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Os olhos ávidos procuraram o alvo. Percorreram desde as copas das árvores, até suas ramificações emaranhadas numa teia verde, com direito a flores e frutos.
A coloração alaranjada dava a impressão da chegada do outono, no entanto, não passava de um grande equívoco. Bem no fundo das folhas existia o pequeno verde, pincelado pelos riscos alaranjados.
Encostada contra o tronco espesso, inclinou a cabeça para bisbilhotar o movimento serelepe do pequeno animal. Seu saltitar era contínuo, vez ou outra parando, coçando o focinho com as patinhas.
Uma pequena ruga manchou a pele lisa escura. Ficou na dúvida se realmente o seguiria, se, de fato, valeria a pena interromper sua vida.
O cantar dos kapapos ecoavam, sendo um dos poucos barulhos. Na verdade, estava mais próximo de uma melodia íntima da floresta do que sons desconexos.
Sempre esteve muito certa das coisas, via com clareza.
Sondou novamente a pobre criatura, respirando, pulando, mal sabendo o que a aguardava. Permitiu-se desviar a atenção para os pontos verde musgo voadores, batendo graciosamente as asas.
Tão pequenos.
Mesmo assim, tão grandes.
Grandes demais porque exalavam liberdade. Traziam a sensação do que é ser livre, aproveitando o sopro de vida oferecido.
Os seguiu atentamente, hipnotizada. Podiam ir para qualquer lugar apenas num bater de asas, sobrevoaram lugares e se aventuravam com ou sem a família.
Um deles desceu, explorando os arbustos e deixando os dois para trás. Sozinhos, eles deram voltas, roçando as penas umas nas outras e, por fim, o bico.
De repente a garota foi preenchida por um aperto no estômago. Suas vísceras se embolaram e a boca secou.
Inveja.
Sentiu inveja.
Por que criar criaturas tão livres, não solitárias e com um senso de mundo mais amplo do que o seu? Era totalmente injusto.
Não viu o tempo passar, perdida no planar sereno das aves. Tudo decorria de forma lenta, quase parando.
O tempo nessas bandas passava devagar, quase imperceptível. Apenas o distinguiam pelo sopro da brisa e a coloração das plantas já nascidas.
Até o outono demorava para chegar. As estações não passavam, eram empurradas e dificilmente mudavam.
Tudo era igual na vila.
Uma grande mesmice eterna.
Não que não amasse a sua família. Eles eram seus guias, a razão de ter sobrevivido em meio a tantos conflitos com os ordinários.
Mesmo assim, queria mais. Sempre sonhou por algo a mais.
Os olhinhos cintilantes e minúsculos a encontraram. Embora os segundos se arrastassem, o que aconteceu fora tão rápido que não soube dizer se tinha sido coisa da sua imaginação.
E seu amiguinho parecia saber disso.
Engoliu o puro nada.
A criatura verde piscou em sua direção.
Os fios curtos fizeram cócegas na nuca, claros no tom certo de um galho de salgueiro. Muitos conhecidos diziam que, em contato com os raios solares, adquiriam cor de cobre.
Embasbacada, impediu que os arrepios se espalhassem pela pele sensibilizada. Não havia porque se impressionar, afinal, nem sabia se, de fato, tinha acontecido.
Uma piscadela sútil. Algo tão humano vindo do animal.
Quando deu por si o indicador pressionou o lábio, soltando a linha de fibra. O arco agora encontrava-se ao lado do corpo, completamente obsoleto.
Nada tinha mais sentido.
– Esse será nosso segredo – sibilou num movimento silencioso de lábios. As íris verdes brilhavam, uma pequena fagulha de esperança no peito.
Foi quando o animal enfim sumiu de vista, não restando nada além da sensação de vazio em seu interior.
Um sonido ressoou atrás de si, um galho se partiu. Num movimento rápido virou, esperando se deparar com o irmão mais novo ou Kringle – amigo de infância e atual opção para procriação.
Porque aqui não tinha nada novo e, não que Uyara não sentia-se confortável para tirar sua roupa na frente dele, havia corrido várias vezes pelas casas com apenas um colar ou brincos da mamãe. Claro que, era apenas um bêbe, mas o rapaz a vira.
Não parecia certo. Eles se conheciam há anos e, por meses, forçaram a projetar um futuro ao seu lado, como esposa e mãe.
Embora usasse do mesmo esforço para imaginar a cena e desenvolver um sentimento amoroso, não havia nada. Simplesmente não sabia o motivo.
Era uma névoa espessa, confundindo seus pensamentos. Impedida de visualizar como seria se seguisse seu destino.
(Ou o destino que querem para si.)
Os dedos se apertaram em torno da arma, preparada para qualquer coisa. Contudo, essa coisa nunca veio e, com ela, o sentimento de que estava sozinha prevaleceu.
Levantou as sobrancelhas, surpresa. Notou o pedaço da árvore caído, partido próximo aos seus pés.
Para não dizer bem abaixo dele.
Se sentiu uma imbecil na hora. Sequer havia sentido o contato do graveto contra a sola do pé, então que tipo de caçadora imprestável era?
Poderia ter sido um urso ou até um pé grande. Os vizinhos não costumavam fazer muitas visitas, mas quando apareciam, era um tumulto.
Lutavam por recursos e o lado leste era desprovido de muitas coisas. Mal sabiam que, assim como eles, o lado norte também sofria.
A garota sabia que, nesse ritmo, o inverno rigoroso passado não seria comparado com esse. Milhões não só passariam frio, como fome.
Subitamente uma pressão foi colocada em seu peito. Fora tomada pelo temor, ameaçando perder o fôlego.
– O coelho – murmurou, desviando-se prontamente para a criatura que, depois de longos momentos de reflexão, havia partido – Merda.
Praguejou.
Na terra, uma figura deformada fora deixada para trás, apenas um indício de que, em algum momento, ele esteve lá. Ao menos não foi um delírio da garota.
Mas era o que menos importava.
– Porcaria! Porcaria! – levou as mãos à cabeça, afastando-se da árvore com os nervos dilatando. Enfim, caiu de cara na realidade – O que falarei pra eles?
A realidade dolorosa.
Onde não era um pássaro, muito menos tinha o mínimo de liberdade desejado. E, se por segundos ao olhá-los sentiu que poderia ser um deles e voar....
Agora cairia de cara no chão. Bem feio.
Não havia alimentos o suficiente. Caçar por diversão, tornou-se uma necessidade, apenas e somente para sobreviver.
Ninguém do vilarejo permitia ter bichinhos de estimação porque não existia mais isso. Eles eram comida.
E Uyara acabou de deixar o jantar da família escapar por um erro superficial. Seu pai ficou sem comer terça passada por ter vendido o Javali para cobrir o aluguel.
Desde a crise o imposto aumentou, como se apenas os favorecidos de Water Mist sofressem. Sendo que foram eles mesmos que pediram por isso.
A guerra toda, eles causaram, cobiçando além do que seus olhares alcançavam e a compreensão chegava. Os seres élficos podem ter entrado na batalha, mas instintivamente, sem escolha.
É tão errado se defender?
Queriam tomar seu lugar, sua magia, sua essência. Tudo aquilo que os ancestrais deixaram para eles, algo tão íntimo e profundo assim de uma cultura não deveria ser compartilhado e distribuído para atrair turistas.
Ou compensar senhoras desafortunadas em busca da magreza e juventude. Elixires são remédios, não a cura milagrosa dentro de um frasco qualquer.
Andando de um lado para o outro, pensou. Continuou pensando, até a razão tomar forma e ela se lembrar do porquê, exatamente, aceitava tudo aquilo.
A fome, as disputas, a tal mesmice que a sufocava dia após dia.
Suportava tudo aquilo, por eles.
O peito da garota inflou, liberando todo ar dos pulmões. Precisou parar para analisar, ás vezes era melhor do que sair atirando controlada pelo pânico.
– Arrumarei algo melhor – prometeu para si mesma, repetindo como um mantra enquanto passava o arco entrelaçado ao corpo – Sempre tem algo melhor, basta procurar.
Concluiu em voz alta, buscando um pouco do otimismo da garotinha que explorava os córregos cristalinos e plantava sementes misteriosas que achava só para ver o que iria crescer.
E assim, com um pouco de esperança, seguiu mata adentro.
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Um longo suspiro lhe escapou, aproximando-se a passos duros do amontoado de gente. A maioria das moças tinham os fios longos molhados, escorrendo pelas costas.
Já o estado dos homens não era muito diferente. Exceto pelo fato de que a umidade na testa e debaixo do braço não era água limpa e, sim, o próprio suor.
Buscou ignorar o odor, uma mistura de lavanda com brejo.
– Olha só quem decidiu aparecer!
O tom alegre do senhor sobrepõe o burburinho agitado das vozes. Eram tantas que, caso não elevasse o tom, jamais teria o escutado.
Os braços se abriram, mas a garota permanecia focada demais em chegar na casa avermelhada no final daquela curva. Torceu para não precisar lidar com gente.
Pois olha só! Havia uma porção para lidar! Um cardume inteiro!
– Que benção – disse baixinho. Conteve um revirar de olhos, enrugando o nariz pelo intensificar do confuso cheiro.
Os pés doloridos se arrastaram para o lado contrário do homem suado. Podia jurar que cortou seus dedos no caminho de volta.
Mas não tinha certeza.
Podia muito bem ter sido durante a caça, arrastando a pele nas árvores para escalá-las ou na hora da aterrissagem. Não conseguia amenizar o impacto e, toda vez, assustava todas as criaturas em volta.
– Vejo que conseguiu algo – intrometido, recaiu para o chaveiro de roedores, as pernas amarradas juntas e os rabos murchos. Sorte que Uyara aproveitou o momento para contorcer o semblante numa careta – Se divertiu?
Seus membros enrijeceram.
Ele desviou do pessoal, arrebitando seu bigode. Os pelos ricocheteiam contra o vento, dando a sensação de se moverem de um lado para o outro.
Um simples movimento que deixou um rastro amargo em sua garganta. Queria apertar e torcer os pelos até desgrudar da cara velha.
– Diversão? – esmagou a boca num sorriso contido, guardando o escárnio para depois. Iria precisar economizar – Ah, sim! Aproveitei bastante.
Fingiu lembrar-se de seu momentinho de lazer. Se supostamente era para se divertir procurando uma refeição decente para não morrer de fome, bem, talvez houvesse algum problema consigo.
Continuou seguindo, ignorando a maneira indiscreta que lhe direcionou as perguntas. Além do tom robusto soar arrogante demais, como se medisse o valor de sua caça e a invalidasse.
– Sabe muito bem pedir auxílio quando necessário, certo? – Uyara ficou compelida a retrucar um curto e grosso obrigada, apenas para encerrar o assunto. Mesmo assim, o homem pareceu não perceber e apenas prosseguiu, brando – Rosália, minha amada filha, anda treinando nossas crianças. Para, você sabe...
Para sua infelicidade, tratava-se do chefe da aldeia. O peitoral estufado acompanhou o movimento sutil da sobrancelha.
Não havia muito o que fazer quanto a isso. Apesar de, até hoje, se perguntar quem exatamente foi o responsável pela eleição.
Ele sempre fora um homem respeitado, depois tornou-se um senhor de voz presente e, depois, um líder em potencial, com uma família adorável. Deve ser porque sempre quis as coisas do seu jeito e sempre falou como as queria de maneira clara.
Pessoas sem rumo e sem alguém na frente tendem a aceitar ordens, como se a necessidade de comandar e ser comandado não fosse somente do mundo humano.
Uyara se conformou, assim como todos os outros, mesmo não lembrando ao certo como e quando chegaram àquele ponto. Como o escolheram, quem, ou se, realmente, foi escolhido.
– Na verdade, não. Não sei – enfim o encarou devidamente, tornando as pedrinhas em seus calos mais reais ao parar. Neste momento, não queria se conformar – O que nossa querida monitora pretende dando armas para criancinhas?
As sobrancelhas grossas e grisalhas ameaçaram se encostar. A face enrugou, demonstrando parte da indignação.
Se comportou feito uma garotinha malcriada. E, talvez, não tenha sido uma sensação tão ruim, no final das contas – vê-lo com a cara de quem chupou o limão mais azedo da região era cômico.
Não aceitaria calada.
– Ora, menina birrenta – contorceu o bigode, contrariado pela postura da elfa. A veia dilatada em sua testa enrugada ficou mais aparente – Não fale assim.
Ela segurou o olhar com firmeza, torcendo para o vento soprar e o homem ficar preso na mesma expressão de uva passa.
O contato apenas se rompeu quando braços fortes passaram por cima de seus ombros. Quase xingou, atingindo o limite, mas interrompeu-se ao ver quem era:
– Legítima defesa. É melhor nos atacarem preparados do que permitimos sermos levados sem lutar – cortou, abrindo um amplo sorriso brilhante. Tornou-se para o chefe carrancudo, sem perder o ar de simpatia – Cada um faz a sua parte, assim como Rosália. Certo, Sr. Ashveel?
– É melhor ninguém atacar, para início de conversa – tornou a protestar, recebendo um puxão no ombro. Sem entender, ganhou apenas uma piscadela.
A garota percebeu uma faísca no olhar carvalho, um marrom escuro forte. O tipo de cor presente em muitos seres rancorosos.
No entanto, aquele era Kringle.
Desde as pontas dos fios laranjas como as folhas de outono, até os dentes simetricamente alinhados, exalavam empatia. Porque era o que mais fazia, se por no lugar do próximo, mesmo agora com o homem insuportável ao lado.
– Por favor, menino Kringle, me chame de Senhor – por baixo do bigode cresceu um sorriso compadecido. Do bolso da calça retirou um frasco distinto, pingando na retina seca – O ideal para um convívio harmônico na sociedade é cada um fazer sua parte, mesmo tendo alguns que se recusam a contribuir.
A garota se contorceu, ignorando a alfinetada. Evitou encarar por mais de três segundos os olhos vazios piscando, absorvendo a gota do recipiente misterioso.
Por instantes se pegou analisando o vidro roxo, meio cintilante. Havia linhas texturizadas nas pontas, formando um semi pentágono, guardando um contéudo azul céu.
Curiosamente algo naquele simples objeto roubava sua atenção.
O amigo não notou, apenas deu um último aceno em despedida quando o chefe precisou se retirar por motivos de "sua esposa não sabe cozinhar um mísero cervo"
– Por que continua dando corda pra ele? – trouxe o corpo menor para perto do seu, balançando fracamente conforme faziam a curva.
A garota não tentou dar corda, até pretendia passar reto. Sempre fora muito gentil com todos os moradores, mas aquela não era uma boa hora.
Pressentiu que não duraria muito tempo. Não tinha paciência nem luz nesse mundo para conseguir aturar aquele maldito bigode hoje.
Finalmente cedeu a uma longa revirada de olhos.
– Disfarço muito bem, mas não me responsabilizo se ele escolheu um péssimo dia para me perseguir – defendeu-se, inconscientemente os dedos apertaram o fio do arco até os nós ficarem brancos – Não há cabimento algum ensinarem Tim a avançar como um animal e jogá-lo num campo vasto cheio de sangue.
– Sabe que não quis dizer isso. E também sabe que se defender é certo, a não ser que prefira apanhar calado e deixar que nos levem como da última vez.
Sem pensar, Uyara prende a respiração.
Detestava chegar a tal ponto lastimável. Apenas de mencionar o confronto armamentista lhe dava uma profunda sensação de perda, mesmo que não tivesse mais de oito anos na época.
Era mais claro que o dia, mais certo do que a água banhando os rios e descendo pela cachoeira central. Os gritos permaneciam frescos, choros agudos, misturando-se com súplicas alarmantes.
Pediam piedade, oravam por isso. Mulheres e crianças se ajoelharam.
Canhões se chocando contra residências, seus vizinhos abandonando o lugar, preferindo trabalhar para eles ou, simplesmente, fugirem em busca de paz.
Se não acreditava no inferno, era por um motivo. Passou por ele, vivenciou cada minuto lento e tortuoso.
Passou por tudo isso e conseguiu viver para contar história. Mais uma razão, não só para ser grata, mas para evitar ao máximo qualquer conflito iminente.
– Enquanto eu estiver viva, pisando nessas terras, não deixarei que aquilo se repita. Me nego a crer que violência é a única solução – balançou a cabeça fracamente. Os ombros pesavam mais desde que entrou nessa conversa – Num confronto de tamanha proporção desses nenhum lado vence, ambos perdem. Sejam vidas ou até a paz.
Kringle não respondeu, não sabia o que dizer.
Tinha consciência das noites mal dormidas e dos pesadelos frequentes de Uyara. Mesmo sabendo que acreditavam em coisas distintas, decidiu escutá-la.
Era grata por ter ele ao seu lado. Embora fosse insuportavelmente gentil com quem não merecesse, estava lá, assim como ela estava, por ele e para ele.
Os tijolos começaram a se desencaixar, denunciando que se aproximavam. O caminho de sua rua, antes pavimentado, depois de muito trotar e correr acabou perdendo o tom rosado, entrando num cinza encardido.
Ao redor uma quantidade significativa de flores desabrocharam. Era uma das poucas coisas que mudaram para melhor e isso, mais do que tudo, era motivo de perseverança.
Enquanto as plantas crescerem, haverá vida e a esperança de que dias melhores virão. Se elas conseguiram viver, elfos também podem, certo?
– Meu irmão não se envolverá em nada. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para não cair nesse meio.
– Teme que, se ele entrar, não consiga sair. Não é? – engoliu o bolo na garganta com dificuldade. Evitava imaginar o dócil garoto com uma espada, no mínimo desastroso – Ele tem potencial, não pode...
– Posso, Krin. Não só posso, como vou – se perdeu no balançar das folhas, torcendo mentalmente para chegar em casa e poder matar a angústia em seu interior. Queria abraçá-los, precisava disso – Tim tem mesmo potencial, mas para coisas boas. Coisas que tragam frutos para ele e fé por um futuro decente, algo melhor do que apenas sobreviver.
Ele pigarreou, levando a mão livre até os cabelos arrepiados.
Soube no segundo seguinte que o amigo não tinha a mesma visão. Imaginava que o pequeno perderia coisas, se sentiria isolado e de fora pelos colegas estarem brincando sem ele.
No entanto, aquilo não era uma atividade recreativa, era sério. Tratava-se das vidas deles, dos moradores em geral e de pessoas fora da redoma.
Uma pequena vila desenvolvida seria vulnerável demais a ataques externos, não é? Por isso projetaram uma grande bola, impedindo de entrarem na parte mais profunda, no coração da floresta.
Norte e Leste se dividiram, enquanto Sul e Oeste mantinham a Mãe Terra, uma parte livre apenas para apreciar e cultuar suas maravilhas.
O seu norte era diferente do norte deles. Lá era maior, as chances de disputa também aumentavam, mas a sociedade exterior não podia ignorar e se dar ao luxo de manter as coisas como estão.
Não sabendo o conhecimento que guardavam para si. O lado místico e desenvolvido do pequeno mundo dentro daquele globo.
– Isso nunca vai acabar – um murmurinho baixo lhe escapou. O tom distante de antes foi preenchido pelo embargar – Odeio imaginar o dia de amanhã e perceber que não há nada para comer.
Nem para fazer, completou silenciosamente. É a definição tenebrosa de impotência, responsável por tirar seu sono.
Cobiçavam cada coisa, como um pirata imundo rondava os tesouros alheios preciosos. Prestes a dar o golpe final.
Ambos pararam no meio do caminho. Kringle sentiu a necessidade de tornar-se para a garota chorosa, pondo os dedos frios em contato com a bochecha úmida.
Algumas lágrimas caíram, aquecendo a região. O garoto prendeu-se naquele par de olhos esverdeados brilhantes, pouco a pouco sendo consumido.
Não era de hoje se deixar levar pela imagem celestial. A face levemente avantajada realçava o nariz pequeno e os cílios grandes, mas nunca em sã consciência desceu o olhar pela área inexplorada dos lábios.
Pretendia manter assim. Pelo bem da amizade deles.
– Era para estarmos seguros aqui dentro, mas às vezes eu me sinto preso. Assim como você – confessou, uma pontinha de receio por assumir em voz alta. Se sentia culpado, sabia que não era um prisioneiro.
Ao menos não deveria ser.
Uyara passou do estágio da culpa. Em um grau mais avançado, sua garganta fechava e a sensação de sufocar a impedia de sentir qualquer coisa que não fosse desejo.
Desejo de respirar. Desejo por ar puro e um céu mais vívido.
– Não me contento com apenas metade de um mundo. Do nosso lado mal conseguimos ver as constelações – quase perdeu a voz, falhando durante preciosos segundos – Somos reféns, apenas por querer preservar o que é nosso por direito. Nossa ancestralidade.
– Ei, calma. O senhor não deixará barganhar a vila por tão pouco – a voz alcançou o tom ameno, acompanhando a carícia do dedão. Ia e voltava, deixando uma sensação estranha na pele macia – Os lá de fora não tem nada para nos oferecer. Apenas tentamos manter o que temos com acordos, contanto que fiquem longe.
A garota ficou tentada a fechar os olhos e ceder ao carinho reconfortante. Torcia para a tonalidade escura de sua pele disfarçar o futuro rubor.
Ela quase brilhava diante do olhar do amigo. E Uyara apenas foi tomada pelo questionamento, atordoada pelo contato.
Por que tínhamos que ser só amigos? Quem declarou isso?
– Meu medo é que ele inconscientemente já tenha feito isso – limpou o resquício das lágrimas com o punho. Fungou uma, duas, até três vezes – Percebeu aquele frasco?
De repente, ele se afastou.
O carinho cessou e algo distinto transpassou nas feições levianas do rapaz. Pela primeira vez em tempos, achou presenciar um conflito dentro do olhar ameno.
A elfa notou o comportamento diferente e se preocupou. Buscou os dedos esguios masculinos, agora ao lado corpo.
– O que houve? Ficou pálido como um morto – roçou os nós dele, contendo o salto assim que ele desviou do contato. Parecia ter sido queimado.
Uyara não entendeu a reação exagerada do amigo, muito menos que a palavra morto numa frase, o deixaria alarmado.
Não era só isso.
Porém, agora não conseguiu encontrar outra justificativa que coubesse no contexto. Talvez comentar do frasco tenha sido muito precipitado.
– Apenas lembrei que me designaram para a limpeza dos jardins no final da tarde – inventou, quase embolando as palavras. Deu um passo para trás, prestes a se despedir – Tenta não pensar muito no que aquele ancião disse, sabe muito bem que não estamos à venda. Você tem muita coisa nessa sua cabecinha, não te julgo por priorizar a família. Na verdade, te admiro.
Mostrou um último sorriso, encostando o dedo levemente no nariz da garota.
Era um costume se despedir assim dela, só não era habitual agir de modo tão esquivo. Daquele jeito dava a impressão de ser um fugitivo.
Uyara apenas ficou parada, acompanhando as costas cobertas por uma fina capa se distanciando até sumir do seu campo de visão.
Demorou pouco mais de cinco minutos para, enfim, sentir as pernas funcionarem novamente. Voltou-se para o trajeto, perdendo-se na paisagem coberta pelo verde e plantas, do mesmo tom rose que o chão tinha.
Ponderou um pouco, apertando a boca.
Ao que parece, não foi uma boa ideia comentar aquilo tão de repente. Acabou pegando o amigo desprevenido.
Como se não bastasse vê-la chorar e precisar lidar com uma criança desestabilizada emocionalmente. Lançou uma enorme teoria de conspiração pra cima dele.
Kringle não tinha família. Durante o conflito, anos atrás, talvez até décadas, eles decidiram não ter um lado e, simplesmente, foram embora.
Nessa saída o rapaz se perdeu, houve muita correria, passos pesados que o arrastaram para longe. A garota nunca entendeu como ele consegue sair tão bem passando por multidões.
Minutos atrás, com aquele amontoado de gente, cogitou perguntá-lo sinceramente. No entanto, esse era o único assunto que pensava duas vezes antes de entrar.
Mesmo que tenham crescido juntos, acolhido pela família e parte da vila, não era a mesma coisa do que ter o seu lar. Um lugar que lhe pertence, para voltar sabendo que tem alguém te esperando.
Muitos perderam tudo nessa época, foi uma grande crise. O que estão passando agora é um reflexo do que viveram no passado.
Os que ainda saíram com pouco dividiram com os que não tinham nada. De todo modo, acabavam tendo mais, mesmo com menos.
Não estamos à venda.
Uyara fechou os olhos com força, tentando espantar as imagens. Piscavam em uma vermelhidão assombrosa, juntamente do sino local.
Plim, plim, plim.
Desse jeito ainda era capaz de escutá-lo.
Subitamente recebeu um esbarrão, quase caindo. Sem querer havia soltado a caça, mas não deu tempo de pegá-la porque um grupo agitado de moradores passaram.
– O que deu em você, criança? – uma voz familiar surgiu. Dessa vez não o reconheceu de primeira, o tom confiante sumira, restando somente incerteza – Se apresse! Antes que tenha problemas!
Mexeu a cabeça de um lado para o outro. Vasculhou pela área qualquer indício dos fios dourados do irmão ou da barba por fazer do pai.
Retornou para o semblante. O maxilar do guarda encontrava-se trincado, permitindo ver com mais clareza seus traços marcantes.
Até onde sabia, ele compunha a guarda real. Era a única informação sólida, não acreditava nos boatos de que era um dragão e havia sido enviado para protegê-los.
Uyara até desconfiava do cavaleiro, mas ninguém acreditaria se dissesse. Preferia não arriscar, afinal, nem ela mesma sabia das razões.
– Não sou uma criança – repreendeu entredentes. Ignorou a irís rubi escurecerem, tremulando em chamas da noite – Por que estão todos apressados?
– Não ouviu mesmo? – soprou uma risada debochada. Os olhos escurecidos não acompanharam o sorriso sem humor – Os sinos tocaram.
Ela parou.
A melodia sinistra ecoava, anunciando o início do fim.
Seu crânio era perfurado. Foi incapaz de conseguir acompanhar o cavalheiro, deixada para trás sem ter a mínima noção de onde estava.
Tudo ao redor perdeu a cor e ameaçou começar a girar. Os chãos aos seus pés tremiam, a ponto de cogitar se abriria e a devoraria.
– O sino da perdição – murmurou assombrada.
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