Capítulo Sem Nome Oito


 Levei tempo demais para encontrar por onde Isla e eu havíamos entrado no bosque. Estava escuro na outra noite e eu realmente não estava ligando muito para detalhes. Quando estava com noventa por cento de chance de estar certo, entramos na mata. Caminhamos mais do que achei que deveríamos andar, mas por sorte encontramos a cabana antes de entrarmos em desespero.

— Isso é meio sinistro. — Ravi falou, em um sussurro, examinando o lugar.

 Eu avaliei a situação. Dois caras, um deles indiano, com máscaras coloridas atrás da cabeça, prestes a investigar o assassinato de um gato.

— Parece mais ridículo. — conclui.

 Entramos na cabana. Com a luz do fim de tarde passando pelas frestas entre as madeiras e a única janela, o lugar parecia mais amistoso que na noite anterior. Da outra vez que estive ali não pude ver nada além do gato iluminado pelo isqueiro, então dei a primeira olhada no ambiente. Estava mobiliado com uma escrivaninha velha, um banco jogado de lado, um colchonete encardido, um tapete barato e o gato.

— Eu meio que estava esperando você dizer que tudo foi uma sacanagem pra me fazer andar uns dez quilômetros, mas vejo que não. — Ravi disse com os olhos cravados em Mussolini.

— Eu não andaria dez quilômetros pra zoar você. Colocar essa coisa na cabeça também não valeria a pena — respondi, tirando a máscara e jogando para ele. — Vamos juntar pistas, assistente.

— Assistente? Se você é o Sherlock, eu tenho que ser o Watson.

— Isla é o Watson.

— Ah, legal saber que você quer perder a virgindade com o Watson.

— Cala a boca, bebedor de mijo de vaca.

— Já disse para não zoar o hinduísmo para me ofender, seu babaca. — ele chutou a cadeira da escrivaninha em mim, mas não liguei. Ravi nunca ficou realmente ofendido por eu mexer com sua religião.

— Você trouxe a câmera? — perguntei.

 Ele guardou as máscaras, pegou a câmera e um bloco de notas.

— Você tira as fotos e eu faço as anotações. — ele falou.

- Ok.

 Andamos cada um para um lado, mas o lugar era tão pequeno que não nos afastamos muito um do outro. Caminhei primeiro até a escrivaninha. Encontrei um mapa velho e empoeirado, um jornal de meses atrás, um globo terrestre, um calendário e uma embalagem do Mc Donald's que, por parecer nova, deduzi ter sido levada até ali por Isla ou Zac. Tirei uma foto de tudo.

— Não vou examinar o colchonete. — Ravi falou, com uma cara de nojo.

— Por que não? — perguntei.

— Rhonda e Zac devem ter trepado aí a tarde toda. Examine você.

— Zac tem namorada.

— E qual o problema? Isso se chama infidelidade.

 Naquele momento tive vontade de bater em Ravi, não sei se por insinuar que Isla teria um caso com Zac ou por passar a verdade na minha cara. Não queria pensar que ela teria ido até ali com Zac para transar, mas por que mais seria? Me senti traído, mesmo não tendo nada com ela.

— Ei, York. — Ravi chamou. — Dá uma olhada nisso.

 Dei a volta e o encontrei nos fundos da cabana. O corpo de Mussolini estava cobrindo minha visão, então dei um passo para o lado e vi uma pichação na parede.

— S - 5 - 19 - 1 - 7 - 19 - E — eu li.

— Isso nem é tinta spray, parece canetinha. — Ravi falou olhando de mais perto.

 Aquilo poderia mesmo ter sido escrito de canetinha. Tinha a largura de minha palma, mais ou menos. Tirei uma foto enquanto Ravi rabiscava em seu bloco.

 Voltei minha atenção para o gato, andei em volta dele por um minuto e tirei fotos de todos os ângulos. Notei o banco caído aos meus pés, pensando que deveria ter sido nele que havia esbarrado na noite passada. Pisei em uma de suas pernas para levantá-lo. Meio distraído, comecei a me abaixar para sentar.

— Não senta aí! — Ravi me puxou pela gola da camisa, quase me enforcando.

— Por quê?!

— Acho que as vísceras do gato foram cortadas aí.

 Eu me agachei para poder examinar o banco.

— É só terra.

 Ravi rabiscou mais um pouco e eu fotografei o banco.

— Acho que já podemos ir. — ele disse, depois de um minuto.

 Olhei ao redor verificando se não havíamos esquecido de examinar algo e concordei.

 Quando saímos do bosque já estava quase escuro. Com o sinal de nossos celulares de volta, Ravi ligou para Willow e tentou convencê-la de nos pegar. Paramos próximo ao casarão e sentei nos degraus da varanda enquanto Ravi caminhava de um lado para o outro, argumentando tanto quanto um advogado ruim.

 Eu olhei para o pôr do sol no horizonte e pensei em Isla, desejando que ela estivesse ali. Imaginei como mostraria as pistas para ela na segunda-feira e sorri antecipando sua animação. Eu poderia me livrar do domingo, mandá-lo para o buraco negro onde iam todos os dias quando chegavam ao fim.

 Em casa, liguei o computador e baixei as imagens. Dei uma rápida olhada enquanto Ravi tentava acertar o alvo na parede com os dardos. Minha parede de compensado parecia uma constelação de tantos furos por todas suas tentativas fracassadas.

— Eu fico com as anotações. — falei, distraidamente.

— Estão na mochila. — ele atirou mais três vezes antes de desistir e ir sentar perto da janela. — Já tem algum suspeito?

— Até agora todos são suspeitos.

— Todos que estavam na festa.

 Lembrei da multidão espremida dentro do hall do casarão. Poderia ter sido qualquer um ali e eu sequer vi o rosto de alguém. Aquilo começava a parecer impossível.

— Não te contei algo. — eu disse, mudando de assunto.

— O quê?

— Beijei alguém na festa.

 Ravi ergueu uma sobrancelha.

— Quem?

— Não sei, estava escuro. — admiti.

— Isso pode ter sido bom ou ruim. A garota não viu sua cara, mas você também não viu a dela.

— Não me importo. Por um momento imaginei que fosse Isla.

— Você parece um daqueles personagens melodramáticos do Nicholas Sparks com todo esse amor não correspondido. A Rhonda pode até ser gostosa, mas não é a mais gostosa. Pula pra outra.

— Qual mortal pode ser mais gostosa que Amy Sophie Rhonda Green?

— Angelina Jolie.

— Que esteja ao nosso alcance.

— Ninguém está ao nosso alcance.

— Bem, que esteja no Eureka.

 Ele pensou por um minuto.

— Gabriella Hart.

— Sendo a namorada do Zac deve ser intelectualmente incapaz.

— Estamos discutindo atributos físicos. Falando nisso, a garota mistério era gostosa, pelo menos?

— Já disse que não sei quem era.

— Para saber se uma garota é gostosa não precisa enxergá-la, basta apalpá-la.

— Eu não a apalpei.

— Oh, grande vishnu, por que destes aos homens tamanhas oportunidades e os permite falhar?

— Você está tão desesperado que apalparia até uma vaca se ela não fosse sagrada para você.

 Ravi não se segurou e riu comigo. O celular dele tocou.

— Olá, minha assexuada favorita. — ele escutou e fez uma careta. — Era uma piada, Willow. — escutou mais um pouco. — É, ele tá aqui. — outra pausa. — Você quer mesmo a gente? Estranho. Tudo bem, vou passar adiante. — Ravi desligou e me olhou. — Willow quer a gente na próxima reunião do AFPM.

 Associação Formada Por Mim era um grupo extra curricular povoado por Willow e ninguém mais. Ela não aceitava nenhuma outra pessoa, nem mesmo Ravi e eu. Era ela que planejava e colocava em prática todos os projetos e, de alguma forma, conseguiu que o diretor Marshall fizesse com que os alunos doassem dinheiro sempre que ela precisava.

— Sério?

— Ela disse que precisa da gente.

— Mas com isso se rompe a regra básica da associação, não vai ser só Willow, mas Willow, Ravi e York.

— E a AFPM se transformaria em AFPRYEW.

— Por que seu nome vem na frente?

— Sou de outra cultura, mas tenho tanto direito de vir na frente quanto vocês dois, não seja etnocêntrico. Vamos ajudá-la?

— Claro. Por quê não?

— Ela nos fez andar pra caralho hoje.

— Willow sempre nos dá carona. Além do mais deveria estar ocupada.

 Ravi revirou os olhos. Eu continuei.

— Quando é a reunião?

— Agora.

— Então, vamos.



 Willow morava há alguns quarteirões, que pareceram milhas por conta do nosso cansaço. O quarto dela ficava no sótão e era um lugar fantástico. A mãe de Willow era arquiteta e decorara o quarto da filha com o que ela mais gostava: a Inglaterra. A parede da esquerda estava quase completamente coberta por uma imagem gigante da bandeira do país. A cama, as almofadas, o tapete e os travesseiros, tudo era azul, vermelho ou branco. Um móvel antigo, mas restaurado, trazia miniaturas dos típicos soldados ingleses, bandeirinhas com "God Save The Queen!" E a máquina de escrever que comprara. Na parede oposta havia um adesivo da minha altura de uma daquelas cabines telefônicas vermelhas, parecendo que poderíamos entrar ali. Eu já estive naquele quarto várias vezes, mas nunca parava de me surpreender.

 Willow estava sentada em sua escrivaninha digitando no computador freneticamente. Ao nos notar, o fechou e sorriu.

— Vocês vieram.

— Claro, por que não viríamos? — perguntei, pulando em um puff fofão azul e esticando as pernas. Ravi pulou no vermelho e imitou minha posição. Willow odiava quando agíamos como folgados em seu espaço sagrado, mas daquela vez não reclamou.

— Porque não dei carona mais cedo.

— Você quase nunca diz não. — dei de ombros. — Além do mais, estamos curiosos.

— Tudo bem, mas antes quero deixar algo bem claro: Vocês não fazem parte do grupo, apenas vão colaborar com ele.

— Obrigado por nos mostrar o quanto somos importantes. — Ravi disse com a mão no coração.

— Vocês não são importantes, apenas úteis. — ela sorriu.
-— O que temos que fazer? — perguntei torcendo para que ela não estivesse pensando em uma campanha radical que me levasse para a cadeia.

— A próxima campanha do AFPM é a favor do uso de sacolas reutilizáveis ao invés das de plástico. — Willow puxou uma caixa para nossa frente e a abriu. — Com o dinheiro que o diretor me passou só consegui comprar essas, então pensei em algo. Vamos escrever nelas meu propósito e que precisamos de contribuições, depois as distribuímos e as pessoas vão fazer doações, com o dinheiro compro mais.

— Só isso? — perguntei.

— Sim.

— Se eu soubesse que o que a AFPM faz era apenas isso nunca teria pedido para entrar. — Ravi comentou.

 
Willow o ignorou e me passou uma caneta e uma folha impressa.

— Escreva isso aí nas bolsas e, por favor, com uma letra que não pareça a de um bárbaro analfabeto.

— Sim, senhora. — bati uma continência e puxei uma bolsa para o chão.

— Ravi, você vai fazer outra coisa.

— Menos entediante, por favor.

— Preciso que compre algumas ramonas.

— Que diabos é isso?

— Vá em uma loja qualquer e eles saberão o que é. — Willow passou uma nota para ele.

— Posso pegar o RR?

 Ela fechou a cara por um minuto antes de suspirar e pegar as chaves.

— Odeio que caras sem experiência no volante dirijam meu carro. — falou quando Ravi saiu mais animado do que na noite do seu primeiro Natal.

— Se na Índia ele conseguia domar um camelo, aqui ele pode lidar com um carro.

— Acontece que na relação Ravi-camelo um dos dois tinha cérebro, já na relação Ravi-carro nenhum dos dois tem.

— Você é cruel às vezes. — falei com uma risada. — Cruel, mas engraçada.

 Willow sorriu e eu mantive o olhar em seu rosto por dois segundos a mais que o normal. Com um misto de surpresa e confusão, notei que ela era bonita. Há anos estava acostumado a olhá-la do mesmo jeito que olhava para um garoto, sem qualquer tipo de interesse, mas ali, longe de todo o mundo, ela parecia mais normal que nunca. Seu moletom era simples, mas feminino, e a blusa de mangas curtas era unissex. O cabelo dela ainda era curto demais para meu gosto particular, mas por um segundo tive vontade de afastá-lo para ver melhor seus olhos verdes. "Olhos verdes como os da Isla. Isla..." O mundo voltou a fazer sentido. Eu desviei o olhar, Willow voltou a ser minha amiga estranha e Isla voltou a ser o centro de meu mundo. Para mim não funcionava o Teocentrismo, tampouco o Antropocentrismo, em meu universo particular, quem estava no centro de tudo era Isla. Islacentrismo.

— Como vai seu plano para conseguir um nome? — Willow perguntou depois de um minuto.

— Hum... Bem.

— Como Rhonda está ajudando você?

 Eu parei de escrever e a observei. Willow não falava sobre Isla. Ninguém sabia quando começou exatamente ou porque, mas ela odiava a garota tanto quanto eu a amava.

— Eu te contei, na aula de cálculo, lembra?

— Eu sei, mas ontem você foi até Paradise. O que aconteceu?

— Antes disso, tivemos o Teste Um, no cemitério.

 Willow ergueu uma sobrancelha e eu comecei a contar toda a história. No começo narrei meio hesitante, esperando que ela me mandasse calar a boca, mas quando percebi que ela não o faria, me soltei mais, me concentrando nos detalhes. Ela chegou a fazer comentários e até riu algumas vezes. No fim, foi como conversar com Ravi, até melhor, porque ela não se interessou na gostosura da garota que beijei ou em qualquer outro ponto que ele insistiu.

— E como anda a investigação? — quis saber, terminado de escrever em mais uma bolsa.

— Ainda não tive tempo para examinar as fotos.

— Eu tenho um suspeito.

 A olhei, surpreso.

— Quem?

 Willow rasgou um pedaço da folha impressa e puxou os joelhos para cima, apoiando o papel ali. Escreveu algo e o dobrou algumas vezes.

— Quando descobrir veremos se estou certa. — Ela levantou e guardou o papelzinho dentro do porta-joias.

 Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Ravi entrou no quarto batendo a porta com força. Ele estava usando a expressão que indicava seu mais alto nível de irritação: testa franzida, sobrancelhas baixas, olhos concentrados e um pouco de ar nas bochechas.

— Cara, você tá puto. — constatei.

— Tô muito puto, puto ao extremo.

— O que houve?

— Eu fui a todas as lojas da cidade perguntando por ramonas, mas todas me queriam vender grampos e eu já estava muito puto, quando entrei na vigésima loja e pedi por uma droga de uma ramona e o vendedor me veio com grampos, eu disse: "Mermão, eu não quero merda nenhuma de grampos, eu quero ramonas!" E aí ele sorriu como um idiota e disse: "Você é um pequeno homem estranho que não sabe que ramonas e grampos são a mesma coisa." Daí eu tive vontade de furar aqueles olhos irônicos e satânicos com grampos barra ramonas. Além disso, tive que usar um dólar meu porque grampos são mais caros do que parece e você não me deu dinheiro suficiente!

 O silêncio durou por um longo minuto, então Willow estendeu a mão e perguntou:

— Cadê os grampos?

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