7. Curva de Rio

O QUE ERA APENAS UM PONTO MICROSCÓPIO NA INTERNET SE TRANSFORMOU NO PRÍNCIPE TEEN DA MÚSICA SERTANEJA.

E isso só foi possível porque coisas boas e inesperadas acontecem o tempo todo, embora nunca esperemos que aconteçam com a gente ou com alguém muito próximo. Mas assim é a vida. Do nada algo muito incrível e que jamais pensamos que poderia ser possível acontece e tudo ao redor é transformado, mudando completamente os rumos da nossa caminhada. Um verdadeiro presente do céu.

Eu estava na frente da televisão quando o golpe de sorte aconteceu. Foi durante um jogo de futebol, um amistoso entre Brasil e Argentina. Embora a seleção brasileira tenha tido um bom controle do jogo, não conseguiu criar boas jogadas com tanta recorrência. O único gol da partida, que decidiu o placar, saiu nos minutos finais do segundo tempo. Quem marcou foi o camisa dez da seleção brasileira, Wandin Junior. Um golaço, diga-se de passagem. Mas não foi o golaço em si no nosso maior rival nos campos que entrou para a história e sim a maneira como o jogador comemorou o grande feito. No campo, ele reproduziu uma dancinha praticamente inédita até então para o grande público. Aí pronto. Bastou isso para que no dia seguinte todo mundo saísse à procura daquela coreografia. Todo mundo queria saber de qual música era a tal dancinha. E todo mundo que procurou, encontrou, porque em apenas dois dias, o vídeo da música já havia acumulado mais de 10 milhões de acessos, tornando-se um verdadeiro hit viral da noite para o dia. Foi assim que as portas se abriram para Francisco Augusto: Com uma dancinha tosca para uma música tosca que quando gruda na cabeça não sai mais.

Não acho que seja necessário detalhar na integra a letra de Novinha Vem Cá. Até porque esse viral foi só o primeiro passo para o que viria a ser uma carreira muito maior, de grande sucesso no seguimento sertanejo. Sim, Wandin Junior fez o nome de Francisco Augusto acontecer. Ou melhor, Felippe Miller. Pois esse foi o nome artístico que o meu conterrâneo adotou para se lançar no mundo da música. Uma linda homenagem ao pai sanfoneiro que faleceu, Felippe Vicent Miller.

Conforme foram passando os meses, além do novo nome, Felippe também foi mudando a sua aparência. O melhoramento visual, a prova viva de que dinheiro e fama eram capazes de transformar até o mais feio dos patinhos num belo cisne, foi ocorrendo diante de todos, gradualmente. A primeira mudança foi uma cirurgia para corrigir o estrabismo. Depois vieram os dentes novos e um corte de cabelo estilizado, bem moderno. E finalmente um corpo em forma, que foi crescendo gradativamente e que em poucos anos certamente estaria recheado de músculos e tatuagens espalhadas por pontos estratégicos.

O sucesso e a nova aparência do meu ex-admirador não me fez sentir menos repulsa por ele, pelo contrário. Prometi para mim mesma que iria odiá-lo para sempre, nem que isso significasse ter que agir da maneira mais estúpida possível. E foi graças a essa terrível decisão que uma tal pessoa invadiu a minha vida e nunca mais saiu.

Eu estava na sessão de CDs de uma famosa loja de departamentos quando ouvi uma voz feminina falando comigo.

— Oi, com licença. Posso te fazer uma pergunta pessoal?

Até que havia naquela tarde de segunda-feira uma movimentação acima da normalidade na loja de departamentos, mas nenhum cliente estava na seção de CDs além de mim e da garota que se posicionou ao meu lado, uma loira com medidas disformes e olhos azuis deslumbrantes, que devia ter a minha idade aproximadamente e que parecia ter saído de um episódio de Gossip Girl. Ou seja, eu estava diante de uma garota difícil de aturar, com uma visão de mundo completamente diferente da minha, cheia de vontades e mimimis, a própria Barbie fascista encarnada.

A abordagem da garota foi tão repentina que arregalei os olhos e fiquei muda como uma estátua. Não só por conta da sua beleza de cair o queixo, mas com medo dela ter me visto escondendo desesperadamente os CDs de Felippe Miller atrás dos CDs de música cristã, flashback, k-pop ou de qualquer outro artista aleatório que merecesse vender mais que ele. Eu fazia isso sempre, com cuidado, lógico, para não ser flagrada.

Diante do meu silêncio, a loira insistiu.

— Meu anjo, você está surda ou quê? Eu perguntei se posso te fazer uma pergunta pessoal. Anda, me responde. Não tenho todo o tempo do mundo.

— Não sei, acho melhor não.

— Não entendi. Acha melhor não por quê?

— É que eu não te conheço. Você é uma estranha. Não me sinto a vontade para responder perguntas pessoais feitas por pessoas estranhas.

— Ah, cóe? Para de marra.

Rolei os olhos.

— Tá bom vai. O que você quer saber de mim?

— Quero saber em que clínica você fez seu nariz.

— Hã?

— Você fez o seu nariz em que clínica, amor? Qual cirurgião operou você?

— Ual... É muito amável mesmo da sua parte me perguntar isso. Mas não. Eu não operei em lugar nenhum. Nunca fiz plástica.

— Não vai me dizer que esse narizinho arrebitado é original de fábrica?

— É.

— Pelo abdômen de Miller! Que menina de sorte você é.

— Sorte por quê?

— Porque é o nariz que todo mundo quer ter. No meu colégio mesmo a cirurgia sensação do ano foi correção de desvio de septo. Praticamente todas as alunas do ensino médio usaram essa desculpa para arrebitar o nariz. Eu quase entrei na onda também, mas abortei a ideia depois da chata da Polly Caramello aparecer com a face toda estranha. Eu acho que a cirurgia dela não deu muito certo, ou talvez ela tenha mentido e feito mais coisa além do nariz, porque o médico deixou ela com a cara muito zoada, parecendo a boneca Annabelle, coitada, uma verdadeira criação do mal, ou melhor, intervenção do mal. O pior de tudo é que ela jura de pé junto que não fez nada na cara. Pensa que a gente é cega. Mas eu a entendo. Não deve ser fácil mesmo para alguém admitir que a pouca beleza que tinha foi erradicada por um cirurgião incompetente. Meu pai é médico sabe? E, tipo, ele me convenceu a não fazer nenhum procedimento estético por enquanto. Disse que não vale a pena eu me arriscar considerando que meu rosto já é naturalmente lindo. Você acha meu rosto naturalmente lindo?

Pensei por um segundo.

— Uhum. Muito.

— Obrigada. Gostei de você. Como é o seu nome?

— Meu nome é Maria Victória, mas se quiser, pode me chamar de Vick.

— Vick do quê? Sobrenomes são importantes, dizem muito das pessoas.

— Vick Aires. E o seu nome, qual é?

— Francine. Francine Mestrinner.

— Você disse Mestrinner?

— Foi o que eu disse. Algum problema?

— Problema nenhum. É que tipo, um terço dos habitantes da nossa cidade trabalha nas indústrias do grupo Mestrinner, o que faz de você uma das garotas da região de maior poder aquisitivo. Você não tem medo de andar por aí sozinha? É perigoso.

— Por que perigoso?

— Sei lá. Você não tem medo de se expor e ser raptada por uma facção criminosa? Você é a personificação perfeita daquilo que eles chamam de "sangue azul".

— Bobagem. Somos todos iguais. Todos nós temos sangue vermelho. Vem cá, você estuda em qual colégio?

— Estudo no Zenilda Lot.

— Ah.

— E você, estuda aonde?

— No Jovelina Prates. Um colégio bilíngue só para meninas. Fica na rodovia entre Birigüi e Araçatuba. Você já deve ter ouvido falar dele com certeza. É tipo uma Hogwarts para garotas mimadas e convencidas que nunca repetem a roupa.

— Já ouvi falar muito.

— Todas as alunas lá me odeiam. Mas quer saber, eu não me importo. Não me importo nadinha porque elas não têm a metade do ímpeto que eu tenho. Nasci para quebrar tabus, o que eu posso fazer?

— Compreendo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.

— Eu mesma, todo dia, toda hora. Quem escreveu isso?

— É bíblico.

— Tinha que ser. Jesus arrasa. Que foi? Por que você está me olhando assim com essa cara?

— Que cara?

— Essa cara aí de tonta.

— Cara de tonta?

— É. Você está com cara de quem quer falar alguma coisa. Cara de tonta. Pode falar.

— Não. Não é nada demais. É que eu nunca vi na vida alguém ter tanto assunto.

— Ah, sim. É que eu gosto de falar. Eu sou falante. E você pelo visto faz o tipo caladinha, acertei? Vampira antissocial é isso?

— N-n-não... Eu só me acostumei a ficar sozinha sempre.

— Ficar sozinha sempre é ruim, cuidado. Faz com que a nossa vida fique cheia de buracos vazios. Bom, o bate papo tá ótimo, mas justamente hoje eu estou com muita, muuuita pressa. Se precisar de alguma coisa, uma amiga para desabafar, um ombro para chorar, dicas de beleza ou de moda, estou aqui por você.

— Vou cobrar, obrigada.

— Foi um grande prazer te conhecer, Vick Aires.

— Que isso. O prazer foi meu.

— Não, meu anjo, você não está entendendo. O prazer foi todo meu porque ele é só meu, sempre. Tchau, a gente se vê.

— Tchau, tchau.

— Ah, sim e por gentileza: Nunca mais na vida volte a esconder os CDs do Felippe Miller no fundo do expositor. Porque se algum dia eu ver você fazendo isso outra vez eu mesma arrebento a sua clavícula com as minhas próprias mãos.

E foi assim que eu conheci Francine Mestrinner, a garota que conseguiu em cinco minutos desconstruir tudo aquilo que eu imaginava de uma it Girl.

Na noite daquele dia, enquanto arrumávamos a mesa para jantar, contei para tia Carmem as primeiras impressões que tirei de Francine.

— Você tinha que tá lá para vê-la de perto, tia, que garota mais chique. Ela deve ser multimilionária com certeza. Foi embora da loja parecendo a Princesa Leopoldina e quando saiu lá fora entrou num carro deslumbrante com vidro preto, que tava esperando por ela no outro lado da rua, totalmente demais, parecia cena de filme. Sabe onde ela estuda? No Colégio Jovelina Prates. E sabe o que eu descobri pesquisando na internet? Que só a mensalidade custa oito salários mínimos! Isso é muito dinheiro, muito dinheiro mesmo.

— Eu não quero ver você zanzando pra cima e pra baixo com esse tesouro de porcaria, Maria Victória.

— Que isso, tia? A senhora sempre disse que a gente deve amar o próximo.

— Amar o próximo não tem nada a ver com afinidade. Quero você bem longe dessa gente, tá me ouvindo?

— A senhora vai me desculpar, mas não vejo necessidade nenhuma de manter distância. Eu li que os Mestrinner, além de ser uma família superimportante, são muito encantadores também.

Tia Carmem colocou na mesa a travessa de macarrão colorido com cenourinha e tomate seco.

— Maria Victória, pare de inventar coisas na sua cabeça. Você e essa tal de Francine não vão andar junto, ponto e acabou.

— Credo, tia. Que proibição mais injusta. Você nem conhece a menina pessoalmente.

— Não a conheço, mas conheço a fama. Péssima, por sinal. Mais suja que água do cocho. Um verdadeiro barril de pólvora, isso é o que ela é.

— Tia!

— O que é uma pena, pois conheço o pai dela e me pergunto todos os dias como um homem tão centrado trouxe a vida uma filha tão desequilibrada. No último almoço da associação das mães samaritanas eu soube por fonte segura que por causa dela, ele e a esposa decidiram parar de ter filhos.

— Deve ser boato.

— Não tem cara de boato.

— Certeza que é. Pessoalmente Francine me pareceu ter um coração de ouro. Com exceção da parte em que ela disse que quebraria a minha clavícula. Mas tenho certeza que ela só tava brincando. E não sei por que a senhora continua frequentando o clube das mães samaritanas. Eu cresci ouvindo da senhora que não devemos dá ouvidos as más línguas.

— É verdade. Mas também cresceu ouvindo de mim que é muito feio uma criança questionar um adulto do jeito que você está fazendo agora.

— Não sou criança mais. Sou adolescente.

— Que ótimo que você tem ciência disso. Porque é justamente na adolescência que mais supervisão se faz necessária.

— Não vejo a hora de fazer dezoito anos logo para essa marcação cerrada acabar.

— Maria Victória, chega! Eu não vou permitir que você seja arrastada por uma delinquente para o caminho que leva até o diabo.

— Uma onda não pode mudar o sentido da maré, tia.

— Uma onda não, mas uma correnteza pode. Agora basta. Não quero ouvir mais nem um pio sobre esse assunto.

Não teve jeito. A palavra final era sempre a de tia Carmem. O que era lamentável, considerando que Francine Mestrinner tinha sido a única garota que agiu gentilmente comigo por livre e espontânea vontade durante o ano todo. A propósito, iniciei o segundo ano do ensino médio e minha classificação social escolar continuou exatamente igual. Ninguém queria ser amiga da aluna excluída que ocupava a última carteira da sala. Ninguém.

A minha sorte era fazer parte dos Banhados pelo Sangue do Cordeiro, um coral de vozes formado pela pastoral da música lá da nossa igreja, que supria a carência causada pela falta de amigos na escola. Embora eu nunca ganhasse solos era gratificante e enriquecedor fazer parte do coral. Além de cantarmos na missa, cantávamos também em casamentos cristãos e às vezes até em velórios. Havia o cursinho de flauta também, todas as terças na Casa da Cultura, mas eu não curtia muito por causa de um aluno na minha turma que me torrava a paciência, chamado Guizinho, que não bastasse conversar com objetos também dirigia um possante imaginário.

O verão estava quase terminando quando uma ligação telefônica trouxe de volta para a minha vida a correnteza capaz de mudar completamente o sentido da minha maré.

Tia Carmem me gritou do seu quarto.

— Pombinha, vem cá!

Fui até lá e parei na porta.

— Oi, fala.

Ela terminava de pentear o cabelo em frente ao espelho da penteadeira.

— Preciso ir urgente até a igreja. Você me acompanha?

— Ir à igreja hoje, tia? Fazer o que lá?

— Padre Aleph me ligou. Ele quer conversar comigo pessoalmente.

— O que houve?

— Ele tem um convite a me fazer.

— Um convite pra quê?

— Não sei ao certo ainda. Mas ele me disse que tudo faz parte de um plano que Deus preparou para mim. Não é lindo?

— Um plano?

— De Deus!

— Um plano de Deus?

— Um plano de Deus, Maria Victória.

— Tá, e o que isso significa?

— Oras! Não sei explicar o que isso significa. Padre Aleph não entrou em detalhes comigo. De qualquer forma isso não me preocupa nem um pouco. Porque especialmente na manhã de hoje acordei me sentindo muito, muito abençoada, mais abençoada do que me sinto normalmente. Creio que Deus tenha preparado para mim algo muito especial.

— Ah, tá, saquei. Tipo, um presente dos céus?

Ela sorriu radiante

— Isso! Um presente dos céus! E então, vem comigo desfazer o embrulho desse presente ou não?

— Ai, tá bom, eu vou. Mas espera eu me trocar.

Só mesmo Padre Aleph para fazer tia Carmem correr com o fusca em alta velocidade. Por esse padre minha tia era capaz até de furar o sinal de trânsito. Também não tinha como ser diferente. Deus me perdoe se eu estiver pecando, mas qual beata resiste a um padre na flor da idade do tipo fetiche, que canta incrivelmente bem, que veste camisa xadrez e jeans apertada quase todo o tempo, barba de lenhador perfeitamente cultivada e que pratica crossfit para manter o físico malhado, alimentando o desejo carnal e pecaminoso das fiéis, fazendo com que elas virem noites pensando naquilo que se esconde debaixo das batinas?

Era por volta das dez da manhã quando chegamos à igreja. Padre Aleph recepcionou a gente na sala de reuniões, cheiroso como sempre e com sua beleza abençoada por Deus, capaz de derreter corações. Não participei, mas ouvi toda a conversa.

— O Senhor quer me pôr na direção da pastoral da juventude? — Tia Carmem indagou com renitência depois de ouvir qual era o presente que Deus havia preparado.

O padre tocou a mão levemente sobre a mão dela que estava em cima da mesa e a acariciou.

— Isso mesmo — ele disse.

— O que motivou o senhor a tomar uma decisão tão inusitada?

— Venho acompanhando de perto seu trabalho, dona Carmem, tanto aqui na catequese da nossa igreja quanto no rádio.

Ela pareceu desconcertada.

— Ora, o senhor nunca mencionou antes que ouvia meu programa.

— Estou mencionando agora. Sim, Carmem. Toda segunda ouço seu programa. Sou seu mais fiel dos ouvintes. Não perco um. Aliás, foi através dele que cheguei à conclusão óbvia que não existe uma pessoa mais preparada para ajudar nossos jovens a fazer a caminhada na direção certa se não a senhora.

— Mas será que os nossos jovens verão isso com bons olhos?

— E por que não veriam?

— Não sei. Será que não seria melhor nomear um integrante que já esteja envolvido com a pastoral de jovens há bastante tempo? Uma pessoa com idade compatível com a deles, por exemplo?

— Não. Não dá certo. Já tentamos isso.

— Mas Padre...

— A pastoral da juventude necessita de um mediador com experiência de vida. Alguém capaz de colocar numa cabeça de minhoca que não existe outra coisa que leve a felicidade se não Deus. Que tenha sensibilidade e pulso firme para fazer o ardor religioso de adolescentes pegar no tranco. E esse papel só um adulto é capaz de exercer. Que foi, Carmem? A senhora não me parece feliz.

— Estou feliz por ter sido lembrada, Padre, mas não sei se sou capaz de lidar assim tão de perto com tantos adolescentes nessa idade.

— Não diga isso. A bíblia ensina que não devemos ser tão temerosos.

— Pois é verdade. O mundo está mudando num ritmo que eu não consigo mais acompanhar. Essa geração nova que está aí... É tão complicado entendê-los.

— Você tem toda razão. O mundo está mudado, Carmem, mas para muito pior. Existe uma ausência de Deus muito grande. É lastimável, mas os jovens de hoje estão em desequilíbrio emocional o tempo todo. Pensam que o silêncio da morte pode acabar com o sofrimento. Por sinal um erro gravíssimo, pois o que esperam por eles na sombra do vale da morte é oito vezes pior que qualquer sofrimento aqui na Terra.

— Sim, Padre.

— É por essa e outras razões que devemos interceder por eles. E por isso que depois de muito refletir cheguei à conclusão que uma mulher adulta é a melhor pessoa para assumir esse compromisso. Carmem, sua consciência cristã é tão pontual. As ovelhas do nosso rebanho têm muito que aprender com a sua sabedoria.

Eles ficaram por um tempo se encarando olho no olho.

— Será que darei conta do recado, Padre?

— Sem margem de dúvida. Tarefa fácil não vai ser com certeza, mas acredite: A senhora é a melhor pastora para manter nossas ovelhas do lado de cá da cerca. E não sou eu que estou afirmando isso.

— Não?

Padre Aleph negou com a cabeça.

— Não. E posso te revelar um segredo?

— Sou toda ouvidos.

— Quem te preparou essa missão foi Ele. É Deus quem quer te ver lá, Carmem. Não eu.

Abençoado seja o poder de persuasão de Padre Aleph, pois na semana seguinte lá estava tia Carmem rezando pela presença do Espírito Santo para que fosse iluminada para a preparação de sua primeira reunião em grupo da pastoral da juventude para jovens católicos. Obviamente fui com ela junto, praticamente um braço direito. Era uma turma mista de vinte integrantes, com idades entre quinze e dezenove anos, todos crismados. Aqui vai uma explicação bem resumida para quem não entende nada sobre escola de iniciação católica.

A iniciação que ensina os princípios da igreja católica começa por volta dos oito anos de idade e se chama catequese. O período que costuma durar dois anos serve como preparação para recebermos nossa primeira Eucaristia, que no rito católico significa receber o corpo e o sangue de Cristo, representados por um pedacinho de pão e um pouquinho de vinho, sem teor alcoólico obviamente. Nesse tempo, as crianças aprendem por meio de uma cartilha educativa o que é Deus, o que é a bíblia, o que é a igreja, quem é Jesus, quem são os santos católicos e suas influências nas pessoas, a importância da moral e da ética para com o próximo e um montão de outras coisas. Depois vem a crisma, a confirmação do batismo, ou seja, é quando decidimos se queremos ou não permanecer católicos. Durante a crisma recebemos o chamado de Deus com grande aceitação, confirmando nossa caminhada na igreja. Nessa etapa onde já somos quase adolescentes ficamos mais dois anos estudando com participação ativa em causas sociais e religiosas. Quando o adolescente é decretado definitivamente crismado, ele fica livre para pensar em outras coisas além da igreja. Ou, se preferir, ele pode continuar no caminho do Senhor e se envolver com alguma célula de oração ou alguma pastoral, igual eu fiz. E não posso me esquecer de dizer que antes do sacramento da catequese e da crisma, devemos confessar nossos pecados mais cabeludos ao padre.

Diferente da catequese e da crisma, o foco principal da pastoral da juventude não era o ensino religioso puro e simples, mas sim a troca de experiências vividas. Minha tia ciente disso começou o primeiro dia propondo uma dinâmica de acolhimento. Para melhor integração ela nos pediu que alinhássemos nossas cadeiras formando um grande circulo, de modo que usássemos da melhor maneira possível o espaço da sala que o padre nos concedeu para a realização dos encontros. O nervosismo da estreia não foi suficiente para mortificar o bom domínio que tia Carmem tinha da linguagem oral.

— Tudo pronto, acho que podemos começar. Mas, antes de tudo, gostaria de dizer que estou muito contente de me reunir com vocês aqui hoje. É uma satisfação muito grande liderar a pastoral da juventude e desejo de coração transformar esse grupo num local onde todos se sintam a vontade para compartilhar sua fé, seus sentimentos, suas alegrias, frustrações, seu clamor a Cristo... Bom, para começar com o pé direito que tal uma breve apresentação individual de cada um?

Vou pular os detalhes da parte das apresentações individuais, pois a maioria dos indivíduos ali parecia ser uma versão da mesma pessoa, com os mesmos objetivos de vida e mesma linha pensamento. Contudo havia dois que se destacavam dos demais por terem características singulares. Guizinho era um, o que fazia dele uma verdadeira perseguição na minha vida. Não bastava ter de aguentá-lo às segundas na aula de flauta, agora teria que conviver com ele todas às quintas-feiras também. A outra que destoava dos demais era Miguela Baroni, a garota albina. Ela era albina mesmo, de verdade. Sua palidez era tão notável que quando passava pelas ruas todos ficavam espantados.

Mas não era apenas por seu biótipo impar quase inumano que Miguela chamava tanto a atenção de todos. Destacava-se também por causa dos seus discursos inacreditavelmente moralistas.

— Oi pessoal, meu nome é Miguela, tenho dezesseis anos e Deus me trouxe até aqui porque estou cansada de viver num mundo com tanta vagabundagem e sem-vergonhice. O que eu puder fazer para mudar essa realidade, eu farei. Obrigada.

Dito e feito. Miguela rapidamente assumiu a posição de defensora dos valores éticos e morais, o que fez dela o principal símbolo de conservadorismo da turma, algo que se encaixava perfeitamente naquele cenário, embora muitas vezes seus discursos inflamados passassem um pouco do ponto.

Com o tempo fui notando que vestidos longos, feitos de tecido leve e esvoaçante, era a moda favorita de Miguela, porque toda quinta ela aparecia com um modelo diferente. Mais tarde, pesquisando na internet, descobri que essa forma de se vestir chamava-se boho chic, um estilo inspirado nos ciganos, mas também muito associado aos hippies.

Duas garotas que frequentavam a pastoral, Yanka e Bia Stefanie, passaram a seguir Miguela como se fossem a sua sombra. E com o passar do tempo também se tornaram adeptas a mesma moda.

Era comum em nossos encontros de grupo as três surgirem com chás diuréticos em copos ecologicamente sustentáveis, cortesia de uma marca de alimentação saudável da qual a família Baroni investia muitas ações. Eu apostava tudo que o chá era a única refeição diária delas porque nunca vi de perto meninas saudáveis ficarem esqueléticas em tão pouco tempo.

Durante a tarde de uma terça-feira, em frente à casa de cultura, esbarrei com Miguela e mais uma trupe de gente na caçamba de uma picape. Todos vestidos com looks patriotas. Ou seja, jeans, óculos de sol e camiseta da seleção brasileira de futebol.

Miguela abriu um sorrisão quando me viu e depois gritou a vasta distância.

— Vem, Vick. Junte-se a nós, vem!

— O que vocês estão aprontando?

— Estamos indo para uma manifestação. Vem! Vai ser legal. Ensaiamos uma coreografia incrivelmente sincronizada pra dançar na praça. Coreografia de cidadão do bem. Com passos de axé sem vulgaridade.

Forcei um sorriso.

— Agradeço o convite. Mas vou deixar pra uma próxima.

— Ué, por quê? Você não é uma cidadã do bem?

— Eu sou uma cidadã do bem. Uma cidadã e tanto.

— Então?

— Então que não sei dançar.

— Ah, deixa disso. Vem só pra assistir então. Vai ser um estouro!

— Melhor não.

— Tem certeza? Vai tá cheio de gente jovem interessante lá, crescidos em ambiente familiar sólido, polido e centrado em valores morais. Eu não perderia essa se fosse você.

Yanka reforçou o convite.

— Vem, Vick. Depois da dança vamos fazer um fogaréu com livros lgbts.

— E queimar um outdoor da globolixo — completou Bia Stefanie.

— Deixa isso quieto, gente. Na próxima eu vou. Eu juro.

Miguela deu-se por vencida.

— Tá bom. Não quer, não quer.

E então toda a trupe patriota pousou para uma selfie. Todos fazendo pose igual, da arminha com a mão apontada para o alto.

Antes de sair de cena, Miguela deixou avisado:

— Dessa vez você fugiu, Vick, mas semana que vem faremos uma marcha antivacina pela cidade e contamos com a sua presença lá. Bye, bye.

Com um pouco mais de um mês a frente da pastoral da juventude, tia Carmem comprovou ser capaz de levar aqueles jovens à superação de suas crises, ao crescimento e ao progresso espiritual, sempre com amabilidade e paciência esperançosa.

A hora da partilha era o momento que a gente mais se divertia.

— Hoje vocês vão agradar em casa — tia instruiu. — Vão chegar pra mãe de vocês e dizer, "eu te amo". E depois "mãe, você cortou o cabelo! Ficou tão bonita!". E vão dizer a mesma coisa para o pai de vocês também.

— Ah não, dona Carmem. Mó mico isso aí.

— Mico por que, Ernesto? Se não tem coragem de dizer, escreve um bilhetinho e deixa na porta do carro do seu pai. Tenho certeza que ele vai ficar muito contente.

— Vish, se eu fizer isso, dona Carmem, eu até sei o que ele vai dizer pra mim. "Filho, que frescura é essa? Se quer dinheiro não precisa mandar recado, é só me pedir. Claro que a minha resposta para você será não."

E todos riram.

— Pode crer — Inácio falou. — Se eu chegar em casa e disser "pai, eu amo você", ele vai pensar que eu tô virando boiola.

E mais risos.

— Eu conheço o pai de vocês todos — tia Carmem afirmou. — E sei que eles jamais diriam isso.

Angelique levantou a mão.

— Meu pai não tem cabelo, dona Carmem. Como é que eu faço para elogiar?

— Muito simples. Tasca um beijo na careca do seu pai. E fala assim para ele: "Pai, sua careca está tão lustrosa hoje que está doendo até a bolota do zóio".

E mais e mais risos.

Como se viu, tudo estava saindo melhor que a encomenda. Contudo, a chegada de uma nova integrante à trupe fez com que minha tia desembarcasse de sua sanidade.

Nesse dia, Padre Aleph interrompeu a reunião da pastoral, roubando a atenção de todos com seu típico bom humor. Estava acompanhado de uma mulher que devia ter só um pouco mais idade que ele, uma loira que lembrava as brasileiras sulistas, de rosto cheio e curvas avantajadas.

— Oi, tô na área, com licença, desculpa interromper.

Tia Carmem parou tudo o que estava fazendo só para atendê-lo.

— Se achegue Padre.

— Carmem, se importa se eu atrapalhá-los só um minutinho? Gostaria de lhes apresentar uma nova ovelha que Deus trouxe para se juntar ao nosso rebanho.

A mulher loira levantou o dedo.

— Minha filha!

Tia Carmem suspirou, animada.

— Oh, que maravilha! Nosso rebanho está crescendo. Onde ela está?

Tive a impressão de que a mãe da tal ovelha apenas percebeu que a criação não estava presente entre nós quando tia Carmem perguntou dela. A mãe então foi lá fora buscá-la, gerando grande expectativa em todos.

— Filha vêm — ouvi a mulher loira dizer do corredor.

Ela retornou à sala acompanhada de uma espécie de fotocópia dela mesma, pois sua filha — que mais uma vez pareceu ter saído de um episódio de Gossip Girl — era fisicamente idêntica.

Tia Carmem se levantou da cadeira.

— Que encanto de menina! Diga para nós o seu nome, coração.

A garota que entrou pisando firme e de queixo erguido, sem descruzar os braços respondeu:

— Francine. Francine Mestrinner.

Eu não resisto estudar a expressão facial de tia Carmem toda vez que ela recebe certas notícias com determinado espanto, mas naquele dia não deu tempo para fazer isso, já que caiu dura no chão um segundo depois de ouvir o nome da ovelha recém-chegada. Apesar dessa cena cômica, minha tia nada pode fazer se não engoli-la. E embora tivesse seus receios em relação à Francine, nunca a deixou de tratá-la com educação e bondade. Mas isso só na frente dela, porque pelas costas descia o pau.

— Eu não quero te ver enrabichada com aquela raiz encardida, Maria Victória. Eu não quero. Eu não te criei pra isso.

— Tá, mas a senhora não acha que essa seria a oportunidade perfeita para eu amplificar meu mundinho?

— Não coloque a carroça na frente dos bois, Maria Victória, você ainda não tem maturidade para amplificar nada.

— Aff! Acho que eu nunca desejei tanto ter dezoito anos para ser independente logo.

— Outra vez essa conversa? Deixe-me esclarecer uma coisa. Não pense que eu vou soltar você por aí para fazer tudo o que quer só por conta da maioridade. Independente de você ter dezoito, vinte e oito, cinquenta e oito... Enquanto você estiver vivendo debaixo deste teto, comigo te sustentando, lavando suas calcinhas, você vai me obedecer e prestar satisfações. Agora chega de boquejar.

— Mas...

— Nada de "mas". Essa conversa está encerrada.

Em todos os encontros da pastoral fazíamos um intervalo de vinte minutos para um coffebreak rápido. A gente mesmo era quem levava os beliscos e os refrigerantes. Tentei fazer a egípcia para Francine Mestrinner, bebericando e mordiscando em silêncio meio que de canto, afinal eu estava proibida de conversar com ela. Mas acabou que não deu muito certo.

Quase me engasguei com um pedaço de pão quando Francine me abordou para conversar.

— Oi — ela cumprimentou sorrindo.

— Oi — eu respondi bem seca.

— Você tá lembrada de mim? A gente se trombou uma vez numa loja de CDs.

— Lembro não.

— Como não?

— Tenho memória de passarinho, desculpa.

— Talvez isso refresque a sua memória: Eu sou a garota que te flagrou escondendo CDs do Felippe Miller no fundo do expositor da loja. Eu dei um tapa na sua mão e ameacei quebrar a sua clavícula. Lembrou agora?

— Ah, sim, lembrei de você. E aí, quebrando muitos tabus pela vida?

— Nem te conto. E você, ainda gosta de ficar sozinha sempre?

— Uhum. Fiz do hábito meu mecanismo de defesa.

— Que pena.

— Pena por quê?

— Porque eu queria que a gente se tornasse amiga de verdade a partir de agora.

— Amiga?

— Sim. Melhores amigas. Você topa ser a minha melhor amiga?

— Eu?

— É, você. Cê topa?

— A troco de que você me quer como amiga?

— A troco de nada. Não sou esse tipo de pessoa. E aí, quer ser minha amiga ou não?

— Não sei.

— Não sabe por quê?

— É complicado.

— Não tem nada de complicado.

— Tem sim.

— O que é complicado? Pode falar. Espera! Não vai me dizer que você quer ser uma vampira antissocial para o resto da vida?

— Talvez.

— Ah, não é possível, você tá mentindo.

— Tô não.

— Tá sim.

— Não tô.

— Tá!

— Não tô...

— Tá sim! Acabei de fazer uma leitura a frio de seus microgestos e todos eles apontaram que você está mentido.

Dei-me por vencida.

— Tá bem, eu tô. Tá satisfeita agora?

Todos ao redor olharam disfarçadamente para nós e depois voltaram para suas conversas de antes. Será que tia Carmem também estava de olho na gente?

— Eu sabia. Quem na vida se torna vampira antissocial por livre espontânea vontade? Seguramente ninguém!

— Pois é! Faz quase dois anos que estou tentando me ajustar sem sucesso na escola e não aguento mais essa vida. Minha alma está em profundo desespero e não sei como consertar isso.

— Deixe estar, Vick, deixe estar. Em breve viveremos dias gloriosos, isso se você confiar em mim, é claro. Me passa seu número?

Depois de anotar meu número, ela me ofereceu um potinho com biscoitos de leite.

— Pega um. São ansiolíticos. Foi minha mãe quem fez. Estão deliciosos. Não entendo porque aqui ninguém come nada trazido por mim. Mas azar o deles, não sabem o que estão perdendo. Vick, o que vai fazer no sábado?

— Não tenho nada marcado.

— Perfeito. Faremos o nosso primeiro rolezinho juntas neste sábado. Já foi tomar caldo de jegue alguma vez?

— Só ouvi falar.

— Meu Deus! Como ainda pode existir alguém nessa cidade que nunca tenha ido tomar caldo de jegue? A gente tem o melhor caldo do Estado de São Paulo.

A partir de então o papo furado transbordou. Viramos melhores amigas tão depressa que de repente não conseguíamos mais viver nem um único dia sequer sem conversar uma com a outra. Evidentemente tia Carmem tentou repelir a ideia, cortar o mal pela raiz, entretanto, por respeito às regras de integração, acabou fazendo vista grossa. Não sei como isso foi possível, mas ela até me autorizou a dormir na mansão da família Mestrinner, que certamente a levou a ter uma noite nada boa de sono, pois foi a primeira vez que fiquei um final de semana inteiro fora.

Eu pensava que a única insatisfeita com essa amizade acidental fosse tia Carmem, mas outra pessoa também se mostrou bastante incomodada. Foi no banheiro da igreja que Miguela Baroni me parou para abordar o assunto. Ela se opôs a frente de mim acompanhada de suas súditas inseparáveis.

— Você consegue ficar de bico calado se eu te contar algumas coisinhas?

— É sobre o quê? — perguntei, acuada.

— Não é sobre o quê — disse Yanka.

— É sobre quem — disse Bia Stefanie.

— Tá, sobre quem vocês querem falar?

Os olhos translúcidos de Miguela recaíram sobre mim de um jeito que era de arrepiar.

— Francine Mestrinner. Na boa, se eu fosse você, teria receio de mantê-la por perto o tempo todo.

— Jura?

— Uhum.

— E por que você teria receio?

— Sei lá, tipo, manter Francine por perto é pedir para pegar faminha.

— Que tipo de faminha você tá falando?

— Você ainda pergunta? Fama de piroqueira, óbvio. A Francine é uma vadia descarada e sem escrúpulos. Pensei que você soubesse.

— Eu e Fran somos amigas. Já o que ela é ou deixa de ser é problema dela.

— Olha, deixe-me te contar uma coisa que talvez você não saiba. Eu estudo no mesmo colégio da Francine. Éramos amigas inseparáveis até um tempo atrás e posso te afirmar com todas as letras do alfabeto que ela é a garota mais falsa e manipuladora que eu já conheci.

— Será que você não fez uma ideia errada dela? Ela me parece uma pessoa muito legal.

— Ela não tem nada de legal. Uma vez ela reuniu várias alunas no vestiário do ginásio aquático e começou a me difamar com as piores barbaridades, sem desconfiar que eu também estava lá dentro escondida, atrás de um armário, ouvindo tudo. Ela fingia ser minha amiga, mas na realidade ela nunca gostou de mim porque a minha familia é muito mais rica que a dela. Vick, sou uma pessoa que procura sempre manter um olhar atento para os pequenos detalhes e vejo que o Diabo colocou a Francine em seu caminho unicamente para acelerar seu processo de vulgarização.

— Nossa, será?

— Você ainda tem dúvidas? — disse Bia Stefanie. — Ela é a representação de tudo o que existe de errado nas jovens atuais.

— O sabor dos frutos de determinadas árvores causa grandes transtornos, Vick — Yanka interveio. — É por isso que nós, meninas de família, precisamos ficar vigilantes, sempre.

— Vou anotar isso num caderninho, obrigada.

Miguela apertou os lábios.

— Bom, Vick, era esse o conselho que tínhamos para você. Qualquer coisa, se precisar, é só gritar. E não se esqueça de que unidos somos sempre mais. Nós estamos todos juntos nessa.

— Lembrarei disso, com certeza. Com licença.

Num sentido, Miguela tinha razão. Pegar fama de piroqueira não era legal. Afinal, não é essa a reputação que mães e pais desejam para as suas filhas. Mesmo assim preferi pegar os conselhos dela e esconder no fundo da gaveta, por enquanto pelo menos. Sobre Fran ser uma vadia descarada e sem escrúpulos, bom, isso já era uma questão de ponto de vista. Eu não acho que ser perita em linguagem corporal, saber usar seus movimentos corporais cuidadosamente aprendidos a favor de sua beleza ou ser capaz de arrancar um sim de quem quiser, faça de alguém uma vadia. Agora tentar envenenar uma pessoa contra outra, isso sim.

A convivência diária me mostrou que Francine era uma garota com possibilidades financeiras para ter a agenda pessoal sempre lotada, com mil e um compromissos e programas, de segunda a segunda. Sendo ela a síntese do glamour e da ostentação, não me restava dúvidas de que ao atingir a maioridade se transformaria na garota que daria festas badaladas e apoteóticas. Por hora, ela se contentava gastar seu tempo livre fazendo maratonas pelos shoppings locais. Aliás, era impressionante a atração de olhares todas as vezes que ela atravessava a porta de uma loja, agitando tudo em torno de si, como se estivesse dentro de um reality show ou num videoclipe da Mariah Carey. Falar bastante ao celular, de preferência bem alto, era outra coisa que ela fazia muitíssimo bem. Algumas chamadas recebidas me deixavam intrigada. A ligação a seguir foi uma delas.

"Oi Jonathan... Ah, estou no shopping estourando o cartão de crédito do meu pai, como se isso fosse possível... Ah sim, claro, três da tarde na terça-feira? Pra mim tá ótimo, excelente... Que isso, gato, eu é que adoro fazer trocas intensas com você. Fica combinado então. Terça, às três da tarde, na minha casa... Tá, tá... Tá bom. Até lá, beijo. Tchau."

A curiosidade me mordeu.

— Quem é Jonathan?

— É um amigo meu.

— Amigo? Hmm... Sei...

— Pare de graça, Vick. Jonathan é só um amigo. Ele é filho de uma secretária de confiança que trabalha para o meu pai há séculos. A gente cresceu praticamente junto.

— Ah, tá. E o que significa trocas intensas?

— Ah, eu ensino ele a tocar piano e em troca ele me ajuda a dominar o inglês.

— Pensei que garotas que estudassem em colégio bilíngue soubessem inglês fluentemente.

— Sabemos sim. Mas treinar todas as possibilidades da língua nunca é demais. E a didática que o Jonathan gosta de aplicar, além de eficiente, é uma delícia. Se é que você me entende.

Por mais que eu tenha tentado, não consegui entender com exatidão quais eram as possibilidades linguísticas referenciadas. Mas isso não era um problema propriamente dito, até porque na próxima terça, às três da tarde, eu estaria com Fran na casa dela e poderia ver com os meus próprios olhos o que de tão delicioso existia na aplicação didática de Jonathan.

Rapidinho terça chegou. O tal amigo de infância de Fran compareceu pontualmente para realizar trocas intensas com ela. Não havia na casa ninguém além de nós. Jonathan, que tinha um sorriso cativante e lábios carnudos, era um garoto de dezesseis anos que fazia a linha "típico bom moço que jamais falhou com um culto na igreja", o que fazia dele um tremendo partidão com certeza.

A primeira aula foi a de piano que, ao contrário do que se pensa, é um instrumento muito menos difícil que violão, violino ou instrumentos de sopro, como a flauta por exemplo. O piano dos Mestrinner, instalado em um cômodo romântico e inspirador que transmitia uma agradável sensação de paz, devia valer mais que todos os meus órgãos internos somados. Fiquei assistindo a aula deles aconchegada em um sofá provençal. A canção praticada por eles no piano e todo aquele cenário de pura calmaria me levou a um cochilo breve. Na verdade não tão breve assim, pois quando despertei não havia mais ninguém no aposento comigo. Ou seja, a aula de piano havia terminado faz tempo e provavelmente a aula de inglês estava ocorrendo em algum outro canto da casa. Onde será?

Deixei-me ser guiada pela voz de Jonathan. Era possível ouvi-lo lendo em inglês de algum lugar próximo de onde eu estava. Eu o encontrei no Home Office do Dr. Otto, pai de Fran. Ele ocupava a cadeira executiva com um livro imenso sobre a mesa presidencial de mogno. Percebe-se que não era um escritório simples. A composição do ambiente consistia em móveis ricamente trabalhados em mogno puro, com diversos artigos de arte que somados deviam valer vinte vezes mais que o apartamento de tia Carmem. Também havia muitos porta-retratos de Fran, com fotos de todas as fases da vida dela, espalhados por todo o canto.

— Oi, cadê a Fran? — eu perguntei, me aproximando.

Jonathan me encarou por um momento e depois se voltou para o livro novamente. A forma anormal e entrecortada como ele fazia a leitura chamou minha atenção, pois parecia que ele estava numa espécie de transe ou algo bem parecido. Então reparei que debaixo da mesa havia pés de outra pessoa aparecendo.

— Fran, o que você está fazendo escondida?

Nenhuma resposta.

— Fran?

Novamente encarei Jonathan, enrijecido e ofegante. Sua cara era de dor. Não uma dor ruim, mas uma dor que parecia lhe dar prazer.

— Yes, I feel so good...

Minha paciência se esgostou rápido.

— Dá pra você parar de graça e falar direito?

— Got coming, got coming, got coming... — foi a reposta.

Rolei os olhos.

— Francine Mestrinner, posso saber o que está acontecendo ai embaixo?

Aproximei-me da mesa e inclinei meu corpo para conseguir ver o rosto dela. A resposta para a minha pergunta veio na forma de uma secreção branca e cremosa, uma esguichada bem quentinha no meio da minha cara que meu deu muito, muito nojo.

— Ai, meu Deus, o que é isso?

Depois de limpar meus olhos pude ver que Fran segurava com uma mão um troço roliço e escuro. Ela limpou delicadamente a boca dela com a ponta dos dedos. Apavorada, ergui a cabeça e encarei Jonathan acima de mim.

— Foi mal, Vick.

Não vejo a necessidade de contar detalhes de como me retirei depressa dali para me recompor. Tampouco como fiz para esconder a minha vergonha depois de descobrir o quanto pode ser imoral uma tarde de trocas intensas com alguém. Evidentemente não contei para tia Carmem nadinha do que ocorreu na residência dos Mestrinner. Afinal, aquilo não era coisa certa de duas meninas de família estarem fazendo. O problema era que de algum modo minha tia sabia que eu estava escondendo algo dela. A constatação de que ela estava certa ocorreu numa noite em que me flagrou mandando um áudio comprometedor para Fran.

"Nem pensar, Fran. É sério, assistir sua sessão de trocas intensas com o Jonathan foi uma cagada do tamanho do mundo e se eu aceitar ficar de vela pra vocês de novo vai ser tipo como rolar na bosta, literalmente. É por isso que eu tô fora e essa é minha palavra final, não insista."

— Que palavreado chulo é esse, Maria Victória? — ouvi tia Carmem perguntar atrás de mim. — Aprendeu com a sua coleguinha nova?

Olhei em direção à porta do meu quarto. Tia Carmem estava plantada na batente, segurando no colo uma pilha de roupa passada. Não tive dúvidas de que ela estava de bituca faz tempo. Eu estava frita.

— Que cara é essa de quem escondeu sujeira debaixo do tapete? Que negócio é esse de trocas intensas?

— Nada, tia. Nada demais.

Ela foi até o meu guarda-roupa e começou a guardar minhas calcinhas na gaveta.

— Você não me engana, Maria Victória. Eu tenho olho clínico para enxergar todas as sujeiras que você esconde debaixo do tapete. Estou percebendo que de um tempo pra cá você está deixando de me contar coisas importantes. Posso saber o que está acontecendo com você?

— Não tá acontecendo nada.

— Não minta para mim, Maria Victória.

— Eu não tô mentindo. Eu só acho que nem tudo o que acontece comigo é importante relatar para a senhora.

— Qualquer tipo de ocorrência você deve passar para mim primeiramente.

— Nem sempre. Até porque seria muito feio na minha idade ficar te dando dor de cabeça com meus dilemas típicos de adolescente.

— Eu sabia. Você está ocultando algo muito errado de mim.

— Tia, eu tenho todo o direito de omitir coisas que considero desinteressantes.

— Quantas vezes vou ter que ensinar que não devemos nunca mascarar a realidade, Maria Victória? Que omitir, mentir e fantasiar são tudo a mesma coisa.

— Não são não.

— São sim, só muda de nome.

— Não sei em que dicionário. Até onde eu sei uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

— Mas no dicionário do Senhor tudo é pecado igual, Maria Victória. Está pecando quem mente, quem omite e quem fantasia. Por Deus, você não entende a gravidade do que se passa aqui?

Ver tia Carmem tão zangada me deixou sem fala.

— Oh, meu Deus! — ela elevou a mão até o lado esquerdo do peito e começou a dramatizar. — A que ponto nós chegamos?

— Tia...

— Isso é tudo culpa daquela ovelha imunda. Daquela raiz encardida. Aquela menina tá me deixando doente. Por causa dela foi preciso aumentar a dose dos meus remédios.

— Tia...

— Onde eu estava com a cabeça quando aceitei assumir a pastoral? Onde, Maria Victória? Me diz, onde?

Levantei da cama.

— Não sei. Não sei mesmo. Mas na próxima vez, tia, pense duas vezes antes de ceder aos encantos do Padre. — dei um beijo em seu rosto, catei uma toalha que estava no puxador de uma porta do guarda-roupa e me retirei do quarto. — Vou tomar banho, tchau.

A partir de então até as coisas mais aleatórias começaram a incomodar tia Carmem: O tanto de tempo que eu ficava pendurada no celular, minha falta de disposição para os estudos, para o coral, para a aula de flauta... Às vezes em que me esquecia de fazer o sinal da cruz ao acordar, ao sair de casa, antes dormir... Até minhas roupas novas — compatíveis para meninas da minha idade — a estava deixando de cabelo em pé.

Meio por acaso eu ouvi atrás da porta uma conversa que tia Carmem teve com padre Aleph no escritório dele.

— Eu sinto que estou perdendo gradualmente a autoridade sobre a minha sobrinha, Padre. O que devo fazer? Grudar nela o tempo todo?

— Não vejo motivos para tanto desespero, Carmem. Sua sobrinha me parece ser uma criança bem centrada, se comparada à maioria. É notável o excelente trabalho que você realizou educando essa menina. Maria Victória é um ser humano com H maiúsculo. Está destinada a grandes coisas.

— Aí que mora o problema, padre. Eu temo que essa amizade com Francine possa trazer muitos dissabores no futuro.

— Eu creio que você esteja enciumada.

— Padre...

— Está com ciúmes da amizade da Maria Victória com a Francine. Já vi isso acontecer muitas vezes com outras mães.

— O amor é tão forte quanto à morte e o ciúme é tão inflexível quanto à sepultura. Cânticos, capítulo oito, versículo seis.

— Justamente. A bíblia condena com veemência o ciúme.

— Veja bem, padre, eu tenho ciência de que Maria Victória chegou à idade que tudo que via de melhor em mim se transformou em pagação de mico. Que procura suprir o desejo de se sentir independente com pessoas da mesma idade dela. Mas ela poderia ter feito amizade com alguém de personalidade mais integra. A Miguela, por exemplo, aquela menina é um anjo.

Sem emitir um ruído, enfiei o dedo na goela e fingi vômito.

— Carmem...

— Padre, o senhor faz ideia do quanto dói deitar a cabeça no travesseiro todas as noites com a sensação de ter falhado como mãe?

— Tudo bem, tudo bem. Eu tentarei conversar com Maria Victória assim que surgir a oportunidade. Mas antes precisamos solucionar um problema muito mais grave.

— Qual problema, Padre?

— Alguém da pastoral da juventude aliviou as tensões intestinais dentro do meu alforje de ofertas.

— Valha-me Deus, Padre. Quem faria algo tão terrível?

— Eu tenho minhas suspeitas, mas guardarei comigo por enquanto.

— Claro, Padre, claro... A bíblia nos ensinou a não fazer julgamentos sem provas concretas.

— Era boludo.

— Minha nossa! O que era boludo, padre?

— A forma dos dejetos fisiológicos. Eram boludos. Boludos e bem secos.

Tentei sem sucesso engolir o riso.

— Quem tá aí? — ouvi a voz de tia Carmem perguntar.

Corri para bem longe dali para não ser pega ouvindo atrás da porta. E alguns segundos depois eu estava com o restante da galera da pastoral, na sala onde costumávamos realizar nossos coffebreaks. Cruzei todo o espaço e fui até o canto onde estava Fran.

— Sumiu de repente — ela disse. — O que houve?

— Fui ao banheiro.

— Ah, tá. Estamos há mais de vinte minutos comendo, onde está sua tia será?

— Ela tá na sala do Padre conversando. Alguém fez boludo no alforje de ofertas, mas ninguém sabe quem foi.

— Credo, que nojo. Aposto tudo que foi o abestalhado.

— De quem você tá falando?

— Do Guizinho óbvio. Esse menino é um peste.

— Ah, sim, pode crer. De segunda eu faço aula de flauta com ele. Você precisa ver cada maluquice que ele apronta lá. Teve um dia que em vez dele assoprar a flauta, foi a flauta que assoprou ele. Você consegue imaginar isso?

— Sem surpresas. Conheço bem a peça.

— Conhece de onde?

— Do jardim de infância. Estudamos dois anos juntos. Desde pequeno ele já era doido. Nunca vou me esquecer do dia em que a inspetora que nos acompanhava durante o recreio me casou com ele durante uma brincadeira de criança. Odeio aquela vaca até hoje por isso.

Comecei a rir disso.

— E porque o casal de pombinhos se separou? Fiquei curiosa agora.

— Porque ele incendiou a sala de brinquedos com a inspetora casamenteira dentro, o que eu achei bem feito. Depois ele foi expulso, graças a Deus.

— Minha nossa, que perigo!

— Total. Foi igual naqueles filmes de terror com crianças diabólicas — nesse instante Fran viu Miguela e sua gangue aproximando-se de mansinho da gente — Xi, lá vêm as moralistas de Taubaté.

— Ai, ninguém merece — falei baixinho.

Elas se posicionaram à nossa frente para conversar, mas ignoraram totalmente a presença de Francine ao meu lado.

— Oi, Vick — Miguela começou. — Estamos abrindo uma petição contra o Primeiro Natal Inclusivo, por vezes referido como Natal Nefasto. Nosso ilustre prefeito abriu licitação para contratar uma Mamãe Noel transgênero para o natal deste ano. Em respeito a todos os cidadãos de bem, fiz uma petição para não deixar isso ocorrer. Podemos contar com a sua participação?

Fran interveio antes mesmo que eu pudesse pensar em uma resposta.

— Não assina isso, Vick!

— Não assina por quê? — Miguela a provocou. — Você virou proprietária da assinatura dela agora?

— Assine, Vick — Bia Stefanie insistiu. — Muito mais que um abaixo assinado, estamos promovendo um ato de amor pela família.

Miguela sorriu e me ofereceu a caneta. Aborrecida com o gesto, Fran deu um tapão tão forte na mão de Miguela que fez com que a caneta voasse longe.

Miguela fingiu espanto.

— Minha nossa! Tudo isso é raivinha só porque eu excluí você do meu Facebook?

— Ai garota, vai ver se eu tô na esquina.

O trio fez cara de deboche.

— Tudo bem — Miguela baixou a guarda. — Vick — ela voltou a fingir que apenas eu estava ali. — Se você quiser participar da nossa petição contra o Natal Nefasto ou, quem sabe, talvez se juntar a nós ou sugerir outras petições é só me procurar. E não se esqueça de que unidos somos sempre mais.

— Vou pensar no assunto. Qualquer coisa eu te procuro, obrigada.

O trio nos deu às costas e foi até uma roda de três garotos que conversavam perto da janela. Dava para ouvir a voz deles a apenas alguns metros de nós.

Fran começou a falar de um modo que ninguém pudesse nos ouvir.

— Será que ninguém consegue enxergar que essa menina é puro fingimento, uma falsiane de quinta, que pinta e borda pelas costas dos pais? Mas deixe estar, o que é dela está guardado.

— Eu não consigo entender a causa da inimizade entre vocês — eu disse.

— Como não? Miguela é uma bruxa falsa. Quer uma razão melhor que essa?

— Engraçado que ela pensa exatamente o mesmo de você. Um dia ela me fechou no banheiro e desceu a lenha na sua pessoa. Falou barbaridades.

— Por que você nunca me contou isso antes?

— Achei melhor não contar para evitar discórdias.

— É, você achou, mas achou errado! — Fran cruzou os braços. — Que bela amiga da onça você é que não me conta as coisas?

— Amiga da onça é exatamente como você me faz se sentir às vezes. Poxa vida, você fica mordida por qualquer coisinha.

— Por qualquer coisinha? — ela pegou na minha mão e me puxou. — Vem comigo, Vick. Tem uma coisa que eu preciso te contar.

Fran me arrastou com ela até o banheiro e me fez contar tim-tim por tim-tim tudo o que Miguela me contou.

— Eu não acredito que aquela cobra tentou te envenenar com esse monte de mentiras sobre mim! — Fran reagiu aborrecida.

— Se o que ela me contou é um monte de mentiras, o que de fato houve entre vocês?

Fran bufou. Seu rosto estonteante ficou inesperadamente vulnerável.

— Nem tudo o que reluz é ouro, Vick. Assim como nem tudo o que Miguela te contou é verdadeiro. A maioria das coisas aconteceu de fato, mas ela distorceu a maioria delas. Realmente, já fomos amicíssimas durante muito tempo. Uma amizade que começou lá no fundamental, na quinta série, se me recordo bem. Éramos tão terríveis juntas... Uma dupla de amigas inseparáveis! A mais diferente e sapeca do colégio! Tipo, ninguém, ninguém mesmo, dava conta da gente. Então chegou o ensino médio e algumas coisas começaram a ficar estranhas. Nossa amizade, antes tão forte, já não era mais a mesma. O que foi terrível porque coincidiu com uma época em que as pessoas estavam romantizando o suicido, despertando a vontade descontrolada em muitos adolescentes de participar de desafios sádicos, extremamente perigosos. Provavelmente você não deve saber, mas só no meu colégio rolou cinco tentativas de suicídio. E isso tudo num período de seis meses. Foi uma fase muito difícil. E tudo piorou ainda mais quando uma onda de conservadorismo invadiu a cabeça de quase todas as alunas. Um conservadorismo passageiro, é verdade, mas que deixou marcas profundas e desfez muitas amizades.

— A sua com Miguela pelo jeito foi uma delas.

— Foi. Miguela depois da onda conservadora jamais foi a mesma pessoa. O pior foi o que veio depois disso.

— O quê?

Fran hesitou por um instante, como se aquilo que estava prestes a contar fosse algo que ainda a machucasse.

— Por ser um colégio só de meninas, temas como bulimia e anorexia sempre foram frequentemente debatidos. O que a direção não contava era que mesmo com tantas campanhas preventivas o colégio seria invadido por uma onda de distúrbios alimentares em massa. Da noite para o dia todas as alunas começaram a perder peso. E por mais quilos que elas eliminassem jamais estavam satisfeitas com seus próprios corpos. Elas estavam secas, mas se achavam gordas. Comiam muito e vomitavam tudo. Teve menina que desidratou tanto que ficou com cara de doente. Miguela foi uma delas. E sabe o que eu descobri? Que ela usava a minha aparência física como um exemplo a não ser seguido.

— Como você descobriu isso?

— Uma vez ela reuniu várias alunas no vestiário do ginásio aquático para ensina-las técnicas de como regurgitar os alimentos, sem desconfiar de que eu também estava lá dentro, escondida atrás de um armário, ouvindo tudo. Uma das garotas que estava lá deu para trás e se recusou a fazer o que ela mandava. Foi então que Miguela disse assim: "Você não quer ficar com uma pança enorme igual a da Francine, quer? Garotos não sentem tesão numa gorda zoada igual a ela". Ouvir aquilo da garota que cresceu como minha melhor amiga foi uma facada bem no centro da minha barriga — havia uma inundação nos olhos de Fran, ela tentou secar abanando a mão, mas o gesto não foi suficiente para evitar que uma lágrima derramasse pelo seu rosto. — Droga, olha o que você fez comigo, Vick Aires. Jurei que nunca mais derramaria uma lágrima por causa daquela ratazana.

Em momentos delicados assim eu procuro segurar a língua, pois sempre acabo dizendo alguma bobagem da qual me arrependo depois, mas especialmente ali, senti tão fortemente que as palavras certas vieram para mim que as libertei sem medo.

— Independente do seu peso, você tem muito mais sex appeal que qualquer garota magra que eu conheço e nada mais, além disso, importa. Estamos juntas nessa agora.

Fran sorriu.

— Valeu. Na vida é raro a gente encontrar pessoas assim tão boas. Você é uma amiga incrível.

Segundos depois o rosto dela murchou novamente.

— Que foi agora?

Lágrimas subiram até seus olhos, mas ela se livrou delas piscando várias vezes.

— Pode chorar a vontade, se quiser. Prometo que não vou contar para ninguém.

— Não! Não posso! Não posso chorar a vontade. Ninguém pode! O choro é visto como sinal de fraqueza, Vick. Se eu quiser desmascarar Miguela um dia, vou precisar ser forte.

— Desmascarar?

— Não que eu deseje mal às pessoas, isso seria mórbido demais, mas eu torço para que algum dia Miguela receba uma bela lição por ser uma pessoa tão ruim. Algo capaz de arrancá-la de cima do pedestal.

— Temos que ter cautela, Fran. Tudo o que se planta, colhe. A vez dela um dia vai chegar. Você vai ver.

Eram duas versões diferentes de uma mesma narrativa. Miguela me contou uma e Fran outra. Em quem acreditar? Não demorou muito para que eu soubesse a resposta.

***

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