36 | NÃO IMPORTA O SANGUE


Jogando com o inimigo e apostando a minha vida, é tão difícil dizer ''não'' quando se está dançando com o diabo.  — Demi Lovato (Dancing With the Devil).



A noite estava linda. Uma lua reluzente e redonda emanava energia intensa sobre os corpos que ousavam sair para as praças e para as ruelas mais escuras. Porém, ao contrário da sensação confortante da maioria, Apolo e Silvia, à medida que acompanhavam o carro dirigido pelo agente se aproximar do casarão da matriarca, tensionavam os ombros e lutavam contra a ansiedade.

Assim que saíram do veículo e foram apressadamente até a entrada da casa. Observaram os seguranças caídos e com sinais de violência, embora vivos. As câmeras dos arredores estavam destruídas e cacos de vidros espalhados deixavam claro que havia algo de errado. Muito errado. Apolo sacou sua arma imediatamente. 

— Helena! — Silvia bradou em pânico enquanto corria para o interior do casarão, independente dos riscos que poderiam existir e do grito do agente para que parasse. Um choro infantil a impelia a ser imprudente. — Cadê você? — vociferou.

A mulher só queria sua bisneta em seu colo e aquele advogado de merda preso. Nos últimos meses, mantinha-se acordada e atarefada com a investigação para trancafiar o tal líder dos Escorpiões, tudo por debaixo dos panos para evitar suspeitas. Por isso também transferiu toda a responsabilidade da empresa facilmente para Miguel, já que não conseguiria lidar com tudo ao mesmo tempo.

Tentaram ligar a luz, no entanto, nada aconteceu. Permaneceram na escuridão, com apenas a porta e as janelas permitindo a entrada luminosa que vinha dos postes das ruas do condomínio residencial. O agente retirou de sua mochila uma lanterna e clareou o cômodo, possibilitando que encontrassem Jasmim desacordada no chão em frente à escadaria, com seus cachos rodeando seu rosto estático. 

— Meu Deus! — Silvia esbravejou ainda mais assustada. Aproximou-se da médica e verificou seu pulso e sua respiração. Ela ainda possuía seus sinais vitais. Apolo imediatamente ligou para uma ambulância para avisar sobre os corpos desmaiados. 

— Está escutando ou estou delirando? — a mulher de cabelos grisalhos questionou ao permanecer ouvindo o choramingar de sua neta. 

— Você está machucado, vovô — Helena murmurava a distância. — Cadê meu pai, Ally e a bisa?

Impulsiva, a Sra. Ferraz correu até os degraus e subiu em direção aos sons. Entretanto, assim que escancarou a porta do quarto de sua neta, encontrou o local vazio e impecável. Em cima da cama devidamente feita existiam somente uma boneca e um gravador ligado, que recapitulava o choramingo da pequena e suas palavras.

— O que descobriu? Helena está aí? — Apolo aproximou-se logo em seguida. Franziu o cenho ao notar a área vazia. Silvia não respondeu por estar petrificada. Lágrimas escorriam de seus olhos e seu coração se apertou. — Eu sinto muito, Silvia... Ele está com ela — o agente explanou ao visualizar a feição feminina perturbada. — Você sabe onde é possível que ele esteja a levando?

Não. Ela não fazia ideia. Cabisbaixa, somente negou com a cabeça.

— Eu irei avisar as autoridades para que possam procurá-la imediatamente. Avise Sally e seu neto. Consegue fazer isso? — o homem perguntou com cuidado devido ao estado perplexo da idosa.

— Sim... — E como se acordasse do choque, ela pegou seu celular e clicou no contato da interiorana, que atendeu no segundo toque.

— Encontraram Helena? — a pergunta repentina da mais nova a entristeceu ainda mais. O silêncio dominou alguns segundos e, esperta, a jovem compreendeu o que ele significava. Lena havia sumido. A garota tentou respirar fundo e continuou: — O que iremos fazer?

— Está nas mãos da polícia, porém não temos pistas de onde ele possa a ter levado... E é provável que esse merda possa viajar com ela sob nomes falsos — resmungou enquanto pegava a boneca da garotinha, saudosa. 

A fala depressiva de sua chefe repercutiu por alguns milésimos de tempo na cabeça de Sally. Era horrível se sentir tão impotente. Porém, como em um estalo, recordou-se do que tinha descoberto. 

— Espera! — Ally urrou antes que a mais velha desligasse. O sobressalto a fez se levantar e, sem querer, bater o joelho contra a cadeira da frente. Havia um ponto de esperança em seu coração, por isso, limpou suas lágrimas e revelou: — Estava na casa da Cíntia quando sumi. Encontrei algumas coisas lá, inclusive uma passagem para um lugar bastante... fora de mão. Foi onde ela ficou para esconder a gravidez a mando de Fabrício. Foi ele quem cuidou dela nesse período. É possível que ele possa estar indo para lá.

Sally denunciou o destino da passagem. Aquela menção, como uma bomba de vida, foi capaz de impulsionar com mais afinco o sangue da mais velha, fazendo sua mente trabalhar incessantemente. Havia muitas rotas de fugas espalhadas pela cidade, porém, para aquele exato lugar, existia apenas um aeroporto grande o suficiente para ter voos para lá.

— Obrigada, Ally, a trarei de volta — Silvia prometeu enquanto observava a lua da janela do quartinho infantil, devolvendo a boneca de pano para o seu lugar.

— Silvia! — a interiorana murmurou de repente. Sentia que precisava expor mais uma coisa. —  Eu... eu estou grávida. Um bebê do seu neto, e... 

 — E isso é maravilhoso — a executiva a confortou. Sorriu genuinamente. — Em momentos cheios de terror, não poderia existir notícia melhor. Se cuida, minha neta — despediu-se da mais nova e desligou a chamada, sem sequer notar o estupor de Sally.

A idosa avisou Apolo sobre a pista. Ele retornou ao veículo e esperou que a executiva se sentasse no banco de carona. Zarpou entre as estradas em alta velocidade. Durante o percurso, alertou sobre a descoberta a outros policiais que estavam pelas redondezas pelo rádio comunicador e acompanharam fileiras de viaturas cercarem o aeroporto. 

O som das sirenes policiais e o mar de luzes vermelhas por um instante deixaram a grisalha tonta. 

— Fique. Isso é perigoso — Negrini ordenou. — Não saia do carro!

O agente se encontrou com outros homens armados e invadiram a área, à medida que o local começava a ser evacuado. As pessoas corriam para fora do estabelecimento e passavam pelas autoridades no caminho, porém, Silvia abriu a porta do veículo e fez o caminho contrário, indo até o perigo, mesmo que alguns policiais tivessem tentado impedi-la.

— Por favor, esteja bem — sussurrou enquanto corria contra a multidão e procurava por seu antigo advogado. — A bisa está indo te encontrar... — assim que sua voz se perdeu em meio ao alvoroço geral, notou um homem disfarçado com sobretudo e chapéu pretos. Assistiu-o sorrir para uma garotinha de pele clara e cabelos escuros e, escondendo-se entre o amontoado de pessoas, tentou escutá-los.

— Só ficar quietinha que iremos chegar logo até sua bisa, está bem? Não fale seu nome para ninguém, pois tem pessoas malvadas atrás da gente — o tom grave e levemente sádico era reconhecível.

— E por que ela foi tão longe? Por que temos que pegar avião? Por que o senhor demorou para contar que é meu avô? — A menina arqueou a sobrancelha, virou-se rapidamente e, apesar da peruca de fios negros, a executiva identificou as sardas semelhantes às de Arthur e o par de olhos pretos. 

Eram eles.

— Eu estou aqui, Helena! — a mulher gritou, expondo-se aos dois. A ruivinha ousou movimentar os pés para frente, porém, Fabrício assustou-se e, por reflexo, puxou a garota pelo braço para trás e, com a outra mão, sacou uma arma em direção à Silvia. Por conta do movimento brusco, o cabelo sintético que ela usava caiu, expondo suas madeixas cor de abóbora. — Solta ela, seu monstro! Para que fazer mal a sua própria neta?

— Não irei fazer mal algum — grunhiu. Enquanto isso os policiais perceberam a movimentação esquisita e acompanharam a cena. Apolo balançou a cabeça em negativo ao observar que Silvia não havia aceitado seu comando. — Só irei corrigir as coisas. Meu erro com Arthur foi permitir que ele fosse criado por você, mas não irei errar duas vezes! Helena será criada por mim! Ela não é sua família!

— Não importa o sangue aqui, Fabrício. Arthur sempre será meu neto e Helena sempre será minha bisneta. É sobre amor, algo que você nunca sentiu — a mulher replicou sem se importar em estar sob a mira de um criminoso. 

— Está errada! — ele gritou revoltado. — Eu amei Ângela, sabia? Tanto que perdi a paternidade do meu filho só para acatar um pedido dela. E veja só onde isso nos levou...

— Por Ângela, então, devolva Helena e fingimos que isso nunca aconteceu, está bem? — Deu passos cuidadosos para frente com as mãos estendidas, como se expusesse que não iria reagir.

— Saia daqui, Silvia! — Apolo gritou para a mulher enquanto apontava o revólver contra Fabrício. Ele enxergava o semblante sanguinário e violento do advogado.

— Bisa! — Lena exclamou com medo e cheia de lágrimas. Seu corpo tremia. — Vovô, me deixa ir com ela, por favor... — pediu. Esforçou-se para sair, porém as mãos dele ainda pressionavam sua pele, deixando-a avermelhada e dolorida.

Antes que os policiais pudessem tomar alguma medida urgente, um estrondo de tiro irrompeu no ambiente. O som agudo era tão forte e potente que todos arregalaram os olhos e entreabriram a boca ao acompanharem a Sra. Ferraz ser atingida no peito. Fabrício sorriu ao assisti-la despencar a sua frente e o sangue fresco escorrer pelo piso frio. 

Helena gritou desesperadamente e puxou o braço fortemente, mesmo que se machucasse no processo. Ela correu para sua bisa, que já se encontrava caída no chão gélido do aeroporto, e tentou abraçá-la enquanto seu choro desenfreado embaçava sua visão e soluços açoitavam sua garganta.

— Não! — berrou. — Acorda, bisinha — sibilou em aflição. Tateava o rosto pálido da idosa. — Por favor... Não me deixa também...

— Cuida da nossa família para mim e do seu irmãozinho, tá? Você é... é a mais esperta deles, pois estava certa sobre as borboletas... E eu aproveitei bastante o tempo com vocês — a mulher murmurou com dificuldade tentando ignorar a dor enquanto sentia sua vida se esvair. — Eu te amo.

Fabrício aproveitou a comoção e de todos estarem distraídos para fugir, o que ele facilmente conseguiria, porque a ordem dos policiais era somente ir até ele para prendê-lo. Porém, entre a multidão,  havia alguém fria o suficiente para continuar prestando atenção somente nele. Não queria vê-lo aprisionado. Queria acompanhá-lo sangrar e sentir a dor da derrota.

Fernanda apertou o gatilho e o projétil seguiu diretamente contra o chefe dos Escorpiões. Ela acompanhou o vislumbre e o pânico dele ao vê-la. Não estava morta, pelo contrário, em todo esse tempo escondida ela insistiu por aulas de tiro ao agente que a protegeu. Tudo para que o matasse na primeira oportunidade.

Nanda estava suficientemente viva para destruí-lo por tudo que ele causou a sua vida ao manter seu pai afastado por anos e ainda mandá-lo para assassiná-la. Aquilo era por si e, também, pela bagunça que Fabrício tinha feito na família Ferraz, que a havia acolhido e aceitado por longos anos. Tinha saído de seu esconderijo e ido para o aeroporto assim que acompanhou as reportagens ao vivo na televisão.

Assim como Silvia, o advogado faleceu antes mesmo das ambulâncias chegarem, no entanto, ao contrário da mulher, ninguém chorou por sua morte.

Helena não conseguiu acompanhar tudo o que acontecia ao seu redor. Seu coração estava pulsando em batimentos acelerados quando policiais a retiraram de cima de Silvia, que havia morrido sob o carinho de sua netinha de cabelos e alma alaranjados, sabendo que ela estaria bem e com seus pais.

A garotinha também não reparou quando adormeceu nos braços de Apolo, que havia encarado Fernanda e notado o estado conturbado dela. Uma coisa era planejar matar alguém pela primeira vez. Outra coisa diferente era lidar com isso após o ato. A loira correu até ele em lágrimas e, com um dos braços, o homem a envolveu e permitiu que a mulher chorasse em seu peito, pois Helena continuava adormecida em seu ombro esquerdo.

— Tenho que levar a criança para o hospital — Apolo proferiu. — E você irá ser escoltada até a delegacia. Não poderei ir. Mas não se preocupe, ouviu? Todos estão ao seu favor. Ninguém mais irá tentar machucá-la, eu prometo.

Nanda concordou com a cabeça e, inesperadamente, ela sorriu e o beijou nos lábios, assustando-o devido a ação repentina.

— Tente não se ferir, agente Negrini, estou cansada de mantê-lo inteiro — despediu-se com um sorriso ladino ao ser levada pelos homens fardados. E ele observou-a se distanciar com sua pose elegante e austera. Era o que mais amava na mulher depois de tudo o que haviam passado juntos nas últimas semanas.

No hospital, Sally e Luís assistiam pela TV pequena a atuação da polícia em relação à tentativa de sequestro de Fabrício. Sentados na sala de espera, entrelaçavam as mãos sem sequer notarem, com seus corações agitados e fisionomias amarguradas. 

— A criança foi recuperada. Recebemos a notícia que ela está bem e sem ferimentos visíveis. No entanto, foram confirmadas duas mortes — a repórter dizia, ao vivo, com seu microfone em mãos. — A de Fabrício Marchiori, verdadeiro líder da organização criminosa, que vinha incriminando propositalmente o próprio filho, Arthur Ferraz, que até então era filho do empresário Lourenço Ferraz. É isso mesmo, Maurício? — ela questionou o jornalista que apresentava o jornal da noite.

— O que nos foi passado é isso. Parece história de filme, não é? Infelizmente o outro falecimento anunciado foi o de Silvia Ferraz, que, desde a perda do filho Lourenço, vinha comandando a empresa da família. Foi ela quem reconheceu a bisneta e o criminoso, impedindo assim o sequestro. — Começaram a então passar diversas fotos públicas da idosa na tela, expondo momentos dela como líder publicitária. Falaram sobre contratos milionários que a idosa havia conseguido e os troféus que tinha conquistado ao longo de sua carreira.

Entretanto, o choro de Miguel e Ally não foi só por isso. Foi por mais. Foi pela executiva que também era avó. Ela era o modelo de honestidade, de compaixão e de força.

A interiorana procurou os braços de seu melhor amigo e os dois se envolveram em um abraço cheio de tormento e saudade. A dupla deixou as lágrimas tão conhecidas de tristeza retornarem. O grito enfurecido e a dor no peito assustaram os outros presentes no local, porém, estar triste em um hospital era comum para a maioria.

— São tantas pancadas, mas o pior é que não fica mais fácil — Ally ralhou. — Não fica mais fácil e eu não consigo me acostumar com a dor. 

Arthur estava entre a vida e a morte em alguma sala próxima e talvez sequer sobrevivesse. Mas também acabava de perder a sua avó e, principalmente, sua segunda mãe. A mulher que havia cuidado dele e o amado quando ninguém mais o fez. Estava finalmente órfã de mães.

Não demorou para que Luís escutasse barulhos estranhos e percebesse a voz de Apolo, que se aproximava sem jeito e com mais uma sensação de derrota.

— Eu sinto muito, fiz o que pude mais uma vez. — Suspirou entristecido. — Porém, mais uma vez, não foi suficiente.

Ally suspendeu o olhar até ele e fitou as pupilas miúdas do homem cheio de músculos e armamentos.

— Tenho certeza que fez o possível, Apolo, não se culpe — ela tentou reconfortá-lo. O agente deu um meio sorriso e notou a aura iluminada da garota, percebendo o quanto o ruivo era alguém de sorte. — Onde está Helena?

— E o que aconteceu com a Jasmim? — Miguel preocupou-se. — Ela não atendia a ligação...

— Helena está sendo medicada por conta de tudo o que assistiu — Negrini apontou. — E encontramos a Jasmim desacordada. Mandamos uma ambulância para buscá-la há algum tempo...

— Onde ela está? — o neto de Silvia retorquiu desesperado. — Onde?

Apolo revelou. O rapaz de cabelos castanhos saiu correndo para ver a médica, desaparecendo pelo corredor. Um alívio esquisito só o atingiu quando ele finalmente observou a mulher respirar tranquilamente em uma maca hospitalar.

Ainda na sala de espera, a ação automática de Luís fez com que a interiorana sorrisse. Miguel precisava começar a ser feliz.

— Novidade do ruivo? — Apolo questionou ao se sentar ao lado da garota de olhos azuis anis.

— Não — ela cochichou quase imperceptível pela primeira vez e tocou a própria barriga. — Só sei que ele não pode morrer. Ele não pode me deixar também. Já temos perdas demais.

— Senhora Sally Bessa? — uma mulher pequenina e de olhos puxados chamou-a. Usava um jaleco e um estetoscópio ao redor do pescoço. — Tenho notícias sobre o paciente Arthur Ferraz. 



 E é assim q nos despedimos dessa senhora tão amorosa! 

Ps: eu imagino a Silvia como essa atriz, porém grisalha! haha

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