v i n t e e d o i s

Kai entornou a caneca de uma vez.

Mantinha-se fixa nas mesas dispostas ao redor, cheias de pessoas de todos os tipos, mas o tipo certo, o tipo do lado norte. Mas não é qualquer mesa que rouba sua atenção e retirava a paz que a bebida lhe dava.

Engoliu o conteúdo, desejando se afogar no álcool e não conseguir presenciar essa cena atroz. Seus olhos lacrimejavam.

O ardor rasgando sua garganta era pouco.

– Desce mais uma, capricha na ferrugem – pediu firme, arremessando o copo vazio e o fazendo deslizar, de encontro aos dedos gorduchos habilidosos do barman.

– Quer apagar hoje, hein? – provocou o homem de narinas largas e orelhas rasgadas.

Kai ri fracamente, sem humor algum.

Lembra-se vagamente que, quando era uma menina perdida, ele a encontrou na lata de lixo catando restos, na esperança de encontrar no meio de toda aquela gordura e ossos de galinha, algo minimamente comestível.

Com doze anos de idade e o corpo definhando de alguém de oito, quase fez xixi nas calças quando viu o homenzarrão careca e corpulento. Jurou que aquele seria o seu fim.

Por segundos preciosos ansiou que fosse.

Assim não precisaria enfrentar outro mar de sujeira, fedendo a chorume rançoso por uma semana inteira.

Algo que não aconteceu. Diferente de todos que a enxotaram com baldes ácidos e venenos de rato, ele apenas disse que o cheiro dela lembrava o traseiro dele.

E levou a tripulante para dentro, a acolhendo como um cachorrinho leproso.

– Inspirada? – zombou com um sorriso carniceiro, do tipo que caras não muito legais davam, mas claramente não o barman.

Ele era um cara incrível.

Farta, você quis dizer – corrigiu, notando o sorriso brilhante se acender e tudo ao seu redor apagar.

Naquele enorme salão, dentre inúmeros frascos de bebidas e mulheres chorosas vulneráveis aos seus encantos, escolheu ela.

Uma pena que o sorriso de Uyara não era direcionado a pirata.

– Não sou pirata – ergueu os olhos para um ponto invisível, urrando – Pombos mancos...

Resmungou.

O homem corpulento nada comentou, analisando a tripulante enquanto, disfarçadamente, escondia a caneca recém abastecida, atrás do balcão.

O olhar escuro e sombrio foi preenchido por um sentimento inquietante. Semelhante ao de velho tio preocupado, após apostar seu sobrinho na sinuca e perder.

– O que tanto olha, pequenita? – ressuscitou o antigo apelido, demonstrando estranhar o comportamento incomum.

– Não sou nenhuma pequena – rebateu, fulminando pelo rabo do olho – Você que é grande demais.

O homem riu, cavernoso.

O peitoral subiu e desceu, como se estivesse enferrujado e não desse uma risada dessas desde o último confronto entre ordinários e seres élficos.

– Não tá muito errada. Então, – debruçou-se, aproximando-se de Kai e traçando a direção do sondar impetuoso – o que estamos olhando?

Ela mostrou desleixadamente com a mão.

– Isso que estamos vendo no meio do salão, caro Bob, é minha rival imortalizada e meu melhor amigo planejando o meu funeral – rosnou, inclinando-se para trás com ar de procura – Essa bebida que não sai nunca? Já foi mais ligeiro.

Bob balançou a cabeça de leve.

– É a idade, pequenita. Ela alcança todos nós – respondeu, simples.

– Fuja dela como foge dos impostos e das contas pendentes – a tripulante sugeriu, apoiada confortavelmente com os braços na balcão – Qual é, quando vai assumir sua imortalidade. Não adianta fingir.

Os dedos grandes empurraram a cabeça de Kai.

– Eu sou lá homem de viver pra sempre – fungou ogro, arranhando a garganta pela tosse seca – Minha morte será minha aposentadoria. Não vejo a hora.

Suspirou, meio sonhador meio exaurido.

Kai girou os calcanhares, enfim disposta a ignorar a conversa insuportavelmente íntima entre Mateo e a elfa. Eles que se lasquem, bem longe dela.

Encurvou-se, apoiando o queixo na palma.

– Sabe que só irá partir quando eu deixar, certo? E se eu deixar – emendou, transformando a linha dura em seus lábios num sorriso – Sem contar que alguém precisa tocar esse lugar.

– Besteira – desdenhou, franzindo o nariz cheio.

Diminuiu o tom a um sussurrar, com ar misterioso de quem contaria um segredo.

– Não preciso me preocupar com esse buraco sujo. Sei que a pessoa que o herdará dará conta de chutar uma ou duas bundas se necessário – confessou, dando a entender que, as boas mãos de que tanto fala, são as que tremem de ansiedade nesse momento.

Em estado de pânico enquanto aguardava uma maldita caneca de rum que nunca chegaria, se dependesse de Bob.

Kai grunhiu.

– Me faça andar na prancha e me arraste pelos mares – dispensou, a verdade saindo rude e afiada, mais do que pretendia – Não sou mulher de ficar parada atrás de um balcão. Pretendo...

– Fazer história, não ser esquecida – completou mecânico, como se estivesse em seu programa e a mesma conversa, de sete anos atrás, se repetisse – Já pensou o quão respeitado eu sou? Lambem minhas bolas por dia mais vezes do que limpo esses copos.

Kai engoliu.

Não se tratava de respeito. O homem sabia disso, no entanto, não daria o braço a torcer e se manteria disposto a oferecer segurança para a garotinha que, um dia, subiu em seus ombros e arrancou um pedaço de suas orelhas com um cutelo.

– Não me lembre disso, por favor – murmurou para o nada novamente, apertando a fonte – Falando em balcão, por que não cumpra sua função e me entregue o que eu pedi?

Bob levantou as sobrancelhas desgrenhadas, falsamente afetado.

A tripulante gesticulou despretensiosamente.

Ai atrás.

Ele piscou, atordoado.

Jurou não ter sido visto, mas, no final, não contestou. No fundo tinha conhecimento que a discrição não era o seu forte.

Sem contar que Kai, tinha um invejável olfato de um cachorro embriagado. Sente a quilômetros de distância, a ardência prazerosa de um bom conhaque.

Bob pigarreou.

– Espero que tenha espaço no seu funeral, para o homem que colocou leite de cabrito no seu cozido – afastou-se da bancada, entregando prontamente um pote de amendoins para o casal na outra extremidade.

– Se depender de mim, não – ironizou implicante, cutucando Bob carrancudo com o cotovelo – A não ser que tenha minha dose guardada aí contigo.

Ele balbuciou palavras desconexas.

– Ameaçado na minha própria toca de rato. Ora...

O som da voz martirizada cessou.

Uma melodia leve e harmoniosa infiltrou-se nos ouvidos da tripulante. A risada atípica a alcançou como a maresia noturna, beijando seu rosto e se dispersando ao amanhecer.

Atentou-se a elfa, hipnotizada pela maneira que as bochechas coradas, coloriam o sorriso aberto. Detestava cada segundo distante daqueles olhos.

Aqueles malditos olhos verdes.

– Absurdo – comprimiu o sondar, consumida pelo incómodo alojado em suas costelas.

– Pois é, impressionante o quanto se divertem discutindo um enterro – contraiu os lábios finos numa linha firme, reprovando com pequenos "tscs"

Kai se esforçou para ignorar, mas conforme queimava a nuca deles, menos conseguia se controlar. Tornou-se fisicamente incapaz desviar do amistoso.

– Ela agia como se o odiasse e, pimba, agora se comporta como uma garotinha caída de amores. Totalmente...Apaixonada...

Perdeu a força, deixando a frase inacabada diante do olhar de julgamento silencioso de Bob.

Examinou o rosto da pequenita com inconfundível censura, como se quisesse acreditar que seus tímpanos entupidos o tivessem enganado.

Abriu e fechou a boca, travando o maxilar.

– Pimba? – enfim, disse.

– Essa não é a pauta – vetou, passando os dedos pelos fios num gesto afoito. Gesticulou imprecisamente para os dois – Ela era centrada e inteligente quando a conheci. De repente, nem consegue disfarçar uma paixonite aguda.

– A maneira de odiar dela deve ser bem diferente – deduziu, empurrando com certa relutância a caneca da tripulante.

Mais cedo ou mais tarde se aproveitaria das suas distrações ao longo da noite e daria um jeito de pular o balcão. Antes uma dose a mais, do que um refil inteiro.

Kai botou a mão na frente, pegando o recipiente habilmente.

Não, ela costumava me olhar da mesma forma – segurou uma careta, retornando para a primeira vez que a elfa a ameaçou com o arco.

Bons tempos.

Jamais imaginou que sentiria saudade das ameaças e a troca calorosa de ódio. Era um relacionamento recíproco e a tripulante, iludida, pensou ser especial.

– Fica se engraçando pra membros da guarda – o castanho obscuro das íris oscilou, mergulhando em pura mágoa – Eu já fui da guarda, sabia?!

Elevou o tom inconscientemente, recebendo um chiar repreensivo de Bob.

– Deixe seus comportamentos suicidas de lado. Tem guardas demais pela cidade, ninguém quer mais por aqui – alertou, chacoalhando o corpo molenga – Não pretendo ser forçado a expulsá-la pelo seu histórico de decisões.

Decisões podres de ruim, reverberou em pensamento.

Kai contraiu o maxilar, apertando as bordas do copo até os nós ficarem brancos.

– Não te criei pra se lamentar igual mocinha abandonada no altar – torceu um pano velho, o jogando no ombro.

– Não fale asneira – amargurada, levou a caneca aos lábios, botando o conteúdo pra dentro uma golada generosa – Eu nunca chegaria ao altar.

Bateu na bancada fervorosamente.

Bob bufou, impaciente.

Puxou o rosto de Kai para si, amassando as bochechas e a forçando a olhar além daquela maldita mesa e do líquido entorpecente em sua mão.

– Pare de se torturar. Preste atenção – sussurrou, exibindo o ambiente e cada um ali presente – Está vendo essa gente?

A tripulante explorou rapidamente, indo de homens com as calças folgadas e seus arrotos grotescos, até moças gargalhando e se abanando.

As delicadas maçãs do rosto encontravam-se vermelhas, pelo vinho barato.

Uma delas lançou uma olhada indiscreta na direção de Kai, examinando de cima a baixo com um sorrisinho deliciado. Demonstrava estar faminta e acabara de encontrar seu petisco.

Segundas intenções dançavam nas íris carvão.

– Imagino que esteja enxergando – comentou humorado, insinuando com os olhos carinhosos de um bagre.

Kai agarrou o olhar da moça, demonstrando interesse.

Totalmente falso, detalhe.

– Bem até demais – curvou o lábio num sorriso imoral, descendo tortuosamente pelos fios laranjas, uma tonalidade próxima a das folhas de outono – O bar anda bem frequentado ultimamente.

– Sem você para espantar os gente fina, com certeza – rebateu risonho, soltando ar como uma chaminé entupida de fuligem.

A tripulante compartilhou um sorriso discreto, sem desgrudar de seu novo alvo.

– E desde quando um gente fina ousaria pisar neste antro do pecado? – forçou o tom, alcançando uma nota enjoada e rebuscada. Típico de burgueses.

– Muita coisa mudou desde que partiu, pequenita...– transpassou certo receio, perdendo um pouco da firmeza rochosa.

Kai acenou roboticamente, não prestando a devida atenção. Mais tarde provavelmente se arrependeria disso.

Permanecia ocupada absorvendo a coisinha curiosa diante de si. Memorizava cada traço, desde os contornos do busto, até o nariz arrebitado, cada vez mais incerta do que faria quando a agarrasse.

Ainda sequer entendia se pretendia beijá-la ali. Suas próprias intenções eram uma névoa, distorcidas pelo nível de álcool transbordando de seus neurônios.

Inconscientemente buscava algo a mais. Uma razão para sair de onde estava, guiá-la até o cômodo superior do estabelecimento e despi-la.

No entanto, nunca precisou de uma razão. Tudo não passava de uma questão carnal.

Puro desejo reprimido.

Tédio, em certos momentos do dia.

– Algo de errado com a mocinha? – Bob perguntou, curioso com o desenrolar da novela. Mal se recordava da última vez que a viu, em um conflito interno daquela proporção – Nunca vi pensar tanto antes de comer, em duas semanas aqui te peguei se esfregando com Peet, no chão gorduroso que eu mandei esfregar.

Obviamente não tinha algo certo.

A laranjinha não era uma certa esquentadinha de orelhas pontudas.

O conflito na mente sórdida da tripulante a empurrava para a beira do precipício, prestes a comer uma loucura. Almejava cometer várias loucuras, contudo estava olhando para a garota errada.

– Tem algo errado comigo – deixou a bebida de lado, passando a mão pelo rosto – Nem consigo beber até cair, sem ter uma crise de consciência.

Bob deu com a língua nos dentes, emitindo um sonido.

– Imaginei que este dia chegaria, mas não pra você – enrugou a testa, a careca refletindo o calor das velas. Ficou distante, de repente – Com seu gênio difícil, o dia chegaria pra mim, mas nunca...

– Desenrola a minhoca do anzol – pressionou exasperada, abandonando o joguinho com a desconhecida.

– De gostar de algo, pequenita – exemplificou, fazendo uma pausa apenas para esfregar uma coisa ou outra, distraindo-se da verdade – Gostar menos de algo do que se gosta de alguém.

Kai desaprendeu a piscar e, aparentemente, de respirar.

Considerou um absurdo dito em voz alta de uma maneira absurdamente impensada. Tentou ignorar o fato de que praticamente a jogou para cima de Uyara.

Ao menos insinuou que a tripulante ansiava por tal coisa.

No fim, o homem não estava de todo errado. Kai foi incapaz de desgrudar a atenção dos papagaios tagarelas desde que se sentaram, estranhamente próximos.

– Eu tentei, tá legal? – respondeu o absoluto nada, outra vez naquela noite tortuosa. Se deu por vencida, enfim negando outra dose – Tire isso de perto de mim.

Apontou, inclinando-se para trás com assombro.

Praticamente fugia. Viu uma alma penada dentro da caneca ou algo tão nojento e sobrenatural quanto, como uma barata fantasma sem patas.

– Deixe-me ver o seu quadro – ergueu a mão grande, pressionando contra a testa, retirando segundos depois. Rápido, como se tivesse se queimado – Como suspeitei, a besta infame da paixonite aguda.

A tripulante aprumou as costas, desdenhando com um sorriso incrédulo.

Não culparia Bob pela dedução errada e fantasiosa. O homem desconhecia a criatura por baixo do inocente manto verde, fugiria assim que a língua afiada saísse da boquinha e Uyara soltasse a primeira palavra insolente.

– Cuidado, pode ser contagioso – fingiu alarde, agitando os dedinhos na frente do semblante sério do barman – Um velhote como você não daria conta de amar alguém três vezes por semana.

Subiu e desceu as sobrancelhas, sugestiva.

Ele ignorou.

– O que a chapeuzinho, ao lado do bafo de dragão, fez para te deixar amassada como bosta de cavalo no asfalto?

A tripulante ameaçou encostar as sobrancelhas pelo infame apelido. Supôs que, na altura do campeonato, teria mais criatividade na hora de desrespeitar alguém.

Certas coisas são como a cor do céu, infatigavelmente azul.

– Resistiu às minhas investidas. Qualquer coisa que eu dissesse ou pensasse em dizer soava errado, nada era o bastante – cochichou, engolindo o enorme bolo de frustração que se formava – Ainda me sentia esquisita depois, constrangida...

Bob assobiou, as esferas escuras saltando.

– Parece ser grave – apoiou o cotovelo ressecado no balcão, curvando-se para frente com um ar de problema – Se envolveu com outra pessoa depois?

Kai negou, a contragosto.

– Nem se uma sereia me enfeitiçasse eu esqueceria a ratinha – apertou os dedos contra a palma, fechando num punho frágil.

O barman, dono do bar e guardião de Kai, abriu a boca, mas somente o que saiu foi uma série de cochichos até, subitamente, cessarem.

Um silêncio ensurdecedor invadiu o ambiente tumultuoso.

– Sereia.

Cantarolou um homem fanho.

Bob soltou um longo suspiro sofrido.

– De novo essa ladainha...

– Me lembro da primeira vez que a encontrei – também suspirou, mas num tom completamente distinto. Mais sonhador – Eu despenquei de uma cordilheira íngreme, caindo num riacho, dando diretamente num grande lago...

O som estrondoso de vidro, batendo contra o metal pesado da mesa, interrompeu o discurso nostálgico do desconhecido.

– Não tem demônios nos lagos – urrou gutural, lascando uma cuspida espessa no chão – Melhor se calar na sua burrice do que compartilhar aquilo que não sabe.

Kai encarou aquilo desgostosa.

Era por conta de figuras como essa que passou tardes inteiras esfregando infinitamente, sem um sinal de melhora. O odor de bile e catarro se entranha entre as pregas.

– Falam de demônios ou sereias? – perguntou a laranja, perdida.

– Que diferença faz, minha pérola? – a tripulante teve o prazer de responder, subindo o canto do lábio num sorriso sedutor – A diferença é que um tem peitos maiores e o outro vive de chifres.

O bar compartilhou uma risada altiva.

A maioria bêbado demais para discernir o que era um espirro de um peido, mas mesmo assim decidiram acompanhar para não perderem o bonde.

Todos se engasgam de rir, exceto a figura coberta pelo tecido verde.

A tripulante trocou olhares promíscuos com a laranjinha. O penteado, lindamente intacto na altura dos ombros, convidava Kai a bagunçá-lo. E os olhos...

– O que são sereias? – levantou-se do assento decididamente.

As risadas murcharam.

Mateo a seguiu com os olhos, mas não a impediu, pelo contrário, demonstrou apreciar o ato de bravura. Se expressar era um desafio, ainda mais cercado de tubarões desdentados com soluço.

Kai desviou instintivamente para a elfa. Finalmente reencontrou as íris que acentua as cores de seu mundo incolor.

Os olhos carvão sem vida, nem chegam aos pés do par de esmeraldas que Uyara exibia em sua bela feição.

Tornou-se uma necessidade angustiante tê-los ao seu alcance.

– Sereias, por onde começar? – cantarolou o sonhador, entre um e outro suspirar.

Bob grunhiu.

– Condenou a todos nós, ratinha – massageou a região tensa da careca.

Uyara alternou para o homem corpulento, profundamente incompreendida.

– O que disse? – perguntou, retesando as sobrancelhas, não demorando muito para chegar em Kai, a queimando por inteira.

A tripulante ergueu os ombros indiferentemente, unindo os lábios num bico inocente.

O estranho de nariz largo e personalidade questionável subiu prontamente na mesa, arrastando suas meias furadas e amareladas pelas beiradas, parando bem no centro.

Ahh, tão doce és tua música – recitou, apaixonado.

Levantou as mãos, acariciando o ar como se fosse um parente querido distante. O movimento era fluido, praticamente flutuava.

Kai aproximou-se da semi-orelha de Bob, hipnotizada por tamanha estranheza.

– Por que tenho a impressão de que, a qualquer momento, veados pulantes irão saltar pela janela e cantar com ele? – sussurrou, entreabrindo a boca.

Puft, não chega nem perto.

Rosnento e Soluço se aproximam do Fanho, pedindo para os telespectadores se afastarem e darem espaço, para os outros quatro integrantes do espetáculo passarem. Todos, exceto o fanhoso em cima da mesa, seguravam um castiçal com uma vela acesa.

Ao todo eram sete idiotas para entreter o público e instigar a curiosidade alheia, principalmente a da tripulante. Talvez uma parte de si estivesse mesmo querendo ouvir sobre as piranhas do mar.

A outra, no fundo do buraco vazio em seu peito, buscava uma distração dessa necessidade sufocante de ver, tocar e respirar o mesmo ar que Uyara.

Kai fechou os braços sob o peito, encostando contra o balcão.

– Seis bucaneiros em alto mar – introduziu a melodia.

No entanto, para a infelicidade do fanhoso, ninguém acompanhou. O silêncio da taberna foi seguido de uma tosse seca, faltando apenas um grilo falante para completar.

Pigarreou, sinalizando para o velho bebum da gaita e o mais novo da sanfona.

O novinho o cutucou, provocando um sobressalto ao acordá-lo. Logo o velho gastou seu último fôlego, dentro de seus pulmões de uva passa, soprando fervorosamente a gaita.

Um único sopro, seguido da sanfona agitada entrando numa constância. Aparentavam ter ensaiado aquilo incontáveis vezes, mas nunca devem acertar de primeira.

A terceira vez é a da sorte, emendou uma vozinha interna distante.

Então começaram, agora, dentro do ritmo.

Seis bucaneiros em alto mar

Hay ho ho

Seis bucaneiros no mesmo lugar

Hay ho ho ho hou

– O sol começa a sumir.

Alfredo, o manco, entra aos tropeços.

– E a lua já vai sair.

Houve uma pausa dramática para respirar.

Uma vela fora apagada.

Cinco bucaneiros asneiros restaram.

Bingo!

Apenas cinco?

– O que houve com o sexto? – Uyara indagou, cada vez que Kai a observava, mais aparente eram as linhas desentendidas em seu rosto.

– Piratas desaparecem com frequência pela costa. Entre o leste e o norte – a tripulante comentou com certa simplicidade, como se não se importasse o suficiente para procurar informações – Coisa que não vemos no sul, por exemplo.

Insinuou arisca, incapaz de segurar o sorriso conspiratório.

– E nunca se perguntaram o porquê? – arqueou as sobrancelhas, abismada.

– O PORQUÊ!

O fanho esbravejou, levantando os braços.

Ora, você já vai saber – completou Bob desanimado.

No cair do anoitecer

Uma voz sussurrou

Um canto melodioso,

repleto de ardor

Hay hou hou

Hay hou hou

Auhm Auhm Auhm

Auhm Auhm Auhm

No meio dos sussurros, entranhou-se as batidas incessantes dos pés, misturadas com o choque firme das canecas contra a lataria da mesa.

Cheio de promessas

Uma tentação

– Fisga qualquer um! – berrou um homem aleatório da cadeira do bar.

– Como um peixe no arpão!

– Minha mulher que me perdoe!

Fanhoso tossiu, dando continuidade.

Quatro dos cinco tapam os ouvidos

Quatro dos cinco já sentiram vindo

Um puxão

Um empurrão

– De repente...

Um breu instaurou-se na taverna, escondendo as chamas das velas.

Apagão

Tão rápido quanto se foi, a iluminação retornou. Contudo, uma coisa não estava igual, restavam apenas quatro castiças.

Quatro bucaneiros asneiros restaram

Hou hou hou

Houve uma última batida de copos, antes de todos retornarem aos seus lugares rapidamente, agindo com demasiada tranquilidade.

Mateo levantou-se de supetão.

– Sai pra lá! – afugentou Alfredo como se fosse uma mosca varejeira, agora sentado no lugar da elfa.

O velho manco riu, exibindo um sorriso torto.

Kai estalou a língua nos dentes, bastante entretida. Correu os olhos pelo salão com disfarçado desinteresse, sentindo falta de uma figura destacada pelo verde.

Sentiu um cutucão no ombro, virando-se ao ceder sua atenção quando, subitamente, o gosto de outra boca invadiu a sua.

Arregalou os olhos, pega de surpresa.

Lábios com o dulçor de uva pressionavam-se contra os seus.

Precisou apoiar-se no banco atrás de si, dando um passo em falso pela pressão da boca desconhecida. O sabor doce instigou a tripulante a procurar mais daquele gosto.

Kai segurou o rosto entre os dedos, aprofundando o beijo. Invadiu o interior desconhecido e o desbravou com luxúria, as línguas se roçaram e tremulavam pelo ofegar da outra.

Os dedos afoitos da tripulante subiram em direção a nuca, envolvendo os fios macios. Grunhiu, fora de si, apertando a região e rompendo o contato.

Apenas um rastro lascivo de saliva unia as bocas entreabertas.

Kai encarou o borrão, o peito subindo e descendo desregulado. Não conseguiu reconhecê-lo, existia uma névoa incerta e espessa que nublou seu bom senso.

Era uma garota, disso tinha certeza.

Contudo, nada estava muito certo na sua cabeça. Como distinguiria a pessoa de um abacaxi com espinhos na manhã seguinte?

O perfume tropical do caribe e o doce natural das bananas invadiu suas vias respiratórias. Ali, em frente a silhueta sem face, fez sua escolha.

– Que o barco afunde comigo junto – praguejou, dando-se por vencida e trazendo a boca deliciosamente para a sua.

– Essa é minha garota.

Bob urrou orgulhoso, seguindo os corpos que subiam as escadas.

As carícias começaram e se estenderam até o cômodo superior. Um quarto modesto, mas escondido o suficiente para não escutarem.

Empurrou a porta com o pé, amassando as roupas de Uyara com fervor. Sentiu a carne que tanto almejou se derretendo em suas mãos, entre gemidos sôfregos e suspiros.

Os sons estavam até exagerados demais, na concepção de Kai, mas os pensamentos incertos se dissolveram, assim que sua blusa foi arregaçada e os botões estourados.

– Calma aí, nervosinha – sussurrou entre mordiscadas provocantes – Preciso ter roupas pra me cobrir quando terminarmos aqui.

As unhas se arrastaram tortuosamente pelo tronco de Kai, a deixando louca.

– Já está pensando em se cobrir? – perguntou manhosa, empurrando a tripulante contra a parede.

Quase derrubou o abajur no processo, mas a tripulante foi mais rápida e o sustentou instintivamente com a mão livre. Bob descontaria do salário que ela nem recebe.

Kai agarrou as mãos selvagens, tratando de inverter as posições. Agora Uyara mantinha-se encurralada entre o corpo quente e a parede, deliciosamente à mercê de Kai.

Desceu em direção aos lábios vermelhos e inchados, imaginando os lugares que podiam alcançar. Seus sentidos estavam entorpecidos.

Precisava dela, agora mais do que nunca.

– Se comporte – murmurou arrastada, inebriada pelo prazer, o cheiro doce misturado com o amargor alcoólico – Mais tarde deixarei você brincar comigo.

Passou o nariz pela extensão do maxilar, alternando entre selares e mordidas. Desceu lentamente pelo pescoço, beijando a pulsação acelerada.

Ela gemeu.

Kai parou.

Um guincho quase animalesco ressoou pelo cômodo.

– Escutou isso? – perguntou, ameaçando encostar as sobrancelhas.

Uyara tremulou, tremulou mesmo. Como um reflexo nas águas corridas de um rio, uma imagem cada vez mais distante e irreal.

A tripulante se afastou, o suficiente para vê-la com nitidez.

– Geme pra mim – pediu, rouca.

A testa lisa se enrugou, não acompanhando a linha de raciocínio de Kai, mas excitada demais para contrariá-la.

Kai balançou a cabeça, soltando um muxoxo.

– Se não foi você, quem...

A porta se abre abruptamente, finalmente condenando o velho abajur.

Os estilhaços espalharam-se agressivamente pelo carpete, arrancando outro guinchar animalesco. Kai espiou, contrariada, mas não deu tempo de se virar, não conseguia.

Ficou presa na imagem de Uyara, congelada na entrada do quarto.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top