Capítulo 9 - A Breve História do Olhos de Lince
745 anos atrás, em uma cidadezinha qualquer em um reino distante
O garotinho maltrapilho estava escondido no beco atrás de uma pilha de lixo. Ele se encolhia nas sombras esperando os guardas se afastarem o suficiente para que fosse seguro ele sair de seu esconderijo. Havia sido mais uma tentativa frustrada de roubar a feira, não havia conseguido pegar uma fruta velha sequer. Os comerciantes preferiam jogar fora do que deixar os menos afortunados se aproveitarem dos restos. A crueldade do mundo. Os que tinham muito não se importavam com os pobres, e os que tinham menos também não, eles se importavam apenas consigo mesmos. Como se o próprio sofrimento fosse desculpa para não enxergar que outros também sofriam. Ninguém tinha obrigação de ajudar a ninguém, mas os que tinham bom coração não pensavam nisso como obrigação, simplesmente ajudavam por bondade genuína. O menino descobriu muito cedo que pessoas assim, eram muito raras, ele próprio só havia conhecido uma a vida inteira.
O último guarda passou correndo pela rua e a criança relaxou o aperto nos próprios joelhos.
Ao menos a sombra atrás do lixo fétido o protegia do sol escaldante que feria seus olhos e a pele sensível. Seu cabelo louro estava tão imundo que parecia feno sujo, e as roupas caiam ao redor do corpo fino como um saco de batata. Mas seus olhos nunca perdiam o brilho amarelado como uma chama na neve, seja de ódio ou felicidade, embora nessa época fosse mais de ódio do que qualquer outra coisa.
Aquele garoto magricela sentia ódio do mundo, mas naquele momento o ódio não era maior que a dor no estômago por estar três dias sem comer. Ele não queria voltar para casa, lá também não teria o que comer. Bem... Até teria, mas seu tio não ia permitir que tocasse em um mísero grão de arroz. Talvez lhe desse um pouco de leite azedo, mas ele estava cansado de passar mal por causa disso.
Apesar de tudo, o menino achava que o ódio do tio era justificado, pois ele se odiava pelo mesmo motivo. Sua mãe morrera ao dar a luz a ele, e o pai se matara de tristeza, enforcado no celeiro. Ele nunca chegou a ver o rosto da mãe que o teria amado, mas ele era um lembrete vivo dela toda vez que se olhava no espelho. Por isso, o tio não suportava olhar em sua cara, e o batia frequentemente na esperança de deformar o garoto para que ele não fosse tão semelhante a sua querida irmã.
O menino não era amado, e se culpava por ter destruído os únicos que podiam fazê-lo. Os únicos que poderiam ser capazes de demonstrar algo além de desprezo e violência.
Seus punhos magrelos saindo das mangas das roupas largas, não era o suficiente para ele se proteger, nem dos guardas e nem do tio. Sua única habilidade era ser extremamente ligeiro e caber em lugares pequenos por conta da magreza. Ele era lamentável.
Mas um dia, aquele garotinho se tornaria o terror daquela cidade. O terror da capital. O terror do reino.
Olhos de Lince.
Contudo, ele não sabia disso naquele momento, mas não demoraria muito a descobrir. O menino sempre achou que morreria logo, de fome ou de tanto apanhar. No entanto, enquanto andava sem pressa para casa aquela noite, foi que cruzou com aquele que o salvou e o condenou ao mesmo tempo.
—Ei garoto. — O homem corpulento sorria para ele com dentes amarelados. Uma olhada rápida e o menino notou que ele carregava muito ouro consigo, inclusive nos dentes. Se fosse rápido poderia pegar algo e fugir, talvez comer por alguns dias. Ele pegou uma pedra no chão, mas o homem nem se mexeu. —Eu conheço uma alma perdida quando vejo uma. Você não tem família, não tem nada, então vai vir comigo. Eu te observei um pouco, você tem o tipo de ferocidade que posso usar... Com a motivação certa...
O garoto não respondeu, não estava entendendo o que o homem queria dizer com aquele discurso.
—Posso te dar comida. O quanto quiser. — O homem falou com um olhar malicioso.
O menino largou a pedra.
Ele foi com o homem. Depois disso, a vida não melhorou tanto. Ah não, ele ainda apanhava frequentemente e era submetido a coisas que nenhuma criança deveria ser, mas, pelo menos, não passava mais fome. O mesmo homem que tinha se tornado seu carrasco, também havia ensinado ele a direcionar seu ódio, tinha lhe dado um propósito.
Depois de adulto, o garoto sabia que tinha se tornado algo desprezível, mas não se importava. Ele sabia que iria para o inferno, mas abraçaria as chamas com prazer. Ele não se importava com nada. Ele era um demônio em vida, certamente seria também na morte.
Mas Lynx estava errado.
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