06. Coroa de Carrapicho

SE VOCÊ ACREDITA EM FÁBULAS TALVEZ GOSTE DESTA.

Era uma vez um patinho. Um patinho ridicularizado por outras espécies de aves por causa de sua feiura. Esse patinho feioso nutriu uma paixão secreta por uma pombinha muito arredia no passado, que ele acreditou ser rara e especial. Contudo, ao declarar-se para a pombinha, constatou que ela não era tão diferente assim das outras aves selvagens que habitavam no mesmo ninho.

Não. Você não leu errado. Essa continua sendo a minha história. A história da garota tímida, sem graça e vida monótona. Eu só abri de um jeito diferente porque penso que seja essa a melhor maneira de começar a explicar as razões que me levam a acreditar que o fracasso do meu namoro com Guto Martins foi praga de um passarinho chamado Francisco Augusto. Chico, para os mais chegados.

Durante toda a vida, o engajamento de tia Carmem com as causas da igreja sempre renderam frutos que impactaram diretamente no meu crescimento e na minha criação. Talvez o principal deles tenha sido uma bolsa de estudo integral para que eu pudesse estudar o ensino fundamental em um colégio particular católico, chamado Sagrado Coração de Jesus, sem sombras de duvidas, o melhor colégio da cidade.

Quando conclui o fundamental, tia Carmem precisou me transferir de colégio para que eu pudesse dar continuidade aos meus estudos. Isso é uma droga, eu sei, mudar de escola assim, mas não havia outra alternativa tendo em vista que o Sagrado Coração não montava turmas de ensino médio. O que se segue a partir daqui aconteceu quando eu tinha catorze anos. Ou seja, quase quatro anos antes dos dias de hoje. Ainda me dói lembrar, mas acredito que trazer luz a tais fatos será importante para que eu não seja mal interpretada futuramente.

Assim como a anterior, a escola que fui transferida também era particular. Tia Carmem não tinha conseguido para mim uma bolsa de estudo, mas era mais barata, portanto tínhamos como custear as mensalidades.

— Sejam bem-vindos ao ensino médio! — o diretor da escola desejou a todos os alunos do primeiro ano reunidos no pátio, no primeiro dia de aula.

Alguns dias foram suficientes para descobrir que ser a novata em uma escola nova em pleno ensino médio não era uma função, muito menos um mérito. Ser novata, na verdade, era um sinônimo de desastre. A começar pela fase de adaptação, quando ninguém parece muito a fim de ser amigo de uma novata.

Atirei-me para todo o lado. Primeiro tentei engatar amizade com as alunas CDF's antipáticas. Não deu certo. Depois me aproximei do grupo das alunas evangélicas. Também não rolou. Decidi arriscar uma amizade com o grupo das piriguetes... Mas advinha só? Essa tribo também não me acolheu. Foi então que aceitei meu fracasso, me recolhi e passei a assumir oficialmente o papel da aluna excluída. Quem um dia já passou por isso sabe bem o que significa. Passar os três anos letivos estagnada na última carteira da sala, sem ser notada, apenas observando como as coisas são diferentes e absurdas no ensino médio.

Se no ensino fundamental precisamos apenas nos preocupar com tabuada, equações, planetas, ciclo da água e mais uma infinidade de decorebas, no ensino médio estudamos coisas bem mais complexas. Álgebra, fórmula de bhaskara, catetos, hipotenusa, tabela periódica, herbívoros, seres vivos, doenças sexualmente transmissíveis, período fértil, anticoncepcional e mais um bocado de coisas que supostamente nos preparam para encarar a fase adulta. Sem contar a preparação para o ENEM, uma verdadeira tortura psicológica na vida de muitos estudantes brasileiros.

Basta uma pesquisa rápida na internet para descobrir que ensino médio também é sinônimo de bizarrices. Uma prova viva foi algo que aconteceu comigo a partir do segundo bimestre do primeiro ano. Acontecia assim. Todas as vezes que eu retornava do intervalo, um doce de paçoca estava a minha espera, colocado em cima da capa do meu caderno não sei por quem. Teria eu um admirador secreto?

A ideia de ter um admirador me deixou inicialmente empolgada. Pesquisando sobre o assunto, encontrei uma revista teen que explicava que admiradores secretos eram, na maioria das vezes, meninos introspectivos, incapazes de demonstrar seus sentimentos abertamente, mas que eram verdadeiros colírios em potencial. Tal conhecimento me levou a ter sonhos eróticos todos os dias, de tão obcecada que fiquei para descobrir quem era o meu admirador.

Infelizmente, essa paixonite não fez meu primeiro semestre na nova escola deixar de ser um pesadelo interminável. Quando enfim chegou a metade do ano letivo a única coisa que eu pensava era nas férias para sumir dali. Mas antes das férias de julho primeiro tínhamos que passar por um dos ritos mais tradicionais das escolas brasileiras. As festas juninas.

Durante uma manhã friorenta, nosso professor de artes fez a melhor introdução possível para que trabalhássemos bem o tema.

— Como todos nós sabemos o mês de junho por aqui é sinônimo de fes-ta-ju-ni-na! Vocês sabiam que as festas juninas constituem a segunda maior comemoração realizada pelos brasileiros, ficando atrás apenas do car-na-val? Não? Bom, pois agora sabem. — ele ligou o projetor de slides antes de seguir a explicação. — Elas são celebradas no Brasil desde o século dezessete. Com a chegada dos portugueses, as festas, que já eram típicas na Europa, também desembarcaram no Brasil e aos poucos se fundiram com elementos do interior do nosso país, principalmente com as tradições sertanejas. No decorrer dos anos, a festividade sofreu influências do catolicismo e hoje há forte associação com os santos católicos. As festas juninas promovidas nas escolas têm como principal finalidade a lu-di-ci-da-de. Portanto, meus caros, caprichem! Caprichem muito! A fogueira do nosso arraial será acesa na noite de vinte e quatro de junho. Logicamente contamos com o empenho de todos vocês. Até porque a participação e o bom comportamento de vocês valerão pontos na média final. E lembrem-se: A festa junina é muito mais que um produto da indústria cultural. É um resgate às nossas raízes.

No colégio católico, durante o mês de junho, as apóstolas de Maria preparavam uma quermesse minimalista para festejar a data, com doces típicos, culto aos santos, barraquinhas com prendas, fogueira de celofane, quadrilha e chocolate quente. Um evento familiar, com apenas um único intuito: Difundir a religiosidade caipira entre os estudantes. Todavia, o pretexto muda completamente de figura num colégio particular de ensino médio. Os estudantes não se importam para os santos, nem para os doces, barraquinhas com prendas, quadrilha, chocolate quente, nada disso. A eles interessa unicamente a balada sertaneja. Além do mais, adolescentes do ensino médio não se vestem a caráter, já que eles consideram essa tradição uma pagação total de mico. Infelizmente, ninguém me orientou a como me vestir adequadamente e cheguei a minha primeira festa junina do ensino médio vestida de caipirinha prendada, com tudo que tem direito. Isso inclui, vestido rodado, chapéu de palha, trancinhas até o joelho, e dentes, sobrancelhas e bochechas pintadas com canetinha preta. O resultado disso tudo? Virei chacota, óbvio!

— Ora, ora, quem diria! Parece que a novata gosta mesmo é de se aparecer. Fala a verdade. Quem te emprestou essa roupa? Sua avó?

Foi desse jeito que a antipática líder das CDF's me recebeu na festa assim que me avistou chegando. Dois rapazes do terceiro ano que estavam com elas também não perderam a chance de zoar comigo.

— Ae, novata, chega mais. Saiba que a partir de hoje você ganhou todo o nosso respeito.

Um sorriso surgiu em meus lábios.

— Ganhei é? Eu ganhei mesmo, de verdade?

— Claro pô. Afinal tem que ter muita coragem para sair assim de casa, parecendo um espantalho de canavial. O que pensou? Que vestida assim espantaria os urubus?

Uma explosão de risadas se seguiu após o ataque. Fechei a cara.

— Sim. Foi exatamente isso que pensei. Mas já vi que não deu certo. Com licença.

Longe deles passei a examinar o look das estudantes. Fiquei apavorada. A esmagadora maioria vestia look country urbano, ou seja, camisa xadrez provocante, short jeans provocante e um par de botas de couro provocante. Espantada, corri até o banheiro feminino e comecei a chorar em frente ao espelho. E sem pensar duas vezes arranquei a maquiagem lavando o rosto na pia e joguei o chapéu de palha no cesto de lixo.

Minha única vontade ali era a de ir embora. Eu estava prestes a ligar para tia Carmem vir me buscar, quando, abruptamente, uma dupla de garotas com asas angelicais invadiu o banheiro. Uma delas era morena e usava aparelho dentário. A outra era magérrima e tinha o cabelo loiro bem curtinho. Ambas seguravam um cesto redondo de vime com alça, decorado com flores e adereços de tecido. Fiquei morrendo de medo, pois as duas eram da tribo das alunas piriguetes e piriguetes normalmente gostam de encrencar. O que será que elas queriam comigo? Me zoar também?

— Aí está você! — exclamou a morena.

Permaneci na mesma posição, calada, sem sorrir, sem dar atenção.

— Vem cá, você tem certeza de que veio a festa certa? Isto aqui é uma quermesse junina, não uma festa de Halloween.

Revirei os olhos.

— Já terminei aqui. Com licença.

Tentei me desvencilhar delas, abrindo caminho em direção à porta, mas fui impedida pela garota loira de sair.

— Ei, ei, espera um pouquinho aí, Rosinha. Temos algo especial para você. Uma encomenda.

— Meu apelido não é Rosinha, é Vick!

— Eu sei disso, eu só estava brincando. Vai, desmancha esse bico. Trouxemos um cartão-coração pra você e isso definitivamente não é qualquer coisa.

— Um cartão-coração... Pra mim? E pra que isso serve?

— No seu caso, não serve pra nada. Tô brincando. Alguém na festa tá querendo ser o queijinho da sua goiabada. E como o correio elegante continua sendo a forma mais clássica de se paquerar numa festa junina, ele nos pediu para que te entregássemos isso. Vamos, pegue logo.

Ela me entregou um cartão revestido de tecido com formato de coração, que abria e fechava, contendo uma mensagem dentro.

— Ual. Que legal isso. Todo ano tem correio elegante ou é a primeira vez?

— Todo ano tem, mas é a primeira vez que a gente tá tomando conta.

— Ano passado ficamos a frente da barraca do beijo. Foi um sucesso estrondoso, você precisava ter visto. Estava certo pra esse ano ser a gente de novo. Mas as evangélicas bateram o pé e o diretor da escola decidiu dar a barraca do beijo pra elas esse ano. Malditas! Espero que peguem sapinho. Enfim, pra nós sobrou o correio elegante.

— Somos uma dupla de garotas-cupidos. Somos boas nisso. Espalhamos amor e aquecemos o coração dos apaixonados de plantão como se fosse uma fogueira de São João.

Fiquei boquiaberta. Até me esqueci por um momento que estava triste.

— Tó. O garoto que te enviou o cartão também pediu para que te entregasse isso.

Era um doce. Um doce de paçoca.

Estiquei os lábios, formando uma linha reta num sorriso tímido.

— Valeu!

Após me entregar o quitute a dupla se retirou do banheiro e eu permaneci. Então elevei a mão à boca num frenesi de alegria e espanto, pois estava claro para mim que a pessoa que me enviou o correio elegante era o meu admirador secreto. Agora só faltava ler a mensagem que estava escrita dentro do cartão.

Eu estava tremendo.

— Ai, meu Deus! Jamais estive diante de circunstâncias tão românticas.

A mensagem do cartão estava escrita a mão. A letra, por sua vez, um garrancho só. Já os dizeres, bom, não tinha como não gostar. Eram exatamente as palavras que eu precisava ler.

Li e depois li de novo para ter certeza que não tinha lido errado. E então fechei os olhos, mordi os lábios e pensei em todas as paçocas que recebi durante o semestre. Depois encarei meu reflexo no espelho e vi sumir a vontade de ir embora para casa. Comecei a suspirar, a mexer os braços repetidas vezes, boba, alegre, plena.

— É hoje. É hoje que meu admirador secreto vai me abordar e me pegar de jeito. Meu Deus! Será que hoje vou perder o bv, finalmente?

Acabei ficando na festa que parecia decorrer sem muitas surpresas. Era um arraial bem estudantil, decorado com bandeirinhas modernas e divertidas, balões florescentes destacando-se no espaço e gírias country escritas em neon por todos os cantos. Fitas coloridas e arranjos de flores davam um toque de alegria e rusticidade ao ambiente. Havia abundância de comida caseira, doces típicos, bebidas de inverno sem teor alcoólico, baile e claro, pegação, muita, muita pegação entre os estudantes. Havia também barraquinhas com diversos tipos de jogos e brincadeiras, entre elas a cadeia, uma brincadeira cruel e idiota inventada unicamente para entreter brutamontes com ausência de massa cinzenta no crânio. Afirmo isso com todas as letras, pois não existe argumento que justifique prender um aluno, seja ele qual for, em um casebre escuro, condicionando sua soltura a uma prenda em dinheiro.

Quando uma patrulha de brutamontes denominada os garotos-polícia passou por mim, encarando-me, orei em pensamento.

— Deus me defenda disso!

Sempre sozinha o tempo todo, fui sentar na extremidade esquerda da arquibancada da quadra esportiva e ali me mantive, taciturna, aguardando ansiosamente meu admirador secreto reagir com um gestual masculino apropriado para que eu pudesse correspondê-lo com um sinal verde sutil.

— Cadê você, heim? Por que não me mostra logo a sua cara?

Nesse instante, a dupla de garotas-cupidos ressurgiu para me abordar pela segunda vez naquela noite.

— Outro cartão? — indaguei, incrédula. — Pra mim?

— Sim, gata.

— Da mesma pessoa?

— É. Vamos, pegue logo. Não temos todo o tempo do mundo só pra você.

Fiquei extasiada quando li os dizeres do segundo cartão.

— Olha só — a cupido loira falou. — A nossa Rosinha tá arrasando corações!

— Já disse que meu apelido não é Rosinha. É Vick!

— Rosinha, Vick... Tanto faz o apelido. O que importa é que a sentada de hoje tá garantida.

— Como assim sentada? Que isso?

A garota cupido morena riu.

— Vai fundo, Rosinha!

E então as duas se foram.

Fiquei por mais um tempo ali. Não demorou muito e minha barriga roncou de fome. Comprei uma maçã do amor e comi assistindo as apresentações temáticas preparadas pelos alunos.

Se a decoração da festa estava impecável, digna de elogios, não se podia dizer o mesmo das apresentações dos alunos. Tia Carmem provavelmente teria um colapso nervoso se estivesse ali, assistindo minhas colegas de classe com a polpa do bumbum de fora, rebolando ao som de "Aí se eu te pego" e "Gatinha Assanhada". O vocabulário peculiar e impróprio do público masculino que ocupava a maior parte da arquibancada tornava a situação ainda mais embaraçosa.

Quando pensei que o ápice do constrangimento havia sido atingido, Seu Felício, nosso direto, anunciou de surpresa uma última atração para encerrar a noite.

— Por favor, silêncio aí, molecada. Muito bem, antes de anunciar a última atração da noite quero expressar meus sinceros agradecimentos a todos que contribuíram para o sucesso de mais um arraial em nossa escola, inclusive a senhora, coordenadora Claudia, mesmo tendo pesado a mão no molho do nosso cachorro quente pelo terceiro ano consecutivo. Tenho fé que um dia a senhora vai acertar a medida do sal. Bom, sem mais delongas, vamos a apresentação. Quero ouvir a empolgação de vocês. Recebam com muito carinho, aplausos e gritos, nosso talento nato, Francisco Augusto.

Não houve gritos, não houve aplausos, não houve nenhuma demonstração de carinho por parte dos alunos quando entrou na quadra Francisco Augusto, ou Chico, como era normalmente chamado. Pelo contrário, o que se seguiu foi um silêncio agonizante por toda arquibancada. E diante disso foi tremendamente desconfortável observa-lo agarradinho a sua sanfona, posicionando-se em frente ao microfone. Pobrezinho, ele sim era um azarado por ser esteticamente tão maltratado. Sem contar os trajes e acessórios tipicamente caipiras e o corte de cabelo dele que lembrava o corte dos cantores sertanejos antigos que estampam as capas dos discos que tia Carmem guarda na estante dela. O sotaque do sítio era outro agravante. Não era a toa que todos o chamavam de Chico Bento.

Quando ele abriu a boca e começou a cantar, uma chuva de vaias e ofensas fortes invadiu a quadra. Parecia que ninguém estava interessado em seu sofrível e sentimental modão de viola. Tão alto foi a algazarra que foi humanamente impossível entender o que ele cantou.

Num canto da quadra bem longe dos meus ouvidos, três alunos trocavam ideia em segredo.

— Ele sabe. Descobriu tudo e tentou avisar a garota. Quase estragou toda a diversão.

— Como ele descobriu?

— Não faço ideia. Ele deve ter ouvido a gente conversando, só pode. É um enxerido.

— Verme!

— Pense rápido, Kevin. Você precisa fazer alguma coisa. Precisa tirar essa criatura de cena.

Quando o show de Chico terminou, a quadra esportiva foi liberada para a tão aguardada balada sertaneja. Eu permaneci onde estava, sentada na arquibancada, observando o espetáculo de luz iluminar os estudantes sarrando indecentemente uns nos outros.

Entre um sertanejo e outro eles botavam um funk pra tocar. Estava tocando Anitta quando o diretor Felício deu o maior chilique na frente de todo mundo, pois descobriu que algum abençoado havia diluído bebida alcoólica na mistura do quentão. Apesar disso, o baile seguiu. Já eram quase onze e meia da noite. Meu admirador secreto não tinha dado sinal de vida. Após uma sequência de bocejos tediosos, enviei um áudio para tia Carmem. Era hora de ir embora.

"Oi tia, vem me buscar? Vou te esperar na frente da escola, tá bom? Tchau, beijo!"

Embolsei meu aparelho celular e desci os degraus de concreto da arquibancada. Nesse instante me ocorreu que Douglas Morgado — o roqueiro do terceiro ano — tinha ficado ali, o tempo todo sentado ao meu lado.

Entreolhamos-nos.

— Oi — eu disse. E ele só sorriu.

Doug não era tão atraente assim e estava longe de ser um colírio em potencial, mas eu estava tão carente que não ligaria se meu admirador secreto fosse um roqueiro cabeludo com quinze piercings espalhados pelo rosto e uma língua bifurcada que não cabia na boca de tão cumprida.

Com uma convicção avassaladora, empinei os seios e toquei levemente os cabelos. Eu estava prontinha para avançar para o próximo estagio da paquera quando uma aluna cowgirl com peitões perfeitamente delineados veio em direção à arquibancada com dois copos de quentão. Ela se sentou no colo de Doug e finalizou com uma chave de perna, entrelaçando seu corpo ao dele. Permaneci petrificada por alguns segundos, observando a língua bifurcada do roqueiro dançando como uma serpente selvagem dentro da boca de sua peguete. Depois, assisti a aluna derramando o quentão sob os próprios peitos, para que fossem lambidos e beijados.

— Eca!

Saí de perto deles. Na quadra, nadei de braçada entre os estudantes, deslocando-me em direção a saída. Então a música foi interrompida de repente e uma vaia uníssona ecoou por toda escola.

A voz grave do presidente do grêmio estudantil fez se ouvir no microfone.

— Saca só o lance, galera. Chegou a hora de revelar quem foi a Rainha do nosso São João. Bora premiar a aluna que trouxe mais carisma, beleza, charme, e elegância ao nosso festejo. Já fizeram suas apostas?

Existem alunos que são tão populares que a gente nem precisa estar perto para saber tudo sobre eles. Era o caso de Kevin Luiz, o badalado presidente do grêmio estudantil. Tá que ele acumulava umas três repetências nas costas, mas e daí? Ele era extremamente sexy, parecia muito mais adulto que os outros de sua idade. Era tipo aqueles adolescentes de series americanas, lindo, dos pés a cabeça. O gato mais quente da escola com certeza.

— Chegou o momento, galera! — no rosto dele um sorriso prepotente surgiu. Tive essa impressão quando o seu olhar se cruzou com o meu. — Preparados para o grande nome da noite?

A adolescência reserva para muitos de nós as surpresas mais bizarras. Deixo de exemplo o susto que levei quando a luz dos refletores recaiu sobre mim, após Kevin anunciar a grande ganhadora da noite: Maria Victória Aires.

— Onde essa beldade se escondeu?

Alguém me belisca? Como era possível isso ter acontecido comigo? Justo comigo que já estava até indo embora?

— Vem pra cá, princesa. Temos uma coroa especial para você.

De repente fui envolvida por um redemoinho de empurra-empurra que me lançou próxima de Kevin.

— Olha só, aí está você. Gatinha desse jeito, não tinha como você perder essa.

E todos em volta riram. Porque em suma, o título de Rainha do São João não era de forma alguma uma premiação de verdade ou uma homenagem a minha suposta beleza. A algazarra que se formava agora ao meu redor era um trote estudantil de muito mau gosto, uma gozação, um zombamento, uma tiração de sarro com a minha cara.

O pior momento foi quando uma garota grudou sem permissão na minha cabeça uma coroa feita de carrapicho. A coroa, além me machucar, também se embaraçou no meu cabelo. Foi humilhante, pois ninguém me ajudou a tirar aquilo. Estavam mais preocupados em me filmar e rir de mim. Aquela era uma boa oportunidade para o meu admirador secreto interceptar a meu favor. Onde será que ele estava?

Não existem palavras suficientes para traduzir o que eu sentia naquele momento. Só sei que tive que resistir com todas as forças para permanecer no centro da quadra esportiva, sorrindo, fingindo que estava tudo bem, fazendo de conta que nada de errado estava acontecendo, tendo cuidado para não ser desagradável com os estudantes que se aglomeravam em torno de mim, sobretudo porque as chances de ser perseguida eternamente por não me comportar de tal forma eram muito altas.

Assim que a palhaçada terminou, me retirei da quadra esportiva abrindo espaço de maneira abrupta entre os alunos, ouvindo as gargalhadas de todos que estavam a minha volta. Lá fora, longe de todo mundo, sentei em um degrau da escadaria em frente à principal entrada que dava acesso à escola e tentei arrancar a coroa de carrapicho da cabeça, mas não consegui. Comecei a chorar, recolhida, sozinha e em pedaços, os dedos feridos, sangrando, por fora e por dentro. Onde estava tia Carmem? Por que demorava tanto?

Enquanto esperava tive de olhar o celular, checar as redes. E lá estava a Rainha do São João, sendo compartilhada entre os perfis dos alunos, com legendas e comentários maldosos. E ali me senti tão humilhada que tive que fechar os olhos e respirar fundo.

— Por que comigo? Eu não fiz mal nenhum pra eles, meu Deus do céu... Por que eles tão me tratando assim? Por quê?

E como se servisse de resposta para esse questionamento, alguém surgiu com o calor de seu corpo e se sentou ao meu lado. Abri os olhos para encará-lo e então vi bem na minha frente o rosto da sofrência, do suicídio social, da perseguição e do bullying em pleno ensino médio.

— Vick, eles machucaram você?

Francisco Augusto estava encolhido no degrau da escada, me encarando com cara de choro, franzino dentro daqueles trajes caipiras que ele usava sempre, sua sanfona em seu colo. Abri e fechei a boca, desacreditada, quando vi na mão dele um cartão-coração apontado para a minha direção.

— Fiz pra você! — ele tremia e soluçava. Estava visivelmente amedrontado, parecia que algo realmente terrível tinha acontecido com ele. — Fiz pra você, mas não deu tempo de te entregar.

O cartão era escrito com a mesma letra garranchada dos outros cartões que recebi na festa e dizia:

Pus a mão na testa e meneei a cabeça. Então era Francisco Augusto o meu admirador secreto?

— Por favor, Terra, se isso for o que estou pensando abra um buraco e me engula agora.

De todos os garotos que poderiam ser meu admirador secreto, Francisco Augusto com certeza era o pior deles, pelo simples fato dele ser Ele: Chico, o Chico Bento, o caipira, o gerador de patetices que todos os alunos da escola caçoavam. Estava explicado agora porque as garotas-cupido me chamaram tantas vezes de Rosinha.

— Por favor, Vick, fale pra mim que eles não te machucaram.

Por um instante fiquei em silêncio para não ter um colapso. Olhei para o céu e vi que a lua sangrava entre as estrelas. Fechei a cara, desapontada.

— Por que você tem tanto interesse de saber se eles me machucaram?

Por um segundo eu tentei, mas não consegui de jeito nenhum encarar aquele rosto horrível. Era agonizante encarar seu olho-junto e sua arcada de dentes estragados.

— Vick?

Até então eu me sentia deslocada, apenas isso. Mas uma intuição muito forte me dizia que se caso eu mantivesse Chico por perto, eu, além de deslocada, também seria perseguida e odiada por todos para o resto da vida. Eu precisava afugentá-lo antes que vissem a gente juntos.

— Vá embora.

— Vick...

— Eles fizeram o que fizeram. Você estava lá com eles. Você viu tudo. Agora, por gentileza, vá embora.

Levantei-me do degrau da escada e dei as costas. Ele começou a me seguir. Quando dei por mim estávamos andando em círculos.

— Não, eu não estava! Eu teria impedido se estivesse lá, mas as garotas-cupido fuxicaram para o Kevin que eu gostava de você. Entendeu agora? Eu tentei te alertar sobre o trote, através do cartão. Mas esse cartão não chegou até você.

Revirei os olhos, irredutível.

— Vick, por favor... — havia lágrima na voz dele. — Vick...

Puxei o braço para longe do seu toque.

— Vick...

— Não encoste em mim!

— Escuta. O Kevin...

— Hã, o que tem o Kevin?

— Foi o Kevin. Eu juro. Ele pagou para me prenderem na cadeia, depois do show de talentos. Eu fiquei preso lá um tempão.

— Na hora da coroação, você estava trancado na cadeia, é isso?

— Isso. Eu tava lá. Só me soltaram agora. Por isso não consegui impedir que eles fizessem essa crueldade com você. Se não, eu tinha te avisado. Eu juro.

— Pare de jurar!

— Ano passado foi comigo. Fizeram a mesma coisa. É a turma do Kevin que faz isso. Esse cara tem maldade no coração.

— Eu não acredito que o Kevin perderia o tempo dele fazendo isso.

— Ele fez.

— Tá então por que você não pagou fiança para sair de lá.

— Eles não aceitaram o meu dinheiro. Disseram que eu só seria solto se alguém pagasse a fiança pra mim. Mas isso não aconteceu. Ninguém pagou a fiança, porque ninguém nessa escola se importa comigo. Ninguém.

Dei de ombros.

— Eles tomaram a minha sanfona, meu celular. E deixaram eu lá, sozinho, naquele buraco, naquela escuridão.

— O que você pretende me dizendo essas coisas? Isso não é problema meu.

— Vick...

— Se você não tinha coragem suficiente para enfrentar Kevin então por que não gritou?

— Gritar?

— É! Gritasse! Pedisse socorro, fizesse um escândalo, sei lá...

Eu era tão ingênua, tão estúpida...

— Não tinha como pedir socorro, nem fazer escândalo. Será que não entende? Kevin me ameaçou se eu gritasse. Foi no meu ponto mais fraco. Disse que eu não ia ver a minha sanfona nunca mais se eu gritasse, ou fizesse qualquer outra coisa que atrapalhasse os planos dele. E essa sanfona é tudo pra mim. É a melhor lembrança que restou do meu pai que já se foi. Eu não podia, eu... Eu sinto muito... Ei, Vick, olha pra mim, eu tô falando com você... Vick...

Existem pequenos pássaros que são capazes de transformar cargas pesadas em voo, deixando rastros flamejantes no céu.

— Você não tem pena de mim. Você nem tem coragem de olhar pra mim...

Às vezes, eles habitam o mesmo ninho que nós, mas precisamos estar preparados para identificá-los.

— Vick, eu queria tanto reparar o que fizeram com você, mas não sei como, Vick... Vick, não chora...

Você acredita que algo tão feio pode se tornar algo tão lindo? Que um patinho feio pode se tornar um pássaro fênix? Que algo tão fraco pode se tornar algo tão poderoso? Eu sei. Isso seria como acreditar em fábulas. E eu não acreditava nelas. Por isso precisei tomar a pior atitude que eu poderia tomar para me livrar de uma vez por todas do estorvo que era aquele menino em minha vida.

Tal atitude repercutiu na semana seguinte em toda a escola da maneira mais negativa possível. O negócio rendeu na segunda-feira mesmo, durante as primeiras aulas. Eu estava bastante concentrada na aula quando a Coordenadora Claudia surgiu na porta da sala de repente, interrompendo a aula do professor de Língua Portuguesa.

— Maria Victória, vem comigo. O diretor Felício quer conversar com você na sala dele.

Existem momentos na vida que a gente nunca esquece. A primeira passagem pela sala do diretor é uma delas.

— Sente-se, por favor. — Ele apontou para uma cadeira vaga à frente de sua mesa.

Além dele, também estava presente a psicóloga da escola, responsável pelas estratégias de intervenção e prevenção contra qualquer tipo de agressão física ou moral dentro do âmbito escolar. E também Kevin Luiz, que ocupava um dos assentos em frente a mesa do diretor. Ele vestia um moletom amarelo de malha fria que acentuava os músculos dos ombros e dos braços. A barba por fazer e o maxilar travado combinavam com o semblante de preocupação estampado em seu rosto.

O diretor foi direto ao assunto, sem rodeios.

— Eu pedi para a coordenadora Claudia chamá-los, pois precisamos conversar sobre uma situação bastante delicada que ocorreu na nossa festa junina.

Minhas mãos começaram a suar frio. A princípio, imaginei que o diretor referia-se ao trote da Rainha do São João, no qual fui vítima, mas não era isso. O assunto era outro. Era sobre um espancamento de um aluno dentro das instalações da escola.

Ocorreu que a mãe de Francisco Augusto tinha ido até a escola tirar satisfações com o diretor. Hematomas, sangue, dentes quebrados... Ela ficou em choque diante da brutalidade que o filho havia sofrido na festa junina. Eu já tinha ido embora quando a briga aconteceu, mas através da boca dos outro eu soube os detalhes. Chico, motivado por um surto de raiva que ninguém imaginou existir, partiu para cima de Kevin, incitando um terrível ato de violência nos minutos finais da festa junina.

Fechei os olhos e respirei fundo.

Kevin deu a versão dele.

— Foi o verme que me provocou. Eu tava de boa na minha. Aí do nada ele veio pra cima de mim e dos meus amigos no fim da festa. Eu só me defendi. Nada aconteceu antes disso.

— Kevin!

— Tô falando a verdade, seu Felício. Foi isso que aconteceu. Tá até filmado.

A psicóloga abriu o jogo num tom hostil.

— Ninguém apanha assim de bobeira, Kevin. Francisco contou para a mãe dele uma versão diferente da sua. Muito grave, por sinal. Então sem mentiras, por favor. Porque essa senhora não vai parar enquanto não apurar todos os fatos. Inclusive, pretende envolver a polícia nisso.

— Já disse que o houve. Não tenho mais nada para dizer sobre o assunto.

Era pesado o clima na sala do diretor. Ao meu lado, Kevin estava com os ombros rebaixados e os braços recaídos sobre os joelhos. Seus olhos encaravam o chão, disfarçando a culpa inerente a ele. Eu estava tão coagida quanto, mas mantive-me firme e taciturna, embora sob a mesa do diretor minhas mãos estivessem geladas e as pernas trêmulas.

— Certo, Kevin. Você está dispensado. Pode voltar para a sua classe.

Agora só estava na sala eu, o diretor e a psicóloga.

— E você, Maria Victória? Tem algo a nos contar a respeito do que aconteceu.

A psicóloga me encarava sorrateiramente esperando pelo meu posicionamento final.

— Não sei o eu que faço aqui. Eu já tinha ido embora da festa quando a briga deles aconteceu. Não tenho nada a ver com isso.

— Francisco Augusto disse que foi você que pediu para que ele batesse em Kevin. Pediu isso a ele como uma prova de amor.

— Prova de amor? Isso é ridículo. Eu e ele nunca conversamos.

— Você então não confirma a versão dele?

— Eu já disse. Não tenho nada a ver com essa briga.

— Essa é sua palavra final?

— Com qual finalidade eu mentiria se soubesse de alguma coisa? Eu juro. Não sei o que se passou com o Francisco Augusto na festa junina. Posso voltar para a minha sala agora? Por favor.

A psicóloga me examinou por um tempo sem esboçar sorrisos e depois pediu ao diretor para que deixasse somente eu e ela as sós por alguns minutinhos na sala.

Pus-me a encara-la quando o diretor nos deixou.

— Isso é tortura psicológica.

— Maria Victória, deixa eu te explicar uma coisa. A escola existe para ser um espaço de crescimento, formação e convivência. Mas sem a colaboração dos alunos isso está ficando cada dia mais difícil. Todo o ato de discriminação e desrespeito, seja em maior ou menor intensidade, precisa ser investigado. E os responsáveis punidos. Eu não entendo, Maria Victória. De verdade, eu não entendo as razões de uma excelente aluna como você, com excelentes notas, com um registro de presença perfeito, muito bem equilibrada e com uma boa reputação, optar-se em ficar indiferente diante da atrocidade ocorrida com Francisco Augusto nas instalações dessa escola.

— Eu já disse. Não sei de nada que se passou com o Chico.

— Maria Victória, você não precisa ter medo. Eu sei que foi um delito bastante grave, mas meu papel é justamente assegurar sigilo e proteção aos alunos que denunciam esse tipo de caso.

— Quantas vezes vou ter que repetir que não sei de nada?

Um silêncio pairou-se na sala.

— Certo — a psicóloga não me pareceu convencida. — Permita-me te dar um conselho?

Assenti levemente com a cabeça.

— Cuidado! — ela disse. — Você ainda é muito jovem. Nem sempre omitir a verdade serve de atalho para o caminho mais fácil. Pode demorar um ano, dois ou até mais, mas acredite: Um dia você vai acordar e se arrependerá da escolha que fez na manhã de hoje.

Engoli seco.

— É só isso? Já acabou?

— Já! Agora pode voltar para a sua classe.

— Obrigada. Com licença.

Ser convocada até a sala do diretor por estar diretamente envolvida em um caso de agressão física me abalou tremendamente, sobretudo porque não fui transparente nas minhas respostas. Mas eu tinha bons motivos para omitir a minha parcela de culpa no ocorrido. E outra, comigo ninguém se preocupou. Ninguém se preocupou que eu também tinha sido machucada durante a festa junina. Então porque ficar tomando partido daquela briga? Eu não. Queria mais era que todos eles se lascassem.

Quando cruzei o corredor principal da escola rumo à sala de aula, ouvi a voz de Kevin me chamando.

— Ei, princesa. Eu posso te chamar de Vick?

Parei e me recostei na parede.

— Sim, claro.

Eu não estava acreditando. Kevin, o presidente gato do grêmio estudantil, o colírio mais popular entre todos os colírios do terceiro ano, tinha me chamado de princesa?

Kevin foi chegando mais próximo de mim de modo a impedir a passagem, em seu rosto um encantador sorriso nos lábios.

— E ae, tudo bem?

A proximidade dos nossos corpos me deixou tão encabulada que comecei a gaguejar.

— T... Tudo.

— Aquela cuzona da nossa psicóloga pegou pesado com a gente, né?

— É uma velha coroca. É isso que ela é. E o diretor também.

— Ae, gostei de você. É verdade! Gostei de você. Cê é bonitinha.

— Brigada.

— Gostei do jeito que você agiu na sala do diretor.

— Sério?

— Muito. Foi para me proteger?

— E-e-e-eu...

— Não precisa dizer nada não, eu sei que foi. De que forma você gostaria que eu te agradecesse por isso?

Naquele instante tive a impressão que Kevin pensava que eu havia omitido a verdade unicamente para a sua proteção. Será que esse cabeça-de-bagre não era capaz de enxergar nada além do próprio umbigo? Não importa. Porque Kevin realmente mexia comigo. Mas também não tinha como ser diferente. Em qualquer canto que fosse, ele parecia carregar consigo uma luz gigante em cima dele, como um holofote. Como resistir aos seus olhos esverdeados de predador e ao seu sorriso de alta voltagem, capaz de fazer qualquer coração bater mais forte?

— Quer dar um rolê comigo hoje à tarde? Podemos ir ao shopping assistir um filme. O que me diz, Vick?

Tentei responder sem parecer ser metida.

— Agradeço o convite, Kevin, mas não vai dar.

— Não vai dar por quê? O que te impede?

— Hoje eu tenho aula de flauta e depois vou ensaiar com o coral da pastoral. Cantaremos na missa de domingo.

— Tudo bem. Isso não é um impedimento. Eu te busco quando terminar o ensaio e de lá vamos para o shopping, que tal? Não aceito não como resposta.

— Kevin, quando uma garota diz não, é não.

— Ah, coé! Pensa que não percebi que você fica me desejando com os olhos?

— Kevin, eu não sei. Depois a gente conversa, pode ser? Eu preciso voltar para a classe agora. Quero ver se ainda dá tempo de pegar o finalzinho da aula de língua portuguesa.

Ele usou o corpo para bloquear a minha passagem. Depois se inclinou para aproximar a boca na minha orelha.

— Só vou deixar você ir depois que eu receber o meu sim.

Kevin...

Ele mordeu os lábios.

— Você vai dar ou não vai dar a resposta que eu quero?

Era a primeira vez que um garoto chegava até mim com aquele tipo de intenção. Talvez a atmosfera introspectiva ao meu redor tenha afastado os garotos de mim. Quando eu voltaria a ter aquela oportunidade novamente? Eu não sabia. Foi por sido que Kevin me venceu pela insistência. E hei de confessar que no fundo do meu intimo eu estava bastante empolgada por essa possível aventura com cara de sonho adolescente.

Todavia, o que parecia um sonho se mostrou pesadelo. No final da tarde do mesmo dia, quando eu estava em meu quarto terminando de me arrumar para ir à aula de flauta, tia Carmem atendeu uma chamada telefônica no nosso fixo residencial que me deixou nervosa.

— Ligação para você, pombinha.

— Pra mim? No fixo?

— É.

— Quem quer falar comigo, tia?

— É um rapazinho. Disse que se chama Kevin.

Tia Carmem deve ter ficado sem entender a razão de um sorriso instantâneo surgir em meu rosto apenas com a simples menção daquele nome.

— É pra mim mesmo. Obrigada.

Tomei de forma abrupta o sem fio das mãos dela e pedi com educação para que ela saísse do quarto e encostasse a porta. Por um momento fiquei me perguntando como Kevin tinha conseguido o número do meu telefone fixo.

— Ele é presidente do grêmio estudantil. Tem acesso livre aos computadores da secretaria da escola com os dados dos alunos. Deve ter sido lá que ele conseguiu meu número. Que loucura! Meu Deus! Kevin está mesmo afinzão de mim?

Eu estava morrendo de curiosidade para saber as razões para Kevin ter me ligado. Era a primeira vez que um garoto ligava para mim.

"Alô?"

Nenhuma resposta. Será que a ligação tinha caído?

"Alô?"

Agora era possível ouvir a respiração abafada da pessoa pendurada no outro lado da linha.

"Kevin?"

"Você está feliz com suas escolhas, Vick?"

Aquela voz com sotaque arrastado definitivamente não era a voz de Kevin. A voz pertencia ao rosto da sofrência, do suicídio social, da perseguição e do bullying em pleno ensino médio.

"Chico?"

"Responde! Tá feliz?"

"Chico, eu..."

"Eu o quê? Qual vai ser a sua desculpa?"

"C-C-Chico..."

"Eu abri o meu coração para você..."

"Chico, p-p-por favor..."

"Eu chamei o Kevin para brigar porque você me propôs esse desafio..."

"Eu..."

"Você me pediu isso como uma prova de amor."

"Você entendeu errado."

"Eu entendi certo. Você me fez de trouxa."

"Tudo bem, mas tente entender o meu lado, eu..."

"Entender o seu lado? Contra fatos não há argumentos. Você é uma vaca maldosa. Pensei que você fosse especial, mas você é igualzinha a todos eles, sem tirar nem por. Uma completa alienada sem o mínimo de senso. Espero nunca mais ter o desprazer de te ver, Vick. Nunca mais!"

Meu coração apertou-se numa tristeza prolongada. Sentei-me no chão com a cabeça encostada na cama, se sentindo sufocada e sem presença para elaborar uma resposta para uma acusação tão grave. Então deixei que ele falasse mais. Deixei que falasse tudo o que quisesse e assim que desligou na minha cara uma lacuna tão profunda tinha sido aberto dentro de mim que parecia que a minha alma se desprenderia do corpo a qualquer instante.

Chico foi transferido para outra escola depois desse ocorrido. E até hoje nunca mais nos vimos pessoalmente outra vez. E aqui se encerra essa fábula. Mas sem aquela lição de moral que entedia, de difícil digestão, com intuito único de agradar e instruir. Porque o que acabou de ser narrado é uma fábula da vida real. E vida real não é feita só de lições de moral. É feita também de ciclos. Ciclos que se abrem e se fecham e que funcionam de modo quase igual para todos. Eles mudam e se confundem às vezes, é verdade, já que cada um escolhe aquilo que julga ser o melhor caminho. Afinal, cada um sabe o que é melhor para si.

Às vezes me pego pensando nos caminhos que Chico escolheu trilhar. Tentou carreira na música sertaneja, mesmo tendo aquela aparência horrível de patinho feio. Claro que sempre desejei a ele o fracasso. Pensar assim era um crime, algo errado, um gesto hostil? Talvez. Mas quem Chico pensou que era quando me tratou feito lixo durante aquele maldito telefonema? Quando destruiu em mim o sentimento que cada qual tem por si mesmo, reduzindo o meu amor-próprio a um átomo, transformando meu sonho adolescente em uma ferida aberta? Eu queria mais era que ele virasse motivo de chacota para sempre.

Durante um tempo, Chico foi o assunto das rodas de conversas da escola.

— Kevin, você não sabe da maior — a loira assanhada se sentou entre as pernas dele. — Chico Bento fez um canal no YouTube. Se lançou "oficialmente" como cantor sertanejo. Ele até adotou um nome artístico pra pagar de descolado. Dá pra acredita nisso?

— Ah, vá?! Sério? O verme? Você tá me zoando?

— Tô não, gato. Saca só. Esse vídeo ele postou ontem, tá fresquinho. Olha que gracinha, a música tem até coreografia.

Kevin começou a rir igual criança daquilo que estava vendo na tela do celular. Curiosos se aproximaram para assistir o motivo de tanto riso.

— É inacreditável! Esse maluco não se toca?

— Minha nossa, que coisa mais amadora!

— Alguém me diz que isso não é real.

— Esse bicho do mato acha que vai conseguir o quê com essa dancinha ridícula?

— Fala sério! Quem ele pensa que é? Michel Teló?

— Perdeu de vez a noção do ridículo.

— Completamente!

— Vou dar um deslike para ajudar a ficha dele a cair mais depressa.

Mas nada como um dia após o outro para mostrar o quanto estamos errados quando não depositamos fé na capacidade das pessoas de darem a volta por cima. Já que nenhum deslike foi capaz de deter a carreira meteórica de Francisco Augusto no segmento sertanejo. Pois um golpe de sorte fez com que o Brasil todo conhecesse o rosto do garoto que um dia eu desprezei no momento em que descobri que era meu admirador secreto. O rosto do garoto que um dia tratei com nojo, com raiva e com ódio. O rosto do garoto que se tornaria o crush de milhões de adolescentes. O rosto que antes pertencia a Francisco Augusto. E que agora atendia pelo nome de Felippe Miller.

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