13 | NÃO ENTENDO, MAS TE AMO


 Não tente ser uma pessoa que não é, porque eu te amo independente de qualquer coisa. — Calum Scott (No Matter What).



No final de semana que antecedeu a viagem à Itália, Fátima conseguiu ir para a capital. Havia recebido a ligação de Sally há algumas semanas e, em seu interior, sabia que precisava vê-las com urgência.

Assim que a mulher de meia idade desceu do ônibus, com seus olhos azuis anis, algumas linhas de expressão e seu cabelo encaracolado, tentou avistar suas filhas em meio à multidão, ansiosa.

— Mãe! — Sasa gritou ao se erguer da cadeira, sem se importar com os estranhos ao seu redor.

— Mamãe! — Ally emocionou-se ao enxergá-la tão linda como sempre. Talvez até mais.

As irmãs deixaram Dirce para trás e correram até Fátima, cheias de saudade. Não se importaram em trombar com desconhecidos, nem mesmo com o fato de parecerem malucas, só queriam o conforto materno que tanto precisavam.

A mulher agarrou as duas imediatamente. O choque dos corpos fez com que Fátima bambeasse para trás, mas ela não se importou, pois encontrou firmamento nas filhas. Beijou incessantemente os cabelos, o rosto, a testa, como se quisesse ter certeza de que era real. Suas meninas estavam ali.

Dirce finalmente se aproximou e sorriu para a mulher. Estava tímida e até mesmo... nervosa.

— Olá, Sra. Bessa. Espero que tenha tido uma boa viagem e que a empresa rodoviária tenha renovado os amendoins. O-os amendoins que ofereceram no ônibus que viemos estavam estragados...

Todas riram, notando a situação temerosa da garota de cabelos coloridos.

— Venha para cá, querida! — Fátima chamou-a para completar o abraço. Dirce, sem jeito, se aproximou, e foi brutalmente puxada por elas.

Após Fátima se acomodar no apartamento minúsculo e mal localizado, a atualizaram sobre a herança que Lourenço deixou e tudo o que aconteceu, com exceção da violência que Sarah sofreu. Sally também contou que reencontrou Luís Miguel, além disso, também revelou que ele estava noivo.

— Sempre pensei que vocês dois, no futuro, seriam um casal — a mulher lamentou mirando a sua caçula —, mas sei que será feliz, seja como for. — Ela então se voltou para todas. — Agora com esse dinheiro, meninas, precisam comprar uma casa em uma área menos perigosa. Se for possível, perto de Silvia, que é a única pessoa que confio aqui.

— Estava pensando em fazer isso nessa semana, mas Ally irá viajar a trabalho — Sasa comentou sentada no sofá, ao lado de Dirce. Estavam apenas de pijama.

— Não me importo de decidirem algo sem mim — Sally esclareceu. Ela estava agarrada à mãe, quase como se ainda não fosse capaz de soltá-la. Sentia-se uma criança carente. — Seria interessante voltar já com casa nova. Eu só exijo uma banheira enorme, como naquele filme Uma linda Mulher, onde o Edward negocia com a Vivian tê-la por uma semana. Se ele vier de brinde, melhor ainda.

As três reviraram os olhos, mas sorriram, pois sabiam que esse era o filme predileto da mais nova. E felizmente, pela primeira vez, poderiam pagar por um genuíno capricho.

— Aí como eu estou com sono! — Sally fingiu sonolência, simulando também um bocejo. Espreguiçou-se exageradamente enquanto se levantava. — Podem ficar aí conversando se quiserem. Podem falar sobre tudo... Sobre unicórnios e arco-íris. É só ter a mente aberta... — Olhou para a mãe, inquisitiva, como um conselho subtendido. — E só lembrarem que, no fim, o que mais importa é o amor. Viva o amor! — dizia enquanto saia do recinto, porém, curiosa, se escondeu atrás de uma parede para escutá-las.

Após a saída da mais nova, as duas garotas que restaram se sentiram apreensivas. Em razão disso, por debaixo de uma almofada, apertaram as mãos como em um gesto de apoio silencioso. Fátima notou a tensão no ambiente, mas preferiu deixar que elas falassem quando quisessem.

— A senhora nem vai acreditar! — Dirce riu nervosamente. — Ganhamos na mega sena, mas perdemos o bilhete! É isso! Vamos dormir, amiga? — Levantou-se e puxou Sarah pela mão, expondo quão alvoraçada estava. Ela tremia inteira.

Sarah, porém, a puxou de volta, fazendo-a sentar ao seu lado. Respirou fundo. Contou até três. Antes mesmo de dizer algo, seus olhos estavam molhados, como se já se preparasse para o pior. Não entendia o porquê era tão difícil se revelar para a mulher que mais amava.

— Mãe... Eu e Dirce... — Sasa pausou a fala, mirando as esferas azuladas da mulher. Ela se arrastou para mais perto dela, levando sua namorada consigo. Inquieta, tocou as mãos enrugadas da mais velha, implorando com o olhar que ela não deixasse de amá-la. — Nós nos amamos, mãe. Eu a amo. Eu quero um futuro com ela. Eu quero um para sempre ao lado dela. Aquele final feliz de comédia romântica, sabe? — Sorriu só de imaginar, mesmo em meio às lágrimas, que já despencavam de seu rosto, assim como no de Dirce. — E-eu... eu sinto muito se isso te decepciona, mas eu não posso mais mentir. Eu não aguento mais mentir. Eu não quero mais.

Fátima se assombrou diante da revelação e, sem querer, afastou sua mão das mãos da filha. Era tão confuso e incerto. Diziam, também, ser errado. A atitude dela piorou o estado de Sasa, mas Dirce abraçou a namorada, consolando-a.

— Era por isso que fugiam sempre, não é? — soou como uma pergunta, mas Fátima já sabia a resposta. As duas apenas assentiram.

Fátima se levantou em silêncio, e caminhou em direção contrária às garotas, nervosa. Sua mente estava tão atordoada. Havia errado em algo? pensou.

Então a mulher retornou até as meninas, que permaneciam sentadas, cabisbaixas e chorosas, como se tivessem feito algo condenável. Fátima agachou-se diante de sua primogênita, e de forma amorosa, tocou no queixo dela, estimulando-a a erguer o rosto e encará-la. Os olhos de ambas estavam extremamente brilhosos devido à água.

— Eu não posso dizer que entendo a sua escolha, minha filha — Fátima introduziu —, mas posso dizer que te amo. E que amor seria esse se eu não te aceitasse do jeito que você é? Foi você quem me ensinou a ser mãe, a entender sobre chupetas, a reconhecer diferentes sons de choro e a trocar fraldas fedidas. — As três riram, ainda sob lágrimas. — Não posso prometer compreender, mas sempre tenha a certeza que irei sempre respeitá-la e — sua voz falhou por conta da emoção, então sussurrou: — e jamais cogitaria deixar de te amar, porque isso é simplesmente impossível.

Sarah não pôde controlar seus braços. Em um instante ela abraçou a mãe e deitou a cabeça em seu ombro, sorrindo e deixando a aflição se dissipar. Fátima, embora ainda não entendesse aquilo, ainda assim olhou para Dirce e a convidou novamente para seus braços.

Sally, que escutava tudo e também estava emocionada, saiu de seu esconderijo e, saltitante, contornou seus braços em volta de sua pequena, mas incrível família.

— Ei, choronas! — Fátima brincou enquanto se desvencilhavam do abraço. — Eu também tenho novidades e, de todo coração, espero que vocês entendam.

— O que é? — Sasa questionou, curiosa.

— Conte logo antes que eu morra de curiosidade, mãe! — Ally reclamou.

— Eu sei que pode parecer apressado ou estranho uma mulher mais velha como eu ainda acreditar no amor nessa idade, eu sei... — Suspirou, sabendo não ter mais escapatória. Suas bochechas coraram. — Mas eu e o policial Willians, durante esse tempo, acabamos nos aproximando e... nos apaixonando.

— Isso eu não esperava! — Dirce se espantou. — Mas também, com a torta de amora que a senhora faz, impossível alguém resistir!

O comentário despretensioso fez a mais velha rir, recordando-a da personalidade tranquila e sincera da garota.

— Não acabou... Decidimos nos casar no final do ano. E eu as quero lá.

— Eu nunca saí do país — Ally revelou enquanto carregava sua mala de mão no aeroporto. O resto de sua bagagem já havia sido despachada. Em seguida, cochichou para Silvia: — Estou com medo de Arthur ser expulso da Itália por perturbação da paz.

— Nota sobre Sally: além de falar dormindo, ela não sabe cochichar — Arthur brincou, atrevido, pois havia conseguido escutar o comentário dela, mesmo com o barulho de tantas pessoas circulando.

— Nota mental sobre Arthur: nunca mais deixá-lo no volante, pois ele dirige muito mal — a jovem retrucou no mesmo tom de audácia. Sua constatação se devia ao fato de ele ter, sem querer, quase derrubado uma lixeira no percurso até o aeroporto.

— Nota mental: contratar adultos de verdade para trabalharem na empresa — Silvia caçoou por fim os dois, deixando-os para trás e estáticos.

A mulher simplesmente sorriu vitoriosa e, logo após, adentrou o avião majestosamente, sendo seguida pelos jovens carrancudos, que semicerravam os olhos para ela.

Parte da equipe viajaria naquele dia e, na manhã seguinte, seria a outra parte — que incluía, inclusive, Luís Miguel. Silvia fez questão de separar os irmãos para evitar discussões. Aqueles clientes eram importantes demais e havia sido um acordo extremamente rentável, por isso, nada poderia dar errado. Sally foi incluída no primeiro dia porque, além de ser secretária da executiva, Arthur foi enfático: uma das condições para ele fotografar era tê-la como companheira de poltrona.

E foi o que aconteceu, sendo que Ally impôs ficar próxima à janela. Quando o avião decolou, após pegarem alguns aperitivos e bebidas com a aeromoça, ambos observaram o chão se distanciar até que estivessem finalmente nas nuvens.

Não tem mais como voltar atrás, a jovem pensou. Ela deitou sua poltrona, retirou um livro de sua bagagem e o abriu. Era um de seus preferidos, e Arthur notou isso ao vê-lo cheio de orelha pelo uso provavelmente constante. Arthur também abaixou seu assento, a espiou de soslaio e leu o nome: A Última Música. Ally percebeu a atenção do ruivo em seu livro, por isso, desviou seu olhar para ele.

— Gosta?

— Normalmente vejo filmes — falou. Logo após, deitou a cabeça no ombro da garota, ignorando o mundo ao seu redor. — Mas... você pode ler para a gente?

Sally surpreendeu-se com o pedido, porém, não o contestou. Deitados, enquanto o rapaz descansava sobre sua pele, respirando próximo a seu pescoço, ela começou a narrar os capítulos enquanto massageava o cabelo do ruivo. Os fios alaranjados enrolavam-se em seus dedos e, distraídos, a dupla se arremessava em universo particular.

Inesperadamente, ele a escutava e permanecia silencioso, atento, quase como se pudesse se infiltrar na vida da instável Ronnie e seus dilemas com sua família, o piano e o tal Will. A personagem tinha muita mágoa do pai, mas ao ser obrigada a passar as férias de verão ao lado dele, acabou tendo a oportunidade de se reconectar com o homem.

— Queria ter tido a oportunidade de ter tido um último momento com meu pai — Arthur declarou de repente, interrompendo a leitura de Ally.

A jovem deixou o livro de lado e o encarou um tanto desnorteada.

Um de frente para o outro. Próximos. E não apenas fisicamente.

— Você perdeu muito, gogoboy, não há como negar. Mas não se concentre nisso... Apenas foque no que você ainda tem. E no que ganhou.

Ele sorriu da forma mais honesta possível, como quase nunca fazia. Não havia um pingo de escárnio em suas pupilas. Era somente ele e a sua certeza de se estar finalmente em paz.

— Eu sinto que ganhei você — o ruivo confessou. — Não importa como isso termine, eu fico feliz por ter te encontrado.

— Lidar com suas piadas e duplos sentidos é tão fácil, mas com sua sinceridade... Nossa! — Ally confessou desconcertada pelo momento.

Arthur sorriu para amenizar a situação e iniciou uma conversa despretensiosa até que, de repente, Sally dormiu, acomodando-se sobre o peito de sua dupla de voo. O rapaz, preocupado com o frio, estendeu a manta sobre a morena, tampando-a vagarosamente até o busto. Acomodou um pequeno travesseiro de viagem por de trás dela, que havia levado para si, para que Ally ficasse mais confortável. Cansado, ele descansou as mãos na cintura dela, e nem notou quando adormeceu.


Embora devesse ir para à Itália apenas no dia seguinte, porém, Miguel, depois de pensar e repensar sobre tudo o que havia acontecido nos últimos tempos, decidiu que iria no mesmo momento em que os outros foram. Mas iria sozinho, e de surpresa, pois precisava finalmente agir. Nanda iria conforme o combinado, sem ele. O rapaz comunicou-se com sua avó, antes mesmo dela embarcar, para que Silvia pudesse recebê-lo.

Estava alvoroçado. Agitado. Mas, pela primeira vez, uma ponta de esperança o instigava a tentar.

Após enfrentar todo o percurso em direção à Europa, em um avião diferente do da equipe de sua avó, uma vez que havia conseguido uma passagem de última hora, Luís Miguel finalmente pousou em terras estrangeiras.

Assim que todos desembarcaram, inclusive Ally e o ruivo, Silvia os deixou e inventou uma desculpa qualquer para permanecer no aeroporto e, principalmente, sozinha. No momento em que viu Luís, ela saiu correndo e o abraçou com intensidade, agraciada por observá-lo tão bem e... confiante.

— Por que decidiu vir tão inesperadamente? Você trate de evitar confusão, está me escutando? — o alertou enquanto o puxava levemente pela orelha, fazendo-o resmungar e rir ao mesmo tempo. — Sua amiga de infância e seu irmão estão amigos, e embora seja estranho admitir, acredito que eles façam bem um ao outro.

— Eu sinto muito, vó, mas não prometo nada — confessou-lhe. Sua expectativa e ansiedade eram visíveis. Seu coração estava a mil por horas. — Tenho a intenção de resolver minha vida nessa viagem. Irei dar um jeito de terminar com Fernanda para trazer ela de volta para mim. Deseje-me sorte e... cerejas — brincou.

Silvia nada respondeu, apenas balançou a cabeça em negativo, sabendo que a vida, às vezes, poderia ser um pouco traiçoeira. Só podia torcer para que, no fim, todos fossem felizes, porque se importava com cada um.


Em outra parte da cidade, enquanto observava os cenários pelo vidro do veículo, Ally sentiu-se dentro de uma obra de arte. Como não havia voo direto à Florença, uma vez que desembarcaram em Roma, ainda enfrentariam cerca de três horas de estrada. Tinha estranhado a saída repentina de sua chefe, pois sabia que a desculpa dada por ela era falsa, considerando que a garota conhecia toda a agenda da mulher, mas preferiu não se preocupar com isso.

A paisagem bucólica fez com que a jovem se recordasse da sua infância. Podia imaginar Fátima saindo da cozinha com os trajes sujos de trigo após preparar pães caseiros deliciosos, até mesmo podia sentir o cheiro dos biscoitos de avelã que Sarah assava quando estava bem humorada.

Assim que se depararam com a extensa vinícola, a garota sentiu-se privilegiada por estar na terra de Dante Alighieri, famoso pela obra A Divina Comédia. Ela saiu do carro ao mesmo tempo que os outros, e o frescor do vento sobre seu rosto lhe deu as boas-vindas. O céu azulado parecia combinar com as muitas colinas que se amontoavam ao seu redor, de maneira que as videiras exibiam uma vivacidade e uma beleza indescritível.

— É... surreal! — Ally sussurrou ainda atônita, mas um clique a chamou atenção.

Arthur estava ajoelhado um pouco a distância dela, com a câmera bem posicionada, fotografando-a. Ela enrugou a testa, confusa, até que o rapaz retornou para perto dela e lhe mostrou a imagem.

— Para você se lembrar do impacto que Florença te causou — ele confidenciou, sorridente. — Um instante da felicidade.

— Você captou esse instante e o transformou em... história. — Ela ergueu o rosto para observá-lo sob os intensos feixes de luz. Então se caçoou: — E conseguiu me fazer ficar bonita.

— É, consegui. — Deu de ombros, em tom brincalhão. — Eu realmente sou um excelente fotógrafo.

Como costume, a garota riu e o empurrou levemente pelo braço.

— Ei! Vocês chegaram! — Uma mulher loira e de aparência delicada acenou com um sorriso aberto. Em seu colo, um menino de quatro anos descansava. — Eu sou Catherina Drummond, sejam bem-vindos! Espero que gostem de Florença e de nossas vinícolas!

A garota mal havia chegado, mas já estava amando aquele lugar, aquele ar e, principalmente, ao olhar para o lado e notar certos olhos cor de âmbar a mirarem, junto aos cabelos ruivos dele brilhando devido ao sol, aquela companhia


Desculpem o sumiço, mas pensem: note deu problema, tbm época d natal, ano novo e meu aniversário... então tempo foi pouco, mas voltei!! 

E aí,  o q esperam? Espero q curtam a viagem (:

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