Capítulo 26 - Eu Odeio Becos
-Ou melhor, Alexander... Esse é seu nome, não é? - Ric cruzou as pernas. -As pessoas têm falado muito sobre você. O que o traz até o meu fabuloso estabelecimento?
Alec o encarou pensando no que responder. Sinceramente, ele não tinha a menor ideia de como ia conseguir cumprir a missão que Luce lhe dera. Ao que parecia, assistir muitas séries de detetive não o transformava em um de fato. Uma semana já havia se passado, e ele tinha apenas andado em círculos.
-É Alec mesmo. - ele corrigiu se recusando a se sentir ou parecer intimidado. -E pelo visto, sou famoso aqui, talvez eu devesse aproveitar para começar minha carreira de músico. Já eu, estou aqui a mais de um mês e nunca ouvi falar de você.
-Isso é um pouco ofensivo, mas como você é novo na cidade vou deixar passar. - a expressão de Ric era divertida, do tipo de pessoa que sempre sabia de algo que o outro não sabia, e provavelmente era o caso.
-Desculpa, não quis ofender. - Alec não soava nada arrependido.
De uma maneira descontraída, ele colocou as mãos no bolso de trás da calça. Alec sabia que ele precisava desempenhar um papel. Tinha percebido que Ric era respeitado, no modo em que todos falavam com ele.
Mas Alec tinha a impressão de que seria mais bem sucedido se agisse diferente do resto, não demonstrando submissão. Pois Ric estava cercado de bajuladores, mas parecia gostar mais de ser desafiado. No entanto, Alec precisava ser cauteloso para não passar dos limites e estragar tudo.
-Talvez o pouco convívio com esses dai - Ric apontou com o queixo na direção dos capitães, um brilho divertido nos olhos escuros. - já foi o suficiente para te corromper. Ou talvez não, já que é você que faz os anjos caírem...
-Você é mesmo muito bem informado. Ser fofoqueiro é uma boa profissão aqui na Cidade dos Mestiços? Ou é tipo um bico? Você trabalha de verdade? - Alec tinha certeza de que tinha ido longe demais, e o cara simplesmente expulsaria eles de seu território sem dar informação alguma. Ele congelou esperando uma resposta, e sentia como se todos os outros também tivessem prendido a respiração.
Ric desviou o olhar, encarando o grupo com intensidade por um momento.
-Saiam. - ordenou, mas para surpresa de todos, o comando foi direcionado as pessoas grudadas nele, que olharam com raiva para os híbridos e saíram empurrando as cortinas bruscamente. Em seguida, uma parede colorida translúcida se formou ao redor deles, abafando totalmente qualquer ruído.
Então o cara começou a rir alto, deixando Alec meio sem reação.
-É disso que eu gosto. E eu aqui achando que tinha saído de casa atoa hoje. - Ric deu um sorriso cheio de dentes pontudos. Literalmente. Seus dentes pareciam dentes de tubarão. Ele limpou as lágrimas de riso dos olhos.
-Alec é o mais novo membro do nosso esquadrão. - disse Gabriel em um tom neutro. -Ele não esta acostumado com como as coisas funcionam, então pedimos desculpas se ele ultrapassar algum limite.
-As vezes eu apenas prefiro ser direto do que perder tempo filtrando tudo que tenho que dizer, é meio cansativo. - Alec reclamou, embora isso não fosse totalmente verdade. Ele costumava filtrar bastante as coisas que dizia, mas em algumas ocasiões se sentia livre para não ser tão cauteloso com as palavras.
Essa era uma dessas ocasiões.
-É bem mais divertido quando falamos o que pensamos. - Ric sorriu como se Alec tivesse dito algo que o agradasse. -Principalmente, quando falamos na hora e no lugar certo. Ver o circo pegar fogo e tal.
-Depende da situação, eu acho. - Alec pretendia fingir concordar com ele, mas não conseguia mentir tão facilmente e ir contra seus próprios princípios. -Eu acho cansativo filtrar o tempo todo, mas também não acho certo simplesmente dizer o que quiser sem considerar o efeito das palavras nas pessoas. A menos que as pessoas em questão mereçam ser afetadas por essas palavras.
Ric ergueu as sobrancelhas.
-Tão jovem e tão sábio. Que personalidade, ein? - disse. -Então você acha que mereço ser afetado por suas palavras?
-Talvez, no momento estou apenas reagindo ao que você está dizendo.
Ric gargalhou alto.
-Interessante.
Alec estava nervoso antes de entrar na boate, mas agora se sentia calmo e centrado. Tinha um objetivo, e um dos meios para alcançá-lo estava bem na sua frente. Esse homem que tinha um olhar que parecia ver demais, parecia enxergar através das intenções de Alec, e que ainda estava decidindo se cooperaria ou não. Avaliando se valia a pena, o que ele ganharia ajudando a esse humano intruso.
-Mas enfim, suponho que estejam aqui para pedir informações sobre seu tal traidor. - o homem bebericou do drink em sua mão. -Não sei se tenho algo a dizer sobre isso...
Alec sabia que ele estava mentindo, e ele também não estava tentando parecer muito convincente. Como se soubesse que tinha algo que eles queriam na mão, mas quisesse brincar um pouco antes de entregar.
-Eu acho que tem sim. - discordou Alec. -Soube que você tem uma bela rede de informações, não deixaria algo assim passar...
-Ora, então no fim você ouviu falar de mim. - Ric deu um sorriso satisfeito, mas Alec não conseguia interpretar ele direito.
-Cinco minutos atrás. - admitiu Alec. -Só o suficiente para saber que você é alguém que talvez possa ajudar.
-Talvez...
Por algum motivo, o híbrido estava enrolando eles, e olhava para Alec de um jeito muito estranho.
-Então, esse lugar é seu? Também soube que é a boate mais popular da cidade. - Alec olhou com um pouco de desdém em volta, como se todo glamour e brilho não fosse nada impressionante para ele. Na verdade, não era mesmo. Preferia mil vezes bares decadentes com bandas ruins tocando ao vivo.
-Sim, você gosta? - Ric olhou para ele com um sorriso afetado.
Alec deu de ombros.
-Legal, mas nada diferente do que estou acostumado no mundo mortal.
-Nunca vi boates do mundo mortal, mas tenho certeza que nenhuma delas é como a minha.
-Talvez. - Alec fez quase um circulo completo no espaço e então se sentou no sofá, em uma distância segura de Ric. -Não é nada tão impressionante, mas realmente, seria uma pena se fosse destruída.
-Isso foi algum tipo de ameaça, garoto? - Ric ergueu uma sobrancelha. -Vai sair chutando mesas e cuspindo nos clientes se eu não contar o que sei.
-Por que todo mundo aqui insiste em me chamar de garoto? Que foi? Todos vocês são um bando de idosos? - ele lançou seu olhar para Ric. -E não, não foi uma ameaça. É só o que pode acontecer se não nos contar o que sabe sobre o traidor. Não só sua boate, a cidade inteira pode ser destruída. Não sei se vocês tem outro lugar para ir, mas o mundo mortal não reage muito bem a quem é diferente, e não tenho certeza se vocês conseguiriam se misturar.
O discurso saiu de sua boca de um jeito imparcial, como se Alec não se importasse com nada daquilo, embora se importasse até mais do que achou ser possível. Ao olhar rapidamente para o grupo com quem veio percebeu que eles tinham um ar de orgulho. E percebeu também que todos eles tinham ficado mortalmente quietos desde que Alec assumiu a conversa. Como se deixassem claro quem estava no comando daquele interrogatório disfarçado de visita amigável.
De repente, Ric soltou uma gargalhada.
-Então tá, vou falar o que sei. - disse ele encarando o grupo. -Mas só para o humano, quero vocês fora daqui também.
-Não. - Angela sorriu perigosamente. -Não vamos deixar Alec sozinho com você.
-Angela, - Ric deu um sorriso forçado para ela. - encantadora como sempre.
-Não posso dizer o mesmo de você. - ela ainda sorria. Um sorriso assustador. -Não te acho nada encantador.
-Angela. - Alec chamou a atenção dela para si, vendo que as coisas poderiam tomar um rumo muito ruim se ninguém fizesse nada. -Está tudo bem. Eu falo com ele, sozinho.
-Tem certeza, Alec? - perguntou Cain. Ele estava posicionado de um jeito próximo a Angela, que dava impressão de que estava pronto para protegê-la. Ou proteger alguém dela.
-Sim. - Alec assentiu para eles, tentando demonstrar a certeza em seu olhar. Ele podia fazer aquilo.
-Se eu fosse você tomava muito cuidado ein, Ric. - alertou Levi de braços cruzados. -Alec namora um anjo caído, o novo capitão da terceira divisão e um cara bem assustador.
-Que está em coma e completamente indefeso pelo que sei. - rebateu Ric examinando as próprias unhas. -Totalmente vulnerável...
Alec tentou se manter indiferente diante daquela insinuação, mas sentiu as mãos se fecharem em punhos no colo.
-Isso foi uma ameaça? - Alec perguntou entre dentes.
-Jamais! - Ric disse com uma voz anasalada cheia de deboche.
O restante do grupo saiu por uma abertura na barreira multicolorida translucida ao redor deles, e Alec ficou sozinho com Ric.
-Quer algo para beber? - perguntou o híbrido. Alec recusou com a cabeça. O outro riu. -Claro, direto ao ponto então.
-Por que queria falar só comigo? Qualquer coisa que disser aqui vou contar a eles. - Alec decidiu ser mais direto. Não era muito bom em prolongar conversas cheias de rodeios.
-Vai mesmo? Contar a eles? Não tenho tanta certa assim...
Ric parecia estar se divertindo muito.
-Pois pode ter certeza que vou.
-Curiosidade minha. - Ric respondeu sua pergunta anterior, pousando o copo vazio na mesa ao lado do sofá. -Queria saber como é o humano que fez um anjo largar sua missão celestial... Não que aquilo seja o céu de verdade, não é?
-Sabe alguma coisa sobre Azazel?
Ele ergueu um ombro só.
-Não mais do que vocês, só que ele é um velho ressentido, mas vai saber o por quê.
-E sobre o traidor? Afinal, é por isso que estamos aqui, e você sabe alguma coisa. - não era uma pergunta.
-Não muito também, para decepção de vocês. - Ric se remexeu no sofá. -Mas soube que é um demônio infiltrado, não um híbrido, como vocês pensam. Um deles que conseguiu passar pelas barreiras despercebido.
-E você não vai me dizer quem é.
-Eu não sei quem é. - agora ele parecia impaciente. -Meus informantes só descobriram até aí.
-Sua rede não é tão boa assim então. - Alec zombou. -Talvez sua reputação seja equivocada.
-Garoto... - ao ver a expressão de Alec, ele se corrigiu. -Digo, Alec, qualquer outra pessoa falando assim comigo já teria sido chutada daqui sem os dentes. Você tem sorte de ser extremamente bonito.
-Não vai conseguir desviar do foco da conversa com elogios, eles costumam não funcionar muito em mim.
-Tudo bem, então. - Ric riu com os olhos brilhando. -Tem um boato também de que esse traidor pode ter roubado a identidade de alguém.
-Se ele pegou a identidade de alguém, pode ser qualquer um. Até mesmo você.
-Não tente me intimidar no meu próprio território. Tenho fraco por meninos bonitos, mas também tenho limites para o que sou capaz de tolerar. - a voz dele era severa, mas então ele suspirou. -Você confia mesmo em todos que trabalham para Luce? Seu círculo íntimo? Faria sentido se o traidor estivesse mais próximo do que imaginam, não acha?
-Está dizendo que o traidor está entre os capitães?
-Não disse nada, só disse que faria sentido.
Alec remoeu um pouco as palavras e com relutância admitiu para si mesmo que realmente fazia sentido. Eles nunca suspeitariam de um amigo próximo, e assim essa pessoa teria mais liberdade para agir estando fora de suspeita, e com acesso às informações e ao poder do esquadrão e diretamente de Luce.
Mas como Alec iria investigar o círculo íntimo de Luce? Como ele diria que o traidor poderia estar entre eles? Sequer acreditariam naquilo? Era a palavra dele contra a de amigos que se conheciam a muitos e muitos anos.
-Tem mais alguma coisa? - perguntou Alec.
-Não.
Alec olhou desconfiado para ele.
-Eu não quero nada de você, Alec, estava só curioso mesmo... - então aquela máscara de desdém se desfez um pouco. -É que você me lembra alguém, um humano que amei. Só isso.
-Então, você fez todo mundo sair da sala só porque eu lembro do seu amante? - Alec ergueu as sobrancelhas. -Se tentar alguma coisa comigo eu vou gritar e depois socar sua cara.
Ric sorriu com diversão diante das palavras de Alec.
-O que mais me lembra ele em você, é que ele também era um péssimo mentiroso. - Ric riu cortando qualquer que fosse a resposta de Alec. -Está fazendo toda essa pose, mas você não é assim de verdade... Você é gentil. Posso ver. Mas é corajoso também. Poucos teriam a coragem de entrar aqui e agir como você está fazendo.
Alec travou o maxilar. Ele odiava quando as pessoas ficavam analisando ele. Especialmente estranhos agindo como se o conhecesse.
-O que aconteceu com o humano que você amou? - ele perguntou mais para mudar de assunto.
-Ele morreu. De velhice.
Por um momento, Alec pensou em sua situação com Lynx, e imaginou a si próprio envelhecendo e morrendo, e Lynx ficando para trás... Ele engoliu em seco.
-Sinto muito. - Alec foi sincero. - Mas se não tem mais nada a dizer, então vou indo. Obrigado, Ric.
Alec se levantou.
-Disponha. - Ric disse com um sorriso de verdade dessa vez. Talvez não fosse um cara tão ruim, afinal. -Tome cuidado com seus amigos.
Alec deu um último olhar nele e virou as costas.
Saindo das barreiras, Alec tentou encontrar seus amigos. Se é que podia chamá-los assim. Como descobriria se Ric tinha razão? Para isso ele precisava saber melhor a história do círculo íntimo de Luce, antes de chegar a uma conclusão. O problema era que sabia muito pouco. Parado em um canto tentando evitar os corpos agitados lotando o espaço, ele encontrou Levi e os outros parados no bar, bebendo e conversando.
Ele sabia que Levi e Gabriel eram da cidade, tinham nascido e crescido ali, seria muito estranho se tivessem algum motivo para querer derrubar o lugar. E se tivessem, que motivo era esse que fazia com que eles estivessem dispostos a destruir o próprio lar? Angela e Cain por outro lado... Tinham vindo de fora da cidade. Assim como Cadu. Cain talvez não tivesse nada a ver também, pois Lynx mencionou brevemente que ele era apenas uma criança quando veio para a cidade com a avó. E também tinha Lilith, mas de todos, ela era a que Alec menos conhecia. Parecia boazinha, até demais, mas Alec não podia suspeitar dela só por isso e por sua falta de informação a respeito da moça.
Ric também tinha dito que o traidor era um demônio, não um híbrido, até aonde Alec sabia, todos no círculo de Luce eram híbridos. Gabriel, Levi e Cadu eram nephilim, metade anjos. Angela e Cain eram metade demônio e metade anjo. Lilith e os Irmãos Sombras provavelmente eram alguma variação desses.
No entanto, tudo isso poderia ser completamente irrelevante, pois se fosse verdade que um demônio tinha tomado a identidade de um deles, nada do que Alec sabia sobre seus passados e suas origens iria importar, pois um deles não era quem dizia ser.
Ele esfregou a testa e sentiu uma dor de cabeça se formando. Isso não seria nada fácil, mas ele precisava elaborar um plano. Decidiu começar se aproximando deles. Eles seriam responsáveis pelo treino de Alec, então seria uma boa oportunidade para ele ficar de olho. Só esperava que não fosse descoberto, pois não queria nem imaginar o que aconteceria se descobrissem que Alec estava investigando o próprio esquadrão.
Depois de organizar os pensamentos, resolveu se aproximar do grupo. Todos olharam para ele abrindo o círculo para Alec fazer parte da conversa.
-E então? - Levi tinha uma expressão séria. -Ele deu em cima de você?
Não era a pergunta que Alec esperava.
-Quê? Não! - Alec franziu o rosto.
-Ainda bem, Lynx chegaria aqui tocando fogo no lugar se isso acontecesse.
Alec revirou os olhos. Lynx não era do tipo possessivo que saia fazendo barraco de ciúmes. Pelo menos, ele esperava que não.
-Enfim, ele fez muita hora pra falar e no fim me contou algo sobre o traidor, disse que é um demônio e não um híbrido, mas isso foi tudo... - Alec contou a meia verdade se sentindo extremamente culpado. Todos pareciam confiar nele. O suficiente para que ele participasse de reuniões e até entrasse no esquadrão, e ali estava Alec, sendo obrigado a ver todos como possíveis suspeitos.
-Todo esse teatro pra isso? - Cain terminou a bebida dele com um gole só. -Que perda de tempo.
-Não começa, Cain. - Angela censurou ele, que deu um olhar demorado para ela e depois desviou o olhar. A hostilidade entre eles era nítida, mas curiosamente Alec notou que Angela vestia a jaqueta dele.
-É uma ótima notícia. - falou Gabriel. -Pelo menos, não precisamos desconfiar das pessoas da cidade. Só precisamos descobrir onde esse demônio está se escondendo.
-E como conseguiu entrar. - disse Cain.
-Amanhã vamos organizar tropas para vasculhar a cidade, discretamente, não queremos incitar o pânico. - Angela disse.
Alec também resolveu deixar de fora a parte de que o demônio podia ter roubado a identidade de alguém. Ele olhou para todos aqueles rostos. Não conseguia imaginar nenhum deles sendo o culpado, mas as vezes os culpados não pareciam de fato ter culpa. Ele só desejava que, no fim, Ric estivesse errado.
~•☆•~
No dia seguinte, Alec acordou antes mesmo do céu clarear completamente. Era o primeiro dia de seu treinamento, e ele estava muito ansioso. Não só para aprender sobre lutas e espadas, mas também porque começaria discretamente a investigar os membros do círculo íntimo de Luce. Ele não sabia bem como ia fazer isso, só sabia que poderia dar muito, muito errado. Ia partir da premissa de que eles eram apenas eles mesmos, mas caso o boato de que um demônio tinha roubado a identidade de um deles fosse verdade, ele sentia que ficaria cada vez mais óbvio quem era o impostor.
Engoliu o café da manhã com a comida embrulhando seu estômago, tamanha era sua ansiedade. Quando vestiu o uniforme que Luce havia lhe dado no final da última reunião, se sentiu muito estranho, mas a roupa até que caiu bem nele. O material preto colante se ajustando perfeitamente em seu corpo esguio. A insígnia do esquadrão, um par de asas atravessado por uma espada se estendendo no peito, com o broche ao lado. Ele prendeu metade do cabelo em um coque frouxo estilo Eren Yeager. Sentiu como se estivesse fazendo cosplay, e não se preparando para treinar com guerreiros de um esquadrão sobrenatural. Era uma sensação muito peculiar, mas não ruim.
Depois de subir para se despedir de Lynx, ele saiu de casa. Tinha contado tudo a Lynx sobre o que aconteceu na última semana, não pela primeira vez, desejou que ele estivesse acordado.
O dia estava meio quente, mas o uniforme não lhe deixava com calor, o material era estranhamente refrescante. Quando se aproximou da ponte que levava ao castelo de Luce, viu Levi e Gabriel encostados no parapeito, parecendo imersos em uma conversa íntima. Alec diminuiu o passo não querendo interromper, mas Gabriel foi o primeiro a notar sua presença.
-Bom dia, Alec. - ele sorriu, gentil como sempre. O cabelo comprido estava preso em uma trança que caia sobre o ombro. -O uniforme ficou muito bom em você.
-Obrigado. - Alec deu uma olhada em si mesmo, meio sem graça.
-Eu ia dizer a mesma coisa, mas fiquei com medo do Gabriel achar que eu estava dando em cima de você. - Levi tinha uma expressão muito boba em seu rosto. Os cabelos pretos e longos dele estavam divididos ao meio, escondendo sua tatuagem. Seus olhos, branco e roxo, se suavizavam quando ele olhava para Gabriel.
-Se não estivéssemos namorando, você provavelmente ia. - Gabriel apenas o encarou. -Nem adianta negar.
-Sua falta de confiança em mim...
-Shhh. Não é hora pra isso. - Gabriel tampou a boca dele com uma mão. -Pronto, Alec? Vamos te levar até o complexo do esquadrão, onde treinamos.
-Você está bem mesmo? - Levi examinou o rosto de Alec.
-Sim... - Alec os acompanhou pela ponte. -É só que estou começando a me questionar se isso é uma boa ideia. Não sei se vou conseguir acompanhar. Nem caminhada eu faço, imagina começar a lutar do nada. Meu ossos provavelmente vão esfarelar antes de acabar a semana.
Alec estava falando muito sério, mas os dois riram como se fosse brincadeira.
-Tenho certeza que você vai se sair bem. - encorajou Gabriel. -A coisa mais importante você já tem.
-Coragem. - disse Levi antes que Alec perguntasse.
Ele ficou meio envergonhado sem saber o que dizer.
-Eu queria agradecer, por vocês terem aceitado me treinar. - disse por fim. -Sei que tem muita coisa acontecendo, e vocês são ocupados...
-Sem problemas, Alec. - Gabriel fez um gesto descartando a preocupação dele. -Acho que todos nós concordamos que é o melhor. Não sabemos o que está por vir, e acho muito bom que você possa se defender sozinho.
Alec não queria aprender apenas se defender. Isso significaria que ele estava lutando apenas para proteger a si próprio, mas ele queria lutar para proteger os outros também. Porém, preferiu não dizer isso em voz alta, pois sabia que soava ridículo. O nervosismo e a insegurança eram como mosquitos irritantes zumbindo em seus ouvidos, mas ele os espantou e continuou seguindo os capitães.
-E o que vocês vão me ensinar exatamente? - perguntou em vez disso.
-Gabriel ficará responsável por te ensinar combate corpo a corpo, e eu vou ensinar como manusear espadas. - explicou Levi no caminho. -As duas técnicas andam juntas, obviamente, por isso vai aprender os dois ao mesmo tempo. E porque Luce mandou a gente arrancar o seu coro logo no primeiro dia.
-Maravilha. Nada melhor que exaustão física para calar um pouco a mente. - as palavras de Alec saíram com muita naturalidade. Não só por que se sentiu confortável em dizê-las, mas também porque se ele queria se aproximar dos dois, precisava ser sincero de alguma forma.
-Imagino que tenha dito isso por causa de Lynx - adivinhou Levi.
-Você provavelmente já ouviu muito isso, mas vai ficar tudo bem, Alec. - disse Gabriel. -Ele vai acordar logo.
-Espero que sim. - Alec não acreditava nisso no começo, mas talvez ser um pouco mais otimista pudesse ajudar de alguma forma.
Os dois guiaram Alec até o tal complexo que ficava um tanto afastado da cidade. Tinha um muro alto de pedra, e do lado de dentro um gramado se estendia até uma construção quadrada. Gabriel explicou que os treinos eram realizados tanto ao ar livre quando do lado de dentro. As estruturas do prédio eram feitas de pedra escura, muito espaçoso e com um teto incrivelmente alto. Haviam elásticos amarrados em vigas lá em cima.
-Para treinar saltos. - explicou Levi.
Alec, com sua leve aversão a altura, não estava muito animado para essa parte do treino.
O lugar era muito bem equipado, com estantes e mais estantes de armas de todos os tipos. No centro tinha uma espécie de ringue de luta, mas era mais como um pequeno palco baixo. Tinham bonecos, sacos de pancada e alvos. Também haviam banheiros e vestiários.
-É sempre vazio assim? - perguntou Alec enquanto passava por uma fileira de alvos pendurados na parede. -Cadê os outros soldados?
-Não exatamente. - Levi coçou o queixo sem olhar para ele. -Aqueles idiotas...
-Alguns híbridos, principalmente os que cresceram dentro das barreiras, não estão muito acostumados com humanos, Alec. - Gabriel disse com cuidado. -E alguns sofreram nas mãos de humanos também. São poucos, mas existem humanos que sabem da nossa existência, e não são muito amigáveis.
-Acho que já entendi. - Alec se sentiu desconfortável, sentindo como se não devesse estar ali. -Eles não gostam de mim.
-Mas não se sinta mal, eles vão aprender a aceitar você. - Gabriel tentou animá-lo. -Principalmente quando te conhecerem melhor.
-Não são todos que são contra você entrar no esquadrão. - Levi usava o mesmo tom de Gabriel. -Só os mais encrenqueiros, mas já estamos colocando todos na linha.
-Bom, vamos começar? - Gabriel mudou de assunto com um sorriso.
Como estava ficando muito quente lá fora, eles resolveram treinar do lado de dentro.
-Cain provavelmente vai fazer você treinar em baixo do sol escaldante, - avisou Levi. - o que não é exatamente ruim, pois você precisa estar preparado para lutar em qualquer tipo de ambiente e condições climáticas. Mas como hoje é seu primeiro dia, vamos pegar leve. Só não conta pra Luce.
-Você tem alguma noção de autodefesa? - Gabriel perguntou. -Seria um bom ponto de partida.
-Bom, imagino que tudo que aprendi nos animes e videogames não vá ser muito útil aqui. - Alec brincou, coçando o pescoço. -Mas falando sério, sim, sei um pouco de autodefesa.
-Anime? - Levi franziu o rosto.
-Infelizmente, não é tão fácil quanto deve parecer na ficção. - Gabriel deu um risinho, fazendo Alec se sentir uma criança boba levando um ensinamento de um idoso.
-Você sabe o que é um anime? - Levi perguntou a Gabriel.
-Tem alguns livros sobre cultura mundana na biblioteca central.
-Ah, não gosto de ler.
-Enfim, - Gabriel lançou um olhar a Levi, calando-o. - como você sabe, nós lutamos para nos defender de anjos e demônios que tentam invadir a cidade. Porém, os demônios são mais frequentes, e o estilo deles costuma ser diferente dos anjos. Eles são mais agressivos e traiçoeiros, enquanto os anjos são mais diretos e lutam de forma mais limpa, mas não menos impiedosa.
Gabriel começou uma longa explicação sobre a diferença do estilo de luta entre anjos e demônios, chegando até fazer algumas demonstrações físicas com Levi. Ensinando modos de se esquivar e quebrar a defesa do oponente. Como avaliar suas fraquezas e os pontos fortes.
-Já em uma luta com espadas, - começou Levi. - uma das primeiras coisas que você precisa avaliar é o ambiente. Quais são as possibilidades de luta que o espaço oferece, e como usá-lo em sua vantagem. No caso de uma luta ao ar livre, forçar o oponente a ficar de frente para o sol pode ajudar a deixá-lo desnorteado.
-Também vale lembrar que na falta de uma espada, qualquer coisa pode ser uma arma, por isso é bom ficar atento aos seus arredores. - adicionou Gabriel. -Chaves e moedas dão ótimos socos ingleses. Segurar um objeto pequeno na palma da mão também pode ajudar a deixar o ataque mais letal.
Os lábios de Alec se curvaram.
-Isso me parece mais como algo que o membro de uma gangue faria. - disse.
-As vezes é preciso jogar sujo. - Levi riu.
Levi pegou uma das espadas pendurada na prateleira e fez um movimento habilidoso e ágil, a espada se tornou um borrão no ar. Alec acabou descobrindo depois que ela era extremamente pesada, mas eles manuseavam como se fosse um pedaço de graveto.
-Existem oito ângulos de ataque. - disse Levi depois de se exibir. -Mas a primeira coisa que você precisa saber é: jamais tente esfaquear seu oponente logo de cara. Você provavelmente vai perder.
-E o que eu faço se ele tentar me esfaquear? - perguntou Alec.
-Evasão. - respondeu Levi apoiado na espada com a ponta enfiada no chão. -Se seu adversário estiver desesperado o suficiente para tentar te matar, se afaste, desvie. Deixe que ele se canse o suficiente para que seus ataques sejam mais eficientes quando ele estiver cansado.
Alec ouvia atentamente tudo que os dois diziam, e prestava atenção em seus movimentos, mas também os analisava. Não tinha como. Simplesmente não tinha como Gabriel ou Levi serem os traidores. Alec sabia que não devia descartá-los tão rapidamente, mas sentia no fundo de seu coração que eles não poderiam ter nada a ver com isso.
Gabriel era o tipo de pessoa que parecia ter uma paciência infinita. Ele tinha uma aura de gentileza e sabedoria ao redor dele. Antes Alec o via apenas como o subordinado tímido de Luce, mas em pouco tempo passou a sentir muito respeito por ele, e até admiração. Ele era muito bom no que fazia. E Levi... Bom, ele era Levi. Sempre pronto para um comentário idiota, mas nunca com malícia verdadeira. Era também um bom professor quando falava sério, explicava tudo de forma muito simples para Alec acompanhar e respondia todas a dúvidas.
Então já que a suspeita em relação a eles era baixa, Alec resolveu que ia tentar descobrir mais sobre os outros através deles.
-Confesso que estou meio nervoso para treinar com Cain. Ele tem um jeito meio fechado. - ele disse como quem não queria nada, mas se sentiu muito óbvio.
-Ah, você reparou? - Levi falou com sarcasmo.
Os três sentavam em um dos bancos perto da parede enquanto bebiam água depois de algumas horas de treino. Uma coisa importante que Alec tinha descoberto era que ele tinha uma péssima coordenação motora. Mas não ia ficar se cobrando logo no primeiro dia, ia se esforçar para melhorar nos próximos.
-Na verdade, é só uma fachada, ele é um bebezão. - Levi riu enquanto brincava com a garrafa de água. Alec percebeu que ele sempre tinha algo nas mãos inquietas. -Mas ele genuinamente acredita que a gente não consegue ver através dessa fachada.
-Vocês cresceram com ele também?
-Mais ou menos. - respondeu Gabriel colocando sua garrafa do lado no banco. -Ele veio para cá quando éramos criança, mas sua avó não deixava ele sair muito de casa. Ela era meio protetora demais, então só fomos virar amigos dele depois que ele cresceu. Ele só entrou no esquadrão depois que ela morreu, a mais ou menos uns cem anos.
-Pra falar a verdade, nós meio que nos enfiamos na vida dele, ele preferia ficar sozinho, mas parecia solitário demais então... - Levi tinha um olhar distante, se lembrando do passado. -Muitas vezes achei que ele realmente odiava a gente, mas então ele resolveu começar a treinar entrou pro esquadrão. No final toda nossa perseguição deu certo, ele virou nosso amigo.
-Por pura e espontânea pressão. - brincou Gabriel.
Alec pensou. Se vingar porque seus amigos o obrigaram a ser amigo deles não era um motivo plausível de se tornar um traidor. A menos que você fosse muito perturbado da cabeça.
-Cain sofreu bastante antes de vir pra cá. - a voz de Gabriel era solidaria e gentil ao falar sobre o sofrimento do amigo. -Ele e a vó eram constantemente perseguidos por causa de boatos de que ele era cria de demônios. Como descobriram isso, ninguém nunca soube.
-Mas Cain também tem sangue angelical, não é só filho de demônio. - Alec disse.
-As pessoas não sabiam, e talvez não tivesse feito diferença se soubessem. - Gabriel falou sombriamente. -Cain tem um bom coração, mas parece que nem ele acredita nisso.
-As vezes quando você passa tanto tempo ouvindo pessoas diferentes dizerem a mesma coisa sobre você, acaba acreditando. - Alec sabia um pouco como era isso. Passou algum tempo ouvindo coisas desagradáveis dos familiares que achavam que ele estava jogando a vida fora, que em algum momento passou a acreditar que era verdade. Mas aí ele acordou e saiu de casa, então essa falsa verdade se estilhaçou revelando a mentira que era.
-Cain é o tipo de cara que cuida de passarinhos que se machucam batendo em janelas. - Levi bufou uma risada, e Gabriel riu também como se ambos estivessem lembrando de algo específico. -Aquelas pessoas teriam sorte de ter conhecido ele de verdade.
-Ele e Angela parecem gostar um do outro, de um jeito estranho, mas parece. - Alec não sabia ou certo se estava falando isso apenas para saber mais ou porque ele próprio havia notado isso e queria compartilhar com eles. Os dois encararam Alec.
-Gostar? Eles se desprezam. - Levi franziu a testa com incredulidade. Gabriel também tinha o rosto franzido, mas parecia pensativo.
-Devo ter entendido errado, então. - Alec pensou que eles eram todos péssimos com essa coisa de sentimentos, e achou engraçado. -De qualquer forma, Angela me assusta ainda mais que Cain.
-A mim também. - Levi admitiu.
-O temperamento de Angela pode ser meio instável as vezes, mas é compreensível considerando o que ela passou... - disse Gabriel.
-O que aconteceu?
Gabriel e Levi trocaram um olhar.
-Tem coisas que não te matam, mas faz você desejar estar morto. - o tom de Gabriel era sombrio. -Angela passou por uma dessas coisas.
Alec sabia que seria difícil tirar algo deles que pudesse dar uma pista se Cain, ou Angela, eram ou não traidores. Eles eram amigos a muito tempo, e essa era a visão que eles tinham de alguém que confiavam e gostavam. A menos que Cain tivesse mudado recentemente - por ser o impostor - mas eles não estivessem falando sobre isso por ser pessoal demais. Em relação a Angela... Eles, claramente, não se sentiam confortáveis em contar a história dela, pois era algo que só ela podia decidir se queria que as pessoas soubessem ou não.
Mesmo depois de acabar o treino, Alec permaneceu no complexo. Os capitães lhe passaram uma série de exercícios físicos para aumentar a resistência, e ele também ficou repassando algumas lições que aprendeu, embora fosse vergonhoso o modo como ele era desajeitado. Felizmente não tinha ninguém para testemunhar. Foi o que pensou, mas com o canto dos olhos, viu uma sombra na porta, porém, quando se virou não tinha ninguém.
Achando que já está a começando a alucinar de fome, resolveu ir embora, mas antes queria passar na casa de Cadu para visitar Rebeca, pois já fazia muito tempo que não a via. E talvez fosse paranoia, mas sentiu o caminho todo que estava sendo seguido. Tinha muita experiência com perseguição, afinal. Obrigado, stalker demônio.
Ele deu algumas voltas pela cidade não querendo levar seja lá quem fosse para a porta de Rebeca. Só quando teve certeza de que tinha conseguido despistar a pessoa - ou feito com que se cansasse de seguir ele andando em círculos - foi que ele parou na frente da casa de Cadu. Era uma casa bonita de dois andares com cerca baixa.
Alec se aproximou da entrada e bateu na porta.
-Alec! - Rebeca surgiu na porta com uma voz alta e então olhou para trás receosa, e abaixou o tom. -Senti sua falta, amigo. Entra!
Ela guiou ele por um corredor curto até a sala de estar que estava com as luzes acesas. Havia traços da otaquice de Cadu por todos os lados. Mangás e figures, no geral. Era engraçado o vice capitão de um esquadrão de guerreiros ter um boneco do Naruto em uma prateleira na sala.
-Eu também senti a sua. - ele disse enquanto ela sentava no sofá indicando que ele sentasse também. -O que houve? Cadu está doente?
Ela mordeu o lábio. Visivelmente preocupada. A jovem não parecia nada bem. Alec nunca tinha visto ela com olheiras antes. Estava sem maquiagem e as unhas sempre longas estavam mastigadas.
-O que foi, Rebeca? - vários alarmes soaram na cabeça dele imaginando todo tipo de coisa.
-Cadu está muito mal, Alec. - ela estava a beira das lágrimas. -Parecia só uma gripe, mas tem piorado.
-Não existe médico nesse lugar? Você falou com alguém?
-Híbridos raramente ficam doentes. - disse com os olhos avermelhados. -Luce veio vê-lo ontem e disse que tem uma curandeira na cidade, mas ela viajou e ninguém sabe quando volta. Luce deixou alguns chás que aliviam os sintomas, mas... Ele está com muita febre e está delirante, as vezes nem me reconhece.
-Amiga, eu sinto muito. - ele esfregou o ombro dele de modo reconfortante.
-Ele finalmente dormiu um pouco agora. - ela disse puxando os fios soltos no joelho da calça jeans. -Mas estou com muito medo. Não encontrei nada assim nos livros também. Ninguém sabe o que é.
-Ele vai ficar bem, amiga. - Alec tentou passar confiança a ela. -Se eu puder fazer alguma coisa, é só me pedir. Estou do seu lado.
-Certo. - ela esfregou os olhos. -Mas e você? Quais as novas? Eu fiquei um pouco preocupada também, soube o que aconteceu com Lynx... Espera, e esse uniforme?
-Ah é, eu meio que entrei pro esquadrão, e...
Alec fez um breve resumo para ela. Falou sobre seu treino e a investigação deixando de fora a parte de que o suspeito era do esquadrão. Não queria contar a ela que seu namorado doente poderia ser um traidor. Embora no momento, Cadu não estivesse em condições de trair ninguém, aparentemente. Ou talvez a doença fosse o carma.
-Lynx vai ficar muito orgulhoso de você quando acordar, aposto que também vai adorar ver você de uniforme. - eles estavam sentados no sofá, e Rebeca bateu no ombro dele de leve. Alec revirou os olhos, mas sorriu. Em seguida sentiu um aperto no peito.
-Sinto muito falta dele. - Alec admitiu baixinho para ela.
-Eu sei. - ela afagou o ombro dele, a voz gentil. -Ele vai voltar logo, amigo. Acredita.
-Estou tentando.
Rebeca suspirou, sua expressão era solidaria.
-Mas então, você treinou o dia todo? Comeu algo? Deve estar com fome. - ela foi para a cozinha que era dividida da sala por um balcão de granito.
-Não precisa fazer nada! Não estou com fome. - mentiu Alec. Estava com fome, mas pensar em comer algo feito por Rebeca lhe dava arrepios. Como se soubesse disso, ela encarou o amigo com os olhos semicerrados.
-Não se preocupe, não vou cozinhar. - seu tom foi meio ríspido. -Tem suco e bolo aqui, mas o bolo não fui eu que fiz. Foi Lilith. Mas deve estar meio duro porque já faz uns quatro dias que ela trouxe.
-Lilith? - Alec não esperava por essa.
-Sim, ela veio me ver algumas semanas atrás, disse que se sentia mal por ter sido fria comigo e veio pedir desculpas, e aí me deu o bolo como uma oferta de paz. Achei muito legal, na verdade. Só que agora ela vive trazendo bolos. - Rebeca riu apoiada no balcão.
-Isso é meio estranho. - Alec franziu o rosto, mas riu também. -Tipo, achei que só nos filmes que faziam isso, assar bolos como oferta de paz.
-Pois é. - concordou Rebeca com outra risada. -Mas isso parece ser algum costume aqui, a vizinha do outro lado da rua também foi meio grosseira quando descobriu que eu era humana, mas aí depois fizemos amizade e ela me trouxe um bolo também, mas diferente do de Lilith, eu comi.
-Por que não comeu o bolo de Lilith? Acha que ela o envenenou? - Alec brincou, fazendo Rebeca revirar os olhos.
-Claro que não, é porque os bolos que ela faz tem amendoim, sou alérgica lembra? Mas fiquei sem graça de dizer isso, aí só agradeço. - Rebeca tirou o bolo que estava guardado no forno e pegou uma jarra de suco da geladeira. -Não fui muito com a cara dela no início, mas acho que você tinha razão, era só ciúmes. Ela foi muito legal, depois que soube que Cadu estava doente, ela veio me ver e perguntar se eu precisava de algo.
Alec franziu a testa. Por que todas as pessoas de quem ele deveria suspeitar do nada pareciam as melhores pessoas do mundo? Cada vez mais ele achava que Ric estava viajando e a fonte das informações dele eram as vozes da própria cabeça. Porém... De certa forma, isso tornava tudo ainda mais suspeito, pois todos eles eram bonzinhos demais.
-Obrigado, mas não quero suco e nem tô afim de comer bolo de quatro dias atrás.
Rebeca fez um muxoxo.
-Só porque seu namorado assa bolos pra você o dia inteiro se deixar.
-Assava. E ele não é... - Alec desistiu do que ia dizer. Desistiu de parar de fingir também. -Ah esquece, eu quase transei com ele, é meio tarde pra ficar de negação.
-Ah, eu sabia que essa hora ia chegar! - Rebeca deu um gritinho. -Você gosta dele. Gosta muito. E quando ele acordar, espero que você diga isso a ele.
-Não vou dizer nada. - Alec foi tomado pela angústia de novo. -Ele provavelmente só vai acordar depois que eu morrer. Luce disse que pode levar anos...
-Alec. - ela franziu a testa. -Para de ser assim. É muito estranho ver você ser pessimista.
-Eu sei, desculpa. - ele disse se levantando do sofá.
-Não quero desculpas, quero que você fique bem.
-Mas tá tudo bem. - ele engoliu a mentira junto com o nó na garganta. -Vou pra casa agora. Comer comida de verdade e descansar. Estou morto. Se precisar de algo, corre lá em casa. Logo te faço outra visita.
-Tudo bem, seu teimoso, volta mesmo tá?
Alec se aproximou da mesa para dar um abraço de despedida e franziu o nariz.
-Que cheiro é esse? - um odor de algo mofado e pungente invadiu seu nariz.
Ambos olharam para o bolo pela metade, meio esverdeado em cima da mesa e o suco que tinha uma cor amarelo meio aguada.
-Não acredito que você ia me dar comida estragada.
-Faz só uma semana que esse suco está na geladeira, e o bolo tem essa cor mesmo.
-Rebeca, nenhum bolo no mundo tem essa cor, isso tá mofado. - ele fez cara de nojo. -E esse suco tá fedendo mais que mijo de velho.
Rebeca encarou ele e então começou a rir.
-Amigo, me perdoa.
-E com essa tentativa de envenenamento eu me despeço.
-Eu te amo! Desculpaaaa! - Rebeca gritou enquanto ele se afastava dos portões, Alec acenou para ela.
Alec tinha conseguido se distrair naquele dia graças a investigação e ao treinamento, mas agora que estava indo para casa, a saudade de Lynx começava a pesar no peito. Queria vê-lo, mas, ao mesmo tempo, não queria vê-lo naquele estado.
Foi pensando em Lynx que ele viu uma sombra vagamente familiar descendo a rua. Ela andava com as mãos nos bolsos, os ombros curvados e os passos firmes. Parecia suspeita, mas não foi só isso que chamou a atenção de Alec. Foi o fato de que logo ele reconheceu o tapa olho e os cabelos longos. Angela. A rua estava meio deserta naquela área pois era a parte residencial. A luz dos postes estava fraca, mas não havia dúvidas de que era a Capitã.
Ele agarrou a oportunidade e seguiu Angela o mais discretamente que pôde, mas a mulher andava muito rápido e logo Alec a perdeu no labirinto de ruas estreitas. Toda aquela perseguição guiou ele até um beco. Ele realmente estava começando a odiar becos. E odiou mais ainda quando percebeu o que estava vendo.
O odor penetrante de sangue sufocava o ar, tão denso que era possível sentir o gosto metálico na língua. Não havia ninguém no beco, pelo menos... ninguém vivo.
Se tivesse comido alguma coisa durante o dia, talvez tivesse vomitado. A cena era grotesca e ele desejou que pudesse se comunicar com Luce e os outros por telepatia igual Castiel e Lynx, para que eles viessem ver aquilo imediatamente.
Havia um corpo pregado na parede do beco, suas vísceras estavam penduradas para fora por um enorme buraco na barriga. O sangue ainda pingava no chão, e aos pés de vítima um símbolo esquisito havia sido desenhado, provavelmente com o sangue dela. O mais chocante é que se tratava de uma menina, uma adolescente provavelmente. Muito jovem.
Alec engoliu o gosto amargo que subia na garganta e entrou no beco, pegou o celular no bolso do uniforme e tirou uma foto no símbolo no chão e depois da cena. Em seguida, foi para o castelo de Luce chamar ajuda. Não que a pobre garota no beco ainda tivesse salvação, mas ele precisava avisar a eles sobre isso.
Minutos depois Luce estava ao lado dele observando a cena. Seus olhos eram indecifráveis como sempre, mas havia uma fúria contida em sua expressão. Ela mandou uma mensagem aos capitães e ordenou que guardas viessem recolher o corpo para identificar a identidade da garota e avisar a família. Alec fez um resumo para ela de tudo que viu. Deixando de fora, claro, o fato de que a sombra misteriosa que ele vira andar pelas ruas, era Angela.
-Vá pra casa, Alec. - ela disse enquanto a movimentação continuava ao redor da cena do crime. Ele tentou não olhar muito na direção do corpo destruído.
-Mas...
-Não tem muito o que você pode fazer agora, e você já viu o suficiente.
-Tá bom... Eu... Vou indo.
Alec seguiu para a mansão em um estado de torpor. Como se seu corpo não pertencesse a ele mesmo. Ver aquele tipo de cena na ficção é uma coisa. Você sabe que é falso por mais grotesco que pareça, mas ver diante dos seus olhos é impossível de descrever em palavras. O cheiro... Alec ainda conseguia sentir e não achava que fosse esquecer tudo tão cedo.
Foi direto para o chuveiro se sentindo sujo, e depois de esfregar a pele até ficar vermelha foi até o quarto de Lynx. Mas dessa vez não se sentou na cadeira. Ele subiu na cama e deitou ao lado dele absorvendo seu calor pois ele se sentia muito frio. Devia ser frio pelo menos, já que ele estava tremendo.
Alec demorou a pegar no sono, e quando do finalmente adormeceu, foi engolido por pesadelos.
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