11. A vez em que um jovem lobo fez uma assustadora descoberta sobre si mesmo
No carro, voltando para casa, não conseguia me concentrar em nada do que minha irmã dizia. Ela estava ao volante e comentava empolgada as novidades que os colegas do time haviam contado. No entanto, com a cabeça encostada na janela ao meu lado, eu estava perdido em meus pensamentos.
— Ei, você tá prestando atenção, cabeça de mamão? — protestou ela.
— Desculpa, eu tava distraído — foi só o que consegui responder.
Maia me conhecia melhor do que ninguém. Além disso, não vamos nos esquecer que, debaixo daquela carinha dócil, havia um Lobo do Sol. Logo, não era nada difícil para ela perceber que havia algo de errado comigo.
— Desembucha — foi só o que ela me disse, enquanto continuava com o olhar fixo na estrada à nossa frente.
— Não sei por onde começar...
— Comece pelo começo — ela respondeu. — Depois, continue até o meio e, quando chegar no final, pare.
Não pude deixar de sorrir ao ouvi-la citar Alice no país das maravilhas, um de nossos livros favoritos de quando éramos crianças. Mas, assim como Alice diante do júri da Rainha de Copas, eu sabia que não tinha como esconder nada da minha irmã por muito tempo. Por isso, resolvi abrir logo o jogo.
— Tem algumas coisas estranhas acontecendo comigo.
— Seja mais específico, por favor — protestou ela, revirando os olhos.
Maia já sabia que, até a noite do meu aniversário, eu vinha tendo dificuldades em me conectar com minha contraparte animal. Também havia contado para ela que, por momentos, eu quase havia desistido do ritual de iniciação. Então, como ela já estava bem familiarizada com todo aquele meu drama de "menino-lobo que não talvez não fosse tão lobo assim", fui direto ao ponto.
— Acho que meu lobo tá com defeito.
Maia não conseguiu conter o riso.
— Desculpa dar risada, maninho, mas, como assim com defeito? — quis saber ela. — Você sabe que não é assim que as coisas funcionam!
— Não sei! Não sei! — retruquei. — Parece que ultimamente eu ando todo errado...
— Calma — ela pediu, pacientemente. — Me conta exatamente o que aconteceu.
Repeti, enfim, tudo o que havia acontecido na piscina, até o momento em que conheci Davi. Enquanto ia descrevendo todas as sensações, reparei numa mudança no olhar de Maia. Ela ficou repentinamente mais séria e focada na estrada. Eu conhecia aquela expressão e sabia muito bem o que ela significava: problemas.
— Vamos lá, Ian — ela comentou, finalmente, depois de respirar fundo. Notei que Maia havia me chamado pelo meu primeiro nome em vez de um dos inúmeros apelidos que ela costumava usar comigo, o que deixava o tom daquela conversa ainda mais preocupante.
— Eu sei que você ficou bastante estressado com toda essa coisa da sua transformação — começou ela — mas parece que você ainda não entendeu direito alguns detalhes desse processo.
Continuei em silêncio, ouvindo com atenção.
— Eu sei que é muito comum ouvir o pessoal da alcateia falar em "se conectar com nosso lobo", ou "ouvir nosso lobo interior" e coisas assim, mas parece que você tá levando tudo isso muito ao pé da letra...
— Como assim? — perguntei, confuso.
— Sim, de fato, a gente tem mesmo um lado animal dentro de nós — ela prosseguiu. — Mas, independentemente de qualquer coisa, esse outro lado ainda é você. Não é como se tivesse um espírito estranho dentro do seu corpo que você precisasse domar, ou conquistar, pelo contrário... O seu lobo é uma parte sua, da sua personalidade e que, no seu caso, parece que você ainda não conhece muito bem.
Permaneci em silêncio, mas começava a entender o que ela estava tentando dizer.
— Então, não existe isso de "lobo com defeito" — continuou ela. — A única coisa que dá pra concluir disso tudo é que, se o seu lobo está agindo assim, é porque tem algo fora de lugar aí dentro de você. Pense nesse outro lado como algo inconsciente, que te acompanhou durante toda a sua vida. Com certeza ele sabe de coisas a seu respeito que talvez você ainda nem tenha se dado conta...
— Tá, mas como eu resolvo isso então? — eu quis saber, já um pouco impaciente.
— Eu sei que soa clichê, mas... Você precisa encontrar equilíbrio — ela respondeu. — Quando você estiver em paz com seus sentimentos, seu lobo também vai se acalmar.
— É sério isso? — perguntei, com descrença. — Não acredito que você enrolou esse tempo todo pra no final vir com essas frases prontas de livro de autoajuda pro meu lado!
Esperava que ela me sugerisse algo muito mais prático do que "encontrar equilíbrio", admito. Maia, porém, se limitou a dar um tapa na minha cabeça.
— Ai!!! — reclamei, me defendendo daquele ataque inesperado.
— Eu sei que você é meu irmão, mas tem horas que você parece uma porta — retrucou ela, visivelmente irritada.
Permanecemos em silêncio no restante do trajeto até a fazenda. Antes de descer do carro, no entanto, reparei em Maia me olhando com certa preocupação. Será que havia mais coisas que ela não tinha me dito?
***
Passei a tarde auxiliando minha mãe nas rotinas da fazenda. Entretanto, em determinado momento, ao levar algumas caixas para dentro de casa, reparei em Maia e algo chamou minha atenção. Ela estava no escritório do nosso pai, concentrada, enquanto consultava uma enorme pilha de livros antigos. Confesso que aquilo me deixou curioso, afinal, as aulas ainda nem sequer haviam retornado, mas achei melhor não a incomodar e voltei aos meus afazeres.
No início da noite, após tomar um longo banho, me deitei em minha cama, com meus fones de ouvido, e comecei a ler algumas revistas em quadrinhos. Apesar de, na prática, ainda estar de férias, fazia muito tempo que eu não conseguia simplesmente tirar um momento para ficar à toa, sem me preocupar com nada.
Para meu infortúnio, aquele instante de paz não durou muito, no entanto.
— Ei, pescoço de avestruz, por que você ainda não tá se arrumando? — perguntou Maia, parada na porta do meu quarto.
— Por que eu deveria?
— Nossa, você realmente não ouviu nada do que eu te disse hoje de manhã, não é, seu cabeça de vento? — esbravejou ela. — A gente vai pra pousada hoje!
Ao ouvir a palavra "pousada", senti meu coração acelerar. Maia não percebeu minha reação e continuou me apressando.
— Eu combinei com os meninos do time, faz tempo que a gente não faz nada juntos, anda logo! — ela me apressou. — Eles estão esperando a gente, ficamos de dar carona.
— E como você pretende enfiar todo o pessoal do time dentro do nosso carro minúsculo? — eu quis saber, curioso.
— Quem disse que a gente vai com nosso carro? — Maia respondeu, com um sorriso enigmático.
***
Não sei que magia proibida minha irmã havia utilizado, mas, de alguma maneira, ela conseguiu convencer nossos pais a nos emprestarem a caminhonete de cabine dupla da fazenda. Acho que não preciso dizer que minha irmã sabia ser muito persuasiva às vezes. Buscamos cada um dos rapazes do time e seguimos animados para a pousada, com o som do carro no último volume. Era a última sexta-feira de férias, afinal. Pensei que deveríamos mesmo aproveitar.
Mal estacionei o carro no local da festa, no entanto, e já senti o aroma de Davi invadir minhas narinas. Maia percebeu minha agitação e quis saber o que se passava.
— Ele tá aqui... — expliquei, aflito.
— Vai com calma — foi só o que ela se limitou a dizer.
Resolvi seguir o conselho dela e tentar esquecer todas aquelas sensações malucas que eu vinha sentindo ao longo do dia. Estava ali para me divertir com meus amigos e era isso que eu iria fazer. Como você pode imaginar, não consegui simplesmente ignorar a presença de Davi. Mas, ao invés de lutar contra aquele estranho magnetismo, apenas me deixei levar, curioso em descobrir o que poderia acontecer. Afinal, não havia mesmo nada a perder.
Para minha surpresa, Davi estava acompanhado de Bárbara. Não pude deixar de pensar em como ele tinha escolhas peculiares em relação a suas companhias – eu cheguei a vê-lo trocar algumas palavras com Poliana, no ginásio, e agora encontrava ele ali, com aquela... garota. No entanto, fui rápido em tirar ele de lá e, depois disso, a noite foi muito melhor do que eu poderia imaginar.
Não tinha como negar, existia uma conexão muito forte entre mim e aquele menino; era como se as palavras dele fossem música para os meus ouvidos. Tudo bem, preciso admitir que a história de vida dele era bem triste, mas, ainda assim, poderia ficar ali por horas, apenas ouvindo tudo o que ele quisesse dizer e descobrindo mais e mais sobre ele.
Algo que também chamou minha atenção foi o estado em que minha contraparte animal ficou enquanto eu tinha Davi ao meu lado. Parecia que bastava ter aquele garoto perto de mim para que eu sentisse uma imensa paz e tranquilidade. Era como se o lobo dentro do meu peito alcançasse um estado máximo de satisfação e não precisasse de mais nada, apenas estar ali. Mas, é claro, nada que é bom dura para sempre. Estava envolvido em nossa conversa quando fui interrompido pelo toque do meu celular.
— Alô? Pai?
— Ei campeão, temos problemas — anunciou meu velho, automaticamente me colocando em estado de alerta. — Aja normalmente, com tranquilidade, mas chame a sua irmã e volte para a fazenda o mais rápido possível.
— Tá tudo bem?
— Sim, tá tudo certo, por enquanto. Mas percebemos uma movimentação estranha aqui na região. Eu acho que pode ser o nosso predador misterioso — explicou ele. — Diga para seus amigos que eu pedi o carro de volta e venha já para cá.
— Sério? Certo, já estou indo — assegurei, antes de desligar.
Meu pai era ótimo em inventar desculpas esfarrapadas de última hora para encobrir nossas atividades como lobos, como você pode perceber. O problema era mentir para Davi e ter que sair do lado dele. Infelizmente, eu não tinha muita escolha. Contei toda a história de "morar na fazenda e precisar devolver o carro", mas não pude deixar de reparar em sua decepção por eu ter que ir embora.
— Tudo bem, imprevistos acontecem... — foi só o que ele conseguiu me dizer.
Eu mal conhecia aquele menino, mas apenas vê-lo fazer aquela cara de desapontamento foi o suficiente para me deixar com peso na consciência. Por isso, tentei compensar de alguma outra forma.
— Se eu não tiver muita coisa pra fazer na fazenda amanhã, talvez eu apareça aqui de novo... Pra música ao vivo, claro — foi só o que consegui pensar naquela hora. — Se você estiver por aí, te dou um oi, tudo bem?
— Certo, não se preocupe — ele respondeu, um pouco mais satisfeito.
Menos mal, pelo menos ele não estava mais tão chateado. Agora, só faltava achar Maia e os rapazes e voltar de uma vez por todas para a fazenda. Só não estava esperando ser surpreendido pela voz de Davi antes disso.
— Ian, espera!
Voltei-me em direção a ele e, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, senti as mãos de Davi tocando meu rosto. Em seguida, vi ele se aproximar e pressionar os lábios dele contra os meus.
***
Uma enxurrada de sentimentos conflitantes se misturava dentro do meu peito. Num dia normal, eu adoraria ter minha querida irmã ao meu lado para desabafar, mas, naquela noite, especificamente, eu estava tendo que me controlar para não arremessar Maia pela janela da caminhonete.
— Você pode fazer o favor de me explicar direito o que tá acontecendo, Ian? — reclamou ela.
— Eu já disse, papai está esperando por nós — foi só o que respondi, irritado, sem desviar meus olhos da estrada.
Digamos que minha irmãzinha não ficou nada satisfeita em ter que abandonar a festa mais cedo, e agora parecia querer descontar sua frustração em mim. Eu já estava acostumado com a personalidade forte de Maia, que não gostava muito de ser contrariada – normalmente era eu que cedia e ficava quieto para não arranjar brigas desnecessárias. O que ela não tinha percebido, no entanto, é que não era o Ian pacífico de sempre que estava atrás daquele volante.
Após avisar sobre a ligação do meu pai, os rapazes do time resolveram continuar na pousada. Dessa forma, Maia e eu já estávamos sozinhos, na caminhonete, a caminho da fazenda. Entretanto, eu não conseguia parar de pensar no que havia rolado com Davi. Sim, aquilo tinha acontecido de fato. Ele tinha me beijado. E eu ainda não tinha certeza de como me sentia a respeito.
— Consegui falar com mamãe por telefone e ela me explicou tudo melhor — resmungou Maia. Eu estava tão concentrado na estrada e em meus pensamentos que nem sequer ouvi ela fazer a ligação.
Depois de mais alguns quilômetros em silêncio, ela protestou mais uma vez.
— Você pode me fazer o favor de dizer por que raios você tá tão emburrado?
— Olha só quem fala — eu retruquei, respondendo à provocação.
Pelo canto do meu olho, pude ver Maia arquear suas sobrancelhas diante da minha resposta atravessada. De fato, acho que ela não estava acostumada a me ouvir falando naquele tom.
— Você sabe que você vai acabar me contando, não sabe?
— Não é como se eu tivesse alguma escolha — respondi, sem pensar muito bem em minhas palavras.
Imediatamente me dei conta de que tinha feito besteira e tocado num ponto fraco de Maia. Não é preciso ser um gênio para perceber que todo esse lance de ser um Lobo do Sol também tinha suas desvantagens. Imagine viver num mundo em que as pessoas não mediam suas palavras ao falar com você e estavam sempre dispostas a compartilhar seus mais profundos segredos, sem nem questionar. Há muitas coisas que, com certeza, você preferiria não ficar sabendo. Mas Maia não tinha essa escolha.
— Me desculpa, falei sem pensar — foi só o que eu consegui dizer a ela.
— Tudo bem — ela respondeu, permanecendo calada após isso.
Pronto. Agora eu estava me sentindo culpado.
— Eu não tô muito legal, Maia, espero que você entenda — tentei retomar a conversa e amenizar o clima entre nós.
— Agora você resolveu abrir a boca? Pena que eu não estou mais interessada!
Voltamos a ficar calados.
— Ele me beijou.
Embora eu estivesse com meu olhar fixo na estrada, pude perceber uma agitação vinda de onde estava a minha irmã. Definitivamente, minha última frase tinha conseguido chamar a atenção dela.
— O que você disse? — ela perguntou, por fim, tentando disfarçar seu interesse.
— Ele me beijou, já falei. O Davi me beijou.
— Mas beijo, beijo? — quis saber Maia, repentinamente empolgada. — Na boca?
— Uhum — confirmei, sentindo meu rosto ruborizar.
O silêncio voltou a tomar conta do carro, mas, dessa vez, era quase como se eu conseguisse enxergar as engrenagens trabalhando dentro da cabeça da minha irmã.
— Bem, acho que isso explica muita coisa...
— Como assim? — perguntei, intrigado.
— Acho que parece óbvio, não? — continuou ela. — A maneira como seu lobo está agindo e todas aquelas coisas que você me contou mais cedo. Você não percebeu ainda?
A vontade de jogar Maia pela janela do carro retornou com força total, devo dizer.
— Não, Maia, eu não percebi. Dá pra você desembuchar logo o que diabos você tá querendo me dizer?
— Para mim parece bastante claro — ela explicou, finalmente. — Eu acho que você tá apaixonado, irmãozinho.
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E neste capítulo conhecemos um pouco mais dessa maravilhosa relação de irmãos entre Ian e Maia.
Vocês têm irmãos? Se dão bem com eles? Também têm seus apelidos carinhosos? :p
E o que será que aguarda Ian na fazenda? O pai dele não teria os chamado à toa, hummm...
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Próximo capítulo: A vez em que um jovem lobo partiu numa missão de resgate
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