QUINZE
Precisei ter algumas reuniões com a minha equipe, sobre minha saída. Steve veio comigo. Acredito que esse foi mais um momento em que minha vida se dividiu por conta de um drama que eu não esperava viver, mas dessa vez estava com o coração completamente aberto.
Se eu disser que não nos emocionamos, eu estarei mentindo. Minha equipe sempre me tratou como um verdadeiro tesouro e eu era eternamente grato a eles por isso. Todo o respeito, cumplicidade e fidelidade seria lembrado por toda a minha vida. Acontece que, pra mim, estar naquele lugar já não fazia tanto sentido. Outras equipes tinham costume de brigar pelos seus pilotos e eu precisava de pessoas assim ao meu lado – em especial por conta dos últimos ataques que vinha recebendo.
Claro que depois de tudo que passei, uma casca dura se formou em minha mente. Não era mais tão inocente quanto era quando comecei a pilotar, mas ainda precisava de um cuidado a mais nessa questão. Fora isso, na imprensa aparentemente também ficou visível minha mudança de comportamento – e isso atraiu ainda mais comentários. Muito se falava sobre o quanto eu não demonstrava mais estar animado em nenhuma das reuniões relacionadas aos campeonatos, mas eu seria muito ingrato se afirmasse o mesmo. Me doei a vida inteira por isso, simplesmente virar as costas seria idiotice.
Durante o mês de mudança de equipe, Tyler ficou na Europa comigo. Confesso que ele foi o responsável por tornar minha vida menos pesada. O levei para pilotar algumas motos de baixa cilindrada no autódromo que passei a treinar e ele pareceu gostar bastante do que aprendeu. Tyler fez parte da minha rotina de trabalho no tempo que ficou aqui. Até mesmo tirou fotos comigo no estúdio – já que eu tinha que tirar para atualizar o catálogo de pilotos da minha nova equipe.
Além disso, em nossos passeios as pessoas também se encantavam por ele. Todas as vezes que eu falava sobre ele ser meu irmão, o enchiam de perguntas, questionando se ele também tinha o sonho de correr. Bem, meu irmão era encantado por motos, mas certamente ele não tinha o sonho de se tornar piloto.
Acabei por escolher tirar férias das pistas enquanto ele estava aqui. Não queria repetir o mesmo erro que tinha cometido quando Dorian veio, porque nunca se sabe quando tudo vai acabar. Os únicos compromissos que mantive, foram os que poderia realizar com ele.
O levei para conhecer vários países, parques, fazer motocross, esquiar e, finalmente, em um lugar que queria muito que ele conhecesse. Sabia que seria importante para Tyler ter o começo de sua vida com motocicletas pelas minhas mãos – assim como eu comecei pelas mãos do meu avô. Por esse motivo, precisei correr atrás para realizar um sonho dele:
– Olha se não é o nosso campeão. – Enrico comenta, se aproximando e eu tiro meus óculos escuros, apertando sua mão. – Veio buscar sua encomenda?
Estávamos em uma garagem de motos raras. No começo daquele ano eu tinha entrado em contato com ele, informando sobre a possível vinda do meu irmão para a Europa. Queria tornar, então, esse momento memorável para ele.
– Claro. Não é pra mim, é pro meu irmão. – explico, enquanto Tyler parece distante, olhando ao redor. – Tyler, esse é o Enrico, o maior contrabandista de moto rara desse mundo. – Enrico gargalha, concordando com a cabeça.
– É um prazer. – Tyler estende a mão e eles se cumprimentam.
– Bem, Tyler, há alguns meses atrás seu irmão vem me cercando, pedindo por um protótipo muito específico. – Enrico comenta e eu concordo com a cabeça. – Ele diz que alguém, que acredito ser você, é completamente apaixonado por essa moto em específica.
– H2R? – ele pergunta e Enrico sorri.
– É. Acha que fui capaz de encontrar? Só temos uma média de 500 no mundo inteiro. – Tyler fica pensativo, me observando.
– Não faço ideia, é difícil. Geralmente quem tem não quer vender. – é o que ele responde e Enrico me observa.
– Nada na vida é difícil com um homem de 1,98 na nossa cola, cobrando alguma coisa. – Tyler cai na gargalhada. – Ali está, Tyler, sua moto.
– O que? – ele pergunta, me encarando e eu sorrio concordando com a cabeça.
No mesmo instante meu irmão sai correndo pela loja, até o final dela, onde a moto estava. Ele não toca nela em um primeiro momento, apenas passeia seus olhos, como se estivesse completamente hipnotizado. Era lindo ver os olhos do meu irmão brilhar.
– Ela vai chegar nos Estados Unidos acho que daqui cerca de um mês. Acredito que quando você voltar, ela já vai estar te esperando. Conversei com Steve, ele vai acompanhar seu desenvolvimento em moto carenada. – explico, enquanto caminho até Tyler. – Vai ter que batalhar pra conquistar essa e mostrar que tem maturidade para controlar essa moto.
– Muito obrigado! – ele me abraça com força.
– Esse ano não vou conseguir ir muitas vezes te ver. Se for, vou ter que fazer bate e volta. Então se esforce pra me mostrar que é capaz, tudo bem? – ele sorri, concordando com a cabeça. – Feliz aniversário de 16 adiantado, cenoura.
– Valeu demais, Jensen. Eu vou merecer ela, você vai ver. Vai ser minha joia essa moto. – ele comenta.
– Ah, se for fazer modificações, só autorizo que faça com o Mike. Ele é meu amigo, meu irmão, apenas confiaria nele para mexer em qualquer coisa que você vai usar. Entendeu? – ele concorda com a cabeça. – E eu espero que um dia, se aposentar essa moto, não venda. Gastei tempo buscando ela pra você.
– Mesmo que eu aposente, é mais fácil colocar ela na minha sala do que vender. – rimos.
Fazer meu irmão feliz me trouxe um afago no peito. Pelo menos para uma pessoa eu ainda era um herói – e isso me fez sentir como se lá no fundo minha vida ainda tinha algum valor.
Tyler ficou admirando sua moto por um tempo, sem querer ir embora. Eu entendia o sentimento que ele estava sentindo, então respeitei seu momento e passei algum tempo conversando com Enrico sobre como seria levar a máquina para os Estados Unidos. Bem, seria complicado, mas se no final o sorriso do meu irmão permanecesse em seu rosto, seria mais que suficiente pra mim.
Eu já tinha desembolsado muito dinheiro para convencer o ex dono da moto a vendê-la. Logo, passar por toda a burocracia de encaminhá-la para Milwaukee não seria nada.
Quando saímos da loja, já estava anoitecendo. Por esse motivo, optei por levar meu irmão até um restaurante que eu gostava bastante:
– Tenho uma fofoca pra você. – Tyler comenta, enquanto jantamos e eu observo por alguns segundos sem piscar.
– Preciso implorar para que me conte? – ele sorri.
– A esposa do Jim, a Ellen, foi embora. Fugida. – o observo. – Ninguém entendeu, mas ao que as más línguas falam, ela descobriu que ele tem filhos fora do casamento e ficou em choque. – me engasgo por alguns segundos.
– Descobriram quem são esses tais filhos?
– Não. – ele responde, tomando um gole de refrigerante depois. – Mas ao que tudo indica é gente próxima, porque virou um imensa fofoca, ela falou que não ia aguentar os olhares de julgamento e nunca mais voltou. E detalhe... ela deixou o Simon para trás, como se ele não fosse nada.
– Bem, eles são adultos. Só fico com pena do Simon, porque ele já é retraído, estar no meio de uma confusão como essa só vai deixar ele ainda pior. Ele era muito apegado a Ellen, provavelmente esse sentimento vai ficar reprimido. – Tyler concorda com a cabeça. – E você, alguma novidade?
– Briguei com um colega de turma. Acredita que ele escondeu de mim que seus pais tinham falido? Ele não confia em mim? Então não merece minha amizade.
– Tem que respeitar o tempo das pessoas, elas contam o que querem, no tempo que querem. – olho nos olhos de Tyler. – E eu sei que tá pensando que não deu certo na minha vez, mas foi uma fatalidade. Infelizmente com a Brie não deu certo, entende? Ela se matou e eu não pude ajudá-la, mas eu a respeitei. Por bem ou por mal, sendo verdade ou apenas para me confortar, eu a respeitei.
– Sinto como se ele não confiasse em mim. Que tipo de pessoa não conta algo importante pra alguém que confia?
– Alguém que não está preparado para contar. É fácil julgar, quando não é no seu peito que mora todos os sentimentos ruins que a pessoa está sentindo. Precisa começar a trabalhar em si esse sentimento imediatista, vai te dar uma perspectiva ampla das situações. – Tyler parece ficar pensativo.
Terminamos de almoçar e depois disso fomos continuar nossos passeios. Meu irmão aproveitou para renovar suas roupas, para algumas marcas europeias que gostava bastante e não apenas isso, como equipamentos de motociclismo também. Durante toda aquele mês comigo, ele fez compras que, segundo ele, eram essenciais.
Segundo Tyler, ele iria se esforçar para chegar ao meu nível – e eu não duvidava disso, meu irmão era bem inteligente. Torcia apenas para que isso não o transformasse no que eu me tornei. Queria que ele conseguisse alcançar o equilíbrio de ficar satisfeito com o que já tem e mesmo assim exercitar seu lado ambicioso.
Os dias voltaram a passar conosco vivendo o melhor que poderíamos. Levei ele em alguns parques, atividades radicais e atrações turísticas. Aproveitei, também, para levá-lo até o meu apartamento na Inglaterra. Era importante trazer Tyler para a minha vida atual, até mesmo para que ele considerasse me acompanhar daqui algum tempo.
– É um lugar bem legal. – ele comenta, olhando eu redor, enquanto entramos.
– Pode ser a sua casa também, quando quiser vir. Ficaria muito feliz se dividíssemos esse lugar. Você é como minha alma gêmea. – comento e ele me observa, pensando um pouco.
– Irmão, o que faria se uma pessoa estivesse interessada em você e você não quisesse? – ele me pergunta, enquanto carregamos algumas caixas para dentro.
– Se não gosta dela, você vai dizer. – respondo e Tyler nega com a cabeça, sorrindo.
– Claro que não. Esquece. – ele rebate e eu o observo. De repente ele não era mais o garotinho que me escutava sem questionar.
Provavelmente isso era consequência de ter ficado tanto tempo longe do meu irmão nos últimos anos. A única coisa que eu sabia que não poderia fazer, era bater de frente com ele. Precisava colocar ele para raciocinar, como se ele estivesse com o total controle de tudo que vinha acontecendo.
– Por que? Por ego? – ele dá de ombros.
– E daí? Ela que começou a gostar de mim atoa, então que lide com o sentimento sozinha. Não me importo.
– Homem de verdade não precisa de ninguém alisando as bolas, Tyler, precisa ser honrado. Se quer beijar alguém e não quer ter nada, deixe claro desde o início, se não se interessa por alguém que está entregando o coração em uma bandeja pra você... não custa falar, certo? – ele me observa, desviando olhar em seguida.. – Ela está te oferendo a maior preciosidade que poderia. Não é engraçado destroçar um coração, mostra o quão covarde você é e eu já disse que não crio homem covarde. Às vezes, mesmo avisando, você ainda vai magoar alguém... mas aí sim isso não é com você. As pessoas fazem as escolhas que desejam para suas vidas.
– Já amou alguém, irmão? Você fala tanto sobre isso, mas nunca apareceu namorando ninguém. – Tyler protesta e eu dou de ombros.
Refleti bastante antes de respondê-lo. Por alguns segundos, pela primeira vez em meses, vivi em minha mente um flashback de todo meu "relacionamento" com Dorian. Percebi nesse momento que ainda doía bastante.
– Amei e perdi. Acho que pior que nunca amar ninguém, é sentir o sabor disso e saber que nunca o vai ter novamente. É como mastigar algo amargo constantemente. Mesmo quando me sinto feliz, sinto que falta alguém comigo. – explico e Tyler parece ficar pensativo comigo.
Ele respira fundo, voltando a falar:
– Você vive me falando que tem jeito pra tudo, só não tem pra morte... – concordo com a cabeça, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Tyler claramente fica impressionado com isso.
Em todos esses anos meu irmão nunca tinha me visto tão emotivo. No entanto, ao contrário do que seria se isso acontecesse antes, eu estava tranquilo em demonstrar tanto sentimento a ele naquele momento.
Ser uma muralha para Tyler tinha dado resultado. Era inegável. Ele vinha se tornando um rapaz centrado, com personalidade forte e firme em suas decisões. Ter me doado tanto a ele tinha feito com que meu irmão conseguisse demonstrar sentimentos, absorver conhecimento e aceitar repreensões. Isso, pra mim, era o suficiente.
Meu irmão não cresceu batendo de frente com tudo e todos o tempo inteiro, desrespeitando todos ao nosso redor... ele tinha um respeito pelo equilíbrio das coisas, pelas regras das quais já era habituado. Era memorável. Esperava que a cada dia que se passasse ele se tornasse mais forte.
No entanto, ali, naquele momento, ele tinha conseguido rasgar o meu peito. Sabia que para o meu irmão eu era apenas um cara popular, que todos gostavam, mas naquele exato momento eu tinha me posto de joelhos diante dele.
– Exatamente. – respondo, quase sussurrando, com voz falha. As lágrimas não paravam de descer de meus olhos, enquanto ele se mantinha com os olhos fixos em mim. – Então, quando encontrar, não perca em hipótese alguma. Às vezes a gente só entende o que tinha, quando já não tem mais. E esse "não ter mais" é como se nossa alma tivesse um corte que sangra todos os dias. É uma dor que não cura, que não passa... e aí, todas as vezes que você pensa em tudo que poderia ter feito, mais um elo de uma imensa corrente de sofrimento se forma. Isso vira um fardo pesado a se carregar durante sua existência.
– O que te fez perder a pessoa que amou? – ele questiona e eu dou de ombros.
– Eu mesmo. – sorrio pra ele, ainda com os olhos marejados. Aquele foi o sorriso mais triste que lancei a alguém. – Acho que o fator mais decisivo é que eu não sabia que "eu te amo" tem que ser dito nos momentos que precisamos dizer e não em momentos ideais ou "nos próximos". O próximo momento pode nunca chegar e se buscar um momento ideal para dizer algo assim, pode morrer entalado com o sentimento. Se não tiver coragem de dizer coisas que julga importantes, isso pode te matar em vida. E morrer em vida é a morte mais dolorosa que alguém pode sentir.
– Você tem dificuldade em dizer isso mesmo. É engraçado até... o mesmo medo que eu tenho de morrer sozinho, você tem por se declarar. – confirmo com a cabeça, várias vezes.
– Sobre esse seu medo da solidão, saiba que enquanto eu estiver aqui, você não vai estar sozinho. Mas se algum dia eu não estiver, não pode deixar o pânico da solidão tomar conta de você, ou isso vai te matar. Definhar com um coração batendo e a mente te esfaqueando é como perder todas as vontades... e ninguém sobrevive sem querer alguma coisa. – Tyler respira fundo, sentando-se no chão do apartamento e eu me sento ao seu lado.
– Você carrega fardos demais, Jensen. Não fazia ideia de no seu peito tinham tantas questões. Obrigado por compartilhar comigo...
– Sim, eu carrego muitos fardos. E o pior é que são fardos que escolhi, por decisões que tomei. E em todas as nossas conversas, Tyler, eu tento fazer com que você não carregue os mesmos erros que eu. Quero que seja uma pessoa que tenha uma vida tranquila, que encontre alguém e viva feliz com seu amor até ficar velhinho. Quero que se sinta realizado, quando achar algo que faça seu coração bater mais forte... você merece uma vida tranquila. – ele segura minha mão.
– Você também, irmão. – sorrio, negando com a cabeça.
– Quanto mais o tempo passa, mas percebo que abri mão disso por tudo isso. – olho ao redor. – Todo o meu sonho me custou muito mais do que eu tinha para pagar. E agora, que eu tenho meu sonho e muito dinheiro, sinto que não tenho mais nada. Então valorize o amor, valorize seus amigos... seja fiel aos seus amigos, aos seus sentimentos, não fuja quando encontrar alguém que vale a pena. Não vale a pena perder um amigo por causa das tristezas da vida. Sempre que puder, lute por tudo que seu sentimento implorar.
– Mesmo se fizerem coisas erradas?
– Tem uma frase que eu gosto muito, que nosso avô me ensinou que diz "não assumo o que não fiz, a menos que seja para proteger um inocente que receberá uma pena pior que eu receberia se estivesse em seu mesmo lugar". Então a questão aqui não é certo ou errado, é sua consciência, é seu sentimento. – Tyler confirma com a cabeça.
– Eu preciso te contar uma coisa. – ele comenta e eu o encaro, sem piscar. – Comecei a fumar.
– O quê? Você tem 15 anos, Tyler. – rebato e ele dá de ombros.
– Desculpa. Andei muito estressado desde que foi embora, uns caras começaram a tentar me perseguir, foi muito difícil. Não consegui achar nenhuma atividade de escape, é como se eu estivesse preso em um ciclo vicioso de problemas. Mas ninguém me ofereceu, eu comecei porque fui idiota. Escolhi isso.
– Precisa fortalecer sua mente pra parar, é sério. Fumar não pode ser uma opção pra você. – peço e ele me observa, concordando com a cabeça.
– Pode me contar como foi pra você perder o Dorian? Agora que já se passaram alguns meses... sei que eram bem amigos, era visível como era mais feliz quando ele estava aqui. Parece que a cada dia que passa, se devasta mais pela ausência dele. – observo meu irmão, dando de ombros.
– O que eu sei é que não vale a pena perder pessoas, por coisas relativamente materiais. Temos que lutar por quem amamos. Eu nunca lutei pelo Dorian, eu nunca dei minha cara a tapa por ele, mesmo ele sendo extremamente importante pra mim. Você vai fazer amigos, vai conhecer muitas pessoas daqui para frente... seu ensino médio acabou de começar... sempre batalhe com todas as forças por quem vale a pena. – respondo, respirando fundo e Tyler me puxa, abraçando-me.
– Tenho medo de não ser uma pessoa boa o suficiente.
– Existem pessoas no mundo que parecem felizes e estão tristes. E existem pessoas no mundo que são visivelmente tristes. O que pessoas como você e eu temos que fazer é não tornar a vida dessas pessoas mais miserável do que já é. Nunca sabemos quando alguém está na beirada de um penhasco e sua última palavra com alguém, pode ser a última palavra ouvida por esse alguém. Apenas se atenha em ser completamente sincero e vai ser uma pessoa boa o suficiente. – Tyler respira fundo.
– É engraçado. Tudo que quero na vida é ser alguém que traz orgulho para nossa família, quero poder me entregar e acolher alguém... construir algo lindo. Mas parece tão difícil. Tenho dificuldade em conversar com as pessoas e ouvi-las... tenho dificuldade de amar e sentir compaixão.
– Isso vai vir naturalmente. Com a maturidade, lidar com as pessoas é mais fácil. E eu já te disse, quando se apaixonar por alguém, vai saber. Isso demarca nosso peito como um corte profundo na carne, de dentro pra fora. – digo e ele respira fundo.
– Obrigado por estar aqui comigo. – Tyler comenta e eu respiro fundo, segurando seu rosto.
– Enquanto seu coração bater, o meu baterá contigo, feijãozinho. – digo, olhando em seus olhos e lhe dou um beijo na testa.
Tyler foi embora antes de mim naquele mês. Isso, porque minha mãe queria fazer uma pequena viagem com meus irmãos alguns dias antes da minha chegada. O resultado disso é que o levei para o aeroporto e só fui embora quando ele me avisou sobre ter embarcado.
Minha despedida de Tyler foi marcada por um abraço apertado e por eu ter dito a ele que o amava umas 25x seguidas – e em todas ele me respondeu. Só nisso já era perceptível o quanto ele vinha se tornando alguém melhor que eu jamais serei.
Naquele dia, quando saí do aeroporto fui até o prédio da minha equipe, assinar alguns documentos referentes a patrocínio e tirar algumas fotos com a moto que eu correria no MotoGP, caso conseguisse passar pela seletiva, e também tive uma entrevista. Ao contrário das outras, essa me chamou atenção:
– Jensen, o que esperar, caso passe na seletiva de Milwaukee essa semana? – a repórter pergunta e eu penso um pouco.
Estávamos na área de coletiva do prédio sede da empresa que eu fazia parte. Dezenas de repórteres estavam presentes. Antes, eu teria receio de aparecer publicamente daquela forma, mas como a minha nova equipe tinha publicado uma nota sobre perguntas proibidas, eu estava mais tranquilo:
– O que sempre entreguei. Muita dedicação. Eu realmente amo o que eu faço. Aprendi a pilotar antes de aprender a falar, não tem nada que eu não faça por isso. Pode não parecer, mas sacrifiquei tudo que um dia tive, por esse sonho. – respondo e ela sorri.
– A maior parte das pessoas não sabe o que é isso. Essa ambição desenfreada de um jovem obstinado. – sorrio brevemente para ela. – Esse sentimento que carrega tem como foco fazer com que você se sinta melhor, ou demonstrar algo para o seu irmão? Espera ser um exemplo para ele em algum momento?
– Sim. Espero que o Tyler seja obstinado em alguma coisa, como eu sou com a pilotagem. Espero que em um momento de dificuldade na vida dele, ele consiga olhar para onde quer chegar e dê tudo de si por isso, ao invés de ceder completamente. Mas também espero que ele saiba o limite. Mais importante que saber onde quer chegar, é saber o momento de parar. – respondo e outro repórter levanta a mão.
– Sabemos que vem de uma temporada complexa. MotoGP vai chegar pra você em um período pós falecimento de um dos seus técnicos mais experientes, entre outros problemas pessoais que não fazemos ideia de quais são, mas que te fizeram abandonar uma corrida em meio a uma temporada importante. Acha que isso vai te prejudicar de alguma forma? Ainda mais em uma nova equipe? – ele pergunta e eu penso um pouco.
– Não. Estava precisando de novos ares, novos momentos. – respondo.
– Me diria o seu pior defeito? – a repórter que fez as duas primeiras perguntas questiona, olhando em meus olhos.
– Eu sou egoísta. Quero tudo pra mim. Quando subo em um pódio, eu quero o próximo. Mas ao mesmo tempo que vejo onde queria estar, não consigo olhar ao redor e perceber onde já estou. Dessa forma, mesmo vencendo eu estou sempre fadado ao fracasso. – respondo, olhando nos olhos dela.
Percebi na sala o quanto todos ficaram em choque pela forma como falei, mas não tinha como mudar minhas palavras. Era exatamente o que sentia. Mais algumas perguntas me foram feitas sobre a temporada que viria pela frente e depois disso a coletiva foi encerrada.
– Não acho que seja egoísta. – a repórter se aproxima de mim e eu a observo. Toda a minha equipe se aproxima, como se tentasse afastá-la de mim, mas eu autorizo que ela fique.
– Você não me conhece. – é o que respondo e ela sorri. – Todos aqui veem as fotos e vídeos que são postadas no meu Instagram por uma equipe que cria uma imagem ideal de quem sou. Já eu mesmo, preciso lidar comigo. São perspectivas diferentes.
– Você se cobra muito, é o que sei. Como se nadasse muito para chegar em lugar algum, é visível. De fato não te conheço, mas já estudei todas as suas reações quando vê suas pontuações e é perceptível como se sente inferior, mesmo quando está no topo. – sorrio. – O fato é que mesmo sendo triste, todos os grandes pilotos são como você.
– O que quer dizer com isso?
– Quero dizer que a partir do próximo ano, certamente vai ganhar o MotoGP pelos próximos 20 anos. Seu lugar é o primeiro lugar em tudo que se propõe, não tem como correr disso. Boa sorte na seletiva. – ela passa a mão pelo meu ombro.
– Obrigado. – é tudo que respondo e ela confirma com a cabeça, saindo da sala em seguida.
Observo ela por alguns segundos, até ela desaparecer do meu campo de visão. Após isso, fui caminhando até a saída, para ir para o meu hotel buscar minha mala. Iria para os Estados Unidos aquele dia.
No voo, finalmente tirei um tempo para escrever uma carta ao meu irmão. Coloquei nessa carta todos os sentimentos que nunca tinha o dito, principalmente por me cobrar demais até com ele. Tyler tinha o direito de saber meus sentimentos e o quanto eu era grato por tê-lo comigo.
Estava fazendo isso, pois desde que tinha sofrido as ameaças de Bill eu nunca mais tinha colocado os pés naquele país e não sabia se teria a chance de voltar para a Europa – mesmo que torcesse muito para isso. Como eu chegaria faltando pouco tempo para a seletiva, precisaria primeiro ir correr e depois disso levaria as provas que recolhi para a polícia, mas se Bill estivesse me monitorando, ele certamente tentaria me impedir. No final das contas, de qualquer forma era hora de acabar com tudo isso, antes de finalmente virar as páginas da minha existência.
Naquele dia, quando cheguei em casa, percebi que meus pais e meus irmãos ainda não estavam em casa, em especial porque meu voo chegou mais cedo do que o esperado. Tyler tinha me dito que passaria a tarde com Mike, na oficina, modificando sua moto e minha mãe tinha ido com Anista para um evento da empresa – justamente com Davis.
Ao que sabia, Tyler tinha começado a pilotar a H2R há poucos dias, após Steve me mandar um vídeo, mostrando que ele tinha entendido a pegada da moto com bastante facilidade – mesmo que fosse um pouco inconsequente. Como ele iria fazer seus 16 em poucas semanas, recebeu a liberação de nossa mãe para começar a pilotar, mesmo sem carteira – e desde então nunca mais parou.
Por estar sozinho em casa, fui até o sótão, coloquei a carta na caixa de provas e desci para o meu quarto em seguida. Tinha escolhido aquela caixa para reunir os documentos, pois se algo acontecesse comigo eu sabia que o Tyler seria o único que acharia.
Davis não se importava com isso e minha mãe não abria essa caixa, por ter muitas fotos do meu avô. Ela chorava todas as vezes – e evitava ao máximo esses momentos. Bem, se por acaso Bill conseguisse me dar um fim nada suspeito, em algum momento Tyler desenterraria minha investigação e poderia resolver o caso que eu tanto procrastinei para encerrar – pelo menos torcia por isso.
Antes de me arrumar para a seletiva, fui caminhando até o parque onde costumava ir. Ali, assisti mais uma vez a vida acontecer. Famílias com seus animaizinhos de estimação, casais fazendo piquenique, crianças andando de patins e patinete... por alguns segundos senti uma brisa tocar meu rosto e me lembrei de todas as vezes que Dorian surgiu ali, quando eu estava buscando ficar sozinho.
Me lembrei de todos os seus sorrisos, brincadeiras, abraços e beijos. Por mais que eu me sentisse injustiçado pela infelicidade que sentia, meu consciente tinha completa ciência de que todo aquele sentimento negativo nada mais era do que a consequência de não ter sido uma pessoa boa. Eu não me sentia bom.
Quando voltei para casa, pela primeira vez desde que tinha ganhado, tirei meu escapulário e minha pulseira de proteção. Isso, porque o macacão que eu ia usar era muito justo, era o macacão da Ducati do meu avô. Ele limitava muito o meu movimento, o que era bom para me manter estável, mas como consequência não conseguia usar nenhum tipo de adereço no corpo.
Antes de sair de casa, liguei para a minha mãe, para o meu irmão e para Mike, pedindo que eles me encontrassem no autódromo, independente se eu passasse ou não. Todos confirmaram suas presenças. Após isso, coloquei minhas botas, luvas e peguei o meu capacete favorito. Antes de sair do meu quarto, dei uma última olhada ao redor.
Passei a mão no capacete que era do meu avô e pedi que ele me abençoasse naquele momento. Sabia que aquele seria um dia marcante.
º NEXO º
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