Capítulo Sem Nome Catorze
— Você vai ser preso.
— Não vou.
— Na cadeia, jovens rapazes como você viram as namoradas dos veteranos por lá.
— A polícia não vai nos pegar.
— E eles dividem você com os outros, ou alugam por drogas e dinheiro. Não vai ser só um abusando do seu corpo magro.
— Não somos os primeiros a fazer isso.
— Sua garganta vai ser furada com um osso de galinha durante o sono.
— Cala a boca! — joguei a primeira coisa que encontrei em Ravi. Era o controle do videogame.
— Apenas estou constatando fatos. — ele se defendeu, massageando o ombro.
— Já disse que não vamos ser pegos.
— Como pode ter certeza?
Eu não tinha. Minha primeira reação ao ouvir o plano foi me negar a ir. Sabia que era loucura e que correríamos o risco de ser presos, mas ainda no Eureka percebi que queria fazer aquilo. Eu nunca fui um exemplo a seguir, mas sempre andei na linha. Minhas notas não eram as melhores, mas nunca fui reprovado. Eu fugi uma única vez para ir a uma festa, mas não bebi, não me droguei nem engravidei ninguém (se bem que para esse último eu precisava me envolver com uma menina, coisa que não aconteceu). Eu cuidava da minha irmãzinha durante os plantões dos meus pais e quase nunca precisava mentir para eles. No geral, eu era um bom filho e estava cansado daquilo. Eu tinha dezesseis anos, quando ia começar a me divertir? Quando tivesse quarenta e cinco, um emprego chato e uma ex-esposa?
Foi aquele pensamento que me fez caminhar até o endereço que Isla me deu para conseguir uma identidade falsa. Para não me sentir tão sujo, prometi que a queimaria no dia seguinte. Eu seria um completo idiota por gastar cem dólares em algo descartável, mas tudo por uma consciência tranquila.
— Será que posso ser culpado por associação por estar aqui com você? — Ravi perguntou quando paramos em frente ao endereço.
O prédio era alto, retangular e cinza. Havia uma porta de vidro e nenhuma janela.
— Provavelmente.
Entramos na recepção pequena. Um balcão de madeira, uma planta quase morta e um par de cadeiras decoravam o lugar. Não sabia qual fachada encobria a produção de documentos ilegais.
Ravi e eu paramos junto ao balcão e um grandalhão ruivo nos encarou de volta.
— Serviço A ou B? — perguntou.
Troquei um olhar com Ravi. Torcendo para que o serviço A fosse o disfarce legal e o B o ilegal, chutei no segundo.
— Certidão de óbito, papéis para divórcio, certidão de nascimento, passaportes ou identidade? — o gigante ruivo quis saber.
— Identidade.
— Duas?
— Apenas para mim. — falei.
— Uma foto, dados falsos e sua assinatura. — o grandalhão disse empurrando uma folha em branco. — Pagamento adiantado.
Peguei uma foto recente em minha carteira e o dinheiro.
— Como eu vou me chamar? — perguntei para Ravi.
— Que tal Harry Sotter?
Balancei a cabeça e escrevi William Rosenberg na folha.
— Quatro de julho? — o indiano perguntou ao ver a data de nascimento que escolhi.
— É a independência dos Estados Unidos, não vou esquecer caso alguém pergunte.
— Por que não escolheu 25 de dezembro? Seria mais sutil.
— Ninguém nasce no Natal, só Jesus.
Terminei de preencher e assinei a folha.
O grandalhão a examinou por um minuto enquanto limpava o ouvido com o dedinho.
— Vai estar pronta amanhã à noite.
— Preciso para hoje.
Ele baixou o papel e me olhou.
— Você tem cigarros?
— Não.
— Amanhã à noite, então.
— O que tem a ver cigarros com o trabalho? — perguntei alto demais. O homem ficou de pé e parecia ter uns dois metros de altura e a largura de um mamute.
— Vamos comprar os cigarros. — falei dando um passo para trás. — Preferência por marca?
Do lado de fora, voltei a respirar.
— Me empresta cinco dólares. — pedi para Ravi.
— Se eu tivesse cinco dólares estaria no Big Snacks, não aqui.
— Perdi cem dólares lá dentro, não tenho mais.
— Eu nunca nem tive cem dólares.
— Não vou voltar lá sem cigarros e não posso esperar até amanhã.
Voltamos para minha casa. Eu estava a ponto de me dar um tiro por ter perdido tanto dinheiro, mas a única coisa que fiz foi me jogar no sofá ao lado de Ravi.
Acho que é um sinal para você não ir. — ele disse.
— É um sinal me dizendo para seguir as instruções de Rhonda da próxima vez.
— Onde vai conseguir dinheiro para outros documentos?
— Não sei.
— Para que você quer documentos, Yoko?
Minha cabeça virou bruscamente para a direita. Tia Grace estava parada na ponta do corredor, com uma copo na mão. Deus sabia o que ela estava tomando às cinco da tarde
— Que documentos?
— Os que seu amigo estranho estava falando.
— A senhora ouviu errado. — Ravi deu uma mãozinha.
Tia Grace balançou os gelos no copo.
— Não vai me contar?
— Não há nada para contar.
Como se o universo me quisesse ver morto, minha mãe desceu as escadas.
— Lucy, esse aí que um dia foi um feto dentro de você está procurando documentos ilegais.
Meu coração parou. Minhas mãos suaram. Pensei em correr para a rua e torcer que um carro me atropelasse. Ao menos seria rápido.
— York, querido, se importa em pegar a correspondência depois? — mamãe pediu enquanto folheava a revista que tinha nas mãos.
O sangue voltou a correr em minha veias. Minha mãe viu tudo como mais uma das loucuras da cunhada maluca.
— Claro, mãe.
Depois que mamãe sumiu pela cozinha, olhei para tia Grace com um sorriso debochado. Ela me encarou de volta enquanto virava o resto da bebida na boca.
— Eu sei quem pode ajudar você. — ela falou, sem se abalar pelo descrédito recente.
— O quê?
— Você quer um documento, eu sei quem fabrica.
Como ela passou de delatora à cúmplice?
— Quem?
— Eu te levo até lá.
— Não tenho dinheiro.
— Eu empresto.
Aquilo começava a soar como uma pegadinha ou, pior, uma armadilha.
— Por que quer me ajudar?
— Você é meu afilhado.
— Sou seu sobrinho.
— Não batizaram você? Mas eu jurava que tinha sido madrinha... Ah, foi do cachorro de uma amiga! Mas deixe para lá. Vamos. — tia Grace pegou seu casaco de onça no sofá e a bolsa.
Eu não gostava muito da ideia de seguir um plano feito pela mesma cabeça que me levou para ver "A Dança Erótica dos Bichos" quando eu tinha quatro anos (hoje eu daria meu fígado para ver aquelas dançarinas com tangas de zebra, mas na época chorei porque queria ver Peter Pan), mas sem outra alternativa, segui a louca até o carro dela. Enquanto atravessávamos a calçada, eu a vi estremecer e abraçar sua bolsa contra o peito.
— Por que esse garoto está seguindo a gente? — ela perguntou em um sussurro para mim.
— É o Ravi. Ele vai com a gente.
— Ele tem olhos estranhos. — falou, mesmo assim o deixou entrar no carro.
A decoração do veículo de tia Grace faria os bichinhos do Rei Leão fugirem. Os bancos eram cobertos por pele de zebra, no espelho um fofinho rabo de coelho balançava e até o painel era coberto por uma pelagem branca. No chão havia um tapete de pele de veado macio. Eu nunca descobri se aquilo tudo era verdadeiro ou pele falsa.
Pensei que tia Grace nos levaria para o centro, mas subimos na vinte e três e cortamos alguns quarteirões, nos aprofundando em Fawn. Meu celular vibrou em meu bolso.
Pra onde ela tá levando a gente?
Lancei um olhar pra trás e vi Ravi apreensivo.
Não sei.
E se ela estiver nos sequestrando?
Ela não vai nos sequestrar.
Bom, eu não tinha certeza.
Então que cheiro doce é esse? Isso cheira a sonífero!
Cala a boca, vc nunca cheirou um sonífero.
Só espero não acordar amanhã amarrado em uma cadeira, com os olhos vendados e nu.
E eu espero estar com os olhos vendados também para não ter que ver isso.
Ravi riu lá atrás.
— O que foi? — tia Grace perguntou olhando-o pelo retrovisor.
— Nada. — o indiano respondeu.
O celular de Ravi tocou e daquela vez não era eu. Eu ouvi suas respostas monossilábicas e animadas, mas estava concentrado no que via a minha frente. O carro parou por um minuto em frente aos portões do Fawn's Villary, o único condomínio de Fawn. Tia Grace morava ali. Poderia ser mais caro que um apartamento, mas mais seguro para alguém mentalmente instável.
Ravi desligou o celular e se inclinou entre os dois bancos da frente.
— Pode me dar uma carona até o restaurante Lótus? — perguntou olhando tia Grace.
— Por que quer ir até lá? — eu que fiz a pergunta.
— Eloise me convidou! Dá pra acreditar?!
— Jura?!
— Então, rola uma carona?
— Se eu dirigir até o Lótus, vou acabar entrando, tomarei algo forte que, somado ao álcool que já está no meu sangue, vai me fazer subir em uma mesa e fazer um strippe tease enquanto toca Can't Take Eyes off You.
— Você não pode só me deixar na porta e ir embora?
— Não.
— York? — ele se virou, pedindo ajuda.
— Ela precisa me levar até o cara dos documentos!
— Por favor, tia Grace! — implorou.
— Não.
— Isso é um sim?
— Isso é um "Se você não sair do meu carro sua pele vai acabar se tornando o próximo item de decoração por aqui".
Ravi desistiu.
— O Lótus fica há quantos quarteirões daqui? — perguntou.
— Uns doze. Se você correr e arriscar ter seus órgãos roubados cortando caminho por becos escuros, pode chegar lá em menos de meia hora, acho.
O conselho de tia Grace não era muito animador, mas Ravi pulou do carro e começou a correr. Tive a impressão de que ele já estava cansado ao chegar no final da rua.
O porteiro abriu os portões e nós entramos.
— O cara falsifica documentos na própria casa? Não é perigoso?
— Tudo depende da sua imagem. — foi a resposta dela.
Paramos em frente ao número 58.
— Por que estamos na sua casa?
Ela não respondeu. Descemos do carro e entramos no lugar. Eu estive na casa de tia Grace apenas em algumas ocasiões desde que nasci. Guiado por ela, passei pela sala, atravessei o corredor e entrei no quarto dela. Eu estava olhando a decoração estranha e mal percebi ela entrando no closet.
Aproximei-me da porta aberta e vi que não haviam roupas ali. As prateleiras foram retiradas e uma mesinha ocupava o lugar, com um banquinho em cada lado.
— Meu escritório. — anunciou.
— Você faz documentos falsificados?
— Eu as chamo de cópias alteradas não registradas. — disse, se acomodando na banquinho.
Ocupei o lugar a frente dela.
— Papai sabe disso aqui?
— Claro que não. Mas aprendi graças a ele.
— Ele também faz falsificações?!
Tia Grace riu.
— Quando ele tinha dezoito anos precisou de uma identidade que mostrasse ter vinte e um. Eu estava sob os cuidados dele então precisou me levar junto. Assisti enquanto o cara trabalhava e aprendi.
Aos oito anos ela aprendeu a fazer documentação ilegal. Por que não herdei o lado gênio dela?
Escrevi os mesmos dados que havia usado com o Cara Grande e Ruivo e passei o papel para ela. Tia Grace teve que tirar uma foto minha no closet mesmo, porque eu não tinha outra na carteira. Surpreendentemente, em menos de uma hora a identidade estava pronta.
Com ela nas mãos, senti empolgação e pavor. Eu ia entrar em um lugar para adultos! Podia beber qualquer coisa do bar! E eu poderia ser preso!
Tia Grace tamborilou os dedos na mesa para chamar minha atenção.
— Hum... você disse que ia me emprestar dinheiro para pagar.
Ela tirou algumas notas da bolsa.
— Aqui tem vinte e cinco dólares, te empresto a primeira parcela. A segunda e terceira você me paga depois.
— Ou seja, vou te dar vinte e cinco agora, devolver os vinte e cinco emprestados e depois arranjar mais cinquenta? Isso dá cem dólares!
— Vejo que está assistindo as aulas de matemática.
Empurrei o dinheiro de volta pensando em roubar o cofrinho da Molly.
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