Capítulo Sem Nome Nove
Não havia nada pior do que fazer compras com minha família. Caminhar por aqueles corredores, que nem eram corredores de verdade e sim um pedaço de um todo separado por prateleiras sem fim, com minha mãe jogando tudo dentro do carrinho, meu pai tirando a maioria das coisas quando ela não estava olhando e os dois brigando depois que ele era descoberto. Eu quase preferia ir ao Fawn's Toy. Mas como meus pais eram médicos e sempre estavam trabalhando, não tínhamos tempo para fazer programas em família, então coisas como levar o lixo pra fora, ir para as reuniões do colégio, escolher as cores das paredes a cada redecoração e, principalmente, visitar o mercado, eram nossos passeios em família.
Fomos para casa com meus pais discutindo por conta do excesso de minha mãe e o pão-durismo do meu pai. Eles usavam um tom alegre para fingir que não estavam discutindo na nossa frente, mas até Molly percebeu e começou a ficar assustada com a briga. Antes que ela começasse a chorar, os dois pararam e prometeram levá-la ao parque. Implorei que me deixassem em casa primeiro.
Fiquei encarregado de levar as compras para dentro, foram necessárias algumas viagens para carregar todas as sacolas e um tempo a mais para guardar tudo nos armários. O sol já havia se posto, o que significava que eu havia perdido toda uma tarde fazendo compras. Me servi de um pouco de água e fui para o meu quarto.
O corredor estava às escuras, já que na pressa de sair esquecemos de acender as luzes. Empurrei a porta do meu quarto e paralisei. Alguém deitado em minha cama balançava os pés alegremente. Pensei em voltar para o corredor. Pensei em pegar o abajur e acertar a cabeça do ladrão. Pensei em me jogar de joelhos e implorar por minha vida. Mas o que fiz foi esticar meu braço e acender a luz.
— Bem vindo ao lar, York.
Amy Sophie Rhonda Green sentou e sorriu para mim.
— Como você entrou?
— Pela janela. Não deveria deixá-la destrancada.
— Não deixei.
— Ah, é. Preciso te dizer, sua trava já era.
Eu cruzei o quarto para ver a trava da janela quebrada.
— Você arrombou minha janela.
— Eu precisava entrar.
— Isso é vandalismo.
— Você não vai me denunciar.
— Vou ter que trocar sem meus pais perceberem.
— Conheço um cara que tem travas ótimas. — ela me viu abrir a boca para continuar, então me cortou. — Por quanto tempo mais vamos ficar usando frases afirmativas?
— Você é louca.
Isla suspirou e revirou os olhos.
— Veja, eu trouxe algo para você. — ela indicou um envelope branco e pequeno, perto dos seus pés.
Ajoelhei ao pé da cama, pegando o envelope.
— O que é? — perguntei, curioso.
— Você não pode abrir agora. — ela segurou meus pulsos como se fossem algemas.
— Por quê?
— É uma surpresa. Agora me prometa que não vai abrir antes que eu diga.
— Prometo.
— Muito bem, eu vou enviar uma mensagem quando for a hora de abrir e eu vou saber se você espiar, acredite.
— Não vou espiar.
— Preciso ir. — disse, pulando para o chão, depois caminhou até a janela.
— Espera, como você conseguiu meu número?
Isla me lançou um sorriso de escárnio e foi embora.
Depois que Isla desapareceu por minha janela recém violentada, eu passei uns bons dez minutos olhando para o envelope.
Resolvi procurar algo para jantar, depois voltei para o quarto, liguei o computador e analisei minunciosamente cada foto da cena do crime. Peguei uma folha e escrevi tudo o que achei relevante.
Foto um: mapa da Carolina do Norte, Jornal de Dezembro, Globo Terrestre, Calendário.
Foto dois: Código S - 5 - 19 - 1 - 7 - 19 - E
Fotos três, quatro, cinco, seis e sete: Mussolini.
Foto oito: Banco sujo de terra.
Li as informações e revi as fotos para ter certeza que não havia esquecido de nada. Decidi começar pelo código, acreditando que aquela deveria ser a assinatura do assassino, se eu a desvendasse poderia pular todo o resto. Duas letras, S e E, uma no início e outra no fim. Cinco números, 5, 19, 1, 7 e 19. Primeiro coloquei as letras correspondentes a cada número no alfabeto, E, S, A, G, S. Aquilo nem era uma palavra.
— Você foi visitado por um bombado?
Girei na cadeira e vi Ravi parado do lado de fora, passando os dedos na trava arrebentada.
— Não, por Isla.
Ele pulou para dentro.
— Como ela fez isso?
Dei de ombros.
— Ela veio me entregar isso. — apontei para o envelope na minha cama.
— O que é?
— Não sei. Ela me proibiu de abrir antes da hora.
— Você é um pau mandado de uma garota que nem é sua. — disse. — Vamos abrir de uma vez.
— Não.
— Ela nem vai saber que você abriu.
— Ela disse que ia.
— E como vai fazer isso? Rhonda é vidente ou colocou câmeras por aqui?
Bom, eu poderia eliminar a primeira hipótese, mas Isla era bem capaz da segunda.
— Ravi, eu sou apaixonado por Isla desde criança. Essa é minha primeira e, muito provavelmente, única oportunidade de conseguir alguma coisa, então não vou colocar tudo a perder por curiosidade.
O indiano suspirou.
— Ok, ok. Aquelas são as fotos da investigação? — perguntou olhando para o computador.
— São. Eu estava olhando e fazendo algumas anotações. — voltei para o computador. — Tentei primeiro o código, substituindo os números por letras, mas não deu em nada coerente. — esperei que ele falasse algo, mas não aconteceu. Virei e o encontrei olhando dentro do envelope.
— Ravi!
Ele ergueu o olhar para mim.
— Você precisa ver isso.
Caminhei até a cama pensando se encontraria outro cadáver, ou ao menos o dedo de um. Lancei um olhar por cima do ombro do indiano e vi um cartão. Eu peguei aquilo e o levantei até a altura dos olhos. Examinei cada centímetro, esperando encontrar alguma mensagem, mas não havia nada além de unicórnios e balões ali.
— Não acredito que ela tirou onda com a sua cara! — Ravi começou a rir.
Eu peguei o celular e procurei o número que Isla me ligou no outro dia, para encontrá-la em Paradise. Sorte que havia gravado.
— Você abriu o envelope. — Isla acusou ao atender.
— Ravi abriu. — disse. — Qual foi a da piadinha?
— Você não podia ter olhado! Eu confiei em você, eu preciso confiar, não entende?
— Me importam três babuínos que você precise confiar em mim!
— Não acredito que você tá irritado.
— É, eu tô!
— Estou me sentindo como meu pai recebendo bronca sem motivo da minha mãe com TPM, mas, um: eu não tenho bolas, e dois: você não pode estar em um ciclo menstrual.
— Cadê a câmera?
— Hum?
— Onde você escondeu a droga da câmera?
— Que câmera?! York, você...
— Se você me manda um envelope misterioso e me proíbe de abrir, é para gerar expectativa, para quando me ligar dizendo que eu posso abrir, eu corra como um vira-lata esperando ganhar um osso e descobrir que na verdade era ração pra gato, e é claro que você vai gravar para divertir a população do Eureka em um futuro próximo, então cadê a porra câmera?!
Isla ficou em silêncio por um minuto antes de responder.
— Hoje é o aniversário da Emma. — foi o que ela disse.
— E o que eu tenho com isso? Peraí... — olhei mais uma vez para o cartão. — Isso é um convite de aniversário.
— Bingo.
— Você me convidou para uma festa infantil?
— Na verdade é uma festa do pijama. Tenho que ficar de olho nas meninas. Pensei que poderia me ajudar a não morrer de tédio.
— Você poderia ter apenas pedido.
— Eu adoro colocar emoção nas coisas.
— Essa é uma forte característica sua. E bancar o idiota uma minha.
— Você não é idiota, apenas esquentado. A festa começa às quatro.
— Vou estar aí.
— Você pode trazer sua irmã.
De jeito nenhum eu iria arrastar Molly para uma noite onde toda minha atenção poderia estar em Isla.
— Obrigado e... desculpe por gritar com você.
— Tudo bem. Nos vemos daqui a pouco.
Ravi estava no computador aproximando as imagens para enxergar os detalhes pequenos.
— Não foi o que pareceu. — falei caminhando para perto dele.
— Festa de criança?
— Da irmã dela. Ela quer que eu ajude.
— Sofrimento garantido.
— Quer ir também? Você daria um ótimo burro, daí as crianças tentariam colocar a calda em você.
— Prefiro beber gasolina e beijar uma vela.
— O que tá fazendo?
— Examinando o cadáver.
— Não há nada no corpo, já conferi.
— Exatamente.
— Exatamente o quê?
— Não há ferimentos. Nada de cortes, buracos de tiros ou sinais de espancamento. Não há nada. Como ele morreu?
Cheguei um pouco mais perto da tela e examinei o gato.
— Vai ver ele foi enforcado.
— Pode ser. Cadê minhas anotações?
Enquanto Ravi revia o bloco de notas, eu tentava pensar em quem seria tão cruel ao ponto de enforcar um pobre animal. Era uma coisa impiedosa de se fazer, como atitudes de psicopatas.
— E se a gente procurar na internet?
— É claro, York, porque o assassino com certeza declarou sua culpa no facebook.
— Pesquisar dicas de como chegar a um culpado, eu quis dizer.
Ravi voltou sua atenção para as palavras sem se dar o trabalho de me responder.
A casa de Isla estava decorada com balões na entrada. Os gritos das crianças chegaram até mim antes que eu alcançasse a porta. A sra. Green atendeu na segunda vez que toquei a campainha.
— Oh, York! Olhe só para você! Lembro de quando era um garotinho. Tão bonito! Acho que tenho uma foto sua com Amy. Onde está Molly?
A sra. Green falava bastante, tinha esquecido daquilo.
— Ela está doente. Isla me pediu ajuda, por isso estou aqui. — expliquei.
— Que amor. Eu sabia que quando ela finalmente escolhesse alguém seria um bom garoto!
Quando ela escolhesse alguém? Isla já tivera sete namorados desde o ensino fundamental II. Mas eu não estava ligando para aquilo. Pensei em dizer que não era nada de Isla, mas a ideia de um ser humano em todo o mundo acreditar que havia algo entre ela e eu me agradava.
Entrei para o pequeno hall e logo fui atingido por uma bexiga em forma de animal. Passei os olhos pelo lugar e percebi como aquilo parecia o Fawn's Toy em um espaço menor. Encontrei Isla em um canto. Enquanto me aproximava, notei que ela estava fazendo tranças nas meninas. Eu esperava encontra-la irritada, trancando criancinhas no porão e cuspindo no leite com chocolate delas, mas não, estava sorrindo carinhosamente para a menina que tagarelava ao seu lado.
— Posso entrar na fila? — Perguntei.
Ela me encontrou com o olhar e sorriu.
— A altura máxima é de um metro e meio.
— Ah, que droga. Queria uma trança espinha de peixe.
— É uma pena. Que tal ir desenhar com as meninas?
— Se elas pedirem círculos não tão redondos, triângulos e quadrados não tão retos, tudo bem.
— Você não sabe desenhar nada?
Fingi pensar por um minuto.
— Acho que consigo fazer bonecos de palitinhos.
Isla riu e eu tive uma enorme falta de ar. Com aquele vestido florido e alegre e o cabelo preso no alto, ela estava absurdamente linda. Talvez por estar cercada de crianças, ela parecia tão inocente, nada parecida com a garota que invadiu um cemitério comigo.
Deixei-a pintando as crianças e fui ajudar a sra. Green a distribuir suco para todas. A cada criança que entreguei um copo tive que limpar três que derramaram a bebida em si mesmas. Na metade da festa já havia concordado que aquilo era pior que o Fawn's Toy. Ficar em um lugar isolado observando as mini pessoas correrem, gritarem, pularem e brigarem era bem melhor que ter que interagir com suas corridas, gritos, pulos e brigas. Mesmo assim não me arrependi de estar ali.
Quando senti a mesma exaustão de quando fiquei de recuperação em educação física e o treinador me mandou dar noventa voltas ao redor da quadra de basquete, me escondi detrás do sofá. Isla me encontrou ali após alguns minutos.
— Esse é um péssimo esconderijo. — apontou, sentando ao meu lado.
— Estou a ponto de enlouquecer. Festa do pijama não é pra dormir?
— É, eu também fui enganada.
— Mas você se dá muito bem com elas.
Era verdade. Durante toda a festa a vi inventar jogos, participar deles e se divertir.
— Sua versão de A Dona Aranha foi incrível. — comentei, fazendo força para não rir.
— Que isso não saía dessas paredes, por favor.
— Pode deixar.
— Minha mãe quer que eu faça alguma apresentação para acalmá-los. Pensei em pegar a Barbie e o Ken e fazer uma demonstração de reprodução humana. O que acha?
E ali vi um flash da Isla que conhecemos. Como alguém pode ser duas pessoas tão diferentes?
— Seria interessante ver a reação deles.
— É, seria. — ela pensou por um minuto. — Você quer bolo?
O rosto dela estava irresistivelmente perto do meu. Aqueles olhos brilhantes, como o verde tocado pelo sol, tão próximos que eu podia me ver neles. Eu queria muito um pedaço de bolo, se ele fosse do sabor da boca dela.
Eu me inclinei para frente, ela não se inclinou para perto, mas também não se afastou, meu cérebro entrou em curto circuito, não me importei.
— Eles são namorados! — uma vozinha estridente gritou em algum lugar.
Isla e eu pulamos para trás. Eu virei a cabeça e vi uma garotinha de uns seis anos saltitando e apontando para nós. Em meio segundo um círculo de curiosos de um metro e vinte de altura nos cercou. Pensei em apertar as gargantinhas deles, um por um.
A sra. Green nos encontrou para me agradecer e dizer que eu já poderia ir, que as crianças iriam se preparar para dormir. Levantei, sentindo o constrangimento estampado na cara, mas sem ser capaz de fazer algo. Por sorte a Sra. Green pediu que eu deixasse um sacolão com o lixo da festinha do lado de fora, então me despedi de Isla rápidamente e segui sua mãe.
Enquanto saía pela cozinha e dava a volta no quintal do lado esquerdo, me perguntei se o beijo teria acontecido. Estávamos tão perto que acreditei que sim. Eu ainda estaria beijando ela? Tropecei em uma espécie de gaiola no meio do quintal e xinguei alto pela dor em minha canela. Por sorte todas as crianças estavam fora do alcance auditivo. Endireitei aquilo, notando que era uma armadilha para pegar ratos e olhei ao redor, procurando a lixeira. Pela janela que dava vista para a sala de estar, pude ver Isla com sua irmãzinha no colo e um livro nas mãos. As crianças formavam um semicírculo ao redor dela e todas estavam como que encantadas, absorvendo as palavras dela.
Se eu me apaixonei pelo lado mau comportado, indiferente e quase arrogante dela, o que aconteceria comigo se continuasse a conhecer esse outro lado, o gentil, bondoso e adorável? Acho que a amaria como se tudo o que existisse e o que não existisse dependesse apenas dela.
Voltei para casa ainda remoendo o quase beijo. Quando estava a ponto de abrir a porta da frente, Willow buzinou atrás de mim. Ela me convidou para comer alguma coisa no Big Snacks, então passamos na casa do Ravi e dirigimos até o centro. Pedimos dois hambúrgueres para mim e Willow e uma porção extra de batata fritas para Ravi, já que ele não podia comer carne bovina. Depois de comer, percebemos que continuávamos com fome, então pedimos mais hambúrgueres. Ravi falou que se comesse mais uma batata se transformaria no primogênito do sr. e sra. Cabeça de Batata, do Toy Story, então foi até o outro lado da rua e comprou comida chinesa. O garçom do Big Snacks disse que ele não podia consumir a comida de outro estabelecimento ali e acabamos o jantar na calçada de um consultório de dentista, com Ravi usando minha embalagem de hambúrguer como colher porque havia lembrado tarde demais que não sabia usar os hashi.
Depois do jantar ao ar livre, Willow nos levou ao show de uma banda chamada Adnub. Já estava no fim e o som era pop demais para mim, mas foi divertido. Ravi e eu fizemos uma aposta, ele perdeu e teve que prometer usar uma camisa escrito ''Eu Amo Adnub'', que comprei na porta de entrada do lugar, por todo o dia seguinte no Eureka.
Voltamos para casa às dez e quarenta e cinco, porque nosso horário de recolher era às onze em dia de escola. Enquanto tomava banho, descobri que alguma criança colara um adesivo de princesas em meu pescoço, me perguntei se foi por aquilo que ganhei tantos olhares no show. Vesti meu moletom de Princeton, não por eu desejar estudar em Princeton um dia, não por ser confortável ou quentinho, mas porque a blusa se encaixava em meu corpo de uma forma que me fazia parecer ilusoriamente forte, e mesmo que eu só fosse dormir com ela e que ninguém me veria, era a minha favorita.
Dormi quase instantaneamente. Sonhei que estava em uma barraca de tiro e, ao acertar o alvo, descobri que o premio era uma Mercedes Benz, e que a Ellen Degeneres me entregava as chaves. Eu devia ter pensado: ''por que estou sonhando com a Degeneres me dando as chaves ao invés de uma atriz gostosa?'', mas eu estava muito ocupado pensando: ''Jesus Cristo, eu tenho um carro! Nada pode me abalar nesse momento, nem o aquecimento global, nem as guerras ou os ataques terroristas, nem mesmo saber que bebês zebras estão sendo transformadas em carne alternativa para hinduístas que se recusam a comer vacas como meu amigo Ravi, porque EU GANHEI UMA MERCEDES BENZ, PORRA!''. Infelizmente, de acordo com a regra que não nos permite sonhar por muito tempo com algo bom, meu sonho maravilhosamente perfeito foi trocado por outro sem graça. Depois disso a segunda-feira chegou.
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