PARTE 2 / CAPÍTULO 25.2: QUANDO OS OLHOS SE FECHAM


Mihai não dormira naquela noite. Seu sono havia sido interrompido por uma inquietude de espírito que não lhe era comum, então resolveu sair ao alpendre do corredor e observar o céu estrelado. A noite fria pesava, pastosa e indômita, engolfando-o em um ar gelado que feria suas narinas. O sacerdote mirou a lua crescente e se pôs a lembrar da infeliz imagem de Nicoleta definhando em seu leito, e dos mercenários que morriam de forma lenta e cruel sob o seu teto. Tornara-se abade não fazia nem uma semana e já tinha tanto para se preocupar, imaginou se Grigore também tivera de lidar com situações assim.

Os silêncios da alta madrugada vagavam por entre as ruelas de terra batida de Anghila. Aquele era um dos taciturnos hiatos que marcavam o fim da noite, quando os animais noturnos começavam a retornar a seus abrigos e os pássaros ainda não haviam iniciado a sua orquestra matinal. Se Mihai se concentrasse, era capaz de ouvir até mesmo o coração pulsante do vilarejo adormecido, pontuado por seus sonhos de simpletude.

Por isso, sentiu-se especialmente surpreendido ao ouvir alguém bater na porta ao lado. Voltou-se ao corredor e deu de cara com Rafaella à frente de seu quarto, esperando encontrá-lo adormecido.

– Reverendíssimo, mil perdões – falou ela, beijando-lhe as mãos. – Mas tua presença se faz necessária lá fora, temos um problema.

Mihai suspirou com enfado e a pediu alguns minutos para se vestir e lavar o rosto. Ao sair do lavatório, Rafaella o aguardava com a tradicional túnica e quepe negros, tão familiares em Grigore, mas que agora, de alguma forma, adquiria um significado completamente novo quando era ele quem os vestia. A vestimenta era, antes de tudo, um símbolo, e cabia a Mihai limpar a imagem que Grigore construíra por tanto tempo.

Repleto de ansiedade e um certo desconforto, Mihai vestiu a túnica e encimou a cabeça com um chapéu que não lhe servia direito, transfigurando-se em abade pela primeira vez. Dirigiu-se, então, à nave da abadia, onde quatro jovens e um idoso o aguardavam, claramente assustados e exaustos. O idoso se deitava sobre um estrado de palha, apenas levemente lúcido, recebendo cuidados de Demetério. Quando se aproximou, três dos jovens se aproximaram para beijar-lhe as mãos, o quarto, uma garota, permaneceu ao lado do velho combalido, sem tirar os olhos dele sequer por um segundo.

– Reverendíssimo –começou um dos jovens, um adolescente pálido e magro, com o rosto marcado por sujeira e arranhões. – Nós somos de Nentidava e viemos em busca de refúgio, nossa vila foi invadida por soldados armados. Nossos pais, meus amigos... todos foram...

O jovem engasgou e suas palavras se transformaram em soluços.

– Nentidava? Na fronteira? Caminhastes até aqui? – perguntou Mihai, confuso, ao que Rafaella se curvou para sussurrar-lhe no ouvido:

– Eles chegaram em uma carroça, há meia hora. O cavalo e o veículo que os conduzia estavam crivados de flechas. Uma delas acertou o fazendeiro, ele ainda tinha a haste presa à cintura antes de Demetério chegar.

"Soldados armados? Terá sido Grigore?"

Mihai aproximou-se do idoso que se estendia no piso e notou um ferimento em seu lado, os curativos que o enfermeiro-mor havia providenciado estavam úmidos e manchados de vermelho. O homem possuía uma longa barba branca e tinha o corpo ensopado de suor, o seu olhar parecia desfocado e confuso, e a respiração, ofegante.

– O aço... o fogo... a morte... ele se aproxima... – gemeu ele, com uma voz rouca.

Demetério tocou a região em torno do curativo e o homem gritou e se contorceu. A garota que o acompanhava, com lágrimas nos olhos, tentava mantê-lo firme ao estrado.

– Pelo amor de Deus, milorde, ele sofre! Deem-lhe algo para os nervos, por favor!

– Acalme-se, criança – disse Demetério, empapando um trapo em água – Estou fazendo o possível.

Enquanto o monge lavava o rosto do velho com o pano molhado, Mihai ajoelhou-se ao seu lado e tomou a mão do fazendeiro ferido.

– Diga-me teu nome.

O velho torceu o rosto enrugado e encarou–o com seus olhos delirantes.

– A-Atanásio, milorde. Filho de Iordã, n-neto de... – ele pareceu devanear por um segundo, após o que tornou a gemer e se contorcer. – Oh, Deus! A morte... o fogo...

– Ele tem febre – falou Demetério, baixo o suficiente para que a garota não o escutasse. – A ferida parece ter infeccionado, a flecha pode ter sido envenenada.

– Ou simplesmente banhada em fezes – declarou Mihai, com um suspiro. – Seria mais barato e tão eficaz quanto.

– Quem seria capaz desse ato diabólico?

– Alguém que não quer prisioneiros. Ainda tens a haste da seta?

Demetério anuiu e lhe entregou uma vareta suja de sangue, com uma ponta reta de aço e uma rêmige construída com penas de ganso pintadas de uma cor vermelho-azulada. Era uma flecha militar, bastante comum entre as grandes famílias da Valáquia oriental. As tropas de Dimitrier utilizavam projéteis semelhantes, assim como as de Stefan e mesmo as dos condados vizinhos. A menos que mercenários ou invasores estrangeiros tenham invadido um arsenal próximo, a lista de suspeitos era incrivelmente reduzida.

"Essas cores."

– Alguém seria capaz de me descrever os homens que atacaram seu vilarejo? Qualquer detalhe seria de grande valia.

O garoto que respondeu primeiro ainda não havia falado. Era talvez o mais jovem do grupo, com as costas deformadas pela escoliose e um nariz ranhento.

– Estavam a cavalo. Tinham lanças e espadas.

– E armaduras enormes – completou o seu companheiro, o que tinha o rosto marcado. – Alguns de nós tentaram resistir, mas só tínhamos foices e forcados para nos defendermos, não conseguimos sequer arranhar o aço. Deus, eles nos cortavam como gado...

– Eles queimaram as casas com pessoas dentro – quem falara havia sido a garota, com lágrimas no rosto e uma ponta de fúria em sua voz. – Meu pai e eu conseguimos fugir por uma das janelas, mas depois vieram os arqueiros.

Rafaella se aproximou, apontando para as penas com que a parte posterior da flecha estava decorada.

– Reverendíssimo, a matiz me lembra o brasão dos...

– Sim, estou ciente.

A tonalidade não correspondia exatamente ao púrpura intenso com o que costumavam pintar as túnicas dos grandes governantes bizantinos e seus brasões, mas obtida a partir de uma tintura de mirtilo, muito mais comum. O pigmento utilizado por Constatinopla vinha de um molusco raro, cujo comércio era controlado com mão de ferro pelo basileu e seus numerosos vassalos. O responsável pela confecção da flecha detinha renome o suficiente para se colorir como um imperador, mas seu bolso era raso demais para conferir as mesmas cores às setas de um soldado comum.

"Irgalmas. Por que ignoraste a minha carta?"

– O que isso pode significar? Poderá ser uma invasão? – perguntou Rafaella, visivelmente nervosa. – Reverendíssimo, precisamos agir o quanto antes, os soldados poderão estar se dirigindo ao vilarejo neste exato momento!

Mihai levou as mãos à cabeça. Se Lorde Alexandre tivesse desconsiderado seu anúncio de neutralidade, a declaração de guerra nunca teria passado pela abadia, mas ido direto aos Dragoi. Caso o exército de Razguvda estivesse sob marcha forçada, mal haveria tempo de evacuar o vilarejo, muito menos de esperar uma ordem de Altorrio. A decisão teria de ser feita ali: arriscar o alastramento da misteriosa doença que assolava a abadia em troca da segurança dos aldeões ou fortificar Anghila com o pouco tempo que restava e resistir até a chegada de reforços?

"Calmo, mantenha-se calmo. Tu não é mais apenas um sacerdote, tu representas esperança para essas pessoas."

– Qual a situação dos não-juramentados? Quem é o líder no momento?

– E-eu não sei... Carmine, talvez?

– Ela ainda dorme? Preciso ir até seus aposentos, se me fizer o favor de...

– Ela não está – Mihai reconheceu imediatamente a voz suave e cadenciada de Johanel, virou-se para encontrar o monge já em seus trajes habituais, pronto para a oração matutina. – Reuniu alguns de seus companheiros ontem e saiu com Nicoleta em direção ao bosque.

"Nicoleta?" – Mihai franziu o rosto. – "Mas foi a própria Carmine quem me disse para não deixá-la sair do quarto."

– Alguns homens ainda permanecem aqui. Devo mandá-los em busca dela? –perguntou Rafaella, recolhendo os curativos sujos de sangue que Demetério espalhara pelo chão.

Mihai parou por um momento e respirou fundo. Pela primeira vez na vida, fechou os olhos e deixou-se preencher pela clareza de mente. Sempre havia sido escravo da própria covardia, nunca fora o mais forte ou o mais inteligente, sempre prosperara à sombra de homens maiores que si. Naquele segundo, percebera que tinha a chance de ser necessário, de ser grande, de ter império.

– Não, eu irei.

Todos os olhos se voltaram a ele, como se tivesse acabado de proferir um palavrão.

– Reverendíssimo? – falou Johanel, quebrando o silêncio. – Atos de heroísmo caem bem em um cavaleiro galante, mas tu és importante demais para simplesmente partir neste tipo de cruzada sem sentido. Os não-juramentados podem...

– Precisamos de todos os homens disponíveis – respondeu, com convição. – Eles deverão ajudar com a evacuação e a defesa da vila caso os inimigos cheguem antes do previsto.

– Inimigos, tu dizes? Mas que tipo de inimigo?

– Estamos em guerra, caro irmão. Com Alexandre Irgalmas, principalmente, mas quem sabe o tipo de aliado que ele conseguiu recrutar. O antigo abade Grigore também pode estar envolvido e, como podes ver, não estamos muito bem equipados para este tipo de conflito. Precisamos da Confraria e de cada homem decidido a lutar pelo vilarejo e nosso templo, todos os outros deverão montar em carroças e se dirigir a Forte Dragoi.

Johanel mordeu os lábios, contrariado.

– E, reverendíssimo, o que se fará da tua segurança? Precisamos de ti e da tua liderança.

– Tu farás um trabalho tão bom quanto eu, irmão – disse, tocando o monge em seus ombros largos. – E não me fales de tua pouca experiência, eu já sou abade há alguns dias e a minha de nada serviu até agora. Tudo o que sei é que não me tornarei o líder que desejo ser abandonando a minha congregação à morte.

Mihai virou-se para Rafaella, notou o seu olhar de admiração e sentiu o peito queimar de orgulho.

– Acorde o cavalariço, peça pelos cães de caça e um cavalo selado e arreado. Devo partir o quanto antes, quem sabe o quão perto eles...

O abade foi interrompido por ruídos no exterior. Gritos, tinidos de aço e galope de cavalos. Correu em direção à sacada do segundo andar e se viu frente a frente com o inferno. Onde há menos de uma hora via-se pouco mais do que a luz das estrelas sob o silêncio da madrugada, agora existia apenas a fumaça das chamas e o clamor desesperado de pessoas fugindo. Cavaleiros empunhando archotes alastravam as chamas o quanto podiam, e os rudimentares barracos de Anghila, em sua maioria construídos com barro e palha, ardiam como folhas secas.

– Não, não pode ser... Eles estavam em Nentidava, não poderiam ter chegado tão cedo!

– Senhor, não há tempo para pensar nisso – falou Johanel, o único jovem e em forma o suficiente para tê-lo seguido tão rápido escadas acima. – Devemos organizar uma reação. Decidi pedir a Demetério para soar o sino e agrupar os não-juramentados, Rafaella está preparando os cães.

– Excelente!

Era bom que Johanel aprendesse a manejar as rédeas sozinho, ele poderia vir a se tornar um abade melhor do que jamais seria capaz de ser. Mihai correu em direção ao estábulo e encontrou no caminho cerca de quarenta mercenários equipados e prontos para a batalha. Eles punham em prática uma peculiar técnica de engradecimento moral, batendo no peito e bradando palavras vigorosas em linhas paralelas, de forma que um estava sempre voltado a um de seus companheiros.

– AS TERRAS DO CONDE! – gritou uma linha, a plenos pulmões. – EU QUEIMAREI! – respondeu a outra, tão alto quanto. – O OURO DO CONDE! EU ROUBAREI! OS FILHOS DA PUTA! EU MATAREI!

– AAAAAGH!! – gritaram todos ao mesmo tempo.

O clamor dos homens podia ser bárbaro, mas Mihai não precisava de homens educados em tais circunstâncias, e tinha de admitir que aquele tipo de cena inspirava confiança. Ninguém em sã consciência arriscaria contrariar a Confraria naquele momento, fossem eles monges ou criadas que, acordando devido ao barulho, iam se dando conta de que estavam em meio a uma batalha. Várias pessoas se reuniam no átrio, a maioria ainda em seus trajes de dormir, algumas rezando e outras apoiando os mercenários.

– Mate-os, Barnabás! – gritou uma jovem criada de cabelos escuros e a face pintada de sardas. – Traga-me três orelhas e sou sua por uma noite!

– Mona, meu bem, você finalmente se rendeu aos meus encantos! – respondeu um mercenário de barba negra e volumosa, com um sorriso que ia de lado a outro da face. – Estão vendo, meus amigos? Eu falei que elas não resistem a um uniforme. Eu estava negociando um beijo há meses, foi só eu vestir esse aço e ! Infalível.

– Iulia! – gritou um mercenário alto e forte, de rosto largo atravessado por uma profunda cicatriz. – O que eu ganho com cinco orelhas!?

– Uma audição muito boa! – respondeu uma criada encorpada e risonha. O pelotão de mercenários caiu na gargalhada, batendo jocosamente no companheiro rejeitado.

"Eles parecem estar confiantes, isso significa que temos chance."

Mihai já ouvira muito sobre trupes de mercenários cuja lealdade terminava no exato instante em que percebiam que poderiam morrer. Se não havia carrancas e ninguém se aproximara para pedir um aumento de honorários, quer dizer que eles ainda não haviam considerado a possibilidade de perder a batalha. A Confraria de Dórdolo era uma companhia brava, pelo menos nisso Grigore havia acertado.

Agarrou uma lanterna a óleo antes de atravessar o átrio e um dos corredores laterais, adentrando a antessala que dava para o estábulo, foi quando ouviu Johanel firmando a tranca atrás de si. O abade seguiu a uma das portinholas laterais que dava ao espaço de confinamento dos cavalos e iniciou o processo de desatar as amarras de um deles, antes de se voltar ao monge que se movia em direção ao portão para o exterior.

– O que estás fazendo, Johanel? – perguntou, quando o jovem parecia confirmar que a tábua que trancava a porta se encontrava firme. – Preciso desta saída livre, levante a tranca e me ajude com este cavalo.

– O que pretende, Mihai? – respondeu ele, com o rosto sombrio. –"Precisamos de todos os homens disponíveis"? "Eu irei sozinho"? O que quer provar?

– O que... o que dizes? Precisamos do resto da Confraria! Sem eles, nossas chances...

– Sim, você precisa.

Foi quando Mihai notou que Johanel estava armado. O jovem ergueu à altura dos olhos um punhal de aço de fino acabamento e de aparência tão afiada quanto a de uma navalha. O abade largou as amarras e se afastou lentamente dos cavalos.

– Johanel? O que está acontecendo?

– Não deveria ter insistido nessa empreitada – em seus olhos azuis, Mihai viu pela primeira vez a raiva, insegurança. – Quando cheguei neste templo, você era pouco mais do que um bufão orgulhoso, mas aprendi a te respeitar. A forma como você resiste à corrupção, como procura fazer o que considera correto a despeito disso não lhe trazer vantagem alguma, é algo a ser admirado. Mas isso... não posso deixar que vá atrás dos membros restantes da Confraria.

– Se não fizermos nada e perdermos a batalha, tu também morrerás. Tu achas que os animais de Irgalmas vão deixar-te viver por ser um religioso? Se não buscares refúgio em Forte Dragoi, eles irão massacrar a todos nós.

– Você não vai querer buscar refúgio em Forte Dragoi. Creio que já tenha ouvido falar da Companhia de Ibrahim?

Mihai anuiu. Ibrahim al Samin era o capitão de uma das maiores companhias de mercenários em atividade na orla do Mar Negro, infame tanto entre cristãos quanto muçulmanos por não se afiliar a nenhuma causa que não fosse ouro. As lendas sobre o bando mencionam canibais e um horrendo monstro que Ibrahim apenas raramente traz à luz do dia.

– Bem, Dimitrier achava que os tinha sob o seu comando, deixou-os muito à vontade nos salões de seu castelo, mas ou menos como você fez com a Confraria aqui. A diferença é que lá ele não tinha um "demônio" para estabelecer o controle – Johanel riu. – Ah, o obstáculo que foi Carmine... Mihai, você não acreditaria.

O monge sentiu um calafrio. Tudo em Johanel parecia diferente agora, a postura, a expressão, a forma de falar. Podia muito bem estar falando com um irmão gêmeo, aquela não poderia ser a mesma pessoa com quem havia convivido no último ano.

– Johanel, estás a serviço de Grigore? Ordenaste o ataque ao vilarejo?

– Eu não tenho nada a ver com aquele velho, sirvo a alguém maior que ele. Você sabe quem eu sou, Mihai, nos conhecemos quando eu era um garoto.

Ele recolheu seus longos cachos negros dos ombros, prendeu-os com a mão atrás da cabeça, de forma a deixar o rosto plenamente visível, e sorriu. Um sorriso cândido, jovial e tranquilizador que, de alguma forma, pareceu muito familiar a Mihai. Havia olhado para Johanel quase todos os dias e por muito tempo, mas nunca realmente o mirara nos olhos. Ele havia crescido, seu rosto estava mais angular e seus músculos mais desenvolvidos, mas realmente já o teria visto antes. Havia sido em um banquete em honra de sua maioridade, quando acompanhara Grigore numa viagem aos condados do sul há seis ou sete anos.

– Andrei... – recordou, engolindo em seco. – Andrei Irgalmas.

– Meu pai não precisava que eu escondesse meu nome verdadeiro. Eu deveria apenas prover informações sobre você enquanto Grigore se ocupava em Forte Dragoi, mas foi tão mais fácil assim, eu simplesmente sabia que você não veria além do meu personagem – ele riu. – Sim, Mihai, eu ordenei o ataque. Anghila deveria ter sido invadida em conjunto com os soldados de Razguvda, na madrugada de amanhã, mas depois do fiasco que foi perdermos a Confraria... Bom, Ibrahim aguardava há tempos uma oportunidade de se mostrar útil.

– Com a líder ausente, a companhia dividida e os seus melhores guerreiros mortos ou doentes... Sim, eu entendo agora – Mihai pousou a lanterna no chão de pedra e levantou as mãos, em sinal de paz. – Johanel... Não, perdão, Andrei, abaixa a arma, por favor. Tu cometeste uma monstruosidade, mas eu sei que não és uma pessoa ruim. Alexandre é um governante impiedoso, não queiras te tornar como ele, és capaz de muito mais do que ele conseguiu alcançar.

– NÃO OUSE FALAR DO MEU PAI!! – gritou ele, chutando Mihai violentamente em seu peito. O golpe levou o abade de encontro à parede de pedra e sobre uma pilha de feno.

Com a cabeça zunindo e sem ar nos pulmões, Mihai apalpou às cegas ao seu redor, à procura de qualquer coisa que pudesse utilizar como arma. Andrei foi mais rápido, aproximando-se com um passo veloz e pisando com força em seu braço direito. Ouviu-se um estalo alto e Mihai teve certeza de que nunca soubera o que dor realmente significava até aquele momento. O abade gritou, horrorizado, ao olhar para o seu braço e vê-lo torcido de forma grotesca, com o osso protuberando acima de seu pulso.

– Acha que me conhece? – Andrei cuspiu no chão e abriu um novo sorriso, já não mais cândido e singelo, mas repleto de malícia. – Eu fingi a minha vida inteira, Mihai. Fingia quando as criadas de minha casa traziam aquela sopa nojenta de beterraba, eu a tomava sorrindo, como se fosse um manjar refinado. Eu fingia quando os meus tutores insistiam em sua ladainha sem fim, quando meus pais me apresentavam a uma dezena de meretrizes aparvalhadas e me diziam que uma delas poderia ser a minha esposa, quando minha mãe me perguntava se eu a amava... Ah, Mihai, eu fingi por tanto tempo... E fingi tão bem que a minha própria irmã, a pessoa que eu mais adoro nesse mundo, não seria capaz de me reconhecer neste momento. E se ela não me conhece, quem é você para dizer o contrário? Isto, este dia, fazer parte do legado de minha dinastia, esta tarefa permitiu que eu finalmente retirasse a máscara. Meu pai me deu uma razão de ser, e não permitirei que você denigra sua imagem.

Andrei empertigou-se e pôs as mãos sobre o ouvido. Por um breve momento de silêncio, o som da batalha de Anghila tornou-se plenamente audível: os gritos de guerra, o som das espadas sobre placas de aço e os cascos dos cavalos sobre o pavimento.

– Ah, isso... Ouve, Mihai? Esse é o som da Companhia de Ibrahim massacrando o que resta do deplorável bando de Carmine. Nossos homens são mais experientes, mais numerosos e estão melhores armados. E, como Dimitrier nos fez o favor de enviar o grosso de suas tropas para Altorrio ontem à tarde, Forte Dragoi já foi tomado de dentro pra fora a uma hora dessas. A cabeça de seu lorde estará em uma estaca até o fim da semana. Não há escapatória, não há para onde correr.

– V-vá pro inferno – amaldiçoou o abade, com a mente entorpecida pela dor.

– O que disse?

– Tu és apenas uma criança mimada – Mihai riu na cara dele. De sua testa escorria um suor frio, não sabia dizer de onde vinha tal coragem. – Finalmente vejo isso. Fazes de tudo pra tentar impressionar o papai, e não percebes que ele te manipula como um titereiro.

– Seu biltre filho de uma p...!!

Mihai juntou toda a força que lhe restava para forçar suas duas pernas contra a pélvis de Andrei, fazendo-o perder o equilíbrio. O jovem vacilou, tentando permanecer em pé, e tirou os olhos do abade por tempo o suficiente para que ele pudesse agarrar a lanterna a óleo que trouxera consigo.

"Deus, não me falhe agora!"

Teve apenas meio segundo para mirar o aparato que pesava quase três quilos de ferro maciço. Arremessá-lo contra um alvo, mesmo um tão grande quanto um homem, e ainda utilizando a mão esquerda, não provou ser uma tarefa fácil. Mihai forçou todo o seu corpo para erguer o objeto no ar e soltá-lo aos pés de Andrei. Embora o ponto de impacto não tenha sido o ideal, o resultado saiu como previsto: a lanterna se abriu ao bater contra o piso de pedra, espalhando o seu conteúdo contra as lajes e a suntuosa, mas relativamente inflamável, bata de oração que o monge trajava.

As chamas se espalharam com velocidade, engolfando Andrei Irgalmas em línguas flamejantes. O jovem tentou se desvencilhar das roupas, sem notar que os seus longos e lustrosos cachos negros também haviam acendido em um inferno ardente. O monge gritava e os cavalos relinchavam, aterrorizados, à medida que o fogo se espalhava pelo feno e as antigas vigas de madeira que sustentavam o teto do estábulo.

O abade levantou-se com dificuldade e cambaleou em meio a fumaça que se acumulava em direção ao portão duplo que dava para o exterior.

"A tábua não é tão pesada. Eu posso, eu consigo!"

– MIHAI!

Com um esgar de surpresa e dor, sentiu o seu corpo se dobrar sob o peso de Andrei, muito mais forte e pesado do que o abade, e cair ao chão, em cima do braço quebrado. Por um momento, a visão de Mihai escureceu e tudo pareceu girar.

– ACHA QUE PODE ESCAPAR? ME ENGANAR!? – gritou o monge, montado em seu peito. – SUA VIDA PERTENCE A MIM!

Ele havia conseguido retirar as vestes, embora seus cabelos ainda chamuscassem, e suas feições estavam torcidas em fúria. Seu peito musculoso inflava a cada respiração e os olhos azuis pareciam brilhar ante a fumaça escura, como um par de safiras enegrecidas pelas cinzas do incêndio. Ele levantou um dos punhos acima da orelha e o fez cair sobre a têmpora de Mihai, e então o fez de novo, e de novo, e ainda mais uma vez.

Mihai primeiro sentiu as dores do impacto, logo mais sentiu a sua mandíbula trincar, o gosto de sangue em sua boca, o calor das chamas que consumiam a abadia, e então já não sentia mais nada.



FIM DA PARTE 2

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