| CAPÍTULO 1 |
A boate da cidade costumava ficar muito cheia naquele horário em uma sexta-feira, ainda mais em uma época como aquela. Férias de verão quase no fim e todos que ali estavam buscavam pelas emoções finais que aquele período poderia proporcionar.
A música alta e o cheiro de álcool misturado com a fumaça de cigarros que invadia o local, vindo da entrada, impregnavam as paredes escuras e o carpete grudento e sujo do local.
Na pista, corpos suados, dançando ao som de uma música em alguma outra língua já não mais compreendida por aqueles que, por terem misturado álcool com tantas outras substâncias, mal conseguiam entender as suas próprias. No centro do lugar, vestindo apenas jaqueta jeans sem camisa por baixo e uma calça preta, que combinava com seus sapatos, estava o mais agitado e envolvido dançarino.
Diego mal tinha completado 17 anos, mas com sua identidade falsa participou das mais diversas festas dadas no local. Sua pele morena brilhava com o suor que escorria pelo corpo. O calor do local parecia um reflexo da sensação térmica do lado de fora, mas isso parecia não incomodar as pessoas que ali estavam.
Alguém se aproxima e fala algo ao rapaz, que sem parar de se movimentar responde:
- O que disse?
A música alta não permitia que conversas fossem entendidas com facilidade no local, tampouco que se pudesse falar baixo.
- Perguntei se você vem sempre aqui. - diz um rapaz mais alto, posicionado à sua frente com um sorriso no rosto.
Sua pele transparecia a excitação e o tanto que havia se movimentado na noite: bochechas vermelhas, com suor escorrendo pelo pescoço.
- Essa é a pergunta mais velha que alguém poderia fazer a outro. - responde Diego retribuindo o sorriso.
- Às vezes, sou meio cafona em puxar assunto, foi mal - responde rindo. Mexendo em seu cabelo encaracolado e loiro, o garoto continua - é que te achei muito bonito e estava pensando se -
- Olha, cara, -interrompe Diego - não é querendo ser grosso nem nada, mas hoje não vim para isso.
- Ué, e você sabe para o que eu vim? - responde o loiro, rindo - achei que só estava tentando puxar assunto como uma alma velha, só isso...
- Desculpa, acho que eu meio que perdi a forma de fazer... você sabe... isso funcionar- diz Diego gesticulando -.
- você quer dizer flertar?
- Sim.
- Não, não acho que esqueceu. - responde o garoto com um sorriso de lado - mas me diz ai: para o que você veio então?
A música no local passou de uma agitada batida eletrônica para um som mais intenso. A atmosfera havia mudado no lugar.
- Para esquecer. - responde Diego, retirando sua jaqueta e amarrando em sua cintura-.
- Esquecer? O que?
- Tudo.
- Quer ajuda?
- Eu nem ao menos sei o seu nome! -Responde Diego, rindo-.
- Ben, Benjamin, mas pode me chamar de Ben. E o seu?
- Diego.
- Prazer! Mas, então?
- O que?
- Estou te oferecendo uma ajuda. Posso te fazer esquecer, o que quer que seja -Articula Ben, de modo insistente-.
- Acho difícil - responde Diego sorrindo -.
- Estou falando sério, posso ser bom em fazer esquecer, mesmo quando tudo o que a cabeça faz é lembrar.
Nesse momento, o rapaz alto coloca a mão direita sobre o braço esquerdo de Diego. Com seu toque, ele sente os pelos da nuca se arrepiarem e uma movimentação atípica no baixo ventre é sentida. Será possível alguém olhar para o outro de forma tão intensa assim? Como se lesse a alma, pensava Diego, envergonhado, tentando desviar o olhar do Rapaz à sua frente.
- Posso tentar? - insiste Ben-.
- Acho que... sim? - "como recusar com ele me olhando desse jeito" pensa-.
- Ah, quero dizer, podemos tentar te ajudar?
- podemos? - pergunta Diego, intrigado e surpreso.
- Eu e - apontando para uma garota sozinha no bar olhando para os dois continua- ela.
No Bar, uma linda garota com um vestido justo e curto de cor preta, usando pouca maquiagem, o que a distanciava fisicamente de todas as outras no lugar, mexia no conteúdo transparente de seu copo enquanto olhava para os dois. Seu cabelo era preto e volumoso e o seu rosto iluminado por lindos olhos verdes.
Sorrindo e ainda mais tentado com a ideia, Diego responde:
- Posso considerar a ajuda bem-vinda.
Acompanhando o rapaz até o bar, estende a sua mão à garota e diz:
- Prazer! Sou Diego, você?
- Sou a Lu! Eu e Ben ficamos realmente animados te vendo dançar.
- Você não imagina o quanto! - completa Ben, o lindo rapaz de cabelos loiros encaracolados-.
***
O relógio marcava os primeiros minutos das 6 da manhã quando Diego se levantou, deixando sobre a cama o casal que havia conhecido na noite anterior. Colocou sua roupa, escreveu um bilhete com o seu número e o colocou sobre a mesa ao lado da cama, foi até a cozinha e pegou uma maçã, enquanto pelo aplicativo em seu celular chamava um carro.
Quase trinta minutos dentro do veículo até chegar em sua casa, durante o trajeto acaba cochilando, a noite havia deixado Diego muito cansado.
Agora com as chaves de casa nas mãos, o rapaz abre a porta de sua casa, localizada no bairro de classe média de Green Stale. O imponente sobrado, que havia sido habitado por seus avós por tantos anos, acomodava há pouco tempo Diego e seus pais.
Na cozinha, com o telefone na mão e um cigarro na outra, uma mulher esbelta de olhos castanhos e pele igualmente morena esperava de forma agitada. Com o ranger da porta, se assusta e rapidamente se levanta, dizendo em voz alta:
- Onde você estava? - Pergunta indo em direção ao rapaz - você sai ontem às 8 horas da noite e volta agora como se não devesse nenhuma satisfação?!
A mulher aparenta estar cada vez mais agitada.
- Bom dia para você também, Eleonor! Tem café? - Responde, rispidamente, Diego.
- Já disse que não gosto que me chame assim, sou sua mãe e mereço respeito!
- Olha - respira fundo Diego - Eu tive uma noite espetacular, por favor, não estrague isso. Hoje não.
O Rapaz caminha em direção a cafeteira ao lado da pia. Retira uma xícara do armário ao lado e preenche seu interior com o líquido escuro enquanto olha para o jardim pela janela. De supetão, Eleonor bate com a mão na xícara que seu filho filho segurava, que voa para longe derramando todo o seu conteúdo pelo tapete branco da cozinha.
- Não vou admitir que você me trate dessa maneira - grita enquanto treme - você está me ouvindo?! Eu não vou admitir! - A mulher esbraveja enquanto tenta se recompor. Suas mãos trêmulas buscam apoio no bolcão, pois as pernas também estão bambas.
- Você está totalmente descontrolada! - grita Diego, boquiaberto-.
- Você deveria ter chegado há horas! Seu celular... Pra que você tem essa merda se não usa!
- Eu sinto muito, ok? - responde Diego - Eu estava muito ocupado transando para me preocupar em atender essa merda!- O tom debochado na fala torna toda a situação ainda pior.
Revirando os olhos enquanto caminha em direção ao hall de entrada, Diego é, de forma súbita, surpreendido pelo braço de seu pai que o empurra contra a parede.
- O que você pensa estar fazendo? Bancando o desbocado, o rebelde, tratando sua mãe desse jeito... Enquanto viver sob o nosso teto você vai nos dar satisfação sim, entendeu? - batendo a mão na parede ao lado do rosto do rapaz o homem grita: -Você me entendeu?!
- Sim. Posso ir? - Responde Diego, contrariado.
Em seu quarto, Diego joga o celular sobre a cama e só então nota as 16 ligações perdidas. Senta-se na cama e retira os tênis, o dia lá fora anuncia que uma chuva está próxima, mas o calor dentro do quarto faz com que Diego vá em direção da janela, na intenção de abri-la.
Já sem camisa, o rapaz se levanta e vai até a janela. Em frente a casa o bosque que circunda toda a cidade chama a sua atenção. O vento faz as árvores balançarem, mas tudo ainda assim parece tão quieto lá fora, contrastando com os pensamentos acelerados do garoto.
Não gostava de agir daquela forma. Odiava estar naquela situação, quase sempre irritado, nunca sabe para onde as coisas estão caminhando. Como se ninguém o entendesse. Pelo menos, ninguém mais o entendia, não desde que...Não, chega, prometeu a si mesmo que não mais pensaria nela. Dói demais.
Em frente a janela, se preparando para fechar as cortinas e ir finalmente dormir, é surpreendido pelo flash de uma câmera em direção a sua janela.
- Mas que merda é essa? - Deixa escapar pela boca.
Diego rapidamente se afasta da janela e desce as escadas em direção a porta, sem se importar se os seus pais vão ou não dizer alguma coisa. Atravessa a rua e parando na borda que o separa da folhagem densa do bosque olha desesperadamente para todas as direções.
- Quem está ai? - grita - Anda, quem é o babaca que tá tirando fotos minhas? - pergunta ao vazio.
Nada se ouve. Os pés descalços do rapaz começam a incomodá-lo, ter saído de casa só de calças não foi uma boa ideia, o vento começa a ficar mais forte enquanto os pássaros levantam voo e os primeiros pingos de chuva começam a cair.
Um barulho o assusta e faz com que sua cabeça vire na direção que veio. Um galho caindo de uma alta árvore, a sua esquerda. Nesse instante, um novo clarão o surpreende. Assustado com a insistência de quem quer que seja o fotógrafo, começa a andar em direção a sua casa, com passos cada vez mais rápidos.
- Quem autorizou você sair?- Pergunta seu pai, o encarando -.
- Tem algo. Alguém lá fora - começa o rapaz -.
- Para o quarto agora!- responde o homem, impaciente -.
- Sim, mas é que tinha - Começa Diego -.
- Pro quarto! eu não vou repetir mais!
-Está bem! - responde, contrariado -.
No quarto, o garoto fecha as cortinas de sua janela, seguindo para o banheiro em que toma um banho quente, se preparando para finalmente dormir.
***
A luz acesa do celular, indicando uma ligação em andamento, ilumina o quarto escuro. O vibrar do aparelho sobre a mesa, em que foi colocado assim que Diego decidiu se deitar por poucos minutos logo após o banho, faz o rapaz acordar.
Ainda desnorteado tenta identificar o que interrompeu seu sono. Na tela do celular as horas indicavam que já era tarde da noite e que um número desconhecido havia deixado uma ligação perdida. A dor na barriga fez lembrar que não havia comido nada desde que chegou em casa.
Ao se levantar, deixa cair a toalha que cobria de forma nada satisfatória seu corpo, refletindo no espelho ao lado seu corpo atlético, nu. O cansaço o havia impedido de sequer colocar uma roupa após o banho.
Já vestindo uma bermuda, desce as escadas em direção a cozinha. A casa está quieta, indicando que, pelo horário, seus pais já estão dormindo. Diego abre o armário da cozinha e começa a preparar, de forma desleixada, um sanduíche de creme de amendoim.
Retira da geladeira a embalagem com leite e o coloca sobre o balcão, despejando seu conteúdo em um copo vazio e limpo. O rapaz segue para seu quarto tentando equilibrar um prato e copo numa só mão enquanto na outra tenta identificar de quem teria sido a ligação.
***
O celular vibrando sobre a barriga faz o rapaz acordar. Adormeceu logo que terminara o sanduíche. Na tela, uma chamada em andamento, mas não uma simples ligação, uma chamada de vídeo. Surpreso, o garoto olha para o relógio acima da tela marcando 2:27 da manhã.
Com o coração acelerado e as mãos levemente trêmulas, arrasta a tela para cima, um sinal de aceite a ligação. Do outro lado, apenas uma imagem escura, ou a falta de alguma imagem. O rapaz tenta clicar desesperadamente nos botões de volume ao lado do aparelho, uma forma de tentar identificar se há realmente alguém do outro lado.
Uma respiração ofegante é perceptível. Nos poucos segundos que se sucedem, a iluminação do local do outro vídeo torna-se mais perceptível. Aos poucos, o cenário fica a mostra pela câmera e de imediato é identificado por Diego. Ele estava vendo alguém saindo do Bosque em direção a entrada de sua casa.
Com o coração cada vez mais acelerado, o garoto sai de seu quarto e, sem fazer qualquer barulho, começa a descer as escadas. No celular, a imagem começa a se aproximar ainda mais da entrada da casa, subindo as escadas, chegando a porta de entrada.
Aos pés da escada, no último degrau até o hall, Diego identifica uma sombra por debaixo da porta. No vídeo, vê a mão de alguém, com luvas, girando a maçaneta da porta, em vão. Do outro lado, Diego, com as mãos trêmulas, não sabe se vai até o quarto de seus pais alertá-los ou grita por eles dali mesmo.
Mas, rapidamente, a tentativa de invasão de sua casa é interrompida. A chamada de vídeo também chega ao fim. O invasor desiste e tudo que Diego consegue ouvir no lugar é o som de seus próprios batimentos.
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