43 | PAPAI, POR QUE O CÉU É AZUL?
Eles dizem que nada dura para sempre, mas eles não nos viram juntos (...) Um amor como esse faz um homem ter dúvidas, pois talvez algumas coisas durem para sempre, afinal. —Luke Combs (Forever After All).
ANOS DEPOIS
— Não! — o grito violento e angustiado pôde ser ouvido não somente no quarto do casal, mas também no casarão inteiro da família Ferraz. — Não! Eu não sou um assassino! Eu... Eu não sou...
Ally acordou subitamente e, ainda sonolenta, ligou a luminária e deparou-se com Arthur ao seu lado tendo tremores por todo o corpo e se debatendo, como se estivesse prestes a colapsar. Seu peitoral brilhava por conta do suor excessivo, mesmo o ar condicionando estando no mínimo. Os lábios dele estavam azulados e os olhos abertos e virados para cima, como em uma vertigem.
— Oh, não, meu amor... — Ally sussurrou temerosa ao tentar tocá-lo, porém foi empurrada sem querer. — Acorda, está tudo bem. Está tudo bem.
Porém, o rapaz continuava a se afundar em seus pesadelos e em seus temores mais profundos, canalizando cada ferida interna a seus poros e sua mente, enquanto repetia incessantemente eu não sou um assassino. Ele cerrou os punhos e vociferou tão alto que, no susto, a interiorana pulou da cama.
Sally, ao notar que não conseguiria acordá-lo, levantou-se do colchão e o tocou no pescoço. Estava fervendo. Os olhos esbugalhados e mãos trêmulas deixavam claro que tudo o que ele passou havia lhe deixado um trauma muito maior do que ele tentava mostrar.
A mulher preparou uma compressa de água fria e retornou rapidamente ao quarto, deixando o pano encharcado sobre a testa de Arthur. Em seguida, sentou-se no chão, ao lado do ruivo, com as costas apoiadas na base da cama e os joelhos flexionados. Mesmo em meio à escuridão, ela olhou para frente.
— Se lembra quando a gente foi para a Itália, gogoboy? — Sorriu nostálgica. — Bem, certamente sim, pois foi ali que muita coisa aconteceu. Foi onde percebi que estava ferrada, pois gostava de você. Foi quando a gente finalmente se beijou na chuva, mesmo que eu estivesse um pouco bêbada de vinho. Confesso que senti até ciúme quando te vi pela varanda do quarto de hotel conversando com uma italiana em um café. Bem, também foi onde eu te assisti pela primeira vez tendo uma crise dessa.
Virou-se e, cautelosa, pegou na mão grande e calejada do rapaz. Aos poucos a respiração de Arthur se acalmava, mesmo que ainda permanecesse inconsciente. Ela se ergueu e, aproveitando-se da quietude dele, tocou-o no rosto.
— Eu não faço ideia das coisas que você passou e do que sentiu, mas quero que saiba... Não importa quantos traumas ou quantas noites difíceis a gente vá ter que enfrentar, nós passaremos por tudo isso juntos. Então, estou aqui. Sempre estarei aqui por você.
A voz gentil e cálida da garota parecia ter amenizado todas as tensões antes expostas nos traços dele. Até mesmo as linhas de preocupação tinham desaparecido como quando as nuvens escuras se afastam para deixar o sol brilhar. Os olhos dele haviam se fechado e o inspirar e expirar de seu peito tornaram-se suaves, evidenciando que haviam vencido mais um momento difícil.
Ally sorriu internamente e, sem acordá-lo, deitou-se novamente ao lado do marido, escorando a cabeça no braço masculino, e à medida que o tempo passava, ela aproveitou para garantir que a noite dele não teria mais pesadelos, observando-o e o acariciando em qualquer franzir suspeito de sobrancelhas.
E não teve.
Alheio aos acontecimentos noturnos, Arthur despertou com a gritaria das crianças que já arrastavam brinquedos pela casa. Inclusive o rapaz grunhiu ao escutar, pela 100º naquela mesma semana, a cantoria da banda adolescente que Helena havia formado junto com Cícero e outros amigos da escola. A cada dia ele se questionava por que havia dado uma guitarra para sua frágil garotinha, mesmo que a música estrondosa não fosse nada frágil.
Ao contrário do ruivo, Ally dormia de boca aberta como se estivesse em uma ilha paradisíaca sem nenhum ruído sonoro, e o ruivo se perguntou internamente como ela conseguia, mal suspeitando do fato dela ter ficado acordada a noite toda para vigiá-lo.
— Ravi! — Escutou a funcionária chamar a atenção do menino no andar debaixo. — Você não pode jogar bola dentro de casa!!!!
E de repente um barulho de vidro se quebrando irrompeu no casarão. Provavelmente o filho teria feito gol em algo e, sem dúvidas, ele deveria substituir o objeto antes que Ally descobrisse sobre as estripulias do caçula.
Arthur aproveitou um pequeno instante de silêncio que surgiu para admirar o corpo vestido apenas de lingerie de sua mulher e o sorriso genuíno no rosto dela.
— Está na hora de acordar, Sra. Ferraz... — chamou-a carinhosamente enquanto deslizava seus lábios sobre os dela. Ally gemeu baixinho e permaneceu de olhos fechados, ansiando mais alguns segundos de calmaria e mimos.
Sim, haviam se casado. Tinham escolhido uma capela singela no Havaí para a cerimônia e então todos puderam assisti-la caminhar sob um tapete vermelho, vestida de branco e com um buquê de flores azuis, até o noivo, que usava um terno bege. Naquele dia, Ravi, ainda menorzinho, levou as alianças. Lena e Dirce, por sua vez, tocaram um instrumental de Don't Look Back in Anger que tinham ensaiado diversas vezes. Luís a guiou até o altar enquanto que Sasa, Fátima, Apolo e Nanda ficaram de madrinhas e padrinho.
— Por que essa cara? — a mulher murmurou quando finalmente abriu os olhos e se deparou com o olhar energético do marido sobre si. — Está pensando em quê?
— No nosso casamento — ele confessou enquanto se abaixava para mordiscar levemente o abdômen dela.
Ela riu porque tinha sentindo cócegas e, sem querer, recordou-se da forma com que ele havia feito o pedido, pois convergia um pouco com a expectativa criada pelos filmes românticos que já tinha assistido, que traziam pombos correios, paisagens deslumbrantes e um coral cantando música romântica por trás inesperadamente.
— Alô — Sally atendeu o telefone ao notar ser a coordenadora do colégio de Helena. Estava prestes a ir a uma reunião de trabalho. — Aconteceu algo?
— Senhora, a sua filha está bem, não se preocupe. Porém, preciso de um responsável aqui na escola, pois ela foi pega brigando com um colega de turma e está na diretoria.
— De novo? — Suspirou. Arthur a mirou e ao analisar a fisionomia dela, logo entendeu o que acontecia. — Estamos indo para aí! Até logo. — E desligou o telefone.
A verdade era que Helena não havia brigado sem motivo. A garotinha tinha um bom argumento. Quando o menino que sentava atrás da ruivinha na aula perguntou quem era a mulher que vinha representá-la nas reuniões de pais, ela facilmente respondeu ''é a minha mãe, por quê?''. Roger, o atentado da turma, a havia retrucado ''ela é gata, me passa o número dela?''. A garota recordava-se de tê-lo respondido com um ''não, porque ela namora o meu pai e ela não gosta de baixinhos''. O garoto, ainda não convencido, havia argumentado com um ''se ela não é casada, ela pode terminar com ele para ficar comigo''.
Por conta do seu atrevimento, Helena tinha corrido pelo pátio inteirinho para bater no menino, que morreu de medo e, por isso, não tardou para que seus pais fossem chamados à escola. Assim que os responsáveis chegaram, ou seja, que Ally, Arthur e o pai de Roger se reuniram na sala junto à diretora e às crianças, a dupla infantil contou o que aconteceu.
— Ela é boa demais para você — Roger garantiu com uma feição ameaçadora para Arthur, considerando-o seu arqui-inimigo. Em seguida, mirou Sally e sorriu excessivamente, quase podiam enxergar coraçõezinhos borbulhando ao redor de seus olhos e flechas de amor cravejando seu peito.
— Aí, é cada situação... — Ally murmurou à medida que se encolhia na cadeira e tentava esconder seu rosto com as mãos.
Arthur, ao invés de brigar com o garoto ou alertá-lo sobre o fato de o peso da idade distanciá-lo do amor de Sally, preferiu dizer em tom sério:
— Vou resolver isso, Roger da 4ª série B. É proibido duelos, então é somente ela que poderá colocar um fim nessa disputa. Será eu ou você.
Todos haviam encarado com confusão o semblante de Arthur.
— O que você está dizendo? — Ally perguntou.
— Está bêbado, Sr. Ferraz? — a diretora sisuda questionou.
— Não... Nunca estive mais sóbrio em toda a minha vida. — Ele sorriu de forma genuína e, de certa maneira, todos começaram a entender o que acontecia ali.
Arthur virou o pescoço para mirar as orbes azuladas que queria encontrar todas as manhãs quando acordasse, mesmo que tecnicamente já estivessem morando juntos. Ter Ally presente até o fim de seus dias seria como um sopro de coragem para conseguir enfrentar todos os monstros que ainda restavam em si.
— Você quer se casar comigo, pedaço do céu? E eu sei que estou com um concorrente perigoso aqui, mas... eu prometo que não te passo piolho como um certo alguém, tudo meu é relativamente grande além da altura e, além disso... — Arthur levantou-se da cadeira e, de frente à namorada, ajoelhou-se e a segurou pela mão. — Irei prometer e cumprir tudo o que você quiser, desde que me diga sim. Minha máquina fotográfica ficou viciada em tirar fotos suas. O cheiro do seu perfume já está impregnado na nossa cama, e preciso que ele nunca suma. Eu quero seus cochichos altos, seu guarda-roupa cheio de peças amarelas e, principalmente, você dando em cima de mim quando está bêbada.
E então retirou do bolso o anel que guardava consigo há um bom tempo, pois tinha até mesmo organizado há uma semana um pedido completamente diferente do que falara, que seria dito no melhor restaurante da cidade, onde já havia adquirido reservas.
Porém, sua impulsividade tinha mudado algumas coisas.
Sally ainda se encontrava petrificada e aturdida com o fato de um simples chamado escolar de Helena ter ocasionado aquela situação. Ela olhou ao seu redor as diferentes reações: o pai de Roger e a diretoria pareciam sorrir abobados, Helena, ao contrário, estava ansiosa, pois balançava insistentemente a perna, e Roger estava furioso, pois notou-o com o punho cerrado e uma careta de tristeza, como se sofresse sua primeira desilusão amorosa.
— Você é perverso, gogoboy. — Ally riu e balançou a cabeça, não acreditando que estava vivenciando aquilo. — Porém, eu aceito. Tudo para que outros garotinhos não sofram mais.
O ruivo riu de sua futura esposa e, mesmo dentro de uma instituição escolar e podendo levar broncas da diretora de sua filha, ele agarrou a sua noiva e a beijou intensamente.
— E pensar que tudo isso só porque você sentiu ciúmes de um garoto que ainda não tinha nem bigode. — Ally revirou os olhos e gargalhou por conta das ideias repentinas do rapaz com quem compartilhava seus últimos anos.
— Ei! — Arthur a censurou, pregando-a na cama pelos braços e explorando com a boca o pescoço e o busto da mulher, que começava a arfar sob aquelas carícias. — Você sabe que ele só adiantou algo que eu já queria há um bom tempo... Sempre foi você. Sempre.
— Seremos péssimos pais se ignorarmos nossos filhos agora e os deixarmos enlouquecer mais um pouco a babá? — ela o perguntou com as pupilas já dilatadas e ferinas.
— Deveríamos ter duas, não é? — Arthur estranhou a ausência da senhora Portman.
— Helena deixou claro que é grande demais para ter babá, por isso, tive que despedi-la. Era isso ou ela não pararia de pôr insetos na comida dela. A mulher surtou quando Lena a acordou em seu sono da tarde tocando a guitarra. Estou pagando o triplo a babá do Ravi para vigiá-la, pois ela vale por dois, só que Helena não pode nem suspeitar disso.
— Bico fechado. — Ele riu e simulou fechar a boca com um zíper imaginário. — Temos que trabalhar... — comentou despreocupadamente, embora já a tivesse despido. Seu indicador caminharam pela pele nua feminina até a virilha descoberta, arrepiando-a inteira. Ally tentou resistir, mas era difícil, senão impossível. Mal conseguiu disfarçar um gemido quando os dedos dele a penetraram, forçando-a a morder um travesseiro. — Acho que por sermos donos daquele lugar, agora que você está finalmente formada e está dividindo a presidência comigo, nós podemos nos atrasar alguns minutos... ou horas...
Aquelas palavras pareciam desconexas para a mulher, que revirava os olhos e se remexia de acordo com as investidas do marido. Arthur não aguentou provocá-la por muito tempo e, por isso, logo retirou seu short de pijama para tê-la e dominá-la sob si.
— Poderíamos tirar uma folga hoje do trabalho, não é? — Ally pediu assim que finalizaram a primeira rodada, ainda agarrada ao corpo masculino que tanto havia usado nos últimos minutos. Os dois ainda sentiam suas peles formigarem, o suor escorrer e a respiração ofegante. — Eu sei que você consegue dar um jeitinho nisso...
— Eu posso pedir para a nova secretária dar alguns telefonemas e reagendar algumas coisas, claro que por conta de uma razão excepcional. Eles não precisam saber que é só para passar o dia na cama da minha mulher — disse, fazendo-a sorrir. Apertou-a ainda mais forte contra seu peitoral e a beijou na cabeça, aquecendo-se da presença da garota que o acalmava.
— Amor? — A interiorana arqueou o pescoço para fitá-lo.
— Hm...
— Você se lembra da primeira palavra de Ravi? — Sorriu travessa.
— Eu ainda não consegui digerir isso, você sabe — reclamou, embora houvesse um resquício de sorriso em seus lábios. A verdade era que, infelizmente, não tinha sido papa, nem mesmo mama.
— Você tem que superar! — Ally soltou uma risada ao se recordar. — De certa forma, você foi privilegiado, já que Dirce estimulou Ravi falar pela primeira vez stiper, de stripper.
Arthur balançou a cabeça negativamente e, logo depois, ficou acariciando a coxa de Ally com o polegar.
— Muitas coisas boas aconteceram, não é? Apesar de algumas ruins. Até hoje me lembro da agonia que foi quando nosso bebê foi internado com bronquiolite. Eu fiquei com tanto medo de perdê-lo. Para ser sincero, só senti o mesmo quando descobri sobre o câncer de Helena, quando você foi sequestrada e quando parte da minha família morreu.
— Ei, está tudo bem — a garota sussurrou para ele e, de forma branda, se virou até ficar de lado para vê-lo. Era visível em sua fisionomia o temor que ainda o assombrava. — Você pode me falar sobre tudo, tá bom? Sobre seus medos mais superficiais e... mais profundos também.
Ele suspirou, abaixou a cabeça, e após longos segundos em silêncio, ergueu novamente a face. Aninhou-se no peito da esposa e, em reflexo, Ally o abraçou e brincou com os fios alaranjados do cabelo dele, deixando-o se expressar quando e da maneira que quisesse.
— Eu achei que pudesse superar, mas... é difícil. Para conseguir sair da prisão com vida, eu tive que matar algumas pessoas. Na verdade, eu nem cheguei a contar a quantidade. Eu só sei que lutei muito para não chegar a esse ponto, mas cheguei. Não sei lidar com isso. Queria ser insensível como Fabrício, só que não dá.
— Ei... — ela cochichou com carinho fazendo-o olhá-la. Limpou algumas lágrimas que ousaram cair e beijou os lábios macios dele. — Você não é um assassino, gogoboy. Você fez isso por um motivo maior. Fez isso por mim, pelos seus filhos, por você. Não se sinta culpado, está bem? Não carregue esse fardo sozinho, estou aqui com você. Por você. Sempre.
Arthur limpou as próximas lágrimas que surgiram e não pôde conter a sensação de que tinha encontrado a sua redenção. Estava a sua frente, na forma da mulher mais incrível do seu mundo. Na forma da garota capaz de fazê-lo dizer ''eu te amo'' todos os dias, capaz de transformar momentos simples nos mais especiais, capaz de colorir sua vida preto e branco em tons normalmente amarelados.
Ao longo daqueles anos, muitas coisas haviam acontecido. A dupla costumava levantar da cama todas as vezes que escutavam os choros prolongados de Ravi, retirando-o do berço e o ninando até que ele se acalmasse. Mesmo cansados, cantavam canções de ninar. Ally costumava se sentar na poltrona de balança para alimentá-lo, e o rapaz sempre os presenciava, admirado com a cena. Ela parou de amamentar quando o menino fez três anos, porque seu leite empedrou.
Certa vez quando a interiorana estava atarefada com Helena, tendo que preparar cupcakes para eventos da escola da garota, Arthur decidiu brincar de pirata com o garotinho. Lembrava-se de tê-lo deitado na cama entre dois travesseiros, colocado um tapa olho, fez de seus braços espadas e falou frases típicas como ''quem ousa tentar roubar todos os meus tesouros?'' ''você vai andar na prancha!''. Ao cruzar o corredor, Ally acabou assistindo escondida graças à porta entreaberta. Seu filho reagia movimentando os braços, gargalhando e olhando para o pai intensamente.
Todas as inseguranças daquele ruivo convencido eram bobas. Ali ficava claro o quanto aquela criança o amava. Se ele dissesse meleca, ainda assim, Ravi riria achando-o o cara mais incrível do universo.
— Ei, eu sei que vocês estão aí! — Helena bateu na porta, assustando seus pais. Ao entrar no quarto e se deparar com o casal na cama enrolados em cobertas, ela arqueou a sobrancelha. Arthur sorriu ao percebê-la um pouco mais alta, com seus cabelos ruivos próximos à cintura e as roupas despojadas. Ela já estava quase ultrapassando a altura de Ally.
— Por favor — Lena dramatizou —, venham pegar o filho de vocês, ele está conversando de novo com o amigo imaginário dele e estão rabiscando as paredes com giz de cera!
— Ok, borboletinha! — Arthur retrucou sorridente. — Aproveita e não esqueça de levar o lixo lá para fora! Aliás, quero que deixe seu caderno de matemática no meu escritório, ouviu? Vamos estudar o assunto desse trimestre hoje à noite.
— Paiê! — ela reclamou. Vendo que não funcionaria, girou o pescoço e olhou desesperadamente Sally. — Mãe?
Porém, ao ver a mais velha dar de ombros e notar que não adiantaria, a primogênita saiu pisando duro e foi fazer sua tarefa, arrependendo-se de ir dedurar o irmão, que naquele momento corria pela sala vestido de Hulk e acompanhado pelo amigo invisível.
Ao notarem que não daria mais para adiar, o casal se vestiu, abriu a porta do quarto e foram até a barulheira, que denunciava a presença do pequeno Ferraz. Ao avistar os pais, o garotinho minúsculo, de cabelos alaranjados e olhos azulados, soltou o giz, saltitou e correu até eles.
— Olha, não pode ficar riscando as paredes, ok? Vou te dar papéis e só irá colorir eles, tá bom? — Ally o censurou ao pegá-lo no colo, beijando-o na testa. O menino assentiu. — Irá para a escola assim, é? — Perguntou ao fitá-lo de cima a baixo, resistindo a vontade de apertá-lo fortemente. Havia um dia na semana que eles podiam ir da forma que quisessem para a escolinha. — Quem te vestiu?
— A tia Salah, mas ela já foi.
— E o Tonico está de quê? — Arthur perguntou interessado. Tonico era o amigo imaginário.
— Unicórnio, papai — Ravi respondeu e olhou para o espaço em que não havia ninguém. — É de menina, não é? E se as outras crianças rirem?
— Não vão rir, meu amor. Cada um pode ir da forma que quiser — a interiorana o confortou e voltou a deixá-lo no chão. — Vou terminar de preparar seu lanche e o da sua irmã, tá? Não aprontem na minha ausência — disse ao fitar os dois e, logo em seguida, desapareceu pelo corredor. A TV estava ligada em um canal infantil e tocava uma musiquinha alegre sobre lavar as mãos.
— Papai, por que o céu é azul? — o garotinho ruivo perguntou curioso enquanto acompanhava Arthur se sentar no chão e pegar um de seus brinquedos.
— Porque os raios do sol refletem nos olhos azuis da sua mãe, que refletem no céu e fazem ele ser azul também — disse sorridente e ergueu um dos bonecos de monstro.
— Ahhh — expressou surpreso e sorridente, expondo os dentinhos pequenos e afastados. — Isso é muito legal!! — Ele se sentou na perna esquerda de Arthur e segurou o boneco de super herói. Aproveitou para derrotar o mais velho, por ele ser do mal na brincadeira imaginária dos dois. — Então o sol é amalelo por que a mamãe tá sempre de amalelo?
— Isso — revelou para o menino e deu uma piscadela, fazendo-o rir ao bagunçar a cabeleira alaranjada de seu caçula. — Garoto esperto. — E então abraçou o filho, enquanto o observava se distrair com os incontáveis brinquedos jogados no piso da sala de estar.
Sentiu-se sortudo.
Enquanto Ravi, ainda em seu colo, balbuciava sons de carros e de avião por conta das miniaturas de veículos que tinha, o mais velho respirou profundamente abastecendo-se de paz e, em seguida, encarou as diversas fotografias espalhadas pelo lugar – a maioria que ele mesmo havia tirado.
Sorriu quando em seu campo de visão entrou o retrato da viagem que havia feito com a família no Butterfly World, um borboletário localizado no sul da Flórida, iniciando o cumprimento de sua promessa à filha. Em meio à paisagem de folhas e flores, além de algumas borboletas pequeninas espalhadas ao redor, os olhos de Helena esbugalhavam de felicidade, Ravi puxava o vestido de Sally querendo peito e o casal tentava sorrir, embora seus olhos estivessem semicerrados por conta do sol escaldante.
E Arthur percebeu que, embora fosse difícil e às vezes ainda se pegasse pensando nas coisas que perdeu, o que o fazia acordar todos os dias e celebrar sua vida era focar no que tinha.
No que havia ganhado.
— Gogoboy, você viu onde deixei a chave do jeep? — Ally apareceu inesperadamente, sendo seguida da babá, interrompendo-o de suas divagações. Ela segurava a mochila de Lena – preta e estampada com um esqueleto – e a lancheira de Ravi – do Hulk, e ao estranhar o marido distraído, estalou os dedos na frente dele. — Cê sabe onde tá?
— Tenho para mim que esqueci lá em cima... — Arthur sorriu maliciosamente.
Ao contemplar a fisionomia da esposa vibrar e ela sorrir em concordância, percebeu que, não importasse o que acontecesse, ele sempre ficaria feliz por tê-la encontrado.
Sempre.
— Cinco minutos, babá, serão só cinco minutos, caso contrário te mando um extra esse mês! — Arthur gritou quando já estava com um pé no degrau com Sally nos braços.
Ao assistir o casal sumir de sua visão, a mulher balançou a cabeça, riu e deu um pouco de suco de morango para o menino. Ao fitar os olhos azulados da criança que tentava lamber o fundo do copo sem sucesso, a funcionária brincou:
— Que seus pais continuem apaixonados assim para sempre, Ravi, porque assim a titia fica mais rica com tantos extras.
✈
Oi, como estão?
Sim, esse foi o último capítulo da história...
Mas ainda teremos um prólogo ♥
Tô doente, 2022 começou cheio de notícias ruins e inesperadas... Mas fico tão feliz por conseguir finalizar mais um projeto que me demandou bastante tempo e que foi tão especial para mim. Realmente esses personagens criaram pernas e se tornaram meus bebês.
Espero do fundo do coração que tenham gostado. O final tá calmo, porque, no geral, os problemas para eles acabaram, quer dizer, não totalmente, porque há alguns b.o's em um 2º livro que quero fazer, mas com foco em outros personagens, que podem acabar respingando nos protagonistas de O amor que deixamos para trás.
É isso... até o prólogo, pessoal! Espero vocês lá e obrigadaaaaaaaaaaaaa pela companhia, de verdade ♥♥♥
Um gifzinho pra vocês do nosso casal
p.s: para quem quiser saber, esse gif eu tirei de uma série chamada Sen Çal Kapimi e a história assim como a química do casal é FENOMENAL!
♥♥♥
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