Capítulo extra - Parte final

A vez em que um casal apaixonado fez uma viagem


PARTE III - IAN


Já havia se passado quinze minutos desde que Davi entrara no prédio da Câmara Municipal. Estava preocupado com a demora, principalmente depois de uma viatura da polícia passar em volta do terreno, provavelmente fazendo uma ronda. Eu estava prestes a pular o muro para procurar algum jeito de chegar até ele, quando finalmente vi o familiar boné aparecendo mais uma vez pela janela aberta no segundo andar.

Suspirei aliviado enquanto observava meu namorado fazer o trajeto de volta. A descida foi bem mais tranquila, bastou agarrar um dos canos na parede e deslizar por ele. Quando Davi enfim chegou até onde eu estava, o abracei com força.

— Calma, lobo, assim você vai me matar sufocado! — ele reclamou, sorrindo.

— Você me deixou preocupado! — protestei.

— Foi mal, demorei um tempinho pra me localizar dentro daquele prédio — ele se explicou. — Pelo menos deu tudo certo.

Dizendo isso, Davi ergueu a camiseta e mostrou a bandeira colorida enrolada ao redor de sua cintura, com uma expressão de vitória no rosto.

— Acho melhor você manter isso escondido por enquanto, pelo menos até nos afastarmos daqui — eu sugeri.

Davi concordou e logo estávamos de volta à rua, caminhando apressados em direção à praça.

Ao chegarmos no local, os organizadores da parada nos olharam com curiosidade; Davi apenas retirou a preciosa bandeira de sua cintura e a entregou a eles. Não consigo nem descrever o tamanho da alegria daqueles jovens. Eles se abraçavam, gritavam e choravam, tudo por conta daquele importante objeto que tinham conseguido reaver.

Quando contei que fora meu namorado o responsável por entrar na Câmara Municipal e recuperar a bandeira, eles ergueram Davi sobre seus ombros e começaram a jogá-lo para cima, gargalhando e comemorando. Ao ver isso, o instinto de defesa do meu lobo reagiu a princípio, mas, quando notei a expressão de felicidade estampada no rosto de Davi, entendi que estava tudo bem. Ele estava se divertindo com toda aquela comoção ao seu redor. E, no fundo, eu também esperava que toda aquela celebração acabasse servindo ainda como um estímulo para a autoestima dele.

Após resolvermos o sumiço da bandeira, a parada finalmente pôde começar. E, devo admitir, acabei me divertindo muito mais do que imaginara quando Davi sugeriu aquele passeio, semanas atrás. Era algo bem simples, um pequeno trio elétrico com uma banda em cima, cantando músicas populares e abrindo caminho pelas ruas, enquanto os participantes seguiam dançando e festejando, felizes por celebrar mais um ano reunidos.

Ao chegar no ponto final, em frente à orla, um dos organizadores fez um bonito discurso, recuperando a história da travesti Zazá e reforçando a importância da luta por direitos e pela proteção das pessoas LGBTQI+. Fui invadido por um sentimento de orgulho ao me dar conta de que eu também fazia parte daquele grupo. Na verdade, sempre achei que minha identidade se resumia ao fato de ser um lobo, mas, agora, eu sabia que havia muito mais sobre mim e que também existia uma outra família incrível com a qual eu podia contar.

Após o fim do discurso, a parada terminou com um tradicional banho de mar, que rendeu momentos inesquecíveis. Muitos dos participantes pularam na água fantasiados e fizeram a maior algazarra. E eu não conseguia parar de rir enquanto jogava água em Davi ou desviava das tentativas frustradas dele de me derrubar. Quando o sol estava quase se pondo, tiramos uma foto todos juntos, em frente ao mar, antes de nos despedirmos. Aquela, sem dúvidas, seria uma recordação que eu guardaria por toda a vida.

De volta ao hotel, a primeira coisa que fizemos foi tomar banho para tirar toda aquela areia e purpurina e, depois, fomos comer, já que estávamos famintos. Ao retornar ao nosso quarto, no entanto, o cansaço tomou conta e logo caímos no sono, abraçados.


***


Acordei com a brisa fria do mar balançando as cortinas do quarto do hotel. Olhei à minha esquerda e vi Davi adormecido, em um sono profundo. Reparei no relógio na mesinha ao lado da cama, que marcava onze da noite.

"Ótimo", pensei. "Ainda tenho tempo de arrumar tudo".

Corri até a minha mochila e peguei os itens que eu cuidadosamente escolhera para aquela noite. Primeiro, algumas velas, que espalhei pelo quarto e acendi, para criar uma atmosfera mais acolhedora. Em seguida, acendi também um incenso de frutas e flores, que Inara preparara a meu pedido, especialmente para aquela ocasião. Aproveitei e deixei na mesa ao lado da cama um pequeno cesto, com alguns itens que eu julgara que seriam necessários, de forma que pudéssemos alcançá-los facilmente quando chegasse a hora.

Estava tudo pronto. Antes de acordar Davi, porém, corri até o banheiro e escovei os dentes mais uma vez. Agora sim, tudo perfeito.

Aproximei-me vagarosamente do garoto adormecido na cama e o observei com atenção. A simples visão do rosto de Davi fazia meu lobo se contorcer dentro de mim, com um sentimento de urgência em tê-lo em meus braços. Mas eu tinha outros planos. Naquela noite, nada seria apressado.

Toquei o rosto de Davi delicadamente. Não pude deixar de reparar nos dois calombos marcados em sua testa e, antes que eu pudesse pensar, já estava tocando-os, com cuidado, como se eles estivessem me atraindo. Pude sentir as familiares faíscas ao pressionar o local, mas, para minha surpresa, Davi começou a se contorcer conforme eu o acariciava. A princípio, acreditei que ele estivesse sentindo dor, mas, ao observar com mais atenção, notei que ele parecia estar gostando daquele toque.

"Parece que achei um novo ponto fraco", concluí, satisfeito.

Continuei a massagear as marcas dos chifres do cernuno e notei a respiração de Davi acelerando cada vez mais. Logo o garoto começou a soltar alguns gemidos tímidos e aquilo foi demais para eu resistir. Deitei-me sobre ele cuidadosamente e segurei seu rosto entre minhas mãos. Beijei os lábios de Davi com suavidade e fiquei o observando enquanto ele despertava.

— Oi... — ele murmurou, ainda sonolento. — O que você tá aprontando, lobo?

Eu não disse nada e apenas pressionei a região dos chifres com a ponta dos meus dedos mais uma vez. O resultado foi mais intenso do que eu havia imaginado; agora que estava desperto, Davi se contorceu ainda mais debaixo do meu corpo, excitado, pressionando seu quadril contra o meu e cravando suas unhas em minhas costas.

— Não sabia que você era tão sensível — eu provoquei, sorrindo. Davi apenas desviou o olhar, com o rosto vermelho, visivelmente envergonhado.

— Você está sendo um lobo muito malvado — ele finalmente disse.

— E eu estou só começando.

Antes que Davi pudesse me impedir, estendi minha língua e lambi lentamente a região de um de seus chifres. A reação do garoto debaixo de mim foi ainda mais intensa e eu pude ouvir um gemido alto. Davi imediatamente levou as mãos à boca, assustado com o som que deixara escapar sem perceber. Eu apenas retirei as mãos dele da boca e as prendi com as minhas, sobre sua cabeça.

— Nada de tapar a boca — sussurrei em seu ouvido. — Eu quero ouvir cada um dos seus gemidos essa noite.

Voltei a dar atenção aos lábios de Davi e os beijei com intensidade, invadindo sua boca e explorando todo aquele espaço. Continuava a pressionar meu corpo contra o dele e sentia ele retribuindo meus movimentos, seu volume enrijecido se chocando contra o meu. Quando finalmente nos separamos, passei a sentir calor.

— Muita roupa — reclamei, começando imediatamente a despir o corpo do meu namorado. Davi não protestou, então tirei primeiro sua camiseta, aproveitando para cobrir de beijos a pele de seu peito e de sua barriga, e depois tirei sua bermuda, deixando-o apenas de cueca. Por fim, livrei-me também de minhas próprias roupas e me deitei mais uma vez sobre ele.

Voltei a acariciar e beijar Davi, que se entregava completamente aos meus toques. Porém, eu ainda tinha alguns assuntos a acertar com meu namorado e decidi apimentar um pouco mais as coisas entre nós. Mordi o lóbulo da orelha de Davi suavemente e fiz menção a beijar seu pescoço, deixando meus lábios bem próximos de sua pele, apenas o suficiente para ele sentir minha respiração, porém sem tocá-la. Davi chegou a inclinar a cabeça para o lado, me dando passagem, mas continuei imóvel, apenas o observando.

— O que foi? — ele reclamou, impaciente. — Por que você parou?

Apenas dei um risinho debochado e respondi.

— Não sei, apenas me lembrei de um garoto que estava muito atrevido e respondão hoje pela manhã. Não sei se ele anda merecendo toda essa atenção...

Davi imediatamente fez bico e me olhou com cara de pidão.

— Para de ser malvado comigo! — ele protestou.

— Ué, eu pensei que seria o Bambi que caçaria o lobo, não foi isso que você me disse? Já desistiu?

Davi se pendurou no meu pescoço e tentou unir seus lábios aos meus à força, mas eu me afastei.

— Nada disso — insisti, dando risada. — Não posso deixar um garoto malcriado sem castigo. Ele pode ficar mal-acostumado e repetir esse comportamento terrível!

Davi cruzou os braços e me encarou, com descrença.

— É sério isso? O que vou ter que fazer pra ganhar um mísero beijo do meu namorado?

— As regras são simples, Davizinho. É só pedir "por favor" e eu faço tudo o que você quiser.

A expressão de Davi se tornou furiosa em segundos.

— Só se for nos seus sonhos — ele retrucou, atirando uma almofada na minha cara e virando de costas, emburrado.

Eu estava me segurando para não cair na gargalhada, mas precisava manter meu papel um pouco mais. Aproveitei que Davi estava de costas para mim e passei meu braço por baixo do braço dele, o abraçando por trás. Encaixei meu corpo contra o dele, posicionei minha boca próxima à sua nuca e comecei a acariciar seu mamilo com uma de minhas mãos, enquanto esfregava minha barba com cuidado contra sua pele. Senti Davi se arrepiando com o meu toque e se contorcendo, empurrando seu corpo contra o meu mais uma vez. Porém, sem avisos, apenas parei de repente e me afastei. Davi me encarou, indignado.

— Ian, páraaaaa!!!!

— Já estou parado — respondi, rindo.

— Não foi isso que eu quis dizer... — ele resmungou.

— É só pedir por favor — expliquei, me aproximando de seu ouvido. — Quero ouvir você implorando por mim essa noite, Davi — disse baixinho, fazendo-o se arrepiar.

— Me recuso — ele retrucou, tapando o rosto com o travesseiro. Ele podia até disfarçar, mas eu conseguia sentir por meio do laço lunar o quanto eu o havia deixado excitado.

Aproveitei daquele momento de vulnerabilidade, em que Davi estava com os olhos cobertos com o travesseiro, e me dirigi até sua cueca. Ele estremeceu com o meu toque, mas não me impediu. Retirei a peça com cuidado e comecei a estimulá-lo em suas partes íntimas. Davi continuava se contorcendo e soltando leves gemidos. Aproximei minha boca de seu membro e o lambi com a ponta da minha língua, da base até o topo. Percebi Davi revirando a cabeça para trás e cravando os dedos no colchão. Apenas continuei parado onde estava, o observando. Depois de alguns instantes em silêncio, ele me encarou, agoniado.

— Sério que você vai me deixar nesse estado e não vai fazer nada?

— Você sabe o que precisa dizer... — respondi, com malícia.

Davi ponderou por alguns segundos e, contrariado e desviando o olhar, falou bem baixinho.

— Por favor, Ian...

— Não escutei nada — insisti.

— POR FAVOR, IAN! — ele gritou, irritado. — Satisfeito?

— Bem melhor — concordei, rindo. — Mas você ainda precisa me dizer o que quer que eu faça.

Davi ficou vermelho e escondeu a cabeça com o travesseiro mais uma vez.

— Pode continuar isso aí que você tava fazendo — ele finalmente sugeriu, envergonhado.

— Isso? — perguntei, lambendo seu membro mais uma vez.

— Sim, por favor... — ele respondeu aflito, totalmente entregue aos meus toques.

Procurei repetir em Davi o mesmo que ele fizera comigo no banheiro, pela manhã. Aquilo havia sido extremamente prazeroso e queria que ele se sentisse da mesma forma que eu me sentira. Não sei se estava me saindo tão bem quanto ele, afinal, aquela era a minha primeira vez fazendo tal coisa, mas ele aparentava estar gostando. Quando senti que Davi estava perto do clímax, no entanto, parei o que estava fazendo e me deitei ao lado dele, que me olhou em confusão.

— Ainda não — eu expliquei, antes que ele começasse a protestar mais uma vez.

Davi me encarou pensativo e começou a passar a mão pela minha pele, acariciando com as pontas dos dedos o meu corpo nu, até chegar ao meu membro rígido. Ele o segurou em suas mãos, mas parecia distante, perdido em seus pensamentos.

— O que foi, rapazinho? — perguntei, curioso.

— O seu é bem maior que o meu... — ele finalmente disse, um pouco envergonhado.

— Não faz a mínima diferença pra mim — fiz questão de assegurar. — Você é perfeito do jeito que é, da cabeça aos pés, já disse e não me canso de repetir.

Davi deu um breve sorriso, mas continuou pensativo.

— Ei — eu sussurrei, chegando mais perto dele — Não tem problema, sério! Não fica pensando nisso!

— Eu tô pensando em outra coisa, na verdade — ele admitiu.

— Então me conta o que é — perguntei, curioso.

— O seu é muito grande e não sei se vou dar conta quando a hora chegar... Você sabe... Nunca fiz isso. Não queria sentir dor... — ele confessou e escondeu o rosto no travesseiro outra vez.

Finalmente eu entendia qual era o motivo da crise. Mas estava decidido a fazer daquela noite um momento perfeito, que só rendesse boas memórias. Então, fiz questão de tranquilizá-lo.

— A gente não precisa fazer nada que você não queira, não se preocupe — comecei. — E quem é que disse que precisa ser eu? A gente pode fazer o contrário, não pode?

Davi me observou espantado, como se a ideia de inverter os papeis nem sequer tivesse passado pela cabeça dele.

— Sério mesmo? É que seu lobo é todo dominador e possessivo, acabei presumindo que, quando a hora chegasse, as coisas seriam dessa forma... ­— ele explicou.

— Acho que, entre quatro paredes, não existem regras, não é mesmo? — sugeri. — A gente pode fazer de todas as formas, sempre que der vontade. O que importa é nós dois estarmos aproveitando. O que você acha?

Davi apenas me abraçou, aliviado. Meu lobo pulou de alegria dentro do meu peito, afinal, ele sabia que estava cada vez mais perto o momento de nos unirmos fisicamente com nosso amado. Peguei o cesto com camisinhas e lubrificante, que eu já havia deixado separado, e coloquei sobre a cama.

Deitei-me de barriga para cima e trouxe Davi sobre mim, abraçando-o e beijando-o com intensidade. Quando julgou que estava na hora de darmos o próximo passo, ele foi bastante cuidadoso e tudo acabou ocorrendo de uma maneira bem mais tranquila do que eu havia previsto. Logo pude senti-lo inteiro dentro de mim e meu corpo pulsou em êxtase com aquele novo tipo de ligação. Conforme Davi se movimentava, aumentando o ritmo aos poucos, a energia do laço lunar irradiava e nossos corpos se mesclavam numa infinidade de sensações prazerosas, como se naquele momento fôssemos apenas um.

Quando estava perto do clímax, Davi começou a massagear meu membro, para que pudéssemos chegar ao ápice juntos. Sem que pudesse controlar, senti meus caninos de lobo aparecerem, muito provavelmente devido à situação de entrega em que nos encontrávamos naquele instante. Davi percebeu e, quando o momento chegou, me abraçou com força, deitando-se sobre mim e deixando a passagem livre para o seu pescoço, enquanto continuava a se mover, agora numa velocidade maior. Cravei meus caninos em sua carne e, assim que o mordi, pude sentir nossos membros jorrando e liberando toda aquela excitação que havíamos acumulado, nosso orgasmo acontecendo simultaneamente.

Permanecemos abraçados por alguns minutos, até que Davi tombou para o lado, se retirando de dentro de mim com cuidado, removendo a camisinha e a descartando na lixeira próxima à cama. Quando se deitou novamente sobre meu peito, finalmente conseguiu dizer alguma coisa, ainda um pouco ofegante.

— Isso foi incrível, Ian...

— Foi mesmo — concordei, com um sorriso estampado no rosto.

— A gente precisa fazer isso mais vezes — ele declarou, animado.

— Já estou pronto pra outra — respondi, provocando.

— Seu lobo pervertido! — ele retrucou, me dando um soco de leve.

— É você que faz isso comigo — admiti, unindo meus lábios aos dele mais uma vez e torcendo para que aquela noite ainda demorasse muito a acabar. Mais do que isso; mal podia esperar para que inúmeras outras viagens e noites como aquela viessem, sempre com aquele garoto tão precioso ao meu lado, que adicionava uma nova cor ao meu mundo e fazia tudo nessa vida valer a pena. 


FIM


***

Não deixem de votar e comentar, por favor! Espero que tenham gostado! Até ano que vem! <3

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