Capítulo 9


Benedict se sentiu arrastar. Mas achou que estivesse sonhando.

Se fosse a fera, não o arrastaria dessa forma, já o teria dilacerado com um só golpe ou mordida.

Sentiu-se flutuar. Estava leve, como se estivesse envolto em uma bruma, sentiu algo frio tocar a pele quente, parecia que estava em brasa, e depois não sentiu mais nada.

**********

Camille continuava instigando a égua, que agora se arrastava pela clareira. Podia sentir os primeiros raios da manhã atravessarem a copa das arvores e lhe queimar a pele. Já não nevava mais, e ela não podia está mais grata por isso.

- Só mais um pouco querida – sussurrava para a égua – já estamos chegando.

Tinha seguido para uma cabana escondida no meio da floresta, um lugar para onde costumava ir quando queria ficar sozinha. Não conseguiu pensar em outro local quando viu Benedict jogado no chão e cheio de sague. Lá, ela poderia encontrar tudo o que precisava.

Chegando ao local, retirou os galhos que cobriam as portas da pequena cabana, e as abriu.

Fez um gesto para que a égua se inclinasse, e o animal obedeceu. Ela desmontou e rapidamente pegou as pernas de Benedict e o arrastou para dentro da cabana colocando-o em uma pequena cama.

Camille retirou a capa que trazia em volta do corpo, e encheu uma bacia com água. Abriu os armários, a procura de panos limpos, e abriu o seu livro, passando as paginas rapidamente até achar a receita de efusão de ervas.

Verificou os frascos de ervas frescas que estavam em uma das muitas prateleiras empoeiradas, pegou algumas delas, e despejou na bacia com água, depois mergulhou os panos no liquido de cor estranha.

Voltou-se para Benedict, que ainda se encontrava inconsciente. Olhou para ele, grande demais para aquela cama minúscula, e pegou-se rindo da situação. Aonde estavam com a cabeça? O que pretendiam saindo no meio da noite para caçar uma fera?

Tirou-lhe o resto das roupas, deixando-o nu da cintura para cima, e pegou um dos panos no liquido de ervas, e começou a limpar todo o sangue de seu rosto.

Tinha começado a lavar o pescoço e o peito quando viu a cicatriz. Trilhou a elevação da pele bronzeada do pescoço dele com o dedo indicador, e se pegou pensando em como aquilo o deixava ainda mais atraente. O que estava acontecendo com ela? Havia achado Benedict Tickle atraente? Só pode ter batido a cabeça.

Acabou de limpa-lo, e voltou para as ervas. Pegou o livro passando, novamente, as paginas, dessa vez a procura de um cântico poderoso. Já o tinha feito poucas vezes, mas não teve muito sucesso. Ajoelhou-se ao lado da cama e começou a recitar as palavras que estavam escritas, com uma voz sonora e ritmada.

De repente, sentiu-se muito cansada. Sentia fome e sede, mas não havia nada para comer. Inclinou-se sobre um balde e com as mãos em concha levou um pouco de água a boca. Lavou o rosto com água fria, e deitou-se ao lado de Benedict.

Em poucos minutos havia adormecido.

***********

Antes mesmo de abrir os olhos, Benedict sentiu que algo muito estranho estava acontecendo. Sentiu um corpo ao seu lado, e um calor tomou conta de seu corpo.

Ainda de olhos fechados, levou uma mão à testa, e se deparou com algo úmido e de cheio estranho. Levou a mão a lateral do pescoço e ao peito, pescou um pedaço de pano, e o jogou longe. Abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foi a figura de Lady Camille Winthrop deitada ao seu lado.

Ela tinha os cabelos soltos e jogados ao redor do rosto. Sua boca em forma de coração formava um perfeito Oh, e ela repousava uma das mãos sobre o peito nu, dele.

Estava fria, muito fria.

Ele a puxou para mais perto e a envolveu com um braço, deslizando a palma pelas costas dela, na tentativa de mantê-la aquecida. Sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo. Camille encaixou o rosto na curva do pescoço dele e suspirou, seu hálito suave aquecendo a pele de Benedict, que já estava em brasa.

Benedict se sentiu fraquejar. Nunca pensou em fazer algo desse tipo, ainda mas com Camille Winthrop. Ele a conhecia desde que era um bebê.

Ele olhou mais uma vez para o rosto dela, e pensou que nunca havia visto criatura mais linda em toda a sua existência. E antes que ele pudesse raciocinar, seus lábios já estavam tocando os dela.

***********

Camille sentiu algo morno e macio tocar-lhe os lábios. Achou que estivesse sonhando.

Deslizou sua mão por uma superfície rígida e de textura estranha. O que era aquilo? Cabelos?

Abriu os olhos, piscando contra a luz que entrava pela pequena janela, e se deparou com a figura de Benedict Tickle.

Ele afastou-se rapidamente quando a viu acordar, e sentou-se do seu lado da pequena cama.

Camille levou uma mão aos lábios, sentia um formigamento e um calor no local onde os lábios dele a tocaram.

- Bom dia – disse ele depois de alguns minutos de silêncio. Levantou-se e começou a procurar por suas roupas. – O que fez com as minhas roupas? – finalmente perguntou quando não achou as peças de seu guarda roupa.

- Estavam sujas de sangue. Tive que despi-lo, afinal de que modo poderia limpar seus machucados – ela respondeu em um tom zombeteiro.

- Falando me machucados – começou ele e virou-se para encara-lo – o que diabos estava pensando quando saiu aquela hora para caçar uma fera? – seu tom era bravo.

Camille o encarou tentando prender o riso, mas não teve sucesso.

- Do que está rindo? – quis saber ele.

- Acho que posso fazer a mesma pergunta a você, Ben- disse ela, referindo-se a sua pergunta anterior – O que fazia na floresta aquela hora?

- Não lhe devo satisfações Camille – disse ele, e virou-se para o outro lado.

- Tão pouco lhe devo eu – rebateu ela.

- O que disse? – perguntou ele incrédulo.

- Isso mesmo o que ouviu, meu senhor – respondeu empinando o queixo para confronta-lo.

- Se seu pai sabe disso serei um homem morto – diz ele para ninguém em especial.

- Seria um homem morto caso não me encontrasse naquela floresta. – disse ela para provoca-lo.

- Eu não estava tão mal – respondeu ele.

- Ah, claro que não estava – disse ela ironicamente.

- E quer dizer que tu não levasse nem um arranhão dessa nossa aventura?

Camille levou uma mão a lateral do pescoço e ao colo, onde a fera a tinha arranhado, mas não havia um arranhão sequer.

- Como pode ver, meu senhor, estou em perfeitas condições. – disse ela.

Ele virou-se novamente para encara-la, e encontrou-a sentada na cama encarando-o de volta, com um sorrisinho pendendo nos lábios.

Ele odiava quando ela fazia isso. Ela, melhor que ninguém, sabia como provoca-lo. Havia passado toda uma vida fazendo isso, e que Deus tivesse piedade dele.

- Falando nas diversas formas de você perder a sua vida, Ben, meu pai o mataria por bem menos que um passeio noturno na floresta. – provocou ela.

- O que quer dizer com isso? – perguntou ele nervoso.

- O beijo – disse ela simplesmente, e esperou a reação dele.

- Não sei do que você está falando – disse ele e desviou o olhar.

- Ah, claro que sabe. Você o fez, e ainda o fez mal – disse ela, levantou-se de um pulo e caminhou até ele.

- O que disse? Eu não beijo mal – gritou ele indignado. Como ela ousava insinuar que ele não sabia beijar?

- Ah, - exclamou ela cutucando o ombro nu dele com o indicador – então você assume.

- O que a filha de um conde sabe sobre beijos? – disse ele entrando no jogo dela. Se ela queria provoca-lo, ele seria ele quem iria impedir.

- Meu caro Benedict, a filha de um conde também não faz passeios noturnos, desacompanhada, nem caça a fera.

- Nem usa calças – completou ele, analisando- a da cabeça aos pés.

Ela deu uma volta para que ele pudesse olha-la por completo, e mais uma vez Benedict sentiu algo estranho tomar conta dele.

- Mas voltando ao assunto de antes, - ela chegou mais perto dele – fui a primeira que beijastes? – sussurrou ela.

Ele colocou a mão no ombro dela e a afastou.

- Não seja ridícula Camille – disse ele corando, aquele jogo não estava mais tão divertido para ele – não vou falar de tais assuntos contigo.

- Não seja tão sério Ben – disse ela se aproximando. – Afinal somos amigos desde sempre.

Amigos? Benedict nunca pensou em Camille como sua amiga. Só se viam em visitas formais, bailes, e dançavam uma valsa ou duas, e nada mais. Nada de passeios, ou encontros as escondidas.

Mas naquele momento Benedict não a queria como amiga. Ele a encarou, e ela já não sorria mais. Passou uma mão pelos cabelos, num gesto nervoso, e soltou a respiração, que nem tinha notado que estava prendendo.

Benedict se aproximou, e passou um braço pela cintura dela puxando-a mais para perto.

- Você quer que eu a beije? – perguntou ele, a voz rouca de desejo, os lábios a um centímetro dos dela.

Ela não disse nada, apenas assentiu e passou os braços em volta do pescoço dele.

- Eu mesma teria feito – ela disse, num sussurro – mas suponho que isso também não seja permitido a filha de um conde. – continuou ela zombando dele.

Ele a queria, e que Deus tivesse piedade dele, pois não poderia resistir nem mais um segundo. E então a beijou.

Dessa vez não foi roubado, pois ela correspondia com todo o ardor, o que fazia o desejo dele aumentar mais e mais.

Ele apertou os braços em volta da cintura dela, e ela esticou-se na ponta dos pés e entreabriu os lábios com um suspiro. Benedict aproveitou a oportunidade e invadiu a boca dela com a língua, provando seu sabor. Ela tinha gosto de ervas.

Ele levantou os braços e acariciou a pele exposta dos braços dela. Ela estava congelando.

Camille desceu as mãos pela lateral do pescoço dele, cravando unhas no peito nu de Benedict.

Eram como fogo e gelo.

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