PARTE 1 / CAPÍTULO 2: COMANDANTE E GENERAL

O sol débil ainda brilhava no horizonte, impassível em seu preguiçoso e duradouro poente. Leina sentava dentro de uma barraca de apoio, observando os soldados que se preparavam irrequietos do lado de fora por uma aba transparente que servia de janela. Já havia substituído o uniforme que usara na viagem por uma shen-bulgard, o mais moderno traje de combate produzido em massa que existia.

Era uma obra singular de engenharia.

Couraças rígidas cobriam o peito, flanco, cintura e extremidades, enquanto um material elástico e resistente ligava os componentes sólidos, deixando as articulações e abdome livres para maior movimento. O traje era composto por diversas fendas e fechos, grossos fios semelhantes a tecidos musculares construídos a partir de camadas sobrepostas de tranças metálicas, placas, peças autônomas e alguns dispositivos de função desconhecida que se moviam misteriosamente sobre um revestimento verde-azulado. Mesmo em toda a complexidade de formas e movimento, tudo se fundia em um sistema de aparência limpa e coesa.

Toda a aparelhagem tecnológica tornava a shen-bulgard não uma simples proteção militar, mas uma poderosíssima arma de batalha, autossuficiente e mortalmente eficaz. Cobria totalmente seu corpo exceto pela falta do capacete, que pousava num suporte próximo. A atheres trazia os longos cabelos agora presos num compacto coque, antecipando a hora em que teria de cobrir a cabeça e completar o conjunto de seu exoesqueleto. Discretos fios de luz brancos fluíam em movimentos cíclicos por entre pequenos sulcos desenhados por toda a extensão do traje. Era a prova de que ela não vestia apenas uma máquina, mas um organismo vivo, tão sujeito a ferimentos quanto a pessoa que o preenchia.

Alheia ao que ocorria em volta, a atheres se perdia em pensamentos.

Um mau pressentimento a corroía, não saberia dizer o que era, mas lhe embrulhava o estômago. Nada do que fizera em seus anos de experiência a havia preparado para tal situação, as pessoas de uma cidade inteira haviam simplesmente desaparecido sem deixar rastros. Repetia inúmeras vezes dentro de sua cabeça as palavras de Lavoir, como um mantra, tentando substituir as ideias de um ataque terrorista.

Engoliu em seco. Terrorismo ou não, era a missão mais importante a que já tinha sido confiada. E ela estava sozinha.

"Essa é a minha grande chance. Essas pessoas dependem de mim, hesitar está fora de questão. Mas mesmo assim... O que pode significar tudo isso?"

Um ligeiro calafrio logo a trouxe de volta ao mundo. Seguiu com os olhos a fonte do vento gélido que adentrara a barraca e viu a silhueta de um soldado junto à porta aberta.

– Com licença, minha atheres. A tropa já está a postos e aguardando comando.

Leina voltou seus olhos para o exterior mais uma vez. Por algum motivo sentia-se saudosa de casa, Venécia trazia à tona memórias há muito esquecidas. Ela fechou as pálpebras, procurando reaver o pouco que ainda lembrava do bom tempo que vivera sob aquela mesma cúpula.

Recordou-se do dia em que chegara à cidade. O tempo estava claro e viera num helicóptero do Atherum, sobrevoando a cúpula de vidro, muito acima de todos os edifícios. Lembrou a sensação de colar a face na janela, tentando obter um vislumbre melhor das avenidas e dos parques. O vidro estava imperdoavelmente frio, mas seu hálito era quente e derretia os flocos que grudavam no lado de fora. Lembrou depois de ter levado a mão às bochechas e encontrá-las dormentes, e de que a marca de seus lábios úmidos haviam ficado gravados no vidro meio congelado por muito tempo, claramente visíveis pelo lado de fora, mesmo depois de já terem pousado. Sabia que deveria estar impressionada e feliz de coração, sempre quisera conhecer "Venécia de cristal", era uma cidade que encantava seus sonhos de menina, mas nesse dia estava triste. Tentou lembrar o porquê.

A música lhe veio de repente à cabeça. Era uma melodia muito, muito antiga, mas que lhe escapou dos lábios tão naturalmente como se a tivesse ouvido há poucos minutos:

Além dos campos de camélias, sobre os mais puros e alvos... – começou ela a cantarolar baixo.

Uma imagem veio a se formar pouco a pouco em sua mente: uma noite estrelada, caminhava de mãos dadas com uma pessoa alta. Leina já sonhara com isso antes. Era o sonho em que subia uma trilha sem fim. Nem ela nem o acompanhante falavam, apenas subiam e subiam. Algumas vezes o sonho era vívido, cheio de sons e cores, outras vezes parecia distante e desbotado como um filme antigo. A rampa se elevava por entre as nuvens e as estrelas, os dois andavam até que acordava sobressaltada, e a imagem da noite se desfazia no ar.

Demorou-se mais um pouco e desistiu, não saberia dizer se um dia isso acontecera de fato ou não. Percebeu entristecida que não havia mais como relacionar as memórias antigas e a realidade presente. Tais dias longínquos haviam-se ido e não mais voltariam. De repente se deu conta que ali não era o seu lugar, quis ir embora. Por um instante pensou em largar tudo, montar um ruotan e voltar para onde já estava habituada a viver, onde não era obrigada a liderar essas operações sinistras e obscuras.

– Minha atheres? – chamou o soldado novamente, esticando o pescoço para verificar se ela o escutara.

– Entendi, já estou indo – respondeu, apanhando o capacete.



Ao deixar a barraca, um agrupamento a aguardava. Todos usavam o mesmo traje verde-azulado com padrões semelhantes aos de Leina, piscando em sincronia. O brilho das centenas de shen-bulgard reunidas que lhe abriam caminho enquanto se aproximava arrancou dela um discreto sorriso. Normalmente, numa situação como aquela, não teria completo controle da tropa. Sempre um ou dois representantes do shifir a acompanhavam até o sucesso da operação, e eles poderiam ou não aprovar os seus termos. Em caso de impasse, numa missão importante o suficiente para se fazer necessária a presença de um atherim, sempre haveriam outros dois para substituí-la.

Não era o caso desta vez, sem representantes ou demais atherins à vista, a autoridade de Leina se fazia absoluta. A responsabilidade era imensa, mas a glória também o era.

Merrik a aguardava junto aos soldados.

– Muito bem, comandante. Conseguiu tudo?

Ele assentiu.

– Sim. Não havia shen-bulgard para todos, mas equipei o restante com o que havia no depósito. São sete tropas ao seu dispor, duzentos e dez soldados. O restante aguardará em prontidão nas portas do acampamento.

Alguns homens vieram trazendo os ruotans. Os soldados do agrupamento iam aos poucos montando e se dirigindo à saída que dava para a cidade. Merrik olhava apreensivo para Venécia. Leina seguiu o seu olhar.

– O que foi? Algo o preocupa?

Merrik fez que não com a cabeça, pareceu reconsiderar por um instante, então falou:

– Não sei se é adequado um conselho vindo de alguém da minha posição, minha ath... err... minha senhora, mas peço que tome um cuidado especial nesta operação. Sinto algo diferente, alguma coi...

– ...coisa não está certa – ela completou sua sentença, feliz de ele ter mencionado isso. – Sim, sinto o mesmo há algum tempo.

– E vai mesmo assim? Não tem medo?

Ele pareceu encabulado ao fazer uma pergunta tão direta, mas manteve o olhar firme. Leina o encarou por um momento, surpresa.

– Mas é lógico que tenho, tenho medo desde que coloquei meus olhos sobre a cidade. Mas o que seria de nós se eu desistisse agora?

Merrik olhou para o chão, desconsolado. Ela o observou e sentiu um aperto no peito, sentia um grande afeto por ele. Era seu oficial mais querido e uma das pessoas por quem tinha mais consideração, Leina nem sempre fora sua superiora e já houvera um tempo em que ele a tratava como uma filha. Ela culpava a falsidade da hierarquia militar por tê-los separado, imaginou se ainda estariam morando juntos se nunca tivesse entrado para o colégio do Atherum.

– Obrigada pela preocupação, comandante. Mas ela não se fará necessária, voltarei antes que perceba minha falta.

Merrik parecia não ter ouvido o que ela falara. Seu olhar estava perdido, distante... Não olhava para ela, mas através, como que pensando com muito cuidado no que diria a seguir. Desviou o olhar, passou a observar o ambiente ao redor, começando a suar frio.

– Err... – começou, mas a frase se prendeu em sua garganta.

Poucas vezes Leina o vira tão transtornado. Achou graça, mas abafou o riso e perguntou:

– Há algo errado?

– Não, err... Quer dizer...

Ele parecia em pânico. Ficou assim por uns instantes, e então se recompôs, tomou a expressão séria de costume e falou:

– Promete?

– Hã? O quê? – retrucou a atheres, confusa.

– Que voltará antes que eu perceba sua falta. Promete?

– Está bem, eu prometo.

Ele pareceu relaxar. Abriu um leve, ligeiro sorriso, que se fez notar na face sempre sisuda.

– Então boa sorte, pequena. Estarei aguardando seu retorno.

Leina não respondeu de imediato, a súbita troca de personalidade a desnorteara.

"Pequena... Há quanto tempo eu não ouço isso."

Sua reação inicial foi soltar uma risadela, mas logo soube se ajustar à solenidade da despedida. Destravou o capacete, pôs as mãos nas têmporas e o retirou. Observou Merrik e sua expressão submissa por alguns segundos, então segurou firme seu braço, puxou-o para si e aplicou-lhe um beijo na testa. Ele enrubesceu de orelha a orelha.

– Uma lembrancinha minha.

Um soldado esperava com um ruotan, quase todos os outros já haviam saído. Leina se dirigiu a ele e subiu em sua montaria, mas não partiu antes de se voltar para Merrik uma última vez:

– Até, comandante. Espere um pouco que eu já volto com mais notícias – falou, levantando a voz enquanto o grande animal já começava a se movimentar.

Após um curto instante de torpor, Merrik assentiu e a observou partir. Ficou lá até perdê-la de vista na imensidão branca.

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