Capítulo 33 - Cegos Para o Amor

Alguns Meses Atrás

Angela não era do tipo romântica, nunca fora. Mesmo antes do pesadelo de séculos atrás que viveu na mão de homens. Não era por culpa de seus traumas que ela achava amor e relacionamentos coisas idiotas e sem graça. Era algo que havia nascido com ela, parte de sua personalidade pé no chão e simplista. Quando criança, antes de sua mãe morrer e o padrasto vendê-la para o bordel demoníaco, ela não era como suas coleguinhas que sonhavam em encontrar seus príncipes encantados, se casar, ter uma bela casa e um punhado de crianças barulhentas. O sonho dela naquela época era ser uma heroína, entrar para a guarda real e servir a rainha. Ser uma guerreira digna de respeito, e lutar para ajudar a manter a paz no reino. Inspirar outras mulheres a lutarem, e mostrarem que eram tão capazes quanto os homens.

Porém, não foi o que aconteceu.

Ela se lembrava de todos aqueles anos de exploração como um pesadelo distante. Algo ruim com o qual você sonhou, e embora não conseguisse se lembrar dos detalhes exatos, jamais conseguiria esquecer a sensação de humilhação e abuso. Depois que Luce a resgatou, seu objetivo de vida passou ser seguir a anjo caído fielmente e sempre apoiá-la. Não porque só porque Luce tinha tirado ela daquele inferno, mas porque ela era alguém a quem valia a pena entregar sua lealdade. Uma líder nata que usava seu poder inestimável para proteger aqueles que não podiam se cuidar sozinhos, em vez de oprimi-los.

Se Luce quisesse, ela podia incendiar o mundo, e se sentar em uma cadeira de praia com óculos escuros, bebendo suco enquanto assistia ele queimar. Porém, em vez disso, lutava para manter uma pequena parte dele a salvo. Ela era a pessoa mais admirável que Angela já tinha conhecido. Angela podia não ser muito boa com relacionamentos, mas graças a sua mãe amorosa, havia aprendido a se importar e a sentir empatia, a reconhecer alguém de bom coração, como Luce.

Luce que andava sofrendo. Ela sabia que a líder e amiga se culpava pelas rachaduras nas barreiras, e que temia pelo seu povo. Angela se sentia igualmente culpada, por não poder fazer nada para ajudar Luce, além de continuar ao seu lado como uma de suas capitãs. Felizmente, Luce tinha encontrado uma forma de começar a fechar as rachaduras, seria um processo lento, mas já era alguma coisa. Em outros tempos, ela teria conseguido consertar isso em um piscar de olhos, mas ao que parecia, seus inimigos tinham descobertos formas mais eficientes de danificar as proteções da Cidade dos Mestiços.

O que ninguém sabia era que como as barreiras eram ligadas diretamente a Luce, o ataque que causou essas fissuras também tinham machucado Luce, por isso ela estava tendo dificuldades, mas escondia isso muito bem, e apenas Angela tinha notado.

-Não mencione isso a ninguém. - ordenou Luce quando Angela perguntou.

-Mas Luce... - seu sussurro ecoou pelo salão do castelo.

-Eles acreditam que sou invencível, Angela. - ela estava muito pálida naquele dia. -Se souberem que de alguma forma fui atingida pelo ataque, vai desestabilizar tudo. E isso não é permanente, vou me curar aos poucos Mas talvez, eu seja mais fraca do que pensava.

-Você não é fraca. - Angela discordou com ferocidade. -Mas infelizmente, as vezes, é mais fácil arruinar algo do que manter essa coisa intacta. Demônios são o sinônimo de destruição, Luce. É por isso que eles são tão bons em destruir aquilo que lutamos para manter a salvo, já que eles próprios não conseguem salvar nem a si mesmos.

Angela saiu pela porta da frente e não tocou mais no assunto. Ainda não sabiam ao certo como os demônios conseguiram lançar um ataque tão forte. O melhor palpite era que esse ataque especifico tinha sido obra do Ladrão de Almas, pois só o poder de almas humanas manipulados dessa forma poderia causar tal estrago.

A mente vagava em pensamentos, quando ela começou a pensar em Luce e se lembrou desse dia, era uma de suas maiores preocupações. Ela tentou bloquear um pouco isso enquanto andava pelas ruas da cidade. Precisava descansar um pouco a cabeça, se não ficaria maluca. Era noite, e ela não sabia bem aonde estava indo. Tinha acabado de sair do complexo, onde treinava uma nova tropa de híbridas adolescentes que desejavam entrar para o esquadrão quando se tornassem adultas. Sentia-se realizada ao inspirar jovens meninas a lutar. Uma das poucas coisas que amava na vida.

Amar. Ela apertou a presilha que estava envolta em sua mão, dentro de um dos bolsos da jaqueta, e então sua preocupação com Luce foi trocada por outra com um nome que também tinha quatro letras.

Ao pensar em quem havia lhe dado aquele presente, suspirou exasperada. Quem diria que alguém completamente cética quando se tratava de amor romântico, se apaixonaria por alguém que parecia não suportar sua presença. Ela o tinha nomeado para ser seu capitão sem pensar nisso, e toda vez que pensava, acreditava que tinha condenado ele. Talvez ele a detestasse por isso também.

Pelo menos, era isso o que ela pensava antes daquele dia. Agora não tinha certeza de mais nada.

Sim. Ela estava falando de Cain. E sim, a presilha de cabelo tinha sido presente dele, e isso mudava tudo, e ao mesmo tempo nada tinha mudado. Que diabos essa presilha significava? Angela nem usava esse tipo de coisa. Era rosa e tinha uma flor enorme grudada. Era ridícula. Mas a forma como ele havia dado o treco para ela, o leve rubor no rosto A deixou completamente confusa. E estupidamente esperançosa. Porém, ele apenas estivesse se livrando de algo. Angela tinha frequentado poucas vezes a casa de Cain, mas sabia que parecia a casa de uma senhora de oitenta anos cheia de coisas bregas. Talvez fosse de sua avó, e ele ia jogar fora, mas acabou dando para ela porque ficou com dó de jogar algo que fora de sua querida avó no lixo. Se ele claramente não a desprezasse, podia até pensar que tinha algum motivo romântico por trás do presente Mas não podia ser.

Isso andava corroendo a mente de Angela nos últimos dias. Só queria saber porque ele tinha dado aquilo para ela. Cain, na maioria das vezes, saia do recinto quando ela chegava. Desviava o olhar dela como se a visão de Angela lhe doesse os olhos. Não falava muito com ela, a menos que fosse para discutir e contrariá-la. Mas ai do nada fazia coisas como lhe emprestar uma jaqueta em um dia frio, ou dar a ela uma presilha de cabelo horrenda, mas que devia ter algum significado importante para ele.

Ela apertou a presilha na mão a ponto de sentir que o objeto ia perfurar a palma, então deu meia volta e agora tinha um rumo em mente.

Ficou parada na frente da porta do apartamento uns bons minutos antes de decidir se bateria na porta. Quase foi embora. Talvez devesse ir, isso era estupidez. Levantou a mão e bateu duas vezes. Ele atendeu de primeira. Estava de regata branca, jeans e descalço. Sua expressão ao ver ela, era como se tivesse aberto a porta para um fantasma. Como se ela fosse a última pessoa que ele esperava ver aquela noite, e provavelmente era mesmo.

-Angela? - ele franziu o rosto, e ela se arrependeu de estar ali.

-Eu mesma. - ela passou por ele entrando no apartamento.

-Aconteceu alguma coisa? Luce te mandou aqui? - ele fechou a porta e seguiu ela até a sala de estar, onde ela se jogou no sofá, colocando os pés calçados pelas botas em cima da mesa de centro.

-Não. - disse erguendo a sobrancelha. -Não posso visitar meu vice capitão por vontade própria?

A carranca de Cain se aprofundou, ele parou na sala e ficou encarando ela. Angela suspirou e tirou os pés da mesa. Não era o momento para agir desse jeito. Ela estava ali por um motivo sério. O problema era que não sabia como tocar no assunto sem parecer maluca. Pensou um pouco, e então concluiu que se ele já não gostava dela mesmo, não tinha como piorar.

-Tá bom, olha - o tom de voz dela era sério, porém, suave de um jeito que ela não costumava usar, tanto que Cain olhou com mais atenção para ela. Angela tirou a presilha do bolso e colocou em cima da mesa a sua frente. -Queria saber o que significa isso.

Ela observou Cain reagir a pergunta. Ele se contraiu como se tivesse levado um beliscão, mas logo disfarçou, então virou as costas, indo até a cozinha pegar alguma coisa na geladeira.

-Significa que você tem cabelo e eu não, caso não tenha reparado. - o tom dele era neutro. -Flores também não combinam muito comigo.

Era irônico em um nível surreal, ele dizer isso considerando a decoração de seu apartamento, ela teria rido em outras circunstâncias. No entanto, por algum motivo, Angela ficou decepcionada com a resposta, mas ela nem sabia o que queria que ele respondesse.

-Não sei não, acho que você ficaria ótimo com uma flor na cabeça. - ela brincou.

Ela se virou para ela com uma garrafa na mão, o rosto sério.

-Eu só estava limpando as coisas no quarto que era da minha vó, dai achei isso e não quis jogar no lixo.

-Eu imaginei que seria isso.

-Se imaginou por que perdeu tempo vindo perguntar?

Angela se irritou. Tudo bem, ela não era um amor de pessoa, e fazia sentido - fazia? - ele tratar ela assim, mas não significava que não doía.

-Você é um idiota. - ela xingou sabendo que estava sendo totalmente irracional. -Também não gosto de flores.

Ela se levantou bruscamente e largou a presilha em cima da mesa, esbarrando nele ao ir em direção a porta, batendo-a ao sair do apartamento.

A noite estava fresca, mas ela sentia frio quando chegou na rua. O pior era não ter com quem falar sobre isso. Luce era sua melhor amiga, mas não sabia de seus sentimentos por Cain e provavelmente acharia esquisito se Angela chegasse falando sobre isso do nada. Sem contar que, Luce também não era do tipo emocional ou que dava conselhos amorosos. No mínimo, conversar com ela geraria uma situação constrangedora onde nenhuma das duas saberiam o que fazer.

Angela sabia que nada de bom viria dessa coisa de desenvolver sentimentos por alguém. Ela nem sabia o que tanto gostava nele. Ele era bonito, sim, mas não era nada caloroso. Era fechado, sarcástico, e um pouco rude, as vezes. Mas havia uma parte dele que era como olhar para um espelho. Além disso, ela sabia que ele não era rude de verdade, era só uma máscara, e ele sabia ser gentil com quem ele queria ser. Também era corajoso e dedicado, habilidoso no campo de batalha, mas modesto.

-Angela! - ela ouviu alguém gritar enquanto ela andava furiosamente sem destino pelas ruas. Andava pensando tanto em Cain que estava começando a alucinar com a voz dele. -Angela! Espera!

Ela olhou para trás e viu Cain correndo em sua direção, ele sequer ofegava e a alcançou em questão de segundos.

-Você esqueceu a presilha. - ele estendeu a mão para ela com aquele acessório de cabelo brega na palma. Angela não fez nenhum movimento para pegar, olhou para a mão estendida e então ergueu os olhos para ele.

-Por que faz tanta questão que eu fique com isso? Se é só algo que você não quer mais, era só dar para qualquer um. - ela disse cruzando os braços. -Lynx e Alec tem cabelo grande, ficaria uma graça neles.

O canto da boca de Cain tremeu. Aquilo era um sorriso? Angela prestou atenção nele.

-Mas eu quero que você fique. - ele insistiu. -Precisa de um motivo?

-Precisa.

Ele suspirou e abaixou a mão.

-Entendo. - falou e Angela pensou que ele não entendia porcaria nenhuma. -Eu devia imaginar que você jamais ia querer algum presente meu.

Ela semicerrou os olhos para ele.

-E por que você acha isso?

-Bem, - ele abaixou a mão. - você não gosta de mim.

Angela piscou confusa, olhando para ele.

-Eu... não gosto de você. - repetiu tolamente. -Eu, alguma vez, disse isso?

-Não, mas...

Angela soltou uma risada incrédula. E então continuou rindo. Cain olhou para ela com um ponto de interrogação estampado na testa.

-Por que você está rindo? - ele perguntou irritado. As poucas pessoas que estavam nas ruas da área residencial, começaram a encarar eles, e como Cain não gostava de chamar atenção começou a ficar nervoso.

-Porque é realmente engraçado. - ela parou de rir. -Você acha que não gosto de você Quando na verdade, você quem não gosta muito de mim. Não, é?

Ele não respondeu.

-Viu, é verdade. - ela disse calmamente.

-Não. - Cain disparou. Ele parecia lutar com os próprios pensamentos e sentimentos, organizando o que deveria ou não dizer, o que deveria expressar. Angela franziu o rosto, nunca o vira desse jeito. Deixando tanto transparecer, e ainda assim, não esclarecendo nada. Ele era tão frustrante que ela rangeu os dentes.

-Não o quê? - ela forçou a pergunta para fora da boca. Ele suspirou.

-Será que você poderia vir comigo? Não quero falar sobre isso aqui.

Ele saiu andando, sem se virar para ver se ela o seguia. Angela ficou intrigada com o tom na voz dele, depois de um momento, foi atrás. Cain saiu das ruas, seguindo para uma floresta próxima ao castelo de Luce. Quando eles pararam, Angela se surpreendeu ao ver que era o local onde ela tinha ido atrás dele para pedir que ele fosse o vice capitão da primeira divisão, parecia uma vida atrás. Ele parou no meio de uma descida, a grama desembocava dentro de um riacho que corria ali e as árvores se curvavam acima de suas cabeças formando uma espécie de cúpula sob suas cabeças. Ela se aproximou lentamente enquanto ele olhava para o céu acima das árvores.

-Foi aqui que você me chamou para ser seu vice capitão.

-Sim, eu o escolhi por causa das suas habilidades, mas achei que você ia recusar.

-E eu ia.

Angela virou o rosto para encará-lo. A luz fraca das luas entre as nuvens deixava seu rosto cheio de sombras. Ela se sentiu muito triste, era como olhar para um sonho distante que nunca ia se realizar.

-Porque passar ainda mais tempo perto de você, era o mesmo que uma tortura para mim.

-Porque você me detesta tanto?

Cain se virou para ela, com um olhar igualmente triste.

-Minha vó - ele começou e fez uma pausa deixando ela totalmente confusa. -Ela disse para eu dar aquela presilha para alguém que eu admirasse.

Angela ficou imóvel. Talvez fosse impressão dela, mas o rosto dele parecia vermelho, mas era difícil dizer naquela escuridão.

-Você me admira. - era para ser uma pergunta, mas as palavras saíram sem forças.

-Não. - ele disse. -Eu menti. Minha vó disse para eu dar isso a alguém... Alguém que eu amasse.

-Ama... Mas você? Não estou entendendo.

Cain respirou fundo.

-Eu sei que sempre agi de um jeito que desse a entender o contrário, porque eu queria que você pensasse isso. - ele falava meio rápido demais, e seu peito subia e descia tão rápido quanto. Angela entendeu por que ele escolheu aquele lugar para dizer aquelas coisas, porque era mais fácil ter coragem no escuro, onde você podia esconder a própria expressão.

-E por que você queria que eu pensasse isso? - sua voz era quase robótica, e seu cérebro flutuava tentando entender o raciocínio de Cain.

-Porque eu não sou... Não sou... - ele hesitou. E ela entendeu.

-Se você disser que não é bom o suficiente pra mim eu vou te dar um chute.

Mesmo no escuro, ela conseguiu ver a expressão de surpresa dele.

-Então, você me ama? - ela perguntou.

-Sim. - a voz dele falhou.

-E acha que não gosto de você. - era mais uma confirmação irônica do que uma pergunta.

-Bom, você nunca pareceu gostar de ninguém pra falar a verdade, só de Luce, mas ela é sua melhor amiga e salvou sua vida, então sei que vocês tem uma ligação, mas romanticamente falando, eu achei que você

A tagarelice nervosa dele foi cessada quando Angela deu um passo a frente, envolveu ele pela nuca e o beijou. Nossa. Como ela queria fazer aquilo. Queria a tanto tempo que tinha medo de abrir os olhos e descobrir que estava deitada em sua cama sonhando. Cain ficou completamente congelado, as mãos erguidas sem saber o que fazer. Mas quando Angela separou os lábios dele com a própria boca e buscou sua língua, ele pareceu sair do estado de choque. Agarrando-a pela cintura e puxando seu corpo para o dele. Seu beijo era desajeitado e inexperiente, Angela se perguntou se ele sequer já tinha feito aquilo, então ela ficou no controle, guiando-o. Sorte que ele aprendia rápido.

Quando eles se separaram, as respirações rápidas eram o único barulho em meio a floresta.

-Ainda acha que não gosto de você? - ela perguntou sem folego.

-Eu... Eu achei...

-Olha, Cain... - ela segurou o rosto dele nas mãos, pela primeira vez em muito, muito tempo, sentiu o rosto esquentar e sabia que ela própria estava enrubescendo. -Sou tão ruim nessa coisa de demonstrar sentimentos quando você Mas acho que podemos aprender juntos.

-Isso é um sonho. - ele disse meio que para si mesmo.

-Não, não é. - Angela Sorriu. -E se você ainda quiser... Eu adoraria ficar com aquela presilha.

Cain deu um de seus raros sorrisos, um que iluminava seu rosto inteiro e transformava sua expressão carrancuda. Ele tirou a presilha do bolso, e a colocou no cabelo dela. Depois, timidamente, a beijou, deixando-a sem folego de novo. Angela queria levá-lo para casa e ensinar outras coisas além de beijar.

No dia seguinte, ela foi para uma reunião do esquadrão usando a presilha. Luce riu até ficar roxa e disse que era a coisa mais feia que já tinha visto. Eles não viram necessidade de anunciar o relacionamento, mas os amigos teriam notado se tivessem reparado no modo como Cain ficou vermelho na hora em que Luce falou sobre a presilha, e no modo que Angela olhou para ele.

E ao olhar para ele, Angela sentiu algo esquentar seu coração. No fim, ela e Cain eram tão idiotas quanto Levi e Gabriel. Algumas pessoas ficavam cegas de amor, eles eram cegos para o amor, mas agora finalmente podiam ver.

E a vista era maravilhosa.

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