t r i n t a e u m
Fios rubros vieram à sua mente.
Luzes ofuscantes misturavam-se com um odor familiar. Algo próximo de couro surrado e carvão em brasa, quase reconfortante.
Kai foi abraçada por aquele cheiro, convidada a se aconchegar. O perfume de Mateo nunca lhe pareceu tão acolhedor.
Antes era engraçado, um pouco nojento, considerando que o odor natural acompanhava o almíscar suado, comum após três horas de treino.
Os fios foram alongando, adentrando na área iluminada e transformando-se em fagulhas. Pouco a pouco a vermelhidão deu lugar a chamas intensas.
As labaredas expandiram-se gradualmente, espalhando seu calor e invadindo a pulsação agitada da tripulante. Tudo ficara quente.
Não existia mais Mateo, somente o fogo ardente. E, de repente, esse mesmo fogo foi tomado por uma linha fina.
A linha dilatou, revelando uma pupila. Carregada de um sentimento animalesco, totalmente primitivo.
Encarava diretamente sua alma.
Possui cor acinzentada, dissolvida em tons quentes. A luz oscilava, provocando as cores, entre um laranja abóbora e marrom terroso.
As íris escurecidas deram espaço para um esverdeado convidativo, crescendo como tinta em aquarela até, enfim, não restar nada além dele. Os vermes inquietos no interior de Kai se calaram, tomados por um sereno natural.
Arregalou os olhos.
O peso das pálpebras desceu pelos ombros, concentrando-se na musculatura dormente. Parecia ter sido engolida por um redemoinho e girada incontáveis vezes.
– Por Davy Jones...
Pairou os dedos pela fonte, pulsante.
Sobressaltou, engasgando um suspiro surpreso, expulsando o resquício de ar por entre seus lábios.
A região da testa latejava, gritando por um punhado de gelo ou, preferencialmente, uma caneca de rum bem gelada. Como um hábito, pedia sempre o frasco mais antigo e que mais cozinhou no sol na hora da transportação.
Nesse instante infeliz, daria até parte de sua alma inconsequente para aliviar a dor que a assolava entre pulsadas. Ia e voltava, não dava indícios de que pararia.
Por céus, parece que fui atingida por um barril gordo!
Reclamou em silêncio.
Espera.
A mão que alisou a área dolorida parou, hesitando sob um pontinho incômodo na nuca. Não foi um maldito barril.
– Bolas de sinuca quadradas! Aquela velha realmente... – interrompeu-se, retendo todos os nervos do rosto, impassível – Ela me nocauteou. Por que não estou surpresa?
Replicou em voz alta. Somente assim poderia ter uma noção verdadeira do real e do fictício, mesmo não sendo tão surreal, a ideia de sua mãe ter sido responsável por uma coronhada em sua nuca que foi capaz de desacordá-la.
Talvez pedir ajuda para a mulher tenha sido um erro.
Bufou, soltando o fôlego que prendia de uma só vez.
– Quem acendeu as luzes? – levantou a cabeça, forçando a visão sensível contra os raios solares – Não deve ter passado de meio dia...
Segurou uma careta.
Analisou ao redor, tomada pela saturação do amarelado outonal do gramado. O tom casaria perfeitamente com a estação, se não estivessem no verão.
Aquelas gramíneas vívidas desvaneceram-se na secura e desnutrição. Aparentavam murchas como uvas passas e ásperas como feridas cascudas.
Tornou a cabeça para trás, notando o enorme muro contra suas costas. O tom de bege, um branco desgastado, invadiu sua visão.
Sentiu o estômago embrulhar.
Aquela famigerada tintura perdera o brilho, mas o ar ameaçador rondava sua estrutura impotente de tijolos e alguns milhares de denarios. Os anos que passaram se estampavam em forma de imperfeições, um claro sinal de envelhecimento.
Até as coisas podem envelhecer.
Quem diria que, um dia, veria rachaduras manchando a fortaleza real.
– Depois de tantas voltas... – levantou-se, movida pela sensação conflitante dentro de si. Percorreu cautelosamente as pilastras robustas – Meu passado acabou me alcançando.
O pior de tudo é saber que o que acabara de afirmar, não passava de uma mentira fajuta. Porque, diferente dos inúmeros meios que imaginou obrigá-la a retornar, nenhum chegou perto da realidade.
Em que ela escolhera voltar.
Kai havia decidido encontrar seu passado.
– Você vale a pena, ratinha – sussurrou, repetindo aquelas palavras como um mantra. Uma lembrança do porquê estava ali.
Acreditou que o fato de ser lembrada pelos outros a tornaria menos mortal, menos falha e...Menos descartável.
Afastaria a sensação que a perseguia. A mesma responsável por imobilizá-la na hora de pensar antes de agir e a mesma que gritava o quão inútil é.
Apesar de ser esse fardo inconveniente de língua afiada, a coisinha petulante de orelhas pontudas a aguentou.
Não só suportou Kai, como se preocupou com seu bem-estar. A tripulante pôde saber como é ser cuidada por alguém.
Engoliu, afugentando o peso que insistia em empurrar seu corpo para baixo.
Só depois foi descobrir que tratava-se da armadura dos guardas. Uma cortesia da Rosa dos Mares e de seus contatos.
Ricardo e Isaac têm um histórico generoso de serviços, aparentemente. Reencontrar sua antiga tripulação foi algo estranho.
Revê-los sendo Rosa dos Ventos era uma coisa, mas, como Kai, não podia passar despercebida a sensação de que aquele não era mais seu lugar.
Esforçava-se para acreditar nisso.
Mas voltar para Far Mystics, rever Bob e Mateo – e Killian mais tarde – desbloqueou uma série de memórias. Todas as suas versões se uniram naquela semana.
Não perderia mais ninguém.
Movida pelo pensamento, aprumou as costas, retomando a postura firme. Deu passos decididos em direção da grande porta de madeira maciça, entalhada pelas pedras preciosas.
O símbolo real assombra suas noites desde que foi convidada a se retirar da patrulha. Naquele instante funcionava como álcool.
Inflamável.
Atiçou as chamas vingativas que percorriam suas veias. Ardendo, tomando o resto de bom senso que sobrou dessa longa viagem.
Se negava a aceitar. Tolerou a presença intolerável da elfa para, depois, facilmente a retirarem de seu campo de visão.
Bem, o que quer que tenha motivado isso, Kai não deixaria que os carrapatos engomadinhos saíssem ilesos dessa.
Não tinham o direito de tomá-la de si após ter se acostumado com suas ameaças, seu narizinho enrugado e a pele bronzeada.
A maneira que a figura chamava seu nome. Soava como uma melodia hipnótica, um idioma atípico que somente a tripulante conseguia entender.
Percy gostaria de estar aqui.
O temperamento do primata teria sido útil nessa missão suicida. Principalmente se o momento exigisse um pouco de distração e caquinha fresca.
Uma pena que Killian o tomou de volta.
– Espero que aproveite o estoque vitalício de bananas – soou como ameaça, pouco menos que uma mentira.
Respirou fundo, estufando o peito.
Abaixou o elmo metálico com um peteleco, cobrindo parte de seu rosto e disfarçando um pouco de seus traços femininos.
Vestir um desses era permitir que toda a merda viesse à tona. A tripulante encontrava-se atolada até o pescoço de puro excremento.
Imundice que pretendia dar um fim.
~~~~ ⎈ ~~~~
– Rémi!
Kai apertou os dedos ao lado do corpo.
Os soldados pararam prontamente, dando a visão completa da fileira de armaduras lustrosas. A luz natural refletida no metal chegava a atordoá-la.
Havia duas filas, seis homens de cada lado. No meio dos corpos de metal, parecia refém de um banquete perfeito, onde ela seria o prato principal.
À frente de todos, no meio, o mais alto e velho coçou a garganta, disparando bruto.
– Onde está esse homem infeliz?
Todos se entreolharam, compartilhando um pouco de confusão. Talvez também estivessem à procura desse tal Rémi.
A tripulante fora a única que permaneceu ereta, o pescoço rígido e as costas tão sólidas quanto uma barra de ferro. Naquelas condições, ser ela mesma a condenaria antes que pudesse piscar duas vezes.
Ou soltar uma piada improvisada e sem graça para abafar as suspeitas.
Um pigarreio roubou sua atenção, ao pé de seu ouvido.
– O negócio tá ruim aí, hein – murmurou, torcendo a boca.
O guarda grunhiu ou resmungou ou, quem sabe, xingou.
É muito incerto, considerando que os dentes tortos e a carranca do desconhecido bloqueiam qualquer mínima compreensão.
Ele emitiu outro sonido, empurrando o ombro da tripulante e lhe arrancando um sobressalto assustado, seguido de um chiado.
– Quer uma balinha? – indagou entredentes, direcionando uma encarada mortal através do capacete metálico – Se precisar de uma, não precisa agredir. É só pedir.
O estranho meio rosnou, meio ranhou.
– As mocinhas aí do centrão já pararam de tagarelar como papagaios senis?
O tom cavernoso ressoou, deixando a tripulante em estado de alerta. Contudo, era tarde.
Quando deu por si, as esferas escuras e sem alma fixaram-se na figura desalinhada e nitidamente desorientada. Dentre os cabeças duras, era a única com, pelo menos, dois passos à frente da linha.
Em seu passado obscuro servindo à coroa, jamais cometera a gafe de se destacar dos demais por tamanha idiotice. Obviamente teve seus momentos de fraqueza e, após um domingo regado a álcool, a ressaca trouxe à tona seu lado mais desengonçado.
Mesmo assim, a dor de cabeça infernal e os disparos tortos de rifles, serviram de lição. No dia seguinte retribuía com o dobro do esforço.
Chegava a ver os calos dos dedos sangrarem e as feridas arderem pelo suor.
– Negativo, grande!
– Grande?
Kai replicou, mais perdida do que antes.
Agradecia internamente por ter parte do rosto coberto. Assim não deixava sua expressão catatônica disponível para livre interpretação.
– Qualquer dúvida impertinente deve ser dirigida a mim, soldado! – esbravejou com todo ar disponível dos pulmões – Principalmente quando menciona meu nome.
Então era o seu nome.
Maravilhoso.
– Desculpe pelo desvio – Kai pisou duro, erguendo o queixo e mantendo os olhos à frente, encarando nenhum ponto em especial.
– Desvio? – repetiu ácido, disfarçando o amargor do semblante com uma fraca risada sem humor – Então esse é o termo utilizado para justificar o erro dos incapacitados?
– Eu...
– Não perguntei de você – atropelou, voltando-se tranquilamente para o resto de seus homens – Alguém aqui com o mínimo de capacidade mental pode dizer qual é o nome da incompetência?
Alguns ficaram tentados a compartilhar metade da profunda incompreensão que exibiam nas bocas retorcidas.
Um tossiu.
– Nome?
Outro afirmou, convencido.
– Claramente trata-se de algum sinônimo.
– O único simil aqui é você – retrucou outro, da outra ponta.
Kai conteve a vontade de mandá-lo se desfazer daquela orelha e investir numa de qualidade. Existe alguém pior que o Cuspe Seco.
O pior de tudo era reconhecer que o senhor Grande não fez tanta questão do furdúncio, em comparação à como a repreendeu por desfazer uma reta miserável.
Cada dia que passava repudiava a laia masculina.
– Estão longe. Muito longe – enfatizou, passando por entre os corpos com as mãos fechadas nas costas e o peito inflado – A incompetência tem um nome e ela se chama Rémi.
Concluiu, curiosamente parando frente a Kai.
Os homens não ousaram encará-lo diretamente, espelhando-se na tripulante e mantendo a atenção no horizonte. O senhor G permaneceu impassível por longos minutos.
Daquele ângulo, parecia bem menos do que o antigo treinador da tripulante. Aquele sim era um mestre digno de insónias e torções roxas.
– E o que os incompetentes fazem por aqui?
O silêncio foi quebrado pela fungada.
– Servicinho especial – disse o da esquerda.
– Para alguém especial – completou o da direita.
O senhor Grande rugiu, assentindo, – ou seria mais uma tentativa de um sorriso? Kai nunca saberia – tornando-se para si.
A feição ogra aproximou, levando o bafo quente rente ao seu rosto. O hálito do superior carregava um almíscar de saliva e ferrugem.
Algo que, diga-se de passagem, não é muito fácil de se imaginar. É específico demais, mas qualquer um naquela posição entenderia a pobre tripulante.
Maldito dia para ter as narinas perfeitamente abertas.
– Rémi irá fazer uma visitinha a nossa preciosidade.
Kai inclinou-se reflexivamente para trás, hesitante.
Ousou cogitar a possibilidade de um sorrisinho surgir nos lábios rugosos, marcados pela passagem de tempo. As linhas eram parentes distantes das rachaduras do castelo.
Só então que percebeu.
A ficha finalmente caiu como um corpo de um bebum batendo contra as correntezas do mar.
– Eu sou o Rémi – ponderou em voz alta, ameaçando abaixar a cabeça quando foi impedida pela mesma carranca feia.
– Não, incompetente – aproximou-se predatoriamente, rondando seu petisco – Hoje você é a camareira de Vossa Alteza.
Os homens ao redor abafaram as risadas.
Nem se esforçaram para disfarçar o quão fodida a tripulante estava. Não conhecia a definição de enrascada, até atravessar aquele portão e se infiltrar na guarda por livre e espontânea vontade.
Isso tudo depois de, supostamente, ter quebrado o nariz elegante da princesa e fugido dentro de um navio cor de sangue, dono de uma bandeira robusta.
Por Uyara, reforçou.
Estava ali por Uyara.
– Trará o brunch até os aposentos da herdeira. Sem conversação, tampouco flertes – arranhou a garganta, acumulando uma bola espessa de saliva antes de cuspir perigosamente próximo de Kai – Está claro?
Os resquícios úmidos pingaram na bochecha. Uma lembrança desagradável de sua vida ordinária como mera subordinada.
Naquele instante, precisou unir suas forças para não meter um pontapé no traseiro geriátrico daquele peixe podre.
– Como o dia – retribuiu o meio sorriso, ocultando o divertimento que dançava pelos seus lábios – Se assim insiste, senhor Grande, levarei o lanche.
Levou a mão à testa, dando os devidos cumprimentos.
O homem inferior soltou um murmúrio, contentado. Ao se virar, reparou nos cortes cegos espalhados pelo queixo, resultado do trabalho mal feito de lâminas cegas.
Logo deixou o jovem soldado Rémi, passando pelo corredor de armaduras a passos impotentes.
Kai pendeu a cabeça, correndo os olhos para o bordão de quatro pontas – em formato de diamante, estampado gloriosamente em seu peito.
– Desde quando trabalham com identificação? – perguntou a si mesma num muxoxo, estalando a língua no céu da boca – Na minha época não tinha essa frescura.
Por fim, arfou, evitando pensar no coitado e seu paradeiro. Se dependesse de Rosa dos Mares, estaria boiando sem rumo como um barril podre.
Geralmente não se preocupava com terceiros. Era uma forma eficaz de evitar a fadiga e a exaustão que era o convívio social.
Uma tentativa desesperada de sentirem-se melhores consigo mesmos.
Empatia é para quem tem tempo de sobra para perder, preocupando-se com pessoas insignificantes. Uma maneira mundana de tentarem ser menos egoístas.
Quer pensamento mais individualista que esse?
Ao menos era assim que pensava.
Antes de conhecer a elfa e tudo mudar.
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As rodinhas do carrinho gemiam dolorosamente pelo piso, arrastando-se com certa dificuldade. O som insuportável ecoava pelo corredor, quase como se gritasse do fundo de seus pulmões.
Uma prova de que a manutenção do lugar decaira consideravelmente.
O cheiro de óleo invadia suas narinas toda vez que insinuava usar algum equipamento. Quase enjoava da qualidade do lugar e a extrema facilidade que tinham de manter a ordem.
Em contrapartida, agora ficava tentada a sentir pena.
Seguiu uma curva, pouco importando se os bolinhos de mirtilo rolaram e ameaçaram cair. Geralmente Kai tinha o hábito de se destacar, mas não nesse caso.
Fazia questão de fornecer o pior serviço de entregas para Vossa Alteza. O nível inferior de serviço que a coisinha desalmada merece.
Reduziu a velocidade, avistando um dos vigílias no posto de meio dia. Uma maneira sorrateira do comandante deixá-los descansar, sem perder sua fama de cruel.
Sorriu falsamente.
– Até que enfim é sexta-feira! – cumprimentou descontraída, acenando brevemente com a mão e mantendo o carrinho em movimento com a outra.
O homem de lata não se mexeu. A linha da boca permaneceu tensionada, praticamente costurada, sem nenhuma expressão.
Kai conteve os arrepios indesejados de se espalharem pelo corpo. Sentiu o peso sufocante do sondar acompanhá-la, até sumir na próxima direita.
O sorriso aberto escorreu de seu rosto, dando lugar a uma careta.
Assustador.
– Bati meu ponto – disse tranquila, com o corredor livre, largado de mão o carrinho com os comes e bebes.
Assumir a posição de serviçal não era muito divertido na prática. Não é atoa que a punição por desacato ao senhor Grande era visitar os aposentos da princesa.
Era uma espécie de joguinho sádico, lançar seus homens para o nicho da vil serpente marinha.
– Senhor Grande – resmungou, erguendo o visor metálico apenas o suficiente para identificar as entradas – Um grande bundão, isso sim...
Perdeu a voz, deparando-se com escadas em caracol. Uma brisa fria e repentina envolveu seus braços cobertos, adentrando as fendas quase inexistentes da armadura.
Lá era onde mantinham o lixo que ninguém tinha coragem de jogar fora. Deixavam os prisioneiros acumular como inúmeros peixes na mesma rede de pesca.
Kai se recorda vagamente da última vez que esteve ali. A arremessaram como nada menos do que restos de carne podre, tratando de obrigá-la a mergulhar suas mãos na mais pura pimenta moída.
Assim os criminosos evitavam de forçar as correntes, incapazes de esfregar o próprio rosto imundo. Aquele odor ardido é um carinhoso lembrete de que encontravam-se no inferno.
A tripulante ficou tentada a massagear os próprios pulsos. Ainda doíam pela lembrança das algemas de ferro maciço.
Deu um passo à frente, sentindo a diferença entre o chão de mármore e a escadaria áspera. Os degraus íngremes eram a pequena previsão do que a aguardava no topo.
A partir daquele ponto, não teria mais volta. Apesar de ter essa certeza bloqueando seus movimentos, afugentou o resto de hesitação que guardava com um balançar.
Ali, naquele lugar, dando voltas enquanto subia, notava certa familiaridade com a sua história. Nem um pouco inédita ou memorável.
Detestava a ideia de estar repetindo as mesmas coisas do passado. Fadada a vivenciar esse redemoinho inconstante e repetitivo que é sua vida.
Fugir nunca adiantou, no final das contas.
Percorreu os tijolos cheios de musgo com a ponta coberta dos dedos. O metal roçou delicadamente no esverdeado, o espalhando.
Nunca acreditou nas mesmas causas que sua mãe, a única coisa que parecia ser parte de seu mundo ideal, era a guarda. Fazer parte dela lhe deu um propósito maior.
Talvez essa seja a questão.
Ser movido por um propósito é algo desgastante. Suga e consome sua vitalidade de pouco em pouco, até não se reconhecer mais.
A maneira que saiu do reino não foi uma das melhores, mas, de uns tempos pra cá, começou a levar o ato final da princesa como um favorzinho.
Algo como, seja livre, fuja e arrume logo uma identidade decente e com um pouco mais de personalidade.
Embora tenha deixado coisas para trás, não as abandonou, de fato. Sempre carregaria suas vivências e as pessoas que fizeram parte delas, consigo.
Elas foram as responsáveis por moldá-la.
Beirando o último passo, esqueceu como se respirava. Os membros congelaram e a cabeça ameaçou girar, enfraquecida.
Estar ali trazia à tona os esqueletos que jurou ter enterrado. Era muita informação para as engrenagens enferrujadas da tripulante processarem.
Aspirou o ar, salpicado de mofo.
Encheu os pulmões, tomando força para, então, continuar. Não enfrentou sua mãe e a ameaçou com uma lâmina afiada atoa.
As paredes cresceram, dando a impressão de encolher preciosos centímetros devido a distância entre o chão e o teto. Essa é a sensação que o rei proporciona aos seus queridos súditos.
Deu de cara com o corredor estreito.
Sem pensar direito, começou a avançar, remoendo o turbilhão de emoções que colidiram em seu peito. Seus batimentos cardíacos aumentaram.
Tum tum.
Explorava rapidamente as celas, alternando entre as da esquerda e da direita. Em sua maioria tinham grades barrando a passagem, uma ou outra – as mais antigas – tinham a porta opaca.
Certa vez, curiosa, perguntou para Mateo, onde entregavam os pratos das refeições. O ruivo contentou-se em sinalizar, arfando uma curta risada vazia.
– Não entregam – respondeu, vago o bastante para que conseguisse interpretar a totalidade daquela situação.
Uyara não estava em uma delas.
Não podia.
A necessidade de encontrá-la era maior do que qualquer coisa. Até esquecera da maldita coroa que Killian tanto queria.
Provar para seu antigo capitão seu valor e sua superioridade não fazia mais sentido. Naquela altura do desenrolar da novela, seu final perfeito era naquela ilha isolada, provocando a elfa a cada cacho de banana derrubado.
Um sonido fino roubou sua atenção.
– O que...– murmurou, meio perdida.
Parou no lugar, vasculhando pelos lados à procura do barulho que fez seus tímpanos tremerem. O eco dificultou encontrar a origem do assobio.
A única coisa que funcionava naquele ambiente degradante.
– Estamos bem aqui! – sinalizou, mexendo os braços, pendurados nas barreiras de ferro.
Kai ignorou o almíscar açucarado roçar seu nariz.
Alcançou o borrão, meio ofegante. Precisava fazer o dobro de esforço só para manter seu disfarce mequetrefe e sustentar a monstruosidade reluzente.
Levantou as sobrancelhas, incontestavelmente surpresa.
– Você não parece uma elfa – reduziu o tom incerto, enrijecendo a musculatura do rosto.
– E você fede a álcool – pontuou, erguendo o canto do lábio vermelho – Bêbada demais para ser um guarda.
– Não que eu te deva satisfação, mas fique sabendo que encerrei minha conta no bar hoje de madrugada – argumentou com orgulho, apoiando a mão na cintura.
A mulher, dona de cabelos escuros como a penumbra e olhos azuis como as águas escuras de um rio profundo, ladeou a cabeça.
Emitiu alguns estalos, decepcionada.
– Típico dos piratas – desdenhou, exibindo um sorrisinho afável – Pensei que eles tinham um bom senso de localização. Demorou seis minutos inteiros para me enxergar nessa pocilga.
– Eu não... – se impediu de continuar, travando com a boca aberta. Enrijeceu a postura, retomando na defensiva – Como sabe?
– Palpite de sorte. Agora eu tenho certeza – exemplificou, jogando alguns de seus fios para o lado. Inclinou-se para frente, casualmente – Diga, chiquitita, essa é sua primeira vez no meio do disfarce? Porque, en realidad está...
O sotaque dançou pela língua, soando como uma melodia conhecida.
Deixou a frase ser levada pelo vento, indicando com ar pretensioso pela extensão metálica. Quando a estranha a analisava daquele jeito, a tripulante sentia-se um perfeito atum enlatado.
Kai enrugou o nariz, não só pelo comentário, mas pelo perfume doce, mais intenso comparado com o escritório de Killian. Naquele ponto é quase impossível respirar.
Repentinamente um pequeno feixe de luz agrediu a visão da tripulante, obrigando-a a fechar. Ao abrir, pôde notar um broche incomum, próximo do vão dos seios da mulher.
Reconhecimento despontou no semblante, durando poucos segundos antes de ser substituído por algo bruto. Uma nuvem carregada escureceu o castanho.
– Sua piranha dos mares desdentada – alcançou a gola da ladra, puxando o corpo contra as grades sujas – O que fez com Uyara?
– Quem? – bateu os cílios, sem perder o sorriso vermelho desentendido.
Kai imitou o sorrir, carregando uma pontada de insanidade.
Ladrões eram especialistas em teatro. Fingir não era uma arte, era um completo estilo de vida e o mundo era o seu palco.
– Acredito que seja desnecessário entrar no quem e o porque – contraiu a mandíbula, perigosamente próxima do rosto alheio. Somente pelas barras mantinham uma distância segura – Imagino que você e seu parzinho não sequestrem muitos elfos por ano.
Algo distinto transpassou pelo semblante maquiado, durando poucos segundos antes das íris cintilarem entretidas.
– No natal? Principalmente – debochou, descendo os olhos para os dedos que apertavam o fino tecido – Sei que de onde você vem eles não dão valor ao estilo, mas poderia fazer o favor de liberar minha liniéparrie?
A tripulante ignorou.
– Me diga onde ela está.
– Foram duas perguntas, chiquitita – arqueou a sobrancelha meticulosamente penteada. Chegava a soar irritante o quão simétrica provava ser – Quem fez o que e estar em quem?
– Não insinue asneiras – retirou o capacete de qualquer jeito com a mão, o arremessando para longe. Daquele jeito as pupilas dilatadas realçam os traços vorazes – Você vai me falar.
A mulher demorou-se a revirar os olhos.
– Piratas e seu convencimento nato. Sempre acham que todos ao seu redor lhe devem obediência.
– Onde está Ramires mesmo? – indagou provocativamente, sendo recebida pelo silêncio e o movimento lento da glote – Não é atoa que recebemos essa fama. A diferença...
Inclinou-se, soprando a respiração quente contra os poros da gatuna. Daquele ângulo, enjaulada, parecia bem menos do que era.
A tripulante daria todos os denarios de seu antigo capitão, para registrar essa cena.
– É que não é só mero convencimento. Sabemos das coisas – encostou suavemente na gaivota desenhada, traçando formas invisíveis por cima – Se quer que o tragam de volta, me diga onde está Uyara.
O sorriso carnudo e esbelto evaporou. Finalmente os lábios encontravam-se alinhados, esmagados pela pressão da incerteza.
A mulher pigarreou.
– Depois da última porta – abaixou o olhar, indicando silenciosamente – Tem uma sala oculta pelos tijolos. Ela ainda está viva.
– Como sabe se...
– Nós, meros golpistas, também sabemos de algumas coisas – tentou exibir um sorriso, mas claramente não encontrava-se no clima para simpatia forçada – Conversamos pelos canos. Esse inferno tem uma acústica boa.
Kai assentiu vagamente, libertando-a abruptamente.
Levantou-se de prontidão, chutando o pedaço de metal e rumando até os tijolos desencaixados e restos de reboco endurecido.
– Chiquitita.
O chamado cabisbaixo fez com que virasse, direcionando uma olhadela entediada por cima do ombro.
Mesmo impaciente e totalmente desinteressada pelo que a outra falaria, decidiu aguardar uma conclusão.
– É melhor se apressar – aconselhou, ponderando consigo mesma antes de prosseguir, quase afetada – Não escuto a perita a mais de duas horas.
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