Parte I
Minha íris refletia o piscar constante das luzes naquela árvore. Era como uma hipnose que me levava a memórias fortes demais. Ao meu lado, uma criança que nunca vi carregava um brilho inocente no olhar, encarando com fascínio os enfeites daquela loja.
Ao ver aquela criança, lembrei da minha infância.... quando papai, mamãe, meus dois irmãos e eu enfeitávamos nossa árvore de Natal. Como sempre, essa era a época mais alegre em nossa casa.
— Meus amores, eu cheguei! — Era a mamãe trazendo a enorme caixa com enfeites, quinze anos atrás. — Quem irá me ajudar?
— Eeeeeu! — dei um salto indo ao seu encontro.
— Eeeeeu! — Daniel gritou também correndo até a árvore.
— Eeeeu! — Mirella exclamou com uma voz doce e gentil, correndo em direção à mamãe.
Lembro-me, ainda vividamente, de todos nós arrumando a árvore com grande alegria. Essa memória faz com que uma lágrima escorra dos meus olhos. Fico por mais algum tempo olhando o pisca-pisca da loja, com um largo sorriso em meu rosto.
Depois de observar a criança e todas aquelas luzes acho que é normal se sentir tocada. Não sou de pedra, afinal. É claro que hoje não tenho tanto tempo para árvores e luzes ou jantares em família. Fujo desses jantares, dessa família... Minha mente sempre viaja para os dias que seguiam o Natal, quando as festas acabavam e o brilho da esperança deixava os olhos. Quando nenhuma família bem de vida se importava conosco pelo resto do ano. Quando tínhamos que nos virar sem os enfeites doados e presentes de estranhos. Lembro que, no Natal, nossa pequena árvore de plástico era sempre cercada de alegria, mas quando ele passava e a realidade voltava... não era tão bonito. Por isso, viro o rosto para limpar a lágrima que não foi vista por mais ninguém e seguir em direção à saída. Parece que mais uma vez esse fim de ano vai ser somente para mim.
Do lado de fora da loja, vejo grupos de famílias juntos, rindo e se divertindo com a época em que estamos. Coloco minhas mãos em meus bolsos seguindo pelas ruas aleatoriamente. Para onde quer que eu olhe, só vejo coisas de Natal em lojas, nas pessoas, que provavelmente ignoraram e esqueceram tudo o que passaram o ano inteiro, só para sorrirem nesse único momento do ano.
Não que as estivesse julgando, muito pelo contrário, em outro momento quiçá eu fosse uma delas. Mas tinha tempo que o Natal não me despertava nada além da lembrança daquela fatídica manhã de véspera. As recordações eram tão vívidas na memória que era como se eu estivesse lá, revivendo tudo.
Eu tinha 10 anos quando a casa ao lado da nossa foi alugada por um homem viúvo, pai de dois filhos. Minha mãe, que era a melhor pessoa do mundo, ao saber da triste trajetória deles, não hesitou e foi convidá-los a vir em nossa casa à noite para a ceia de Natal.
Enquanto os dois combinavam tudo e nos observavam brincar no quintal, meu pai, que havia nos abandonado havia dois anos, deixando minha mãe sozinha com três crianças para criar, resolveu aparecer bem naquele momento. Ao ver minha mãe conversando com o nosso vizinho, se achou no direito de ficar com raiva e partiu para cima do homem que via como rival com uma grande pedra que encontrou no caminho, derrubando-o no chão e começando a agredi-lo. Minha mãe, apavorada, tentava pará-lo, mas era em vão. Ele parecia possuído.
Ao se dar por satisfeito, deixando o inocente homem caído inconsciente no chão, se virou contra minha mãe a agredindo ainda mais covardemente. Sem chance de defesa, ela acabou também inconsciente ao lado do nosso vizinho.
Mesmo depois de tanta violência, meu pai, ainda cheio de ira, partiu ao nosso encontro, meu, do meu irmão e dos nossos dois novos vizinhos, Benjamin e Thiago, que tinham a nossa idade. Ao percebermos sua intenção saímos do transe em que nos encontrávamos e corremos gritando e pedindo ajuda. No desespero do momento, esqueci completamente de minha irmãzinha que havia ficado em casa dormindo e, ao voltar, assim que aquele monstro foi preso, eu a encontrei sem vida em sua caminha. Com a mesma pedra que ele tinha usado antes, ele havia apagado o brilho da nossa pequena Mirella.
***
Naquela noite, dobro uma esquina e ajeito minha jaqueta preta. Sinto saudades do Brasil, do calor, das pessoas falando um idioma que entendo perfeitamente... Afasto os pensamentos, afinal, o Brasil também foi palco daquela tragédia horrorosa que havia dado uma guinada de cento e oitenta graus nas nossas vidas. Minha mãe passou anos em coma e, enquanto isso, Daniel e eu fomos obrigados a viver com Joaquina, nossa avó maluca que culpava nossa mãe pelo que seu filhinho fez.
— Hey, Talita, estava te procurando — diz Ben sorrindo, ele é o único que entende como essa época é dolorosa, queria apenas ser capaz de corresponder seus sentimentos. — Como você está?
— Seguindo o fluxo, Ben — dou de ombros. — Aonde vamos hoje? Eu esqueci — digo com um sorriso amarelo. Ele sorri ainda mais e sua beleza negra é um enorme contraste com todo esse branco, mesmo ele estando vestido de duende.
— Vamos para um evento da prefeitura, aparentemente ninguém resiste a uma dupla de fotógrafos incríveis.
— Vou mesmo ter que pôr a fantasia ridícula? Achei que tivesse vindo para New York para estudar fotografia e não para usar uma fantasia ridícula que nem esquenta...
— Deixa de ser ranzinza, Talita — pede abraçando meus ombros. Ele tem um cheiro cítrico. Um cheiro de casa. — Não se deixe guiar pela nossa tragédia. — fala ainda com o sorriso no rosto.
Era por isso que eu gostava de Benjamim, mesmo tendo o pai assassinado por uma besta ele jamais culpou Daniel ou eu. Até aceitou ser criado pela nossa avó pirada que assumiu a responsabilidade para si quando descobrimos que Benjamin e Thiago não tinham mais ninguém no mundo além do pai morto. Pelo menos uma coisa boa Joaquina fez na vida.
— Como você consegue ser tão normal?
— Defina normal. — pede ficando sério. Seus olhos cheios de curiosidade sincera.
— Normal é algo dentro do comum, aquilo que se espera de todos nós dentro da sociedade, sem bizarrices ou estranhezas... — de repente fico insegura diante de sua espera — eu acho...? — minha voz falha nas últimas palavras, erguendo uma oitava enquanto minha sobrancelha direita sobe junto — Ah, sei lá. Você não é cheio de problemas, é a isso que me refiro.
— Cada um tem suas cicatrizes onde tem, minha amiga. — mais uma vez seu lindo sorriso apareceu para iluminar meus pensamentos, aquecendo um pouco meu coração naquele dia frio. Eu realmente queria poder corresponder. Fui retirada de meus pensamentos por sua voz quando ele continuou — Agora é melhor a gente ir logo se não quisermos perder o evento mais emocionante das nossas vidas.
— E o que tem de tão emocionante nesse graaaande evento? — a careta em meu rosto denunciava a total falta de ânimo e vontade de ir para mais um encontro chato na prefeitura.
— Eu! — me soltou e abriu os braços, dando uma voltinha e mostrando seu corpo aprisionado na estranha roupa de duende — precisa de mais? — parou com as mãos na cintura, numa pose de super-herói, e deu uma piscadinha que não pude resistir. O riso veio frouxo e saiu por meus lábios antes que pudesse controlar.
— Não, não precisa... — revirei os olhos ainda sorrindo. Ben sempre arrancava o melhor de mim. Mesmo nos piores momentos... Era um bom amigo.
***
Eu não imaginava que o evento municipal fosse tão grandioso. Um verdadeiro formigueiro humano que se amontoava para assistir a chegada do Papai Noel. Logo entendi a razão de tanta euforia. Era a primeira vez que a prefeitura contratava um homem afrodescendente para ocupar a casa oficial do Papai Noel em Nova York.
Evidentemente alguns adultos encararam a novidade com certa rejeição e amargura. Em contrapartida, não houve criança que não se encantou ou que não sucumbiu à simpatia inerente daquele Sr. Noel tão risonho, corado e sadio, um verdadeiro exemplo de como a magia do Natal é capaz de lançar luz sobre nossos preconceitos e mudar, mesmo que só por um instante, nossa visão de mundo.
Uma magia que durou pouco, muito pouco. O primeiro tiro acertou um senhor de idade que estava próximo de mim. A multidão se dispersou. Muitos agacharam e procuraram algo que servisse de escudo. Mais tiros vindos do alto. Uma chuva de tiros. De onde vem o ataque? Talvez se eu olhasse para os edifícios em torno eu descobrisse em qual janela estava o filho da puta do atirador. Mas como fazer isso quando dezenas de pessoas a sua volta caem mortas como se fossem peças de dominó?
Pessoas corriam desesperadamente em meio ao tiroteio, muitas na intenção de deixar o local, embora, naquele momento de puro terror, suas vidas dependessem apenas de uma questão de sorte. Meu Deus, onde estava Ben?
— Ben? — indaguei em meio aos caos. — Benjamim!!!
Aperto meus olhos com força pois estou exatamente no meio dos gritos agonizantes, cenário de horror e tiros...
— Benjamin, onde está você???
Minha voz ecoa. Ainda com meus olhos fechados lembro-me de tudo com o mais puro e simples detalhe, ainda latente em minha memória. "— Nada será para você, ninguém irá te acertar, está tudo programado, tudo certo... eles pagarão por essa ofensa com sangue!"
Não foi assim que combinamos, o plano era perfeito. Era apenas seguir com o roteiro e continuar em frente, nada era para me afetar, não era para me atingir, não desse jeito.
No maldito caos crescente, sinto algo quente me atingir. Meus joelhos tremem e lentamente perdem as forças, e com elas se vai minha consciência...
— Não era nada disso, está tudo errado...
Só ouço o desespero, depois disso, o mais sinistro silêncio!
Algumas horas depois, acordo em um lugar diferente. Cadeiras e mesas se encontram tombadas e tapando a porta. Outras pessoas se encontram por ali, feridas ou somente assustadas. Tento me me levantar e, com isso, sinto uma dor de cabeça. Alguém nota minha tentativa e vem em meu socorro. Não entendo muito do que a pessoa fala, mas pela maneira como está se portando, está pedindo para que eu fique deitada ou para que não faça muito esforço, em seguida, sinaliza para alguém e fala alguma coisa que não consigo entender. Em pouco tempo, um homem me trás um chocolate quente e tenta falar comigo, sem muito sucesso, pois não estou conseguindo entendê-lo muito bem.
— Ben. Eu preciso falar com o Ben, alguém viu ele?
Nenhum deles parece me entender muito bem. Mas meu desespero não dura muito, escuto uma voz muito conhecida ali perto.
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