20 | QUERO ATÉ MESMO AS BREGUICES COM VOCÊ, PEDAÇO DO CÉU


Eles dizem que o amor é uma viagem, eu prometo que nunca irei embora.  Ruelle (I Get To Love You). 



— Não consigo te odiar, não consigo — Ally sibilou e mal conseguiu esconder a forma com que seu corpo se agitava diante dele e de sua confissão. — Talvez porque eu também tenha aprendido a te amar nesse meio tempo. Mas isso não faz com que a mágoa vá embora, entende?

Independente da dor ou da impotência, ele se empenhou para que seus lábios expusessem um meio sorriso. Queria apenas confortá-la, pois Sally havia sido a pessoa que acreditou nele. Tinha sido ela quem havia o resgatado de uma parte fúnebre e oca de sua vida.

— Não precisa dizer algo. Eu só desejo, do fundo do coração, que um dia você possa me perdoar, independente do tempo que leve. E quando isso acontecer, saiba que eu ainda estarei aqui, mesmo que seja escondido nessa sala de perversão, sempre torcendo por você — Arthur não conseguiu camuflar a angústia, pois seus olhos estavam avermelhados. Ally reparou que esse detalhe combinava com seus cabelos.

Ambos riram diante do termo usado, recordando-se do passado, quando ainda estavam se conhecendo e ela o tinha provocado por causa de sua má reputação com as funcionárias.

Tal qual um gatilho, o momento fez com que a garota decifrasse com maestria até mesmo o suspirar do rapaz. Entonava semelhante a um convite nas entrelinhas para que retornassem às memórias construídas pelos dois. Havia mensagens subtendidas até mesmo na troca de olhares e nos sorrisos nostálgicos.

— Se eu tentar provar que realmente te amo sem motivos ocultos, você me aceitaria de volta?

— Sim — ela retrucou —, só me permita... confiar em você.

Então a garota saiu do recinto e se deslocou para a sua querida e confortável mesa, bem distante do homem de cabelos alaranjados.

Arthur, porém, sorriu de forma astuciosa e retirou o celular do bolso. Imediatamente a sua primeira ligação foi para sua parceira de crime: Helena.

— Oi, papai — Lena o atendeu. Era possível escutar crianças barulhentas no outro lado da linha. — Mamãe não te enviou a lista de regras? Que não pode me ligar no horário da escola?

— No meu tempo regras existiam para serem quebradas, principalmente se for por boas razões — Arthur divertiu-se.

— Concordo. — A garotinha riu. — Mas me explica a razão, pai, aí eu digo se é boa ou não.

— Preciso da sua ajuda com a Ally.

— Certo. — Ela se silenciou parecendo considerar o pedido. — Isso vai te custar... caixas e caixas de chocolate. E, além disso, vai ter que me pôr sempre para dormir quando eu ficar na sua casa.

A despedida de Miguel aconteceu em uma sexta-feira, pois logo na segunda ele já estaria fora do país. A reunião incluiu muitos funcionários, pois o rapaz era muito querido. Ele não conseguiu conter a ansiedade e alegria por, finalmente, estar agindo para alcançar um de seus sonhos.

Após Luís corresponder e agradecer as felicitações dos trabalhadores, que iam aos poucos se dispersando e voltando a seus afazeres, ele relaxou os ombros e encontrou o olhar orgulhoso de sua família e de Sally.

Luís se direcionou primeiro ao irmão. Arthur ameaçou dar a ele somente um aperto de mão, no entanto, o surpreendeu ao puxá-lo para um abraço apertado, seguido de dois tapas nas costas. 

Em segundo lugar, por Helena estar no colo do pai, Miguel a admirou e a beijou na testa.

— Não ache que irá se livrar de mim logo agora que nos encontramos. Terá que me atualizar sobre tudo o que acontecer por chamada de vídeo — comunicou-a. Ela riu e concordou.

Surpreendendo Silvia, ele simplesmente ergueu a avó no meio do departamento e a abraçou apertado.

— Me largue, Luís Miguel Ferraz, estamos em público! — a idosa disse em tom de briga, mas em seu rosto exibia um sorriso mal disfarçado.

Por fim, ele alcançou o perfil emocionado de Sally e a espremeu em seus braços por longos segundos.

— Vamos nos afastar de novo, mas dessa vez estou tranquilo, pois sei que iremos nos reencontrar — Luís manifestou. — Parece que esse é o nosso destino, cereja.

Após retirar os seus pertences do escritório que ocupou por tantos anos, o rapaz de cabelos castanhos observou com carinho cada canto do lugar. Sentiria saudade principalmente da vista. Com o tempo, havia aprendido a se sentir seguro e confortável naquele ambiente. Porém, agora, ele precisava voar. E literalmente falando.

No meio da recepção, Helena fixou a atenção do seu entorno e atentou-se em Sally, que acabava de se despedir de uma moça de nariz arrebitado.

— Ally! — a garotinha a chamou. Imediatamente, a mais velha estranhou vê-la sozinha. Preocupada, se locomoveu até a filha de Arthur. — Eu tô com dor! Acho que é no fígado!

Então, se dedicando a sua melhor versão de atriz, a ruivinha fez caretas e se movimentou como se estivesse prestes a cair. Sally a pegou no colo e intencionou carregá-la até Arthur para avisá-lo, porém a garotinha insistiu para que fossem ao estacionamento.

— Mamãe tá me esperando lá embaixo. Ela vai me levar no médico.

Sally engoliu em seco, aflita, e esforçou-se para ir o mais rápido possível ao subsolo do edifício. Ao chegar não avistou ninguém, tudo o que encontrou foram os carros estacionados. Helena se soltou da mais velha e de repente parecia curada.

— O que está acontecendo, Helena? — A morena estreitou os olhos em direção à pilantrinha.

— É por uma boa causa, tá? — Ela apertou os lábios enquanto exibia uma expressão atrevida. — Vou voltar para a sala da bisa. Não se preocupa que o tio Francisco me leva. — Então, ostentando que não havia dor nenhuma, a garotinha saiu saltitante em direção ao homem fardado. Lena tinha conquistado até mesmo o segurança mais carrancudo da empresa.

Enquanto observava a ruivinha ser guiada pelas mãos do segurança em direção ao elevador, um perfume conhecido aguçou os sentidos da jovem. Ela girou imediatamente o corpo e se sobressaltou ao encontrar Arthur a sua frente. Ele mantinha-se parado ao lado de sua motocicleta e em suas mãos estavam dois capacetes.

Como em um pedido silencioso de boa-fé, o rapaz estendeu um deles para Sally.

Ela demorou um tempo para compreender a situação e pensou se deveria. Querendo ou não, estava no seu expediente. Querendo ou não, aquele rapaz tinha sido o culpado por algo ruim que lhe aconteceu no passado.

Querendo ou não, ela também sabia que não conseguiria negá-lo. 

A jovem ergueu o braço e pegou o objeto preto com um pouco de raiva, odiava o fato de não conseguir lhe dizer um simples não. Por conta de seu orgulho e autonomia, ela recusou a ajuda e afivelou o capacete sozinha, mesmo tendo noção de que, se tivesse aceitado, teria demorado menos.

— Para onde vamos? — Ally não conteve a curiosidade assim que se sentou na garupa e o abraçou pela cintura. Sua respiração se intensificou ao senti-lo tão próximo.

— Para um lugar especial — ele exprimiu sem muitos detalhes. Em seguida, acelerou o veículo e a cada instante o trabalho dos dois ficava mais distante. Observaram as avenidas movimentadas e tudo soou confortante, mas talvez fosse somente a companhia. — Não se preocupe, expliquei para Silvia que iria te raptar.

— Um complô — Sally concluiu. Em seguida, deitou a cabeça nas costas dele e aproveitou a ventania contra seu corpo. Fechou os olhos e soltou o ar preso em seus pulmões.

Arthur estacionou próximo a uma ruela estreita e de aparência antiga. As casas eram baixas e charmosas, com portões delicados e jardins harmoniosos. O bairro em que estavam parecia ser tirado de filmes históricos com suas construções de pedra.

— Quero que conheça a minha avó materna, pedaço do céu. Ela tem Alzheimer, de início ela não se lembra de mim, mas sempre me deixa tocar no piano da minha mãe e... — Suspirou. — Você irá descobrir.

A jovem concordou e o segurou pelas mãos, lhe destinando forças. Arthur a auxiliou a subir os pequenos degraus para a entrada da residência. Assim que abriram a porta, vislumbraram uma senhorinha de cabelos grisalhos, bochechas rechonchudas e olhos âmbar como os do neto. Ao notar os jovens, a idosa os convidou para entrar.

— Não acredito que trouxe visita! — Ela se direcionou alvoroçada para Arthur. — Esses meninos da vizinhança, vou te contar! Se eu soubesse teria me vestido melhor!

O ruivo riu da mulher e pediu desculpas enquanto a abraçava para amansá-la. Após desistir de brigar com o ruivo, ela o retribuiu e o beijou na testa.

— Essa é Sally, dona Rita. — Então o rapaz olhou de relance para sua acompanhante e sorriu abobalhado. — E essa é a dona Rita, pedaço do céu. Dona porque, obviamente, é dona do meu coração e dos melhores biscoitos amanteigados do universo.

— E esse ruivo charlatão normalmente vem aqui para roubar comida, não é mesmo? — Ela franziu o cenho para ele em tom de acusação e o bateu com um pano de prato. Ally gargalhou por se sentir à vontade. — E também para tocar no piano da minha filha, Ângela. Inclusive, filho, se quiser tocar, faça logo, pois ela irá retornar da escola daqui uns dez minutos e é ciumenta. Sabe como são esses adolescentes, não é?

A morena sentiu-se inquieta ao ouvir a idosa. Mas, de certa forma, era um refúgio, considerando que Ângela estava morta, mas para aquela senhora, sua filha ainda se mantinha viva.

— Não sabia que Arthur toca! — Sally preferiu esconder sua tristeza e interagir com os dois. — Aposto que cada nota do piano que ele faz parece que tá matando um porco.

Rita espalhou sua risada no recinto e concordou. Logo após, a grisalha foi até sua cozinha e trouxe para a dupla biscoitos, suco e pão de queijo. Arthur furtou a maioria da comida e, em seguida, sentou-se na banqueta de frente ao instrumento de sua mãe. Mal pôde conter a sensação de tê-la por perto, ao seu lado, exatamente como fazia na infância.

— Vamos, Tuco, você é um instrumentista maravilhoso! — Ângela estimulou o garotinho ruivo que estava sentado em seu colo. Por causa das mãos pequeninas dele, ela o ajudava a apertar as teclas e, ora ou outra, o fazia carinho nos cabelos para encorajá-lo.

— É difícil — a voz infantil dizia enquanto dedilhava de acordo com o que sua mãe havia ensinado. — Mas vou me esforçar para sempre tocar para você, mamãe. 

A memória parecia viva na mente de Arthur, quase como se, mais uma vez, a força de Ângela o estivesse incentivando a se recordar dos antigos acordes.

Em respeito e ansiosas para assisti-lo, as duas mulheres sentaram-se próximas a ele.

— Vou tocar Elvis Presley, era o cantor preferido da minha mãe — ele confessou enquanto os primeiros sons eram emitidos. — Ela amava Can't Help Falling In Love.

— A minha filha também — Rita surpreendeu-se. Desconfiada, ela o fitou: — Pensando bem, você se parece com ela, rapaz...

À medida que a música vibrava no recinto e se alinhava a uma plenitude capaz de reconfortar até mesmo a mais intensa saudade, Sally deitou a cabeça no ombro confortável de Arthur e acariciou os fios alaranjados dele inconscientemente.

Ele a acomodou e, em reflexo, seu pescoço se inclinou para o lado, possibilitando que ele apoiasse sua têmpora na cabeça dela. Sem parar de tocar o instrumento, o neto de Rita fechou os olhos deixando-se inspirar por aquela fragrância que tanto gostava.

Ela, por sua vez, conhecia a letra, por isso, cantarolou a canção acompanhando o ritmo pacífico e suave. Pareciam viajar para um universo paralelo onde só havia paz e amparo, divagando para seus mais preciosos sonhos.

Como se sua memória estivesse aos poucos sendo acionada, Rita emocionou-se e, em lapsos, retornava à terrível realidade. Seu marido tinha morrido. Sua filha, Ângela, tinha chegado a fase adulta, saído da escola, mas não regressaria, pois havia sido assassinada. Mas, ao invés de se desesperar, ela admirou os olhos cor de âmbar de Arthur.

— Meu neto querido — a idosa se destinou carinhosamente ao ruivo. — Eu amo você. Obrigada por sempre me trazer de volta mesmo que em pouco tempo. Sinto que a sua mãe está feliz por verem vocês aqui. — A mulher bocejou, sonolenta. — Irei me deitar... Podem ficar à vontade. — E então saiu do cômodo os deixando para trás.

— Depois disso ela perde a lucidez  novamente — Arthur se lamentou e, cabisbaixo, afastou as mãos do piano.

— Nunca imaginaria isso — Ally expressou e seus olhos o esquadrinharam. Seu mundo, ali, saiu de órbita, pois era como descobri-lo indefeso mais uma vez. — Você é sempre uma surpresa. 

— Não é algo que eu permito descobrirem. Não gosto de me sentir exposto para os outros, mas, em relação a você, é diferente. 

O indicador de Sally tateou o queixo de Arthur e o impeliu a levantar a cabeça. Dessa vez a garota sorriu da forma mais honesta que conseguiu e escorou a testa na dele, deixando suas bocas perigosamente próximas. Suspiraram.

— Eu disse que não ia desistir de você, não é? — Ela recordou-se e riu ao perceber o impacto de suas promessas. — E, além disso, eu ainda estou aqui. Aceitei seu convite porque amo você também. — O admirou tão próximo de si e acariciou os contornos e as linhas suaves que teciam sua fisionomia. — E eu posso te perdoar desde que... desde que você não me abandone jamais.

— Por quê?

— Por que o quê, Arthur?

— Por que me escolheu podendo ter Miguel? — Sua fragilidade parecia intensificada pelo brilho de sua íris. — Nunca foi uma disputa. Eu me aproximei porque, desde o começo, eu sabia que era você.... meu sinal de sorte.

— Não escolhi — ela confessou. — Mas acho que, de qualquer forma, sua cueca boxer branca e seu colarinho no dia em que te conheci tiveram grande influência na minha visão de você.

— Safada! — ele exclamou em tom brincalhão e, logo após, riram um do outro.

Como se estivesse com urgência do contato com os lábios dela, Arthur a puxou pelo quadril, trazendo-a para mais perto e a beijou como se aquele ato pudesse acabar com toda a sua dor. E pôde. No momento em que a teve novamente, mesmo lhe revelando mais uma vulnerabilidade, ela não o achou fraco por isso. As mãos ávidas do ruivo se infiltraram nos cabelos negros e Ally não conseguiu conter um gemido de satisfação por tê-lo novamente.

Era tão bom e... viciante.

— Me ensina a fazer um acorde? — ela pediu assim que se desgrudaram e precisaram recuperar o fôlego.

— Quer tentar a sua música? Oasis?

Sally assentiu. Complacente, o ruivo pegou as mãos delicadas e pequenas dela e, de maneira astuta, orientou os dedos finos a dançarem sobre as teclas. A morena relaxou os ombros contente por conseguir — mesmo que não sozinha — fazer aquele arranjo. A palma das mãos dele conduzia-a a fim de impulsioná-la. Aos poucos seus dedos ficavam mais livres, no entanto, ainda sentiam o leve calor trazido pela camada de pele acima da sua.

— Não se preocupe com isso.

— O quê? — questionou distraída com os acordes que faziam.

— Não pretendo te abandonar, sou egoísta a ponto de querer estar até mesmo nos seus sonhos — sussurrou. Aquela promessa preencheu o coração da garota e a deixou ainda mais radiante. — Posso te convidar a fazer uma loucura?

— Loucura maior do que fugir do meu trabalho no meio do meu expediente? — ela estranhou.

— Sim.

— Loucura maior do que me apaixonar por um cretino que gosta de fazer menção a filmes infantis?

— Essa doeu — fingiu se ofender, mas havia um princípio de sorriso em seus lábios. — Mas, sim, ainda mais louco que isso.

— Se não envolver pular de um avião em movimento, posso considerar — ela apontou.

— Silvia me ofereceu uma viagem meses atrás, porém, recusei. Na época não fazia sentido. Mas, agora, quero aproveitar ao máximo possível a vida e você — declarou. Para Ally, vê-lo tão embriagado de alegria a deixava anestesiada. Por isso, considerou a proposta que viria a seguir: — Vamos fugir para o Havaí? Pegamos uns dias de folga, aproveitamos o mar, podemos aprender a surfar e nadar com golfinhos. 

— Isso me parece meio brega — Ally analisou simulando uma careta. 

— Quero até mesmo as breguices com você, pedaço do céu — ele declarou com sinceridade. Aproveitou para puxar o lábio inferior dela, soltando-o em seguida.

— Só se você prometer dançar ula-ula para mim! — Sally o desafiou.

— Você negociando é um caso sério — ele balançou a cabeça segurando a risada e voltou a beijá-la.  



P.S: aproveitem muitooooooo esses momentos fofos viu!! haha

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