PARTE 3 / CAPÍTULO 6: DEDOS-DE-AÇO
Mihai não estava preparado para a chegada de Dedos-de-Aço, e pôde jurar que escutou o ar deixando os pulmões de todos aqueles que também nunca o haviam visto antes. O homem era pelo menos duas vezes maior do que o homem mais alto que já tinha visto, não apenas pela sua carne, das canelas à cabeça, medir uns bons dois metros de altura, mas pelo fato de ele caminhar sobre o que seriam duas estacas metálicas quase tão altas quanto o próprio abade.
Seus pés e a mão esquerda haviam sido amputados e substituídos por longas hastes metálicas que se dobravam para trás perto da ponta e a sua pele, escamosa e repleta de cicatrizes, envolvia o aço com tanta naturalidade que este parecia ter brotado naturalmente de suas juntas, como algum tipo de aberração genética.
Apesar do frio, o monstrengo estava praticamente nu, com a exceção de um saiote de pano que lhe cobria a vergonha e um elmo maciço em formato de balde que lhe ocultava o rosto. Apenas o seu olho direito era visível através de uma perfuração de tamanho generoso, esbugalhando-se em direção ao céu. Anormalmente magro, as suas costelas e osso da bacia se faziam especialmente protuberantes quando ele se contorcia sobre as pernas laminadas, dobrando o torso de formas impossíveis e desafiando a anatomia humana.
Dedos-de-Aço levava no pescoço uma espécie de coleira por onde três mercenários o puxavam a seu lugar com correntes, enquanto um quarto homem seguia atrás estalando um chicote. Ele guinchava e rugia, tão fora de si quanto um animal qualquer.
"Ugh. Matar essa coisa será um favor."
Mihai olhou para Carmine e não a encontrou impressionada. A mercenária realizava um aquecimento antes da luta, dando pequenos saltos no ar e realizando movimentos curtos com a espada. Parecia concentrada o suficiente, o abade apenas rezou para que tudo isso acabasse logo.
– A seus lugares – ouviu o jovem intérprete de Ibrahim gritar, provocando uma estrondosa comemoração da plateia.
Carmine se aproximou de seu oponente, sem parecer incomodada com seu aspecto aterrorizante, arrastando a ponta da espada no solo arenoso. Os homens que traziam Dedos-de-Aço o libertaram de sua coleira e voltaram à multidão, deixando-a sozinha com o monstro em uma arena improvisada de pouco mais de vinte metros de diâmetro. Não haveria muito espaço para manobrar, o que dava vantagem ao homem de Ibrahim, com seu alcance sobrenaturalmente longo.
Não houve um sino, gongo ou qualquer sinal que desse início à luta. O monstro apenas focou seu único olho nela, dobrou-se no chão, utilizando a haste em sua mão esquerda como uma terceira perna, e avançou, guinchando e arfando um vapor pálido por baixo de seu elmo. Sobre quatro membros, Dedos-de-Aço se movia praticamente tão rápido quanto se estivesse sobre dois, ágil e imprevisível como uma barata. Ele torceu o tórax e saltou no ar, cortando o vento em um arco ascendente e errando Carmine por um mero milímetro.
A mercenária saltou para o lado e tentou uma estocada baixa, mirando o ombro de seu oponente, mas ele logo deu sequência ao golpe de antes, fincando a sua lâmina superior no solo e girando as suas pernas cortantes em torno de si, como uma grande hélice humana. Esse movimento pareceu perturbar Carmine, que preferiu se afastar até que ele percebesse que já não estava mais ao seu alcance. Dedos-de-Aço girou duas vezes antes de travar o olho nela e se erguer novamente sobre os dois pés, elevando-se a quase quatro metros do chão.
"Ela está tendo problemas." – pensou Mihai, com a unha do polegar entre os dentes. – "Está acostumada a lutar contra humanos. Este homem não se move como um."
Dessa vez, ele se aproximou devagar, de forma intimidadora, raspando sua lâmina superior na perna esquerda e fazendo voar fagulhas. A plateia ecoava o seu nome de nascença, coordenando palmas e pisadas fortes o bastante para fazer toda a muralha de Forte Dragoi tremer nas bases.
– SALAMAEL! SALAMAEL! SALAMAEL!
Ao se aproximar aos poucos, ele pareceu ter emboscado Carmine entre si próprio e a multidão que assistia de perto. Quando viu que ela não teria como escapar para os lados, ele cortou horizontalmente, de forma bruta e cega, quase atingindo um de seus próprios companheiros. O mercenário deu um pulo para trás, gritando um palavrão, enquanto Carmine se esquivou por baixo e escapou sob as pernas altas demais de seu oponente, aplicando-lhe um corte preciso na altura da virilha.
Sangue verteu em grande quantidade e passou a pingar sob o saiote de Dedos-de-Aço, espalhando-se pelas suas coxas ossudas e se derramando na terra. Ao ver que seu campeão havia sido ferido, a torcida se inflamou substancialmente, passando a gritar com ainda mais força.
– SALAMAEL! SALAMAEL! SALAMAEL! SALAMAEL!
O monstro guinchou, e não parou mais. Ele passou a rastejar sobre seus três membros metálicos ao redor de Carmine, sem tirar o olho dela, então saltou no ar e a atacou com um golpe perfurante, de cima para baixo; ela desviou para a direita, e lá ele mirou e a atacou de novo, obrigando-a a pular sobre seu braço-espada em um giro aéreo; ele respondeu voltando a atacar com as pernas, erguendo seu gigantesco corpo com seu braço de pivô enquanto espiralava como um tornado, sob os olhares embasbacados de todos.
Mihai nunca tinha visto Carmine lutar. Na verdade, nunca havia visto ninguém lutar, com a exceção de sua própria experiência com Johanel nos estábulos do templo, e, tinha de admitir, era algo belo de se ver. A violência e a barbaridade inata do ato eram relativizados pela fluidez com que a mercenária desviava do que seriam golpes fatais, com a calma e foco de quem sabe claramente o que está fazendo. A magnificência de seus saltos e voltas, os passos calculados no solo irregular, o movimento de seus cabelos, era tal qual uma dança idílica, etérea e bruxuleante, acima de todo o mundano e de toda a ruína.
Dedos-de-Aço mirou a garganta de Carmine, com esperança de terminar a luta de maneira rápida, mas não se protegeu o suficiente. A mercenária esquivou da estocada e contra-atacou com um golpe perpendicular, atingindo o seu oponente na parte de trás do ombro, a lâmina atravessou as costas do campeão de Ibrahim e saiu pelo pescoço. Um ferimento do qual ninguém seria capaz de se recuperar.
Mihai nunca achou que fosse sentir tanto prazer ao ver a vida deixando alguém, mas ali estava ele, comemorando aos gritos enquanto o adversário de Carmine tentava recuperar o equilíbrio, com sangue vazando em jorros do corte mortal que ela acabara de lhe infligir. A torcida se calou como uma pedra quando ele veio ao chão, enterrando a face no solo sob o peso de seu próprio elmo.
Carmine se aproximou para dar o golpe final, ergueu a sua espada e, para a surpresa de todos, Dedos-de-Aço girou o próprio tórax em cento e oitenta graus, uivando como uma besta.
– NÃO!!
Ela não chegou a ver o que a atingiu, ninguém teria sido capaz de ver.
Deitado no solo, sobre uma poça de seu sangue, Dedos-de-Aço a tinha logo acima de si e ao alcance de suas lâminas. Ele utilizou a sua excepcional flexibilidade para virar o torso para cima a partir do chão, dobrando a barriga como se torcesse um pedaço de pano molhado, e tudo o que precisou fazer foi curvar e fixar o cotovelo, empalando Carmine logo abaixo de seu estômago. O metal brotou de suas costas, pintado em vermelho, e a arena mais uma vez renasceu em alvoroço, com os urros de guerra dos mercenários de Ibrahim e seus cântigos de vitória. Orson levou as mãos à cabeça e a expressão de Gilliam não mostrava nada exceto a mais pura incredulidade.
Quando o monstro sentiu que havia capturado sua presa, girou todo o corpo com velocidade, como fazem os crocodilos, jogando-a para o lado com a força do torque. Carmine se ergueu como pôde, e o seu abdome se abriu.
Aquela mulher era tudo para Mihai naquele momento de sua vida, era forte, infalível, perfeita, e agora seus intestinos escapavam de seu corpo como se estivesse sendo limpa para servir de troféu. Aquela visão fez todo o sangue deixar a face do abade, suas pernas fraquejarem e tudo ficou escuro.
"Não, não, não deveria ser assim."
Ela tentou erguer a espada, mas foi ao chão novamente. Arfou por alguns instantes e vomitou na terra fria, a bile tão vermelha quanto seus cabelos. Dedos-de-Aço estendeu o braço à frente e usou a sua haste como um gancho, puxando o corpo moribundo para mais perto, sem nunca destravar o olho dela. Mais uma vez, e mais uma, até que era ele quem a tinha pronta para o abate.
– NÃO! NÃO!!
Mihai tentou correr em direção ao centro da liça, mas foi puxado para trás por um dos soldados de Ibrahim, um homem bigodudo em um casaco de pele.
– Não pode interferir.
– Solte-me! – gritou, ouvindo apenas o próprio coração. – Solte-me, bruto incongruente!
Em meio ao pânico, não vira em que momento Ralf havia invadido a arena, mas quando deu por si, o antigo capitão da Confraria corria em direção à luta, trazendo consigo um enorme machado de duas lâminas. Sua respiração condensava no ar gélido e ele rugia tal qual um urso ensandecido.
– Você não vai matar o meu alvo, seu cretino filho de duas putas!
Ele gritou e golpeou o companheiro no lado. A lâmina do machado partiu Dedos-de-Aço ao meio como uma viga de madeira podre, fazendo chover sangue em uma boa parte da plateia. O pedaço do monstro que ainda tinha um cérebro chegou a guinchar e se retorcer por mais alguns segundos, aí repousou e não se moveu mais.
Exclamações indignadas de protesto inundaram o átrio, vindas de todas as direções. Os companheiros de Ralf gritavam palavrões e o punham sob a mira de seus projéteis: pedaços de sucata, canecas e garrafas vazias de álcool passaram zunindo pela sua nuca enquanto o mercenário levantava o machado, seu rosto tomado pelas sombras e o júbilo da vitória.
– Chegou a hora, vadia. Eles me matarão por isso, mas não antes que eu te mande pro inferno.
As duas centenas de homens que compunham a Companhia de Ibrahim corriam em direção ao pátio, com unhas à frente, gritando em fúria. Carmine tossiu sangue, fechou as pálpebras e deixou a trepidação da arena lhe invadir os sentidos.
Quando viu Ralf contrair os músculos e a forma do pesado machado que ele segurava iniciar o seu arco cadente em direção ao pescoço de sua aluna, Mihai apertou os olhos o mais fortemente que pôde.
– NÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!!
Ouviu-se um estampido poderoso. Ralf foi jogado para trás, e tudo ficou estranho.
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