PARTE 2 / CAPÍTULO 13: PAGANDO O PREÇO
O insólito grupo fazia agora o caminho inverso em direção à vila. Seguiam pela trilha de terra que Ion estivera utilizando até há pouco tempo, os mercenários na frente, levando a mulher e o companheiro feridos, seguidos logo atrás por Mihai e o próprio Ion.
O homem gordo carregava o corpo inerte de seu amigo. Ion reparou em seu braço, estendido sobre seu peito, enfaixado em uma espécie de torniquete improvisado. O pano já se encontrava empapado de sangue e começava a gotejar, deixando para trás um rastro vermelho na trilha empoeirada. Talvez ele não sobrevivesse ao caminho de volta.
Ion quase se sentiu mal pelo homem, ele não teve qualquer chance de defesa.
"Mas a garota não teve um tratamento melhor."
Ela seguia com o pequeno grupo, as mãos amarradas e puxadas por Ralf, que liderava a comitiva com destino à abadia. Ao contrário do homem que ferira, ela caminhava ereta e resoluta. Seu ferimento, que à primeira vista parecia muito mais sério que aquele que infligira, parecia ter parado de sangrar há alguns minutos. Ela mesma havia retirado a flecha de seu pulso e ainda tentara usá-la como arma contra Ralf, antes de Gilliam e o gordo a derrubarem por trás, dominando-a. Ion nunca havia visto alguém tão mortal com tão poucos recursos. Era pouco mais do que uma menina, descalça e desarmada, e aguentara uma briga contra quatro mercenários experientes.
O silêncio pesava sobre os homens. Quando anteriormente pareciam dispostos a beber e fazer piadas, agora caminhavam como que em luto. Ralf vez ou outra se voltava a um de seus colegas e comentava algo em voz baixa, demorando-se sobre o corpo de seu companheiro desfalecido, dando tapinhas em seu rosto ou tentando obter algum tipo de reação. Ion notou que ele evitava a todo custo olhar para a mulher que conduzia, mesmo que ela estivesse a apenas alguns passos de si.
- Quem é ela? – perguntou a Mihai em tom baixo, tomando tomando cuidado para que nada do que dissesse vazasse aos ouvidos dos homens à sua frente.
O olhar do sacerdote se estreitou, mas sem que desviasse do caminho.
- É disso que queres tratar? De assuntos que não te dizem respeito?
- Achei que poderia me poupar dos segredos dessa vez, não é como se eu fosse completamente estúpido – Ion não conseguiu evitar uma risadinha. – Uma garota que eu nunca vi antes, uma divisão inteira do seu novo exército particular para capturá-la... Se eu tivesse de adivinhar, diria que o seu demônio fugiu da cela.
Mihai não teve resposta para isso.
- Quer dizer, quando ouvi falar do demônio do Rio Negro, imaginei algo grande, sabe? Cheio de dentes, talvez com algumas escam...!
- Já entendi – o monge o interrompeu com um tom irritado. - Tu és falastrão, mas não burro. Diga-me o que tens a dizer para que possamos terminar o que começamos.
- Tenho os produtos, preciso que peça a alguém para abrir o estábulo para as mulas.
- Amanhã. Pedirei ao cavalariço para que abra os estábulos por uma hora logo após o nascer do sol. Entra, deixa os animais, e saia antes que alguém o veja. Isso era tudo?
- Achei que talvez quisesse discutir o pagamento.
- Haverá tempo suficiente para isso, somente te assegura de ter o dinheiro antes do fisco – o monge pareceu ponderar sobre algo por um tempo. – Como foi a viagem?
- Boa, mas não muito melhor do que o esperado – respondeu, meio incrédulo com a súbita curiosidade de irmão Mihai em relação aos seus negócios. - Devemos algum dinheiro aos Calvamani, mas não tivemos nenhum problema com o cobrador, tudo seguiu conforme o planejado. Assim que quitarmos nossas dívidas, podemos começar a organizar nossa próxima viagem.
- Por favor, permita que a congregação cuide do senhor Lucien. Seria muito infeliz que sua estadia aqui seja afetada de alguma forma pelos imprevistos que se desdobraram nos últimos dias.
Ion piscou involutariamente.
- Perdão?
- Veja bem, não poderia conviver comigo mesmo se soubesse que tu tivesses sido prejudicado pelo nosso acordo. Gostaria de uma relação saudável entre nós, senhor Ion, uma relação de confiança e respeito mútuos. Não gostarias disso também?
Ion gargalhou alto. Talvez alto demais, Gilliam deu um relance para trás, procurando saber o que estava acontecendo. Ao notar isso, o viajante se aproximou de Mihai e passou a falar-lhe quase junto ao ouvido.
- Longe de mim desconfiar das palavras de um homem santo, irmão. Mas há muito me ensinaram que não existe nada de graça nesse mundo, ainda mais se tratando de um homem sem poder como eu.
O olhar do monge estava vidrado e sua respiração ruidosa.
"Ele está nervoso."
- Você não é Grigore, e não está acostumado com esse tipo de jogo. Não há nada de graça, mas talvez eu esteja disposto a pagar o preço. O que espera de mim? Seja sincero.
- E-eu preciso que entregue uma mensagem. Uma mensagem confidencial. Tu és visto saindo com frequência do vilarejo, em longas viagens tanto por terra quanto por mar, ninguém desconfiará caso desapareças por alguns dias. Faça isso e eu prometo cuidar de ti no futuro, de tuas mulas, ajudar no que for necessário.
Não era uma oferta ruim. Com Grigore praticamente restrito aos negócios da Corte, Mihai era o que havia de mais próximo de um abade no momento. Sua proteção poderia vir a ser de grande valia para os negócios. Seus negócios.
"Talvez ainda haja esperança para mim nesse vilarejo. Mesmo sem Petru."
- Para quem seria tal mensagem?
- Lorde Stefan.
O pai de Dimitrier, lorde suserano das terras ao norte do Siret. Teria de se apresentar perante a Corte de Altorrio, quando nunca havia posto os pés sequer dentro dos salões de Forte Dragoi.
- Precisarei de vestes apropriadas...
- Terá as vestes que quiser.
- Um penacho também, um daqueles bem grandes. Precisamos demonstrar a boa vontade de nossa comunidade clerical.
- Pelos céus, homem, onde eu conseguiria tal coisa? O objetivo é que seja uma missão discreta.
- Achei que você estivesse desesperado o bastante – Ion sentiu uma estranha sensação de desapontamento. – Quando podemos nos encontrar para discutir os detalhes?
- Hoje à noite. Escala o muro oeste da abadia e bate três vezes na janela mais à esquerda, eu a abrirei para que tu entres.
- Devo esperar companhia? – perguntou, mirando os homens que marchavam diante de si.
- Os mercenários não serão um problema. Certificarei-me disso.
Ion anuiu.
O resto do caminho se deu em silêncio, permitindo que Ion avaliasse a misteriosa mulher mais calmamente. Era um pouco mais baixa que Ralf, mas, mesmo assim, uma das mais altas de todo o agrupamento, e seu caminhar era diferente do da maior parte das mulheres que já tinha observado, era mais cadenciado e menos bamboleante. Mesmo descalça, ela tinha o passo firme e preciso, movimentando-se como um membro de uma falange invisível, um verdadeiro lobo em meio ao andar desordenado dos mercenários.
"Ela caminha como um soldado."
Seus braços e pernas eram torneados e musculosos, e a cada passo que dava, podia-se ver a carne saltando de seus quadris e panturrilhas. Não se podia atingir esse nível de força trabalhando em uma fazenda, mas sua pele era limpa demais para o ofício militar.
Mulher ou não, espera-se que guerreiros treinados tivessem certas coisas em comum, como marcas de guerra, cicatrizes e calos causadas por contínuos golpes de vara ou empunhar de espada, deformidades nos ossos das mãos ou do nariz devido a fraturas, ou mesmo marcas de sol. Cada um dos mercenários que a haviam capturado detinham pelo menos uma dessas marcas. Até mesmo o novato a quem chamavam de Gonzinho tinha uma falha em sua sobrancelha e sujeira sob as unhas, provavelmente devido a serviços laborais que ainda o obrigavam a realizar na companhia. A mulher, contudo, não detinha qualquer sinal de que utilizava de sua força física para viver.
Sua pele era lisa, acobreada e impecável, digna de causar inveja até à mais delicada das cortesãs de Dimitrier. Os cabelos possuíam um tom não natural de vermelho, quase a cor de sangue, e se encontravam embaraçados e mal cortados, porém ainda conseguiam parecer mais bem cuidados que o de muitas nobres que já havia visto. A linha de seu maxilar denunciava um rosto suave e bem formado, com maçãs pronunciadas e lábios finos, mas perfeitamente esculpidos.
Ion perguntou-se se alguma vez já havia visto uma mulher mais bela. Mesmo as radiantes concubinas que os senhores do oriente costumavam ostentar a tiracolo, tipicamente escolhidas a dedo entre as mais deslumbrantes de suas servas, não faziam jus àquela jovem. Sua beleza, contudo, podia muito bem ser uma maçã envenenada. Recordou-se do quão facilmente ela dominara Ralf e da maestria com que manejara a ridícula adaga de bolso.
"Ela o poupou. Poderia ter acabado com todos aqui se assim quisesse, sem que pudéssemos fazer nada."
O viajante lembrou de uma história que havia ouvido de um marinheiro quando estava de passagem pelas terras do Mediterrâneo. Nos reinos da África, ele dizia, entre um e outro gole de cerveja negra, havia clãs do deserto que ensinavam a jovens a arte de matar desde o berço. Assassinos de reis, responsáveis pelo fim de inúmeras guerras e início de outras tantas. As discípulas mais bonitas e excepcionais eram escaladas para missões no exterior e, ao longo de anos a fio, infiltravam-se nas cortes com o único propósito de passarem uma noite a sós com seus alvos. Os contratos poderiam chegar a valer fortunas inteiras, mas as execuções eram infalíveis.
O viajante balançou a cabeça, descartando a ideia quase imediatamente. A teoria explicava coisas como a aparência e idioma exóticos da mulher, mas levantava algumas outras questões tão importantes quanto.
"Por que diabos uma assassina estrangeira teria feito todo o caminho até uma vila remota como Anghila?"
Além disso, não estava levando em conta o fato de que, aparentemente, ela teria vindo do céu. Como veio a descobrir algum tempo após sua chegada, Marius fora o único a ver sua suposta queda de um olho colorido entre as nuvens, mas vários outros aldeões testemunharam fumaça e alguns pescadores ajudaram a tirar o corpo da água, então a história do velho muito provavelmente tinha um fundo de verdade. Também havia sido mencionada uma espessa carapaça que a teria protegido do calor e impacto, não uma armadura, mas um revestimento brilhante e de aparência não metálica que tomava todo seu corpo.
"Como um inseto." - lembrara do rosto redondo e amedrontado de Ioana, a pequena neta de Zamfir, ao lhe falar do momento em que vira um objeto esfumaçante e com forma humana ser arrastado em direção à abadia. Alguns dias atrás, alguns moradores também haviam comentado sobre um ruído alto e tremores de terra vindos do templo, Ion sabia que não podia ser só coincidência, algo muito estranho estava acontecendo nos bastidores do clero.
O viajante mirou os panos sangrentos que cobriam o pulso da mulher e então o mercenário que a atingira, Gilliam, o careca com a barba trançada. Ele virava o seu corno na garganta, bebericando as últimas gotas do líquido que havia trazido consigo.
"Esse homem, ele atingiu um alvo tão pequeno e esquivo, mesmo sob efeito de álcool."
Se não tivesse sido um tiro de sorte, talvez ele fosse, naquele grupo, alguém que detivesse um nível de habilidade semelhante ao daquela mulher. Grigore havia contratado homens perigosos como guarda-costas.
- E eu? – riu Ion. – O que faço aqui, caminhando com essas pessoas?
- Disseste alguma coisa? – perguntou Mihai, pego de surpresa.
- Sim. Aqui me despeço, nos vemos mais tarde.
Falando isso, enviesou-se por um caminho à esquerda e se afastou do agrupamento, perguntando- se o que deveria ou não compartilhar com Petru ao chegar em casa.
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