

Eu e meu irmão andamos um do lado do outro, com passos largos, em silêncio, procurando chegar ao bosque o mais rápido possível, sem chamar atenção indesejada de alguém que porventura passasse por ali, na rodovia. Caminhávamos cada vez mais rápido, focados, sentindo o sol escaldante torrar nossas cabeças. Após alguns segundos, comecei a sentir os efeitos do calor.

— Que quente — resmunguei. — Esse bosque parece que não chega nunca!

Ben permaneceu em silêncio e continuou andando, de cabeça baixa.

— Você já decidiu onde vamos passar a noite? — perguntei, tentando puxar conversa. — Vamos parar em alguma cidade ou vamos nos hospedar nesses hotéis na beira da estrada?

Mais uma vez, Benjamin se manteve calado e aquilo começou a me incomodar.

— Ei, por que você tá me ignorando?? — protestei. — Achei que a gente tinha se entendido!

Só então Ben virou o rosto em minha direção e eu finalmente pude ver a expressão alarmada que ele exibia. Aquilo me colocou em estado de alerta de imediato.

— Ei, o que tá acontecendo? — sussurrei o mais discretamente que pude.

— Olha para o chão — ele respondeu, em voz baixa. — Tá vendo aquela rachadura ali no solo? Repara bem no formato dela e nas três pedrinhas posicionadas ao redor.

— Ok? — respondi, confuso, focando meu olhar no ponto que ele indicara. De fato, havia uma rachadura com umas pedrinhas do lado, tal qual ele dissera. — E agora, o que eu faço? — indaguei.

— Continue andando e olhando para o chão — ele instruiu.

Fiz como ele dissera e fiquei focado na rachadura. Logo nos aproximamos, passamos por cima dela e a deixamos para trás. Continuei em frente, olhando para baixo, e mal pude conter minha surpresa quando, cerca de dez segundos depois, vi novamente a rachadura com as pedrinhas ao redor surgir no meio do meu caminho, num ponto mais adiante.

— Mas o que é que tá acontecendo aqui? — perguntei, confuso.

— A gente não tá saindo do lugar — ele respondeu. — É como se esse trecho de chão fosse uma esteira de academia, que fica rodando debaixo dos nossos pés e permite que a gente ande, ande, ande e não saia do lugar. Tô reparando nesse chão já tem alguns minutos. A gente já passou por cima dessa mesma rachadura pelo menos umas vinte vezes.

Fiquei extremamente assustado ao ouvir aquilo. Alguém ou alguma coisa estava tentando nos segurar naquele local. E eu definitivamente tinha medo de descobrir quem era.

— Você tem alguma ideia do que seja isso? O que a gente faz agora?

— Acho que caímos numa armadilha. — Ben opinou. — Devem estar tentando nos esgotar, nos fazendo andar sem parar debaixo desse sol quente. Precisamos dar um jeito de sair desse ciclo de repetições antes que a gente perca todas as nossas energias.

— Quem será que tá por trás disso? — eu quis saber. — Será que não estão apenas tentando nos impedir de chegar no bosque? Às vezes é o território de alguma criatura mágica e botaram um feitiço pra proteger o lugar...

— Hum, talvez você esteja mesmo certo — Ben refletiu. — Vamos tentar voltar para o carro então. Se o seu palpite estiver correto, acho que não vão se incomodar caso a gente tente se afastar do bosque.

Apenas assenti e me virei na direção oposta, visualizando o jipe de Davi ao longe, no acostamento. Logo comecei a caminhar naquela direção, sendo seguido de perto por Benjamin. Porém, mal havíamos percorrido alguns poucos metros quando fomos surpreendidos por uma ventania repentina, que começou a levantar a areia cinza ao nosso redor, criando um nevoeiro e tornando cada vez mais difícil enxergar.

— Aqui, Ian! — Ben me chamou, já um pouco mais distante. — Me dê a sua mão! É melhor a gente não se largar, senão vamos acabar nos perdendo um do outro no meio dessa tempestade de areia!

— Combinado! — respondi, estendendo meu braço e segurando a mão dele com força.

Ben levantou a outra mão e a colocou na frente do rosto, tentando proteger seus olhos, e seguiu em frente, me puxando na direção onde havíamos deixado nosso carro. O vendaval ia se tornando cada vez mais intenso, e agora sequer conseguíamos enxergar o chão direito para verificar se estávamos mesmo saindo do lugar ou se continuávamos presos naquele mesmo trecho. Após mais alguns minutos avançando, levantei o rosto e tentei enxergar alguma coisa à nossa frente. E, logo depois de alguns segundos, eu finalmente a vi pela primeira vez.

— Benjamin! — eu o chamei, em voz alta. — Presta atenção à sua esquerda! Acho que tem alguém parado ali na frente!

Meu irmão virou a cabeça na direção que eu apontara e pareceu visualizar o mesmo vulto que eu. A silhueta era a de uma mulher baixa, um pouco mais encorpada e com curvas acentuadas. Ela estava ali, parada, no meio da tempestade de areia, provavelmente nos observando.

— Não sei se ela é a responsável por tudo isso ou se pelo menos sabe dizer como que a gente sai daqui — Ben mencionou. — Mas acho que não temos muita escolha a não ser tentar falar com ela...

— É, acho que você tem razão — concordei. — Vamos até lá então.

Ben assentiu e continuou guiando o caminho, me puxando pelo braço. Conforme íamos nos aproximando da mulher desconhecida, percebi que a tempestade de areia ia diminuindo de intensidade. Quando estávamos a cerca de vinte metros da estranha, já quase não havia mais vento e eu conseguia observá-la com clareza. Ela não devia ter mais do que trinta anos, branca, de cabelos lisos cortados na altura dos ombros. Tinha um olhar distante e era mais baixinha e rechonchuda do que parecera à primeira vista. Apesar da situação bastante incomum em que havíamos nos encontrado, ela não parecia ser perigosa. Pelo contrário, tinha uma aparência quase infantil. Eu estava prestes a suspirar aliviado após fazer aquela constatação, até finalmente me lembrar de olhar para o meu irmão. E quando vi a expressão de pavor estampada no rosto dele, imediatamente soube que algo não estava nada certo e talvez aquela desconhecida não fosse tão inofensiva assim.

— Ben, o que foi? — perguntei, preocupado. — Por que é que você tá com essa cara??

— Eu conheço aquela mulher — ele revelou, perplexo. — O nome dela é Enoe.

— E quem é ela, exatamente? — eu quis saber, surpreso. — De onde é que vocês se conhecem?

— A gente se conheceu no quartel general da Caçada Voraz, naquele período em que eu trabalhei pra eles — ele informou, em tom fúnebre. — Ela também é uma loba de elite. Ela é uma das integrantes do Conselho dos Sete. 


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Problemas à vista! Dessa vez não é um mero capanga, mas um integrante do Conselho dos Sete em pessoa que veio confrontar nossos lobinhos fugitivos! Será que Ian e Ben conseguirão sair inteiros de mais esse desafio? 💀

E  o que acharam dos estranhos poderes dessa loba misteriosa? Ansiosos para verem mais dela? 🐺

Antes de ir embora, quero aproveitar para compartilhar um edit do Davi e do Ian que um dos leitores do Clube da Lua me enviou e eu achei a coisa mais fofa do mundo. Segue abaixo (créditos para @Alone_w_w ):

Curtiram? Eu amei! 🥰

Antes de irem embora, não esqueçam dos votos e dos comentários de sempre! Até semana que vem! 💕💕💕


Próximo capítulo: A vez em que um jovem lobo travou uma batalha na areia

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