Episódio Único

O motor do carro vermelho de duas portas desliga assim que consegue estacionar em um local vago entre duas árvores mortas. O meio-fio daquela rua vazia gritava em solidão, mas sua voz se perdia nas músicas que as ondas do Mar Mediterrâneo cantavam. Kaya Novak abre a porta de seu veículo depois de inspirar uma última vez o perfume do aromatizante em formato de pinheiro suspenso no retrovisor interno. Limão. Seu favorito.

A sola de seus sapatos amarelos vai de encontro ao chão despedaçado de um asfalto sem cor. Conseguia sentir a névoa que cobria aquela estrada tocar a pele de seus tornozelos, bem como conseguia sentir a maresia brincar com os longos e castanhos fios de seu cabelo. Em sua mão direita, seu caderno preto de folhas sem pauta. Em sua mão esquerda, seu gravador de voz. Em sua mente, determinação.

Ao olhar na direção do horizonte, se tornava fácil descobrir o motivo pelo qual foi chamada. Um píer de madeira e enfeitado com um longo tapete vermelho se encontrava na mesma altura que as ondas escuras desistiam do seu avanço contra a terra. As tábuas já não tentavam mais esconder suas décadas de idade e de erosão. Marcas de diferentes tonalidades pintavam a madeira nos exatos pontos onde a maré era mais alta e mais baixa durante o dia. Uma enorme construção se materializava no meio das águas, com sua fundação sustentada por grossos troncos de árvores já extintas.

O Cassino Carmesim.

A placa não era tímida. As letras cursivas brilhavam em luzes neon com diferentes tons de vermelho e branco contra a escuridão da noite ao seu redor. Outras centenas de lâmpadas incandescentes coloriam sua visão com a tonalidade laranja de um pôr do sol. Colunas decoravam as paredes pintadas do mesmo verde das algas que cobriam alguns pontos do píer. A porta de entrada esbanjava um vidro fosco que tornava impossível de olhares curiosos invadirem seu interior.

Seus passos lentos pela areia úmida eram cautelosos, mas decididos. Era capaz de ouvir a areia ser mastigada por seus sapatos, com a pressão de seu peso formar uma pegada no solo tão leve quanto uma cicatriz antiga. Ouvia as ondas do mar cada vez mais vivas a cada passo que dava na direção do horizonte perdido. Ouvia também o ranger do píer quando deu seus primeiros passos sobre as tábuas podres.

Seu rastro de areia úmida some rapidamente conforme avançava no longo tapete vermelho estendido pelo píer. Não demora muito para que a música cantada pelas águas e ondas do mar abaixo de si seja ofuscada pela música guardada pelas paredes do cassino. Ela também sente a vibração das ondas serem envoltas pelo tremor dos passos que vinham do interior da construção iluminada.

Passos. E eram muitos.

Kaya Novak interrompe sua marcha pelo tapete vermelho quando se aproxima o suficiente da porta de entrada. Abaixo de seus pés, sua sombra se dividia em inúmeras cópias de si mesma e cada uma desbravava outras inúmeras direções, quase como sua própria rosa dos ventos. Ela guarda seu gravador de voz no bolso interno de sua jaqueta azul e troca o caderno preto de folhas sem pauta de mão, podendo assim empurrar a porta de vidro fosco com sua mão dominante.

Seus olhos castanhos são recebidos por um ambiente ainda mais cheio de paredes, de lâmpadas incandescentes e de vida. A área interna era ampla, com colunas iluminadas e ilustradas espalhadas uniformemente por todo o ambiente. Diferentes máquinas caça-níqueis cercavam todo o perímetro, quase impedindo a visualização do efeito degradê nos tons vermelhos dos papéis de parede. Mesas longas estavam dispostas por todo o lugar, com diferentes pessoas de diferentes idades que seguravam diferentes cartas. Os demais sentados nas cadeiras portavam ou fichas coloridas, ou dados coloridos, ou notas coloridas. No teto, dezenas de lâmpadas se fundiam e se abraçavam em um lustre rústico circular. Em uma segunda observação, Kaya nota que se tratavam de lemes de embarcações.

Olhando para o fundo de seus olhos castanhos, um homem de meia-idade se encontrava sentado na mesa central daquele salão lotado. Kaya apenas retoma suas passadas quando aquela figura misteriosa sorri.

Enquanto se movia em direção à mesa central, seus sentidos capturavam para si fotografias daquele lugar preso no tempo. Seus olhos admiravam a beleza das decorações nas mesas, nas paredes e no teto, acompanhando as longas lonas vermelhas que dançavam contra a maresia acima de todas as cabeças que circulavam abaixo de si. Seu nariz sentia o cheiro forte de álcool nos drinks de martini servidos em bandejas de prata por moças altas, magras e vestidas de grandes sorrisos e pequenas peças de roupa. Sua respiração tentava acompanhar o mesmo ritmo das vibrações mais graves da música que a atingia de frente. Nenhuma banda era visível, então assume que a melodia do jazz que inundava todo o cassino vinha das jukeboxes espalhadas pelos ambientes.

— Senhorita Novak. — São as primeiras palavras que o homem fala quando ela se aproxima o suficiente para ouvi-lo sem a interferência da música, dos jogos ou dos gritos de derrota e vitória de apostadores das mesas vizinhas. Sua voz era rouca e ela atribui sua origem à idade e ao cigarro aceso que ele segurava entre os dedos indicador e médio. — Boa noite.

Os dedos de sua mão esquerda se contraem contra a capa preta de seu caderno de folhas sem pauta.

— Como sabe o meu nome?

— Que tipo de anfitrião eu seria se não soubesse o nome de todo mundo que entra no meu cassino? — Ele sorri e puxa lentamente o ar do ambiente pelo filtro do cigarro aceso. Suas palavras eram lentas e envoltas de um sotaque napolitano, muito agradáveis de serem ouvidas. — Ainda mais quando é um nome tão conhecido quanto o seu.

Ela decide relevar a segunda parte de sua fala, mas não a ignora. Seu nome era conhecido apenas por um público específico e temido por outro público ainda mais restrito. Ele faz um movimento de cabeça como se lhe convidasse a sentar na cadeira à sua frente. Ela nega o convite em silêncio.

— O mesmo tipo de anfitrião que não se apresenta primeiro diante de um novo visitante do estabelecimento.

Ele solta um sorriso ácido.

Touché, como diria a família de minha finada esposa. — O homem se levanta, e a luz do lustre de leme acima de si faz uma sombra ser derramada pelo seu terno completamente preto e impecável. A única exceção era a gravata vermelha que decorava o seu esterno. Detalhes em forma de crânios e rosas brilhavam contra a iluminação das lâmpadas e dos olhos de Kaya. — Vittorio Salvatore, à sua disposição.

Ele então estendeu uma mão na direção da mulher, que não reagiu em um primeiro momento. Aquela situação era bem diferente da que estava acostumada. Geralmente, seus alvos investigados reagem de maneira mais violenta quando sabem com quem estão lidando. Seus alvos geralmente reagem de maneira mais brutal. Ela esperava tudo, menos um homem bem-vestido e bem-educado oferecendo-lhe um lugar para sentar e lhe chamando de "senhorita Novak".

Era muito comum receber apelidos de seus investigados, mas nenhum se referia a ela como seu próprio nome.

— Nós dois sabemos o motivo de estar aqui, e também sabemos que não veio para perder. — O homem retrai a mão ignorada para si e volta a se sentar. — Então vamos aos negócios.

Esse foi o momento que Kaya se sentou na cadeira oferecida anteriormente. Seu corpo se acomodou no estofado de couro verde e seu caderno preto de folhas sem pauta pousou lentamente em seu colo. Conseguia ouvir risadas das mesas adjacentes, bem como o som de fichas sendo arremessadas contra montes de cartas. Ouvia o som de tapas serem amortecidos pela pele descoberta das coxas de garçonetes desatentas, bem como o tintilar do vidro das taças de vinho e dos copos de whisky ao se despedaçar no chão logo em seguida. O som e o cheiro de festa perturbavam os seus tímpanos a ponto de sentir gosto da própria bile no fundo de sua garganta. Também sentia seu coração pulsar no mesmo ritmo do blues que rondava as mesas e as bebidas.

— Me vença no meu jogo e serei todo seu, investigadora. — O homem de cabelos e barba brancos sorri com um sorriso amarelo. Ele levanta ambas as mãos e puxa ambas as mangas compridas para baixo. Revelou apenas sua pele alva e pálida. — Sou um homem de palavra.

Ela se pergunta se aquilo não passava de uma armadilha. Tudo aquilo poderia ser uma cena, ou até mesmo um truque.

— E de qual jogo estamos falando aqui, senhor Vittorio Salvatore? — Ela avança seus cotovelos na mesa redonda e verde, apoiando seu queixo logo em seguida. — Devo avisar de antemão que sou muito boa com jogos de azar.

Também era muito boa com blefes.

Ela não sabia que ele também era.

— Então vai adorar meu jogo de azar favorito, senhorita Novak. — Ele puxa um revólver preto da bainha de sua cintura e deixa que seu som oco e metálico ecoasse por todo o salão do cassino. O sorriso brilhante e tão incandescente quanto as lâmpadas alaranjadas acima de sua cabeça de fios brancos. — A roleta-russa.

Seus olhos castanhos contornam a arma brilhante disposta no topo da mesa de jogos. Ela assente com a cabeça e com um sorriso aliviado, seguido de uma expiração rápida. Realmente era um truque. Eles eram todos iguais.

Vittorio abre dois botões de seu paletó escuro e elegante apenas para levar uma mão livre até um dos bolsos vermelhos internos. Traz à tona uma bala pequena e áurea, com seu cilindro brilhante que reluzia igual ouro naquela iluminação incandescente. Em um movimento rápido, ele puxa para si a arma da mesa e abre o tambor, revelando seis espaços vazios. Acomodou cuidadosamente a munição dourada em um dos espaços, fechou o tambor e usou uma mão para girar o cilindro de forma que fosse impossível de acompanhar com os olhos o lugar exato no qual estaria carregado. Ele trava o olhar nos olhos de Kaya e leva o cano da arma para a própria cabeça, na altura da têmpora.

Puxa o gatilho.

Click.

Um.

— Sua vez.

Ele joga o revólver na mesa, que desliza lentamente até tocar na pele de Kaya. Ela inspira lentamente, a ponto de sentir dor quando seu pulmão já não suportava mais a entrada de ar. Seus dedos envolvem o revólver por partes. Sua mão direita segura o cabo enquanto a esquerda, o cano. Seu tato analisa o metal brilhante como se sua pele tentasse ler seus segredos. Não era pesada, ao menos não tão pesada quanto as pistolas que usou na academia de tiros. Nunca havia participado de um jogo de roleta-russa até então, mas sabia como funcionava pelas lendas e pelos filmes. Precisava abrir novamente o cilindro que guardava a bala dourada e girar para manter a mesma chance que tinha contra os demais jogadores. Ela leva uma mão em direção ao tambor.

— NÃO! — Vittorio grita de repente, centímetros antes da mulher tocar no tambor quase vazio com sua pele fria.

Ela congela de imediato. Seus músculos travam, sua respiração prende. Apenas seus olhos se movem e vão em direção ao homem à sua frente. A atenção de algumas pessoas das mesas vizinhas estava em sua direção.

— O jogo é jogado com as regras da casa, senhorita Novak. — Sua voz retoma o tom controlado. A rouquidão se mostrava tão presente quanto a sua insanidade. — E a regra da casa é não girar o tambor depois da primeira vez.

Ela olha para a arma que descansava entre seus dedos e leva seus olhos castanhos de encontro ao sorriso amarelo do homem de terno escuro mais uma vez.

Ele tentava provocar medo nela.

Ela sorri.

Ele ainda não sabia que ela não sentia medo há muitos anos.

Kaya ajustou o cano da arma no mesmo ponto que viu Vittorio ajustar, logo na altura de sua têmpora. Ela sorriu da mesma forma que viu ele sorrir para ela. No entanto, ela puxou o gatilho mais rápido.

Click.

Dois.

— Sua vez. — Ela responde no mesmo tom e repassa a pistola da mesma forma para o homem que já não mais sorria.

Ela viu a mandíbula do homem à sua frente se pressionar contra seus dentes e quase foi capaz de os ouvir ranger. As mesas do lado já faziam apostas entre si sobre o resultado daquele jogo de ego e de vísceras. Ouvia seu nome no meio de números e fichas, assim como ouvia o nome de Vittorio, o anfitrião do Cassino Carmesim. Aqueles dentes já eram visíveis mais uma vez, como presas de um predador. Ele segura o cabo do revólver brilhante e seu dedo vai até o gatilho.

Kaya sorri de volta. Ela também era um predador.

Click.

Três.

A música parecia estar mais alta, mas Kaya não conseguia ouvir som algum. Seus olhos estavam concentrados apenas naquele sorriso amarelo, ácido e falso que a recepcionava mais uma vez. Ela aceita a pistola dada de bom grado em um sorriso falso e a posiciona no mesmo lugar. Ela daria qualquer coisa para que aquele sorriso caísse por terra.

Click.

Quatro.

Escutava as fichas coloridas serem acumuladas em montes nas mesas de jogos. Escutava as máquinas caça-níqueis ejetando centenas moedas de cobre. Escutava as mulheres, em seus vestidos pretos e leques de plumas, rirem ao brindarem suas taças de martini enfeitadas de azeitonas verdes. Escutava o caminhar das moças altas e magras que levavam consigo bandejas de prata com seus sapatos de salto alto. Escutava cartas serem anunciadas. Escutava números serem anunciados. Escutava cores serem anunciadas. Escutava o grito de felicidade dos ganhadores e o choro de desespero dos perdedores.

Escutava a festa.

Não escutava a música.

Kaya viu as lonas vermelhas do teto tremerem com a maresia que invadia a construção flutuante. Kaya não viu o dedo do homem de terno escuro tremer quando puxou o gatilho.

Click.

Cinco.

Vittorio sorriu. Não haviam mais chances. Não iria perder seu jogo. No mesmo movimento que ele fez para entregar a arma para Kaya, ela aponta o cano do revólver na direção do crânio do anfitrião da mesa. O movimento foi tão rápido que ele ainda sorria seu sorriso amarelo quando ela puxou o gatilho.

Vittorio Salvatore estava certo. Kaya Novak não estava ali para perder.

Click.

Seis.

Tudo sumiu.

As mesas de jogos. Os lustres de leme. As colunas enfeitadas. As fichas coloridas. Os montes de cartas. Os caça-níqueis cintilantes. As moedas de bronze. As jukeboxes animadas. As garçonetes altas e magras de roupas curtas. As mulheres e seus martinis. Os apostadores vencedores e perdedores. As paredes com tonalidades diferentes. As portas de vidro fosco. A placa neon chamativa. O revólver brilhante envolto de seus dedos vazios.

Não sobrou nada. As estrelas do céu aberto acima de si brilhavam em códigos indecifráveis. Estava rodeada de escuridão e névoa, apenas com algumas mesas e cadeiras ainda de pé na plataforma de madeira escura sem muita sustentação. Alguns móveis sempre estariam presos na fase da negação do que um dia foram, assim como seus fantasmas.

Kaya estava sentada no mesmo lugar que um dia foi um dos maiores cassinos do século passado. Mais de nove décadas depois e não havia mais nada ali que esbanjava o mesmo luxo que um dia foi a grande casa de jogos de Vittorio Salvatore.

— Ganhei. — É tudo o que diz, então puxa o caderno preto que descansava em seu colo e abre uma das folhas sem pauta de seu interior. Em uma única linha no topo da página, escreve em sua letra cursiva "Caso número sessenta e seis: O Cassino Carmesim". Aquela página seria o rascunho do próximo episódio de seu podcast de investigações paranormais em localidades históricas.

Ela levanta da cadeira velha e anda em direção ao píer abandonado, deixando aquela construção escura e sem vida para trás. A ilusão que o fantasma do anfitrião original criou agora era apenas isso: uma ilusão. Já havia conseguido o que queria.

Kaya Novak, investigadora profissional de casos paranormais e narradora do podcast "Supernatural Supernovak", não estava ali para perder.

Seus sapatos amarelos caminham pelos diferentes estados da areia da praia até alcançarem o asfalto despedaçado e esquecido. Quando abriu a porta de seu carro vermelho de duas portas, ela lançou seu caderno preto de folhas sem pauta para o banco do passageiro. Quando ela se acomodou no assento de couro, finalmente puxou o gravador de voz que havia guardado no bolso interno de sua jaqueta azul. O dispositivo pousou no gabinete do veículo entre o para-brisa frontal e o volante. Bastou um botão para que a gravação fosse iniciada.

O trabalho não parava. Tinha muita coisa a relatar para seus fiéis ouvintes, afinal, eles quem sugeriam os locais das suas próximas investigações.

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