ONZE

Mesmo com o erro de misturar trabalho com vida pessoal, meu final de ano foi o melhor que tive em toda a minha vida. Dorian e eu jantamos juntos, assistimos as apresentações de virada de ano como um verdadeiro casal, nos beijamos e divertimos sem dever absolutamente nada a ninguém. Andar de mãos dadas com ele me trouxe uma sensação de renovação, como se eu renascesse. 

Além disso, quando voltamos para o hotel aproveitamos ao máximo nossa hospedagem – e a libido dele estava tão alta que pela primeira vez tinha conseguido me cansar de verdade. Enquanto em casa, por conta da rotina, não tínhamos nos relacionado tanto, durante aquela viagem tínhamos, desde que pisamos em nosso hotel. 

Pra mim a melhor parte é que nenhuma das vezes se tratou de "rapidinhas". Eu gostava de explorar seu corpo com calma, conhecer cada pedacinho e me deliciar devagar. Por mais que fosse meio "bruto" na forma como o penetrava, observar seus arrepios e súplicas era uma parte crucial para que eu me sentisse conectado com ele. 

Após nossa primeira relação do ano, dormi exausto e acordei com seus carinhos, enquanto ele me assistia dormir. Dorian tocou todo o meu rosto com suas mãos macias como algodões, acompanhando a viagem que seus dedos faziam, com os olhos, claramente hipnotizado. Por certo tempo ele sequer percebeu que acordei.  

– Você merece ser muito feliz, sabia? – comento e ele me observa com aquele olhar marcante. 

– É cruel me dizer isso, quando sabe que eu queria ser feliz com você. – ele rebate e eu o puxo pra mim. – Mesmo sendo meio chucro às vezes, um ativo que acaba comigo... – começo a rir, enquanto o prendo em meus braços. – É sério, você me come com tanta força que quase não sobra nada! – gargalhamos. – Eu amo isso. Eu amo você. – torno meu abraço frouxo por alguns segundos, vendo ele conseguir levantar suas mãos, colocando uma em meu rosto. 

– Bem, eu... – tiro pigarro da garganta e ele sorri. 

– Não precisa dizer que me ama de volta. Eu sei que todas as vezes que fechar os olhos para descansar, vai ver meu olhar. Exatamente esse olhar que estou lançando pra você.

– Me pedindo pra te comer de novo? – ele sorri. – Porque você fala assim como se fosse vítima, mas me deu tanto trabalho ontem que eu desmaiei. – Dorian gargalha. 

– É, exatamente esse olhar. 

– Sim, está certo. E é desde já. Todas as vezes que durmo longe de você, quando fecho meus olhos, te vejo. Sei que vai ser assim por muito tempo. E sinceramente, Dorian, nunca o fardo da minha decisão tinha se tornado tão pesado. 

– Mas mesmo assim não abriria mão, não é? – ele pergunta e eu travo por alguns segundos.

– De forma alguma. – respondo e ele concorda com a cabeça. Vejo seus olhos marejarem, mas ele apenas me abraça de volta. 

– Nem eu. – é o que ele responde. 

Ali eu entendi que assim como eu, Dorian também tinha foco em alguma coisa. Não tinha coragem o suficiente para questioná-lo se ele tinha interesse no dinheiro que poderia ganhar trabalhando com seus pais, ou se o interesse dele estava em se sentir aceito, amado por eles... mas algo ele estava perseguindo e nós dois estávamos tomando uma decisão consciente de não ficarmos juntos. 

Compreendi melhor a conversa que tive com a minha mãe sobre ela ter escolhido ficar com Davis. No final das contas todos somos seres humanos buscando algo. Para alguns, esse "algo" pode parecer superficial, frágil ou egoísta. Acontece que a percepção dos outros sobre o que buscamos para nós não pode nos afetar, já que o destino final dos nossos objetivos pessoais não será compartilhado. 

Naquele dia ficamos deitados por algumas horas, até termos disposição para passearmos por NY. Quando aconteceu, nossa viagem se intensificou não somente naquele dia, como em todos os outros que ficamos por lá. Fizemos compras, fomos ao observatório do Empire State, caminhamos pelo central park, lanchamos por vários lugares diferentes, fomos em um musical da Broadway, cinema, museus, tiramos muitas fotos e conhecemos diversos restaurantes com culinárias de diversos pontos do mundo. 

Ao voltarmos para Milwaukee, voltei para minha rotina de treinamentos intensos. Catriel e Steve, com ajuda de Wallace, começaram a refinar ainda mais a minha forma de pilotagem. Todos os dias eu fazia incontáveis voltas e só era aceito o final do treino quando conseguisse um tempo melhor que o do dia anterior. 

Sempre que chegava em casa e via que Dorian tinha feito meu jantar, no entanto, era como um alívio. Meu coração se sentia afagado, cuidado. Embora meu consciente me avisasse que não era bom que eu me acostumasse com isso, foi inevitável. A sensação de conforto dentro do desconforto passou a ser tão intensa que até mesmo quando meus treinos duravam mais, pela ausência de diminuição de tempo, quando eu chegava em casa sentia que tinha cumprido minha missão. 

Mike nunca comentou com Dorian sobre saber do nosso relacionamento e também não fazia perguntas. Saíamos recorrentemente em trio, agora que ele enfim havia terminado sua moto e ele sempre demonstrava que não se importava com nosso status de relacionamento. Minha vida permaneceu tranquila, até março, quando o Moto3 começou. 

Eu já sabia que seria exaustivo, mas acredito que não tinha a verdadeira dimensão do quanto. Corri diversas vezes sem dormir, por conta dos voos que precisei fazer para vir realizar minhas provas da escola. Entre os intervalos das corridas, também aproveitava para ver algumas aulas, tentar acompanhar os conteúdos passados e enquanto meus colegas se preocupavam com as notas para entrarem para faculdades, eu só conseguia me preocupar com meu placar. 

Minha pontuação era alta, meu tempo era excelente e por conta disso meu nome começou a ser falado com mais frequência. As pessoas pareciam se preocupar com minha saúde mental por correr tanto e viajar ainda mais, mas no final elas eram como eu: apenas queriam ver moto correndo, acima de tudo.

Meus momentos de relaxamento vinham, quando eu podia passar mais tempo com Dorian. Isso, porque tinha cerca de 3 corridas por mês, então nos intervalos delas eu conseguia, pelo menos, dar uma fugida para, além de estudar e recuperar as faltas, poder ficar de chamego. No geral, mesmo assim, sabia que tinha o deixado chateado quando não pude vir para irmos até a festa de formatura. 

Mike me questionou se queria vir, para que fôssemos nós três juntos e eu confirmei. Acontece que no dia do baile eu tive uma corrida, o que tornou inviável minha vinda. Dorian passou alguns dias sem responder minhas mensagens, o que mexeu com minha cabeça e me fez terminar a corrida daquela semana em 4° lugar – e isso me frustrou ainda mais. 

Quando ele me respondeu, quem deu o gelo fui eu, muito pior. Me dediquei tanto em meus treinos que nem mesmo minha família respondi direito, focando integralmente meu tempo na pilotagem. Todo o esforço foi recompensado, quando no final do campeonato ganhei em primeiro lugar. 

Por outro lado, preciso confessar que nesse momento outro divisor de águas surgiu em minha vida. Entendi que não tinha mais o que fazer: eu ainda ansiava por mais. Isso, porque enquanto estava no pódio, comemorando o primeiro lugar, eu já observava Steve, avisando que teríamos que voltar aos trabalhos o quanto antes. 

Vale ressaltar que Dorian tinha ido ficar comigo quando as aulas acabaram. Conversamos sobre o que aconteceu em relação ao baile e nos resolvemos, mas mesmo assim não consegui dar tanta atenção a ele, por incrível que pareça. 

Isso, porque no meio do campeonato eu só pensava em vencer. Transamos poucas vezes, passeamos na mesma quantidade – poucas – e pela primeira vez eu não tinha conseguido cumprir uma promessa que fiz a ele – que essa seria uma viagem especial. Eu tinha prometido de todo meu coração e não tinha cumprido única e exclusivamente, porque não queria deixar de treinar. 

Assumir a liderança, em outubro, no circuito Japonês, abriu um sentimento em meu peito que dizia que eu queria vencer mais. Cada vez mais, meus tempos não supriam o que eu queria alcançar, mesmo que estivesse exigindo o máximo de todas as motos que pilotei – e esse sangue me fez vencer não apenas com a maior pontuação daquele ano, como dos últimos anos. No momento em que fui anunciado como piloto para o Moto2 eu já estava corrompido. Não comemorei, apenas me perguntei quando poderia começar a treinar. 

Esse certamente foi o período em que fiquei mais isolado em toda a minha vida. Antes de retornar para rever minha família, treinei todos os dias, de manhã até a noite, não bebi, não me relacionei com ninguém após Dorian. Dorian esse que tinha me deixado após sua vinda frustrada. Não tirava sua razão, porque sabia que tinha quebrado algo entre nós. 

No ano em que fui campeão da Moto3, o único momento que fui para casa após me formar na escola, foi para o Natal, três dias antes da comemoração. Não comemorei o aniversário dos meus irmãos ou da minha mãe com eles, não comemorei o aniversário de Mike ou Dorian... eu apenas corri. Quando cheguei de volta em Milwaukee, no entanto, tudo parecia ser o mesmo – embora não fosse. 

No final da temporada Wallace tinha voltado aos Estados Unidos, por ter tido uma piora de saúde. Enfim quando pude vir vê-lo, ele já estava hospitalizado. Fiz questão de trazer o troféu do campeonato para que ele visse de perto. 

– É lindo. – é a primeira coisa que ele diz, quando entro em seu quarto. – Você, é claro. – lágrimas transbordam de meus olhos e me aproximo dele, com o troféu em mãos. – Mais uma missão cumprida. Como se sente?  

– Grato. Não teria vencido sem o senhor, vovô. – respondo e ele sorri. 

– Você deu tudo de si. Cada volta, cada segundo... – me aproximo dele, colocando o troféu na mesa que tinha ao lado de sua cama. – Seu avô e eu estamos orgulhosos que não desista do seu sonho por nada. Sei que já pensou em desistir, Jensen. 

– Eu...

– E é compreensível. Todos os seus treinos de musculação são intensos, para que possa pilotar. Toda a sua educação foi moldada para que pudesse pilotar... não tem um amor, não pode se dar ao luxo de passar um dia sem treinar. – fecho meus olhos, sentindo a lágrima escorrer pelo meu rosto. – E para piorar, sei que o sentimento nunca melhora. Sei que quer mais e mais, essa fome que tem nunca passa... lidar com isso é difícil e tenho muito orgulho de ver que acima de tudo, se mantém seu amor pela pilotagem. 

– Tenho estado em conflito, porque pelo meu sonho sinto que estou deixando de ser a pessoa que eu deveria ser. – conto a ele, enquanto as lágrimas saem de meus olhos. 

– A pessoa que deveria ser não é mais importante que a pessoa que quer ser, Jensen. É nesse momento que suas prioridades precisam se alinhar. O importante é não deixar que esses sentimentos negativos que sufoquem... – ele fala, lentamente. 

– Eu amo alguém. – abaixo minha cabeça, perdendo totalmente o controle, chorando copiosamente. – Eu realmente amo alguém... mas eu amo pilotar muito mais. 

– Conviver com um sentimento tão vívido é dolorido, principalmente pela pressão que sentimos, eu sei. Mas olha pra mim... – ele pede e eu faço. – Você tem apenas 18 anos. Tem tempo para examinar os terrenos que quer percorrer e decidir qual caminho seguir. Já conversamos dezenas de vezes sobre a pilotagem não aceitar desaforo, certo? 

– Certo. 

– Com 19, você tem que estar no mínimo no MOTO2, para entrar para o MotoGP com 20 ou 21 e se aposentar com 35 ou no máximo 40. Mas nesse meio tempo, já vai estar com a carreira estável. Mas a questão maior é: o que vale mais pro Jensen atual? – fico em silêncio por alguns segundos, limpando minhas lágrimas. 

– Minha carreira. Trabalhei quase 19 anos todos os dias por ela. Antes de aprender a falar, eu já pilotava. – respondo. 

– Então siga no caminho que sabe que precisa percorrer. – é o que ele responde e eu confirmo com a cabeça, segurando e beijando sua mão. 

– Obrigado vô. – seguro sua mão com força, sentindo ele passar a outra mão pelo meu ombro. 

– Passe por cima do que tiver que passar para alcançar o lugar que quer ocupar, independente de qual seja. Me promete? 

– Prometo. – é o que respondo e ele sorri. 

– Ah, esse prêmio também é até que bonitinho. – caímos na gargalhada. 

Fiquei no hospital com Wallace por horas. Conversamos sobre como foram minhas últimas corridas, os acidentes que ocorreram e como me senti sobre isso. Ele também me contou como vinha sendo fazer o tratamento para o câncer que tinha descoberto recentemente. Eu estava arcando integralmente com seu tratamento no melhor hospital de Milwaukee, mas por termos descoberto muito tarde, não tinha o que ser feito. 

Naquele dia, quando cheguei em casa fui recebido por minha família e amigos com uma festa de comemoração e embora eu tenha cumprimentado a todos com sorrisos, abraços e beijos, não estava completamente feliz. Possuía dentro de mim um misto de vazio sentimental e de realizações. 

Mostrei o troféu para todos, tiramos fotos juntos e era inacreditável como o clima ali esta agitado. Nunca imaginei que tantas pessoas torceriam e comemorariam comigo uma vitória tão expressiva de um piloto tão jovem, mas ainda assim, no fundo de tudo isso, algo estava turvo no meu peito. 

– O que está pensando? – ouço Dorian perguntar. Desde agosto eu não tinha mais o visto. Me viro devagar, olhando em seus olhos. 

Seus cabelos estavam maiores, até os ombros. Dorian estava mais forte que a última vez que o vi e vestia blusa preta, com uma jaqueta de couro por cima, calça jeans escura e sapato de couro. Seus olhos me fitavam, enquanto ele se mantinha completamente imóvel na minha frente. 

– Que estava com saudade de você. – respondo e ele sorri, parecendo não acreditar naquilo. – Tá namorando alguém? – pergunto e ele coça a cabeça por alguns segundos. 

– Por quê? – dou de ombros. – Não me olha desse jeito. Estragou nosso último momento juntos, vim embora praticamente enxotado. Agora que está de volta vai me olhar como se algo dependesse de mim? Você foi o imbecil aqui. 

– Eu sei que estou errado. – respondo, avaliando as mudanças de Dorian mais uma vez. O cabelo maior combinava com seus cílios grandes e boca grossa. Ele estava ainda mais bonito.  

– O que estão fazendo aí? Vamos logo, cacete, você é campeão Moto3, precisa comemorar! – Cooper pergunta, vindo até mim com uma taça de champanhe. 

– Conversamos depois, tudo bem? – Dorian concorda com a cabeça, claramente contrariado e eu sigo com Cooper, mantendo meus olhos fixos em Dorian até perdê-lo de vista. 

Saber que ele estava ali de alguma forma acalmou meu coração. Consegui curtir melhor com meus convidados quando entendi que uma parte de Dorian tinha conseguido me perdoar. Isso, porque a partir do momento que eu passei a viver pelo meu sonho, perdi uma parte do lado humano dentro do meu próprio peito. 

Pela primeira vez desde que tinha ido em busca do meu sonho, bebi. Bebi, comemorei, me soltei com a minha família e meus amigos, como se realmente me sentisse um campeão. Meus braços doíam, sentia como se meu tórax estivesse comprimido, minhas coxas estavam com as laterais roxas, pela força com que me segurava na moto em cada corrida, mas tudo parecia ter valido a pena por aquele momento. Todas aquelas pessoas estavam comigo, incluindo meu irmão – mesmo que ele também estivesse chateado por eu não ter vindo passar o aniversário dele com ele. Todos estavam ali. 

A festa durou toda a noite. Nunca tinha visto minha mãe tão animada quanto naquele momento. A felicidade dela me contagiava de uma forma que enquanto estávamos juntos, dancei sem sentir todas as dores que momentos antes me acompanhavam. Por mais que eu soubesse que iria me cobrar muito mais no ano seguinte, naquele momento me permiti curtir. 

Ao me despedir de todos, cerca de 4h da manhã, subi as escadas para ir ao meu quarto com uma certa dificuldade – sozinho, já que minha mãe tinha subido com meus irmãos mais cedo. Chegando lá, Dorian estava sentado na minha cama, agora sem a jaqueta. Ele tinha feito algumas tatuagens nos braços, que agora estavam aparentes por ele estar de regata e como tinha prendido o cabelo, conseguia ver dois novos furos em sua orelha.  

– Pensei que já tivesse ido. – falo, relativamente bêbado, mas totalmente consciente. Caminho cambaleando um pouco até o banheiro e ele se levanta, me ajudando. – Estou bem. – falo, dando uma pausa para respirar, antes de chegar lá. – Metade do álcool saiu pelo suor, dancei demais com a minha mãe. – ele sorri. Seu sorriso continuava lindo. 

– Eu vi, vocês dançaram tanto que não entendi de onde veio toda essa energia. – brinca e eu sorrio, indo até meu frigobar. Ao abrir, vejo que minha mãe tinha colocado algumas águas ali. Ofereço para Dorian, que nega com a cabeça. 

Em sequência sentei no chão e comecei a tomar a água. Quando me senti preparado o suficiente, tirei minha blusa, tirando minha calça em seguida e ficando apenas de cueca sentado no chão. Dorian pareceu ficar surpreso e se aproximou, passando delicadamente seus dedos pelo meu corpo. 

– O que aconteceu? – questiona, observando todos os meus hematomas. 

– Resultado de forçar tanto meu corpo e as motos que uso. Agora que vou subir para a Moto2, tive que começar a pegar motos pesadas, como a minha Ducati que tenho aqui. Muito tempo na mesma posição, sustentando muito peso, forçando meus pulsos, coluna, coxas. Dobrei meu treino de musculação pra poder aguentar os ritmos de treinamento pra tentar melhorar minha situação. – explico, bebendo mais água em seguida. Ele parece ficar receoso de me tocar, o que achei curioso. – Pode pegar o quanto quiser, esse macho ainda é seu. – Dorian sorri.

– Os outros pilotos se dedicam tanto? – ele ignora minha cantada e eu dou de ombros. 

– Não quero ser como eles, Dorian. Quero ser o melhor de todos. – respondo, olhando nos olhos dele. – E não vou parar até acontecer. – bebo mais água. – E você, como está? Deu certo com a minha mãe? Ela me prometeu que ajudaria a sua. 

– Estou proibido de falar sobre. – ele sorri. Que sorriso lindo. – Ela quer conversar com você diretamente amanhã, apenas me disse que ficou feliz de ter ajudado. 

– Tudo bem. – bebo mais água, ficando de pé em seguida. – Aceita tomar banho comigo? – Dorian parece entrar em conflito consigo mesmo, então não insisto. 

Caminho até o banheiro e assim que entro, tiro minha cueca. Começo o meu banho e enquanto lavo meu cabelo, sinto mãos me ajudando. Ao me virar e abrir os olhos, após tirar o excesso de shampoo, vejo Dorian nu, de frente pra mim. Não resisto e começamos a nos beijar ali mesmo. 

Eu só entendo a quantidade de saudade que tinha em meu peito, no momento que nossas bocas se colam. Beijei e toquei o corpo de Dorian com tanta vontade que não precisou de muito para que ficasse completamente entregue novamente. Transamos ali mesmo, mas quando saímos do banho transamos mais uma vez – e ainda mais forte. De repente ele tinha acordado meu lado mais instintivo, como sempre fez. 

Naquela noite, antes de dormirmos ele ainda me fez massagem – e certamente esse foi o diferencial, porque dormi muito bem. Foi o sono que me renovou depois de um ano dormindo da pior forma que um ser humano é capaz de aguentar. De manhã, meus olhos pareciam pesados, como nunca estiveram antes – mesmo que no último ano eu tenha vivido dormindo apenas 4h por dia. Despertei com uma certa dificuldade...  

– Me perguntei, diariamente, se quando viesse, ainda sentiria o mesmo. – ele comenta, assim que acordo. Ele parecia já estar acordado há um tempo, me observando, enquanto eu dormia. 

– Termos nos desconectado lá não foi culpa sua, foi falta de vontade minha. Aquele lugar me transforma em uma pessoa que eu não sabia que era capaz de ser. Mesmo que treine pesado, emagreci bastante para melhorar minha agilidade. Lá meus treinos são sempre em musculação, motocross e pista. Todos os dias, o dia inteiro e nunca parece ser o suficiente. – explico, enquanto ele acaricia meu rosto. 

– Demorei entender isso, sabia? Enquanto eu estava aqui, alimentando uma saudade avassaladora de você, moto era tudo que via e pensava. Tinha medo de assistir uma corrida e vê-lo se acidentar. – seus olhos marejam, enquanto Dorian fala. – Quando cheguei lá e você não se importou, me perguntei muito se tinha arrumado outra pessoa que ocupasse meu lugar em seu coração.

– Nunca vou arrumar ninguém como você. – olho nos olhos dele. – Nunca. Mas mesmo que me doa assumir, eu entendi, te magoando, que realmente não posso dar o que espera. Enquanto eu estiver aqui nos Estados Unidos, talvez, mas você não merece um relacionamento pela metade. 

– É engraçado como dói mesmo quando tomamos uma decisão consciente, não é? – sorrio, concordando com a cabeça. – Vai ficar quanto tempo? 

– Uma semana. Uma ramificação da minha equipe quer que eu teste uma moto deles essa semana pro MotoE. Depois que fizer, vou embora. E aí começa tudo de novo, um pouco pior, porque ao invés de 250 cilindradas, vou lidar o tempo inteiro com motos de 765. Ainda tenho que ver como vão ser os treinos no motocross, mas escolhi não me preocupar com isso no momento. – ele sorri, se aproximando. 

– O que vamos fazer? Terminar definitivamente agora, ou daqui uma semana? 

– Te dou o direito de escolher. – é o que respondo. – Como pedido de desculpas pela última vez. – Dorian se aproxima do meu ouvido. 

– Então é melhor que me coma direitinho por esses dias para me compensar. – ele sussurra e eu me afasto, olhando em seus olhos. 

– Espero de verdade que não esteja se colocando nessa posição e se machucando, para fazer o que eu quero. – ele nega com a cabeça. 

– É uma tentativa desesperada de não perder o homem que mais amo na vida antes do necessário. – ele passa a mão no meu rosto, encostando o dedão em minha boca. – Não posso mudar o futuro, mas se eu não viver todos os momentos que posso com você, vou me arrepender amargamente. – aceno positivamente com a cabeça. Eu o entendia. Sentia o mesmo.

– Não esperava criar um badboy quando tudo aquilo aconteceu. – comento e ele sorri. – Fez até tatuagens olha só... despedacei seu coração. 

– É, meus pais não ficaram muito alegres com a minha mudança de visual, mas depois que as redes sociais da joalheria começaram a ganhar atenção por causa da minha aparência eles aceitaram. – comenta e eu o observo. – Sabia que muitas meninas sonham com o seu homem? 

– Assanhadas. – rimos. – Tá lindo. 

– Você também. Mesmo todo roxo, continua um sonho de consumo. – sorrio, dando um beijo em sua testa e Dorian sorri, me abraçando. 

Naquela manhã eu desci para fazer nosso café e depois disso levei para Dorian na cama – já que tinha comido na cozinha, enquanto preparava. Minha mãe lia na sala, concentrada, por esse motivo eu deixei para falar com ela enquanto ele tomava seu café. Disse a Dorian que seria uma ótima oportunidade pra conversar a sós com ela e ele concordou, por esse motivo voltei até a sala em poucos minutos. 

– O que lê? – me sento no mesmo sofá que ela. 

– "É assim que acaba". – ela responde, me mostrando a capa por alguns segundos. – Mas não é isso que quer saber. – coloca seus pés sobre minhas pernas e eu começo a fazer massagem nela.

– É, quero saber se cumpriu sua palavra. Sabe, talvez eu pise na casa de Dorian e queria poder olhar nos olhos da mãe dele sem ter vergonha. – digo e ela sorri.

– Fui modelo deles sim. – ela pega uma revista na mesinha ao lado do sofá, esticando a mão com o item na ponta dos dedos. Começo a folheá-la, encantado, pois as fotos ficaram deslumbrantes. – Mas não acho que seja saudável para nossa família ser tão próxima da família dele. 

– Por que? – pergunto, ainda encantado pelas fotos, analisando uma por uma.

– Princípios diferentes. – olho nos olhos de minha mãe. – Nunca permiti, Jensen, que você tivesse comportamentos preconceituosos com as pessoas. Seja pela cor, etnia, condição financeira ou orientação sexual de outra pessoa. Concorda? – aceno com a cabeça. – Por esse motivo, não acho que seja saudável para seus irmãos ficarem próximos e crescerem, construindo seus princípios assistindo uma família que é relativamente diferente da nossa. Seus avós tinham muitos defeitos, mas falta de respeito definitivamente não era um deles. 

– Onde quer chegar? 

– No ensaio de fotos, a mãe de Dorian me disse que não tinha gostado de ter ficado na mesma mesa que a família de Mike pela "desvalorização". – fecho a revista, completamente em choque com o que tinha acabado de ouvir. – Ela me disse que convivia com a família dele, porque era claramente importante para a nossa, mas não queria que confundíssemos as coisas. 

– O que? 

– Por favor, Dorian está aqui ainda? – concordo com a cabeça. – Ele não faz ideia disso. Não comente com ele... mas ela me disse que estava focada em uma coleção "escandinava", para atrair o "público ideal". Eu não sei se ela se refere a condição financeira ou a cor dessas pessoas, mas em ambos os casos isso me deixa relativamente preocupada. O que eu sei é que todas as lojas antes dessas ficam em estados supremacistas brancos, então... eles têm lojas de joia no Texas, Carolina do Norte, Alabama e Mississipi. 

– Eles têm um filho mais novo, o Erick. Provavelmente ele e o Tyler irão conviver bastante pela idade semelhante, então temos que analisar esse caso. 

– Dentro da minha casa eles não vão conviver. E nem vou autorizar que o Tyler seja tão próximo dele, antes de ressaltar nossos valores. Tyler tem que ter em mente o que acreditamos de forma bem demarcada, pra não cair nesse tipo de armadilha. É por esse motivo que não vou pedir que se afaste de Dorian... ele é um menino de ouro e você já tem consciência. Estou te falando essas coisas, meu filho, para te alertar que talvez esse zelo contigo tenham muitos motivos. 

– Então pelo visto esse trabalho com eles foi vantajoso. Retirar a máscara de alguém que convivemos e olhar essa pessoa nos olhos tem um valor imenso. – comento, relativamente decepcionado. 

– É, tem sim. Ela sempre ressaltou o quanto você é alto, bonito, bem educado. Disse que é um verdadeiro sonho americano em pessoa. E pra finalizar, disse que se tivesse uma filha, seria o sonho dela casar a filha com você. 

– E você? 

– Disse "mas e se o Dorian for gay? Eles poderiam se casar em algum momento também". E então ela respondeu com um "se o Dorian fosse gay, seu pai lhe daria uma surra tão bem dada que ele nunca mais pensaria em desonrar nossa família dessa forma". – engulo essas palavras a seco. – Mas disse que fica feliz que sejam amigos, porque você coloca o Dorian na "linha", ao contrário de Mike. Ela comentou até que depois que vocês se afastaram ele desandou, fazendo tatuagens e coisas "feias".

– Mãe, você convive muito com ela. Ela nunca tinha dito essas coisas antes? 

– Eu convivo com ela quando estou com Anista e vamos fazer compras ou no salão. Nossos assuntos sempre tinham sido superficiais. Dessa vez, acredito que ela se sentiu confortável pra expressar seus verdadeiros sentimentos. Ela até disse que Deus nos deus lindos filhos com pele clara. – desvio o olhar de minha mãe por alguns segundos. – Apenas tome cuidado. – ela se aproxima, acariciando meu rosto.

Não tinha o que dizer a ela, mas estava completamente devastado. Pelo o que Dorian já tinha expressado sobre seus pais, tinha medo que algo acontecesse com ele, mas não imaginei que seria tão sério. Na minha cabeça ele pensava coisas mais sérias de seus pais, justamente por diferenças geracionais – mas pelo visto a questão era mais séria do que parecia. 

Aquela semana em Milwaukee começou, no entanto, comigo levando meus irmãos para ir ao shopping. Brincamos em pula pula, corremos, andamos de patins – e eu fui o que mais caí –, fomos tomar sorvete, ao cinema e enfim dei os presentes de aniversário atrasados para eles. 

O de Tyler foi um novo LEGO, que ele detestou, mas eu sabia que em algum momento ele montaria e o de Anista foi um vestido que ela tinha me dito em videochamada que queria muito. Percebi, me reaproximando deles, que tinha criado uma barreira com Anista. Isso, porque eu tinha um conflito muito grande dentro de mim. 

Enquanto queria protegê-la a todo custo, não tinha mais tempo para estar ao seu lado sempre. Ao contrário do que fiz com Tyler, Anista não tinha uma ligação muito forte comigo – e eu sabia que era culpado nisso. Era como se pra ela eu fosse um parente aleatório que surgia às vezes e não seu irmão. Me perguntava constantemente "se eu morrer amanhã, ela vai lembrar de mim como Tyler?". Bem, não sei. Mas de qualquer forma seria apenas consequência do que eu ofereci a ela – que era muito pouco. 

De qualquer forma, treinar meu irmão para a função de protegê-la foi mais fácil – ainda mais depois do que aconteceu com Brie. Inclusive, aproveitei meu período nos Estados Unidos para visitar os pais dela, já que desde minha ida para a Europa nunca mais tinha os visto pessoalmente – mesmo que mantivéssemos conversas constantes por ligação e videochamada. 

Tivemos um café da tarde, onde conversamos sobre como vinha sendo pra mim pilotar profissionalmente. Claro que precisei maquiar as coisas um pouco para não preocupá-los, mas não foi tão difícil, já que as pessoas tinham expectativas extremamente positivas sobre minha vida no momento – então meu único trabalho era concordar e enfeitar um pouco mais. 

O mesmo aconteceu com Jim. Tivemos um jantar com a família dele no meio da semana, onde ele falou sobre as vezes que conseguiu ir me ver competir – na metade do campeonato, nos circuitos da Tailândia e Austrália ele tinha ido com Simon me assistir pessoalmente – e a partir daí um incômodo tomou conta da sala. Nessa noite flagrei Davis e ele discutindo e pela primeira vez demonstrei estar do lado de Jim diante dos dois. 

Isso, porque quanto mais refletia sobre minha infância, mais percebia que ele tinha sido crucial para minha segurança e de minha mãe. Nessa altura do campeonato Davis não era meu maior fã mais – mesmo que ele fizesse questão de maquiar isso ao máximo para qualquer outra pessoa –, então não era difícil pra mim apenas me afastar ainda mais dele. Para os outros, ele falava como se eu fosse seu mundo, mas nós dois sabíamos a verdadeira realidade. 

No dia de conhecer a moto teste para o novo piloto titular da categoria MotoE da minha equipe – já que eu ia subir para Moto2 e eles queriam ingressar no campeonato de motos elétricas – cheguei relativamente cedo no autódromo em que costumava treinar. Steve já estava presente, me aguardando quando cheguei. 

– O que acha? – Steve pergunta, apreensivo. Eu seria o primeiro a testar aquela moto. 

– Bonita, aguenta? – pergunto. 

– Bem, isso você vai me dizer. Mas vai com calma, testa aos poucos, porque eles deram uma volta, mas não testaram na potência máxima da moto. Não temos dimensão de como está o balanceamento nem nada do tipo. Ninguém teve coragem. – sorrio, concordando com a cabeça. 

Coloco meus equipamentos de segurança e me preparo para pilotar. Não exigi o máximo da moto de primeira. 

Pilotei com calma e atenção, percebendo que ela shimava. Isso queria dizer, com quase certeza, que ainda estava desbalanceada. O desbalanceamento, somada a falta de manutenção no autódromo – que estava com asfalto solto –, no entanto, fez com que eu fosse praticamente arremessado para a esquerda. 

Consegui controlar a moto, claro, shimadas não me derrubavam – mas como consequência de compensar tanto no braço, senti uma dor tão forte, que precisei parar. Em poucos segundos toda minha equipe veio até mim prestar apoio e quanto mais meu sangue esfriava, mais sentia como se meu braço estivesse fora do lugar. 

– Precisamos levar ele ao hospital. – Steve fala com alguns colegas. 

– Eu falei que não era pra colocar o nosso único campeão para testar uma moto que nem estava pronta ainda! – ouço Catriel gritar, enquanto permaneço me remoendo de dor. 

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