2. A vez em que um jovem órfão recebeu uma péssima notícia
Quando peguei meu telefone das mãos daquele garoto, nossos dedos se tocaram rapidamente e senti uma forte corrente elétrica passando pelos nossos corpos. Foi tão intenso que foi o suficiente para me deixar totalmente arrepiado. Afastamos as mãos instintivamente e, pela cara de surpresa, ele também havia sentido o mesmo choque que eu.
O menino, curioso com o ocorrido, me olhou fixamente por alguns segundos. Reparei mais uma vez em seus incomuns olhos dourados, quase do mesmo tom que seus cabelos. Ele também permaneceu me encarando, como se estivesse me examinando com um raio-X, mas, após alguns constrangedores segundos em silêncio, finalmente voltou a si e sorriu, como se nada de estranho tivesse acontecido.
— Novo por aqui?
— Sim, acabei de cair lá de Marte — brinquei, mostrando as palmas das mãos, sujas graças à minha desastrosa queda.
O menino riu sem pudor da minha cara, me fazendo ficar sem graça outra vez.
— Eu sou o Ian, prazer — cumprimentou-me ele, estendendo a mão e mantendo o sorriso estampado no rosto.
— E eu sou o Davi — me apresentei, retribuindo o cumprimento depois de limpar a sujeira da minha mão o melhor que pude.
Dessa vez, não houve choque, mas pude sentir brevemente o quão quente era a pele daquele garoto, principalmente para alguém que tinha acabado de sair da água. O aperto de mão não durou muito, porém, já que logo fomos interrompidos.
— Ei, canela de seriema, tô indo pegar o carro, te espero na frente do colégio — avisou, ao passar por nós, a menina que eu vira na piscina minutos atrás.
— Certo, vou trocar de roupa e já te encontro — Ian respondeu a ela, despreocupado. Só então reparei como os dois eram estranhamente parecidos.
— Somos irmãos gêmeos — ele informou, voltando a olhar para mim, como se tivesse adivinhado o que eu estivera pensando segundos antes. — O nome dela é Maia, aliás.
— Ah, agora tudo faz sentido... — respondi.
— Ei querido, você se machucou?
Sem que eu sequer percebesse, tia Laura já estava do meu lado, atraída por toda a confusão que eu causara com o meu tombo.
— Não tia, foi só uma quedinha, tá tudo bem... — respondi, sem jeito.
— Então você é sobrinho da dona Laura? — Ian quis saber, surpreso.
— Sim, eu sou — confirmei. — Vou morar com ela a partir de agora e estudar aqui, nessa escola...
— Sua tia e a pousada dela são bem famosas na cidade — comentou Ian. — Ela faz as melhores festas temáticas de Esmeraldina!
Olhei para tia Laura confuso, já que eu não fazia a mínima ideia do que Ian estava falando. Ela, no entanto, manteve o mistério e não comentou nada a respeito.
— Acho bom irmos logo pra casa, Davi. Ainda temos muito a conversar e você deve estar cansado da viagem — ela sugeriu. — E você, Ian, apareça por lá quando quiser, o Davi está mesmo precisando de novos amigos. Quem sabe você não apresenta a cidade pra ele quando tiver um tempo?
Fiquei sem reação ao ouvir o convite inesperado de minha tia e só consegui ficar vermelho mais uma vez.
— Conte comigo! — respondeu Ian, sem fazer cerimônias, acenando para nós em despedida e desaparecendo rumo ao vestiário logo depois.
Retribuí o aceno e segui tia Laura em direção à saída do ginásio. Quando eu estava prestes a atravessar o portão, porém, alguém me segurou pelo braço. Era Poliana, que, pela expressão em seu rosto, não parecia nada feliz.
— Eu vou te avisar uma única vez, novato, então marque bem minhas palavras — ela declarou em voz baixa, como se não quisesse chamar a atenção dos demais alunos ao nosso redor. — Fica longe do Ian. Você e ele são de mundos completamente diferentes. Uma amizade entre vocês nunca vai dar certo. E eu já investi tempo demais pra fazer as coisas rolarem entre mim e ele. Não precisamos de mais uma distração em nosso caminho. Então, não se meta comigo, que eu não me meto com você.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Poliana deu as costas e saiu apressada, indo na mesma direção por onde Ian havia seguido minutos antes. Pelo visto, eu não seria capaz de viver uma vida repleta de clichês sem ser ao menos importunado pela ameaça de uma vilã caricata, ou sem disputar com ela a atenção de um príncipe encantado, não é mesmo? Porém, não custava nada ficar longe da garota ruiva; o pouco tempo que passei na companhia dela foi o suficiente para me fazer entender que Poliana não era alguém que desistia fácil de seus objetivos, ou com quem eu devesse comprar briga.
***
O antigo e charmoso sobrado onde tia Laura morava estava praticamente igual, apenas com uma camada de tinta mais recente e uma placa que eu ainda não havia visto, dizendo "Pousada Esmeralda". Conforme minha tia havia me explicado no caminho de volta do colégio, passado o período de luto após a morte de tio Pedro, ela reformou a casa e começou a alugar quartos para turistas, que vinham conhecer as belezas naturais dos arredores da cidade. Foi a maneira que ela encontrou para lidar com a solidão, já que não tinha filhos e passara boa parte de sua vida tendo meu tio como seu único e fiel companheiro.
Agora, um dos quartos daquela pousada seria meu – pelo menos, era o que eu pensava. Tão logo entramos, tia Laura foi me guiando para uma parte aos fundos da casa, que estava um pouco diferente do que eu recordava. Chegamos ao fim de um corredor, onde ficava uma longa escada circular, que levava até o sótão. Minha cara de confusão deve ter ficado bastante evidente, mas ela apenas sorriu e se apressou em me acalmar.
— Sobe, dá uma olhada.
A escada em caracol era um pouco estreita e acabava em frente a uma porta de madeira. Ao abrir, não pude conter minha surpresa. Todo o espaço do antigo sótão havia sido reformado e se transformado num aconchegante apartamento. Não havia paredes dividindo o espaço, mas, num rápido passar de olhos, pude ver que havia ali o essencial de uma casa: uma cama de casal, armários, uma escrivaninha, estante para livros, um sofá, uma TV e até mesmo uma pequena cozinha, com fogão e geladeira. No canto mais distante da porta, havia um cômodo separado que, mais tarde, descobri ser o banheiro.
— Gostou? — ela perguntou, tentando conter a empolgação. — Eu conversei bastante com o Alfredo antes de você vir pra cá, queríamos garantir o seu conforto e ele me ajudou a reformar esse espaço pra você.
Agora as coisas faziam mais sentido.
— Não queria você misturado com essa confusão de hóspedes da pousada. Agora que você está aqui, Davi, quero que tenha um espaço só seu, pra estudar e ter sua privacidade — continuou ela, orgulhosa de seu feito.
Eu admito que estava preparado para ficar num quarto qualquer, sem grandes luxos. Jamais imaginei que minha tia se daria a todo aquele trabalho para preparar um lugar para mim, um parente que tinha vindo para lhe dar trabalho e alguém com quem ela mal tinha mantido contato nos últimos anos. Sim, no fundo eu estava esperando uma madrasta da Cinderela, para condizer mais com o clichê em que minha vida havia se transformado. Felizmente, eu tinha encontrado uma fada madrinha em vez disso.
— Querido, fala alguma coisa... Você não gostou? — perguntou tia Laura, apreensiva, me fazendo perceber que eu tinha me perdido em meus pensamentos e ignorado suas perguntas. Quando enfim olhei para ela, todas as emoções que eu havia segurado nos últimos meses vieram à tona. Não resisti e deixei algumas lágrimas escaparem, enquanto a abraçava apertado.
— Obrigado, tia. Isso é muito mais do que eu poderia imaginar. Você é incrível.
Depois de eu lavar o rosto no meu novíssimo banheiro, tia Laura me explicou o funcionamento de todos os aparelhos do apartamento. Para a alegria do meu nerd interior, havia internet, TV à cabo e ar condicionado. Nas duas extremidades do sótão, havia janelas amplas, que me deixavam ver a rua, na frente da pousada, e o pequeno bosque no terreno aos fundos, também de propriedade da minha tia.
Sobre minha cama, no teto, ficava uma claraboia de vidro transparente, que me permitia observar o céu de Esmeraldina, já iluminado por estrelas naquele horário. Aos pés da escada que levava até o meu quarto, havia uma porta, que dava para os fundos da pousada. Tia Laura me entregou uma cópia da chave.
— Assim você pode entrar e sair de casa sem passar pela ala de hóspedes, então não precisa se preocupar com horário ou barulho — explicou ela. — E quando fizer amigos, poderá recebê-los com mais privacidade — completou, com um sorriso atrevido, fazendo minha ficha cair e eu finalmente entender de que tipo de "amigos" ela estava falando.
Após mostrar todos os detalhes do espaço e me fazer jantar em sua companhia, tia Laura me deixou sozinho. Depois que ela se foi, fechei a porta do sótão e me tranquei no banheiro. Liguei o chuveiro quente e deixei a água cair sobre meu corpo, enquanto me perdia em meus pensamentos. Até agora, estava tudo muito melhor do que o esperado. Seria aqui, em Esmeraldina, tão longe da capital e da minha antiga vida, que eu finalmente conseguiria ter um pouco de paz?
Deitei-me na cama e fiquei olhando aquele céu estrelado pela claraboia, caindo no sono pouco depois. Apesar de estar bastante cansado, acordei algumas vezes durante a noite, ouvindo uivos ao longe. Acho que levaria um tempinho até me acostumar com essa nova vida em meio à natureza.
***
Fui despertado logo cedo por batidas insistentes na porta do sótão. Era tia Laura, que pediu que eu me aprontasse e descesse para tomar café o quanto antes, já que receberíamos naquela manhã a visita de Alfredo, o advogado da minha família. Eu não esperava reencontrá-lo tão cedo, mas imaginei que deveriam existir mais detalhes sobre a minha documentação que ainda precisavam ser discutidos.
Eram por volta das nove horas quando Alfredo chegou. Tia Laura nos acomodou no escritório da pousada, para que pudéssemos ouvir o que ele tinha a nos dizer sem sermos interrompidos.
— Como está, Davi? — o advogado perguntou ao me ver. — Gostou do quarto que sua tia preparou para você?
— Gostei sim, ficou maravilhoso — respondi. — E você, está bem? Não tava esperando te ver por aqui tão cedo...
Alfredo coçou a cabeça, um pouco desconcertado, e só então reparei que ele parecia tenso. Imediatamente passei a me preocupar com o real motivo daquela visita.
— A gente precisa discutir alguns detalhes do testamento dos seus pais, Davi — ele finalmente revelou. — A sua tia já sabe do que eu estou falando, mas achamos melhor esperar você se acomodar primeiro antes de explicar tudo pra você...
— Eu fui deserdado? — foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Do jeito que uma maré de azar tinha invadido minha vida nos últimos meses, não me surpreenderia nada se fosse aquele o caso.
— Não, não, você continua sendo o principal beneficiário dos bens de seus pais. Só que há alguns detalhes burocráticos que precisam ser observados...
— O quê, exatamente? — eu quis saber, ansioso com o rumo da conversa.
— A maior parte do dinheiro da sua família está vinculado ao grupo empresarial que seu pai administrava. A única forma de assumir o controle desses recursos é assumindo, também, a empresa. Ela foi destinada inteiramente a você, não se preocupe — Alfredo se apressou em me tranquilizar. — Mas eu acredito que seu pai não imaginava que o testamento seria aberto tão cedo e acabou criando uma lista de condições que precisam ser observadas para que você possa finalmente receber sua herança.
— Bem, você já havia me dito que eu teria que esperar minha maioridade — comentei. — Mas eu faço dezoito no fim desse ano, não vai demorar tanto assim...
De fato, até aquele momento, meus planos eram simplesmente concluir o ensino médio e aguardar a chegada dos meus dezoito anos. Depois do meu aniversário, poderia assumir minha herança, me mudar para onde achasse melhor e fazer o que quisesse da minha vida, sem me preocupar em dar trabalho para minha tia ou qualquer outra pessoa.
— Tem mais uma condição além da maioridade, Davi — Alfredo revelou. — Seu pai deixou destacado explicitamente que você precisaria concluir o ensino superior antes de assumir a empresa. E não pode ser qualquer curso. Tem que ser uma faculdade que o auxilie na condução dos negócios: administração de empresas, ciências contábeis, marketing, ou algo do tipo. Eu tenho comigo uma relação dos cursos que são aceitos para cumprir essa condição do testamento...
É claro que meu pai tinha feito aquilo. Era incrível como, mesmo depois da morte, ele tinha dado um jeito de me amarrar e tentar me conduzir rumo aos caminhos que ele julgava serem os mais adequados para mim, mesmo que fosse contra a minha vontade. A verdade é que nós não tivemos a melhor das relações nos últimos anos. Tudo começou quando eu tinha por volta de doze anos e beijei um colega que viera até minha casa para fazer um trabalho escolar. Nós fomos flagrados em meio ao ato e eu aproveitei a oportunidade para admitir para meus pais algo que eu sempre soubera ao meu respeito, desde muito cedo: eu gostava de meninos.
É claro que a novidade não foi nem um pouco bem recebida. Embora minha mãe tenha sido bastante compreensiva, meu pai se recusou a aceitar e tentou fazer com que eu mudasse de qualquer jeito uma coisa sobre a qual eu não tinha controle. Como resposta, eu me rebelei e nosso relacionamento foi uma montanha-russa desde então. Para ser honesto, ainda não havia me conformado com o fato de ele ter morrido sem que tivéssemos a chance de resolver nossas diferenças e ter uma relação saudável entre pai e filho. Infelizmente, agora era um pouco tarde demais para aquilo acontecer.
— Não há como recorrer disso? — perguntei, aflito. — Não tem nenhuma forma de burlar esse testamento?
— Poderíamos tentar, mas, conhecendo a justiça do nosso país, um caso como esse provavelmente se arrastaria durante anos nos tribunais... — argumentou Alfredo. — Talvez esse tempo fosse melhor empregado fazendo uma faculdade e atendendo a esses requisitos todos logo de uma vez...
— Mas não é isso que eu quero pra minha vida! — retruquei, inconformado. — Não planejo passar o resto dos meus anos usando terno e gravata, trancado num escritório!
— Ninguém disse que você precisa seguir essa profissão para sempre — o advogado me acalmou. — Depois que você assumir a herança, pode contratar outras pessoas para conduzir as empresas e fazer o que tiver vontade.
— Veja, querido — interrompeu tia Laura. — Nós já preparamos aquele quarto no sótão pensando nisso. Pra que você tivesse um lugar para morar enquanto fizesse sua faculdade. Esmeraldina também é uma cidade universitária. Tem universidades federais e estaduais por aqui. Basta escolher uma delas e ser aprovado. Se você se empenhar, não vai levar mais do que cinco anos até você resolver tudo isso. Passa rápido...
— E se eu me recusar? — questionei. — E se eu não fizer nada do que esse testamento absurdo está pedindo?
— Eu não recomendaria isso — respondeu Alfredo, com cautela. — Caso você não cumpra as condições, você não terá direito a nenhum centavo dos bens deixados por seus pais. Em outras palavras, você terá que recomeçar sua vida sozinho, Davi. Sem dinheiro, sem casa, sem emprego, sem nada.
Então era isso. Eu estava encurralado. E, pelo visto, não me restavam alternativas a não ser me tornar uma marionete dos desejos egoístas do meu falecido pai.
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E nem tudo são flores na vida do nosso "pobre" protagonista! Vocês também já passaram por uma situação parecida, em que tiveram grandes desentendimentos com algum membro da família de vocês? Aguardo os comentários!
Antes de ir, não esqueça de deixar o seu voto, como de costume! Obrigado! 💜
Próximo capítulo: A vez em que um jovem órfão tomou uma atitude inesperada
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