004 | você enlouqueceu?

─── eu tirei um nove, Jake! ─ Jay exclamou descrente, sorrindo de orelha a orelha enquanto segurava com ambas as mãos a tão temida prova de matemática, que havia feito na semana passada ─── um nove! Você sabe o que isso significa?

─── que você passou na matéria e vai poder voltar a treinar normalmente com o time de basquete ? ─ embora sua voz tranquila não demonstrasse, o mais novo estava realmente orgulhoso de Jay, sabendo o quanto ele havia se esforçado nas últimas duas semanas.

Nós últimos quatorze dias, Jay começou a frequentar a biblioteca da escola apenas para poder passar mais tempo com Jungwon que, embora não admitisse, já não se sentia mais tão incomodado com a presença alheia. Eles também se encontravam fora da escola, geralmente na casa do Yang, para repassar toda a matéria estudada naquele ano e, vez ou outra, terminavam o dia jogando The Last Of Us enquanto esticavam as costas na cama de casal do mais novo.

Jay também aproveitava o tempo livre aos fins de semana para convidar Jungwon para visitar alguns museus de arte contemporânea, já que sabia sobre o quanto ele gostava de apreciar coisas que Jay não entendia, finalizando o passeio em alguma cafeteria desconhecida da região.

O Park havia se apaixonado ainda mais por Yang Jungwon quando, em uma dessas tardes quentes e estranhamente acolhedoras, o mais novo fez questão de puxa-lo até uma fonte de água cristalina em meio a um parque arborizado, entregando-lhe uma moeda para que fizesse um pedido.

Aquela foi a primeira vez que Jay viu o belo sorriso de Jungwon ser direcionado a si e jamais se esqueceria de tal sensação. O coração acelerado e o suor excessivo em suas mãos, juntamente com o leve arregalar de seus olhos escuros eram uma visão adorável para Jungwon que, sem que o mais velho soubesse, desejou que Jay tivesse êxito em suas provas e pudesse voltar a fazer aquilo que mais gostava.
Aquele final de tarde também rendeu belas fotos. Fotos que Jay guardaria para sempre, quase como se fossem seu maior tesouro.

Dessa forma leve, repleta de estudos, risadas e momentos apaixonantes ─ apaixonantes na visão do ruivo ─ duas semanas se passaram e Jay mal podia acreditar que tinha mesmo conseguido.

─── sim, isso também! ─ assentiu diversas vezes ─── mas, o mais importante ─ fez suspense, deixando um cintilar bonito tomar conta de seus olhos escuros ─── Jungwon vai ficar orgulhoso de mim e vai perceber que as aulas que me deu não foram desperdício de tempo, como ele disse que seria! ─ e então Jay inclinou-se em direção a Jaeyun, deixando um beijo na bochecha macia do mais novo antes de sair correndo pelos corredores lotados, com as alças da mochila caindo por seus ombros.

[...]

A porta da sala de monitoria estava entre-aberta, quase como em um convite silencioso para o garoto de fios vermelhos, que não hesitou em se aproximar cautelosamente sem desfazer-se do sorriso contente, desejando surpreender Jungwon ao pegá-lo de surpresa.

O que ele diria quando soubesse que aquelas duas semanas foram de total proveito para o mais velho? Jungwon se sentiria orgulhoso? Talvez sentisse vontade de abraçar Jay em uma espécie de felicitação e, então, o Park poderia finalmente sentir a proximidade de seus corpos pela primeira vez.

Pensar nisso o deixava nervoso, inevitavelmente, mas ele certamente não iria reclamar caso acontecesse e, com o coração acelerado dentro do peito, levou sua destra até a maçaneta, pigarreando baixinho, preparando-se para encontrar com o olhar avaliativo e intimidador do mais novo mas, antes que pudesse realizar tal ação, ouviu vozes conhecidas soarem de dentro da sala.

─── lembra quando você me disse que o Jay era o garoto mais fútil que você já havia conhecido? ─ foi a voz de Lee Jihoon, representante de classe da turma do segundo ano e líder da equipe de debate, que lhe chamou a atenção, fazendo-o recostar-se sobre a madeira fria da porta para prestar atenção no diálogo que se seguia ali ─── você também disse que jamais poderia se interessar por alguém como ele e, sabe, eu não tiro sua razão... ─ o ruivo ouviu um riso contido soar e, imediatamente, sentiu um nó se formar em sua garganta, apertando o papel que segurava contra o próprio peito ─── então o que poderia ser diferente agora? Afinal, se ele passar na tal prova, terá conseguido aquilo que mais almejava, isto é, voltar para a equipe dos musculosos burros ─ mesmo que o Lee não houvesse dito com todas as letras, Jong-seong sabia que ela se referia a ao time de basquete. Ele sabia que, secretamente, era assim que os chamavam pelos corredores da escola e nunca antes havia se importado com aquilo. Não até aquele momento ─── é isso que ele é, Jungwon. Um garoto que sempre recebeu tudo o que desejava sem esforço algum e que teve seus pés beijados por todos ao seu redor apenas por ter pais milionários, e isso jamais irá mudar.

Houve um curto silêncio naquele momento que pareceu perdurar por várias e várias horas na mente confusa e entristecida de Jay, que reunia toda a força que lhe restava para segurar as lágrimas que banhavam seus olhos.

Jay sabia que era algo improvável mas, nas profundezas de seu coração, ainda esperava que Jungwon discordasse ou que, pelo menos, não fosse tão firme em sua resposta. Contudo, não havia um pingo de hesitação na voz do Yang.

─── não é como se uma nota alta fosse mudar quem ele é, afinal de contas.

Aquele foi o estopim para Jay que, sentindo toda a sua felicidade se esvair pouco a pouco de seu corpo, afastou-se cautelosamente, não querendo ser notado, caminhando para longe dali logo em seguida.

Enquanto revivia cada palavra em sua mente atordoada, Jay permitiu-se cair na realidade fria e dolorosa que era sua relação com Yang Jungwon.

Embora fosse apaixonado pelo mais novo desde o ensino fundamental, era difícil para Jay entender com clareza quando aquilo havia começado. Tudo o que ele sabia era que, desde então, sua única vontade era ter o olhar do Yang focado em si, bem como os sorrisos calorosos que ele raramente oferecia a alguém.

Jay sempre desejou poder se aproximar do garoto que mais admirava, afinal, como não sentir apreço por alguém tão terrivelmente fascinante? Alguém tão inteligente, bonito, corajoso e que não hesitava em lutar pelos seus objetivos. Essa, aliás, era uma das características que mais chamavam a atenção de Jay. A sua determinação.

Diante de tudo isso, era difícil controlar a vontade que sentia de ser a pessoa a quem o mais novo recorria quando estava triste, precisando de um abraço apertado e um conforto silencioso ou aquela pessoa que o faria rir até a barriga doer.

Tudo o que o ruivo queria era poder ser alguém importante para Jungwon, mas a única coisa que havia conseguido era o seu rancor e sua repulsa, no entanto.

Sem nem mesmo perceber, Jay permitiu que a primeira lágrima escorresse por sua bochecha, contornando seu nariz até chegar aos seus lábios vermelhos.

Depois de muito escutar sobre o quanto Yang Jungwon o odiava, o Park pensou estar blindado contra qualquer coisa que pudesse ouvir da boca do mais novo. Bem, ele definitivamente não estava e, embora pudesse parecer dramático demais, sentia seu estômago doer, quase como se tivesse levado uma facada.

Jong-seong julgava a si mesmo como alguém indigno porque, se antes duvidava, naquele dia teve sua mente clareada.

Yang Jungwon foi, é e sempre será muito mais do que Jay merece.

[...]

Shim Jaeyun sempre foi um garoto pacífico que regularmente buscava sua paz interior na meditação. Com o histórico escolar perfeito, sem nenhuma mancha em seu histórico, era conhecido como a pessoa mais tranquila e reservada de todo o campus.

Isso até Yang Jungwon cruzar o caminho de seu melhor amigo, é claro.

Jake até poderia ser uma pessoa que foge de conflitos e prefere resolver tudo com uma boa conversa mas, quando se trata de defender uma das pessoas mais importantes de sua vida, ele realmente não se importaria de passar por cima de seus próprios princípios.

Foi pensando nisso que, assim que encontrou com Yang Jungwon em frente a biblioteca pouco movimentada, Jake não hesitou em acertar um tapa estalado na bochecha do mais velho, que deu alguns passos para trás, recostando-se na parede gélida para recuperar o equilíbrio.

─── o que foi isso? ─ o coreano questionou atordoado, elevando seu olhar apenas para encontrar com a expressão de poucos amigos do moreno ─── você enlouqueceu?

─── quem enlouqueceu aqui foi você, Yang Jungwon ─ Jake respondeu sem parecer intimidado pelo tom ríspido que fora utilizado consigo ─── tem muita coisa entalada na minha garganta e eu realmente iria adorar despejar minha raiva acumulada em você, mas isso levaria bastante tempo e, sinceramente, você não vale meus minutos preciosos ─ ele prosseguiu, cruzando os braços sobre o peito e olhando para Jungwon com superioridade, sabendo muito bem que o coreano não estava acostumado com isso ─── então eu só quero deixar bem claro que Park Jong-seong é areia demais pro seu caminhãozinho e, embora esse seu ego inflado te engane constantemente, você não é melhor do que ele, ouviu bem?

Jungwon ouvia tudo com atenção, sentindo sua bochecha direita arder como o inferno. Ainda assim, nada respondeu, interessado em saber o que estava acontecendo ali.

─── nem acredito que eu o incentivei a te procurar. Me sinto tão estúpido por pensar que você poderia ter um coração batendo dentro do peito ─ Jake riu sem humor ─── Jay é o cara mais doce, dedicado e carinhoso que eu já conheci e não vou admitir que ninguém diga o contrário, Jungwon ─ o australiano encarava o Yang com os olhos cerrados, parecendo realmente irritado. Era a primeira vez que Jake era visto naquele estado. Parecia até mesmo outra pessoa ─── e, sabe, você tinha razão. Uma nota alta não vai mudar quem Jay é simplesmente porque não há nada nele que precise ser mudado. Espero que isso tenha ficado bem claro.

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