38 | VOU DESENHAR A NOSSA FAMÍLIA, MÃE


 Mas estou tentando o meu melhor para olhar em seus olhos, porque as lágrimas nunca envelhecem e os anos nunca morrem. — Isak Danielson (If You Ever Forget That You love Me).



— Vamos, faça força! — o médico vociferou para Sally enquanto acompanhava suas contrações e a ouvia gritar. — Não pare, seu bebê está vindo! Faça força! Vamos! — bradou.

Sally urrava e sentia o suor escorrer pelo seu rosto. Contraia a mandíbula e sentia seu coração palpitar. Estava deitada em uma maca, usando touca e vestimentas da maternidade, rodeada por médicos e enfermeiros obstetras que a conduziam a parir. Havia um pano a sua frente, impedindo-a de visualizar o que faziam.

Sentia-se esgotada, porém, permanecia tentando empurrar a criança para fora. Inclinou a cabeça para trás e apertou os olhos por conta da dor, mas não parou, dilatando-se ainda mais em meio a seus ganidos. Seus gritos ferozes dominaram todo o recinto e ela apertou firme a mão de Luís Miguel.

— Eu não consigo! — a garota ralhou em desespero. Seus olhos fundos expunham seu cansaço e seu corpo tremia em exaustão. — Eu não aguento mais!

— Vamos, Ally! — Luís estimulou-a carinhosamente. Estava ansioso e em expectativa, provavelmente a filmagem que fazia estaria toda trêmula, mas esforçava-se para passar apenas confiança à melhor amiga. — Aguente firme! Pense no seu filho, no pai dele, em mim ensinando a criança a pilotar um avião — murmurou tentando descontrair o clima, o que de certa forma funcionou, pois isso fez com que a garota ganhasse mais força.

— Está quase lá, só mais um pouco — o médico garantiu ao já visualizar a cabeça do bebê. Sally franziu o cenho e usou toda a energia que ainda tinha. Ela bradou tão alto e tão arrebatadoramente que seu corpo reagiu, a dor a tomou, mas conseguiu expulsar a criança, que, aos berros e suja de sangue, saiu completamente de dentro dela.

— Meu filho — Ally sibilou ao escutar o choramingo infantil e agudo da criança, que era erguida pelo médico e esticava as mãozinhas assustada. Naquele momento, tudo pareceu fazer sentido e valer a pena. Seus olhos estavam embargados, por isso, o vislumbre do ser pequenino passando pela equipe médica pareceu borrado.

— É um menino lindo, cereja — Miguel declarou orgulhoso enquanto fitava a melhor amiga de infância. Ele respirou fundo e, voltando à filmagem que fazia a pedido de Ally, mirou a câmera para a cena da criança sendo limpa pela enfermeira e, apesar da voz estremecida, falou: — Veja, irmão, até então parece que a criança puxou a beleza da mãe...

Levaram rapidamente o recém-nascido para Sally, que se ajeitou e o acolheu nos braços e analisou cada pedacinho do filho. Era estranho segurá-lo por ser tão frágil. Analisou as duas mãozinhas, as duas perninhas, os fios finos, os olhos, os contornos da boca e do nariz.

Perfeito.

Era incrível como pôde, junto a Arthur, terem feito um serzinho tão... gracioso. O bebê se acalmou ao reconhecer o toque de sua mãe e esse primeiro contato ao vivo e a cores não passou despercebido na filmagem de Luís, que se mantinha distante para respeitá-los.

— Você já tem ideia do nome? — o doutor perguntou com um sorriso no rosto ao assistir o entrosamento de mãe e filho.

— Sim. — Sally sorriu enquanto admirava o bebê. — Será Ravi. Significa sol, porque assim como o pai dele, serão os meus dois meninos que iluminarão os meus dias nublados.

No mesmo momento, porém um pouco afastado do local em que sua namorada trazia à vida o novo integrante da família, Arthur permanecia sentado sobre a cama hospitalar. Seus olhos abertos e inquietos deixavam claro sua angústia e emoção, escondidos pelo ambiente pouco iluminado. Tentava balbuciar algo, porém a enfermeira que o examinava não conseguia entendê-lo.

— Você está ótimo, senhor Ferraz, apesar dos batimentos acelerados — ela interagiu com o recém acordado. — Com a fisioterapia, em breve, irá conseguir recuperar sua fala e seus movimentos, não se preocupe. Terá todo o suporte, até mesmo de psicólogos — informou. Ela anotava na ficha do ruivo os dados de seu exame físico. Havia cessado a febre e sua pressão se estabilizava. — Está assim por conta do ambiente fechado, não é? — tentou deduzir e seguiu até a janela, em seguida, abriu a cortina branca, deixando que a brisa externa adentrasse o quarto e golpeasse o homem na face. Os cabelos ondulados e alaranjados dele agitaram-se em harmonia à ventania.

Arthur enrugou a testa e esforçou-se para girar o pescoço, embora não fosse capaz. A simples tentativa doía e o machucava, mas não se importou. A funcionária percebeu o semblante ansioso de seu paciente e demorou alguns segundos para compreendê-lo. Ela relaxou os ombros, caminhou até o perfil debilitado de Arthur e o movimentou na cama cuidadosamente, girando-o e possibilitando que ele pudesse enxergar o entardecer da janela do hospital. Afofou alguns travesseiros em suas costas e afastou-se.

A fisionomia de Arthur se acalmou de forma gradual, seus músculos pareciam menos tensionados e seu coração era preenchido por uma sensação pacífica e familiar. O céu trazia um leque de tons rosados que se confundiam em fragmentos de azul e laranja, os quais pareciam perder a intensidade à medida que o sol despencava no horizonte.

Mesmo prestes a se pôr, a grande estrela parecia, justamente naquele fim de tarde, ainda mais forte e intensa, como se merecesse brilhar um pouco mais. O sol permanecia a se sobressair e aquecer a todos, principalmente o ruivo, expondo as pequenas e numerosas sardas espalhadas em seu rosto.

Desde o nascimento de Ravi, algumas coisas aconteceram. Ainda na maternidade, com os seios doloridos e o corpo fatigado, enquanto amamentava o seu filho, Sally se surpreendeu com a chegada de Fátima, que adentrava o cômodo e limpava as lágrimas ao contemplar sua caçula com seu primeiro neto.

— Não sabia que vinha, mamãe — Ally sussurrou para não assustar a criança. — Como deu tempo de chegar?

— Sarah me ligou hoje desesperada porque iria ser tia, disse que o menino é a cara dela. Só que eu já estava a caminho, pois iria fazer uma surpresa, mas quem foi surpreendida fui eu — contou com um tom divertido. Aproximou-se da dupla e acariciou os cabelos da filha. — Sua irmã está eufórica! Estão todos lá fora, não entraram porque querem te dar espaço com o bebê... — Olhou para o rostinho infantil. — Parabéns por ele. Agora finalmente você vai conhecer o maior amor do mundo.

Sally suspirou e sorriu, retornando sua atenção ao garotinho faminto que sugava seu bico como se não houvesse coisa melhor. Deslizou seu polegar sobre os fios ralos e curtos dele. Realmente já o amava mais do que tudo no universo.

— Irei ficar aqui para te ajudar — Fátima anunciou. — E é claro que também vim para esmagar e mimar muito o meu neto.

Após o reencontro entre as duas, Ally se recuperou rapidamente. Recebeu visitas e aproveitou cada segundo com seu pequeno, apesar do seu peito apertar ainda mais de saudade de Arthur. Ao mesmo tempo e com o suporte de seu irmão, Apolo – que se tornou alguém importante para ele –, de sua médica Kyoko e do fisioterapeuta, Arthur iniciava suas sessões de exercícios para retornar a sua família.

Miguel e Apolo foram as pessoas principais que passaram a acompanhar os avanços do ruivo, pois as crianças estavam exigindo demais de Sally e, por isso, ela mal pôde visitá-lo. Em todas as vezes que ousou pisar os pés fora de casa, Ravi ameaçou choros de febre ou a assustou devido a suas cólicas. Sarah tentou ajudá-la certa vez, no entanto, o menininho não se adaptou a ausência da mãe, chegava a se engasgar com o próprio choro, por isso, Ally teve que retornar com o carro assim que se aproximou do hospital.

Mas, por sorte, Luís se alegrava com cada progresso de Arthur, como em uma forma genuína de demonstrar que, apesar de não terem laços sanguíneos, e apesar dos seus erros do passado, não cometeria os mesmos deslizes.

E dessa maneira se passaram cerca de três meses de treinamento intensivo.

Assim que mais uma sessão de fisioterapia se encerrou, Luís apoiou o irmão em seus ombros e o guiou até o quarto em que ele ficava. Deitou-o na cama cuidadosamente e, logo após, sentou-se na cadeira de acompanhante.

— Sabe, eu realmente fico feliz que você está aqui, cabeça de abóbora — Luís preencheu o silêncio e tentou sorrir. Arthur movimentou a face em direção ao rapaz. Estava tendo resultados muito rapidamente. — No início eu não entendia o porquê de a Sally ter te escolhido. Eu não entendia por que, de repente, as coisas inverteram. De repente você era alguém... diferente. Mas hoje vejo que você sempre foi assim, apenas se mascarava, e para ser sincero, eu não me esforçava para te enxergar além das suas ações... digamos que imprudentes. Fui colocado por tanto tempo na figura do irmão perfeito, que acabei me deslumbrando, me esquecendo que ser um bom irmão vai muito além de estar certo, e sim de te apoiar e estar ao seu lado independente dos imprevistos.

Respirou profundamente, de modo que seu peito inflou e retornou demoradamente.

— E hoje eu vejo... Você... você é forte. A sua força te trouxe até aqui e te fez passar por coisas que, talvez, no seu lugar eu não aguentaria. Você a merece, irmão. Merece os seus filhos. E não poderia haver alguém melhor para a Ally — confessou com a voz já embargada. Olhou de relance para o filho de Ângela e acompanhou os olhos cor de âmbar dele brilharem e algumas lágrimas solitárias despencarem. — Estamos parecendo dois patetas chorosos aqui, não é?

Luís deu curtos passos até o irmão e soltou o ar de seus pulmões à medida que sorria.

— A verdade é que estou orgulhoso de você. Muito — acrescentou. — Você me mostrou tanta coisa. Me ensinou a reagir diante das dificuldades, porque sabemos que antes, em qualquer problema, eu me estagnava e aceitava. Me mostrou que existem formas mais leves de levar a vida, que nem tudo tem que ser levado a sério. Aliás, você também me mostrou o tipo de pai que devo ser no futuro. Mas, principalmente, me ensinou a como ser um irmão de verdade. Eu... eu amo você, cabeça de abóbora. Dona Silvia, como sempre, estava certa... Sem dúvidas eu tomaria um tiro por você.

Irmão — a voz frágil de Arthur fez com que Miguel se sentisse perdoado. Arrastou o braço e tocou sutilmente as mãos de Luís, como em uma forma de expor que também o amava. — Eu vou precisar de você para uma coisa, cordeirinho do bem. Uma surpresa para a Sally.

— Conte comigo, irmão.

O passado não importava. Os erros antigos dos dois não eram relevantes. Nem mesmo os arrependimentos.

Para a dupla, ali, sozinhos e submersos em tantos sentimentos contraditórios, aquilo era como um recomeçar. Ambos sorriram quando uma lufada de ar despontou da janela e os atingiu.

Apolo estava acompanhando os desfechos do caso de Arthur, empenhando-se para que tudo terminasse de forma justa. Todos tinham sido chamados para depor, entregaram as provas, inclusive as que Ally conseguiu com Cíntia, o que fez com que descobrissem a sede do grupo por meio da passagem.

Isso permitiu que acessassem uma pilha de documentos e dados, que continham, inclusive, informações de como agiam e as identidades dos capangas de Fabrício, além de comprovantes bancários para políticos, juízes e agentes de segurança, bem como fotos comprometedoras – como traições e relações homoafetivas de figuras públicas consideradas conservadoras –, que deixavam claro os corruptos que foram comprados ou chantageados pela organização criminosa.

Invadiram a casa do falecido advogado atrás de mais indícios e provas, e no meio dos pertences dele, foi encontrado um vídeo de Lourenço que, após ter passado pela análise da polícia, foi devolvido para Luís Miguel. Apesar da curiosidade, o rapaz não o assistiu, decidiu que o colocaria para rodar junto com todos, por isso esperaria seu irmão voltar para casa.

Após todo o empenho, o trabalho e os riscos que Apolo se submeteu, iriam ser reconhecidos, embora, para ele, aquilo não fosse necessário. Estava agendada uma cerimônia de condecoração para o agente Negrini, junto a militares e políticos importantes, pelos seus esforços a favor da justiça e ao combate à corrupção.

Já quanto a Sally, como prometido, Fátima permaneceu ajudando-a com Ravi, mas logo teve que voltar para o interior para finalizar os detalhes de seu casamento. Porém, no pouco tempo, ensinou a filha a dar banho no garotinho, a diferenciar os choros e, principalmente, a respeitar seus próprios limites. Embora ela o amasse, a verdade era que a maternidade não era tão fácil quanto parecia nos filmes.

Ela sentia inseguranças e medos. Suas noites já não eram completas e seu corpo estava muito fatigado, exibindo olheiras e, na maior parte do tempo, seu cabelo estava desgrenhado e oleoso. Lutava para amamentar, mesmo que seus mamilos doessem e às vezes dormisse sem querer com ele no colo. Seu leite vazava e ela teve que trocar os lençóis da cama diversas vezes.

— Chegamos! — ouviu o grito alegre no andar de baixo de Luís e o barulho da porta sendo destrancada. Imediatamente devolveu o bebê para o berço e tentou esconder os cabelos sujos em um coque mal feito. — Cereja? — chamou-a ao notar o ambiente deserto.

Ele havia levado Helena no shopping junto com Jasmim para irem ao cinema. Tinham lanchado em fast food e comprado brinquedos para Lena e Ravi, os quais foram despejados sobre o sofá. Ally desceu à escadaria às pressas e avistou o trio. Seu melhor amigo estava de mãos dadas com a médica, ambos sorridentes, e essa cena fez com um sorriso despontasse nos lábios da nova mamãe. Havia diversas sacolas cheias de guloseimas nas mãos de Lena.

— Gostou do filme, peixinho ruivo? — Ally direcionou-se à garotinha tentando transparecer ânimo.

Lena tentou sorrir, embora sua alegria parecesse um pouco apagada, pois seu sorriso não chegava aos olhos. O brilho em sua íris negra parecia murcho. Cabisbaixa, a menina não disse nada, nem saltitou contente e tagarelou sobre seu dia feliz, apenas assentiu e, em seguida, subiu para seu quarto, sem nem mesmo abraçar sua madrasta. Aquele comportamento atípico da ruivinha fez com que a interiorana arqueasse uma sobrancelha.

— Isso foi estranho só para mim? — a morena questionou a dupla. — Aconteceu algo?

— Tente conversar com ela — Jasmim orientou com sua fisionomia serena. — Aliás, estive com Kyoko, acreditamos que nessa próxima semana Arthur poderá voltar para casa. Ele está apresentando muitas melhores nesses meses de fisioterapia.

— Não estou tendo muito tempo de visitá-lo — Ally confessou e encolheu os ombros. Nunca imaginaria que um bebê pudesse desgastá-la tanto. A verdade era que sequer havia tomado um banho naquele dia, e suas roupas largas e sujas de golfo e excreções amareladas expunham aquilo. — Ele deve achar que o abandonei, não é? Deve estar me odiando!

— Ele entende — a de olhos verdes confortou-a. — E olha, se você quiser contratar uma funcionária para te ajudar com o Ravi, isso não vai te tornar menos mãe, tudo bem?

— Hoje é o dia da Sarah ficar com Helena, não é? Amanhã é Dirce e depois sou eu — Miguel quis confirmar, pois tinha se perdido com o cronograma que Ally tinha feito para cuidarem da criança mais velha. — Notei que em nenhum dos dias você está inclusa... Eu sei que o Ravi está te exigindo muito, mas acho que a Helena está sentindo a sua falta.

— Eu... eu não tinha notado que não me inclui no cronograma — a morena admitiu e seus olhos lacrimejaram. Sentia-se horrível por isso. Como seria uma boa mãe se nem mesmo da enteada conseguia cuidar?

A verdade era que se sentia bombardeada, mesmo que contasse com um círculo maravilhoso de amigos.

— Ei! — Jasmim aproximou-se da mulher em um gesto afável. Tocou-a no ombro e sorriu. — Respire. Não se cobre. Você está se adaptando ainda. De repente, de certa forma, você ganhou duas crianças, porque agora a referência materna de Helena é você. Não sei se reparou, mas a Lena e o Ravi são seus, e isso é responsabilidade dupla.

Sally assombrou-se. Nunca havia pensado dessa maneira, pois jamais seria invasiva na vida da garotinha a ponto de tentar pegar um posto que não sabia se poderia lhe pertencer. Não queria roubar a posição de Cíntia, mas também não queria que Helena se afastasse dela.

— Obrigada por me lembrar disso — a mãe de Ravi declarou à medida que soltava o ar preso de seus pulmões. — Eu irei conversar com ela, mas antes preciso de um banho.

— Com certeza! — a médica brincou soltando uma leve risada. — Enquanto isso, não se preocupe que fico com o bebê.

— Eu também — Miguel se intrometeu. As duas o fitaram. — O quê? Eu também quero ver o meu sobrinho! Ele é a minha cara — murmurou convencido.

Ally riu enquanto retornava para o andar de cima, sendo acompanhada logo atrás pelos dois.

— Até mesmo Dirce diz que ele se parece com ela! — Ally revirou os olhos com um princípio de sorriso nos lábios. — A verdade é que ele é igual a mãe. Eu pari, eu carreguei, eu fiz, logo, nada mais que justo!

— Ah... Eu já acho que ele é parecido comigo — Jasmim explanou e, em resposta, os adultos riram.

A mulher de cabelos encaracolados e o Ferraz entraram no quarto de Ally silenciosos. Por sorte, ao alcançarem o berço com tema de safári, notaram o menino já acordado, mexendo os braços e distraído com os brinquedos em forma de leões, girafas e macaquinhos que giravam acima de si. Miguel sorriu ingenuamente ao assisti-la pegá-lo e, logo após, niná-lo em seus braços.

— Você fica linda com crianças — ele falou sem querer.

— Quem sabe um dia terei alguns — disse sorridente encantada por Ravi, que brincava com as próprias mãos e emitia gritinhos agudos.

— E quem sabe... — Miguel pegou nas mãos pequenas do garotinho e a fitou de relance. — Quem sabe eles não possam ser meus também.

Jasmim, surpreendida, ergueu o rosto e retribuiu o olhar intenso do rapaz. Mordeu os próprios lábios para ofuscar um sorriso aberto.

— Não temos nada sério para pensarmos em filhos — retrucou de forma descontraída, embora houvesse um resquício de ressentimento em sua fala. Não sabia o porquê se incomodava com esse detalhe. — Sabe, somos adultos e só ficamos de vez em quando, e...

— Podemos ter algo sério — Luís divagou sem deixar de mirar as orbes esverdeadas dela. O neném assistia, interessado, os dois, embora não entendesse o que acontecia. — Se você quiser, é claro — completou sem jeito.

— Está me pedindo em namoro, Sr. Ferraz? — Jasmim questionou humorada enquanto devolvia o menino para sua caminha. No mesmo instante, Luís deu um passo para ela e a apertou na cintura, quase colando seus rostos. Permanecia em silêncio, como se esperasse a resposta dela.

— Eu sou meio lerdo às vezes e isso é uma droga, mas tô tentando melhorar — Riu. — Quando Apolo disse que te encontrou desacordada, eu pensei no pior, meu coração se apertou e percebi que você era... importante. Importante para mim. Não pensei em nada, só corri desesperado por aquele hospital até te encontrar, tranquila, no leito. Sua respiração serena me acalmou. Eu estive por muito tempo preso no meu passado, mas agora tendo você por perto e a um passo de realizar meu sonho de ser piloto, eu estou ansioso pelo futuro. — Acariciou o rosto delicado dela. — Me dê uma chance, Jasmim, só preciso de uma chance e prometo que não te largo nunca mais.

— Está bem — ela quase sussurrou, exasperada pela proposta. Tocou superficialmente os lábios dele com os seus e fechou os olhos. — Vamos ter um futuro juntos.

Luís soltou uma risada de felicidade e, instantemente, a beijou com ímpeto.

Sally afastou-se dos amigos e percorreu o corredor, alcançando o quarto de Helena. Bateu na porta para avisar sua chegada e, aos poucos, abriu a porta. Pelo vão observou a ruivinha deitada de lado na cama e agarrada a suas almofadas de borboleta. Espiou os livros da escola empilhados sobre a cômoda e a luminária acesa.

— Posso entrar? — pediu. Helena apenas murmurou que sim, sem sequer mirá-la. Cuidadosa, a mais velha deu passos até o colchão e sentou-se ao lado do corpo infantil. Acariciou os cabelos ruivos e acompanhou a garota virar gradativamente para encará-la. Assustou-se ao notar a feição melancólica e avermelhada de Lena. Ela estava obviamente chorando. — Está triste?

— Não. — Lena fungou e tentou limpar o rosto. — Eu sei que agora você tem o Ravi para cuidar e que... ele é o seu filho de verdade. Por isso você não tem mais tempo para mim. E ele é um neném fofo.

— Me desculpe — Ally cochichou com os olhos lacrimejando. — Me desculpe por deixar que o nascimento dele te fizesse se sentir excluída ou que possibilitasse você achar que eu não te amo também. Eu sei que Cíntia sempre será sua mãe, uma parte de você, e eu jamais poderia querer tomar o lugar dela. Mas quero que saiba que, para mim, você é como uma filha. É exatamente perfeita, esperta, linda, doce e, às vezes, meio travessa. — Riu baixinho em meio às lágrimas. — Você não tem o meu sangue, ruivinha, mas já te amo da mesma maneira que amo o Ravi, e não há nada no mundo que mude isso. Na realidade — brincou com um sorriso ardiloso —, eu te amo um pouco mais, porque você não me presenteia às quatro da madrugada com fraldas recheadas. E eu sei que vou precisar muito da sua ajuda para cuidar do seu irmãozinho e do seu pai. Você sabe, né? — Fitou-a de modo confidente. — Homens são meio...

— Meio patetas — Helena complementou em tom divertido, e Ally gargalhou, mas concordou com a cabeça.

Helena riu e, de imediato, um sorriso impetuoso crepitou em seus lábios. Sua aura se iluminou. A garota sentou-se e, impressionando Sally, agarrou a madrasta em um abraço forte e genuíno. A morena a correspondeu e a apertou em seus braços.

— Eu também te amo, Sally, você é como minha segunda mãe — Lena afirmou e, de maneira tímida, perguntou: — Eu posso te chamar de mãe?

Aquele simples pedido fez com que a mais velha chorasse como uma verdadeira emotiva enquanto escutavam o farfalhar das folhas do lado de fora. Jamais imaginou que a garotinha ruiva que encontrou na casa de Cíntia, um dia, seria tão importante para ela.

A vida poderia ser imprevisível às vezes.

Beijou a testa da criança e, comovida, respondeu:

— É claro, meu amor. Acho que, sem perceber, já somos mãe e filha há algum tempo.

— É... — Helena murmurou soltando-se da mulher. Dessa vez, carregava um tom zombeteiro: — Melhor tomar um banho, porque tá fedendo, viu.

— Sua pestinha! — Ally soltou uma gargalhada e, em seguida, aproveitou para matá-la em cócegas. A ruivinha ria e se contorcia sob suas mãos agitadas e impiedosas. — Aliás, esqueci de te avisar, mas Jasmim avisou que semana que vem seu pai volta para casa.

— E ele vai poder conhecer o Ravi! — ela mencionou alegre, soltando-se aos poucos de sua mãe. Seus músculos da face doíam por conta de seu sorriso exagerado. — E ele vai poder me carregar nas costas!

— Vamos com calma, está bem? — Ally mencionou risonha. — Seu pai ainda está se recuperando, mas em breve poderá abusá-lo da maneira que só você sabe fazer — disse. Após se silenciar, espionou Helena se levantar, pegar papéis e lápis de cor e se sentar de frente a escrivaninha à esquerda. — O que irá fazer?

Aproximou-se da menina, curiosa.

— Vou desenhar a nossa família, mãe — mencionou naturalmente sem tirar os olhos do papel. — Eu, você, papai e o Ravi. E vou pôr dois anjos atrás da gente, que é a bisa e a minha primeira mãe. 



E aí, como estão?? O que acharam??

Falta pouco pro fim!!

Gente, sério, parece q esses personagens criam vida própria. Eu tinha tirado um tempo pra pesquisar nomes de babys e fiz uma lista de opções pra EU escolher, porém a Sally simplesmente ignorou a minha lista e ela mesma escolheu um nome que eu só descobri na hora de escrever. É triste, viu, quando nem seus próprios personagens t respeitam mais haha

Brincadeiras - e verdades - à parte, aguardo vocês para os próximos caps!!

♥♥♥

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