Capítulo X - Corvo de Batalha
Apenas pequenos flashes de memória são o que me restam do momento em que me vi rastejando pra frente.
Imagens turvas do mundo girando enquanto eu sou carregada pra algum lugar, as gotas d'água pingando em meu olho, as feridas ardendo como pimenta. Da dor eu me lembro bem. Então o céu é substituído por madeira, e o chão por algo macio e seco. Não vi quem me carregou. Um rosto surge e vai embora diversas vezes de meu campo embaçado de visão. Sinto retirarem minha roupa e isso queima. Um pano úmido com água quente é levado de encontro a meus ferimentos e grito com a agonia a cada toque.
Tem talhos por todo o corpo. Algo é colocado nas feridas e refresca a dor. Sinto meu corpo arder em febre e suar em demasia, uma xícara é colocada em meus lábios enquanto levantam minha cabeça pra que eu beba o líquido de gosto amargo. Acabo me entregando e deixando o sono dominar, mas ele vem perturbado demais.
Quando acordo, aos poucos retomando a consciência percebo estar sozinha. Tem uma lareira crepitante estalando suas linguetas flamejantes do outro lado do cômodo que parece ser uma sala e um quarto ao mesmo tempo apesar de grande. Penso em tentar me levantar, mas desisto quando percebo não ter forças suficientes pra isso.
- Acordou cedo demais criança volte a dormir. - uma voz suave, mas autoritária soou vinda de um outro cômodo.
- Eu não posso ficar, tenho que voltar pra casa - respondo rouca e tossindo em srguida.
- Pode, pode sim. E vai. - então a dona da voz surgiu pela porta do tal cômodo.
Uma mulher que eu julgaria por volta dos cinquenta, cinquenta e cinco anos usando um vestido verde escuro que mais parecia ter vindo de um filme medieval. Sua tez clara típica da região e cabelos ruivos presos em um coque até combinavam com a cor. Tinha olhos escuros e rosto com poucas rugas que só surgiam quando ela sorria como naquele momento.
- Precisa descansar, está muito ferida e passou boas horas de febre alta. Não está em condições de sair ainda. - Ela me entregou um copo de barro com água fresca que bebi avidamente - devagar, ou vai fazer mal.
Em seguida me passou um favo de mel dizendo que ajudaria a curar a garganta dos gritos fortes. Realmente eram um alívio às ranhuras que estavam depositadas lá.
- Olha eu agradeço de coração tudo que está fazendo por mim, mas eu preciso ir, a viagem é longa e eu tenho que trabalhar após o almoço, se não ir agora eu não chego a tempo. - tentei levantar outra vez e uma pontada aguda nas costelas me fez curvar sobre o tronco.
- Não precisa mesmo. Você vai ficar quietinha aí e se for preciso eu vou usar a minha autoridade com você Rebecca. - uma segunda voz irrompeu adentrando a casa.
Ela também usava um vestido escuro e antigo, mas de braços nus que ostentavam tatuagens vermelhas em diferentes desenhos e um deles era o Trisckle um importante símbolo celta.
Se eu achava o tom da ruiva autoritário mudei completamente de opinião. A mulher que entrou era no mínimo cem vezes mais. Os cabelos Negros até o meio das costas, o rosto belo de expressão forte, os olhos duros como pedra e a postura imponente mescladas a voz incisiva e o queixo erguido fariam qualquer um sentar e obedecer.
Mas eu não era qualquer um.
- E que autoridade é essa será que posso saber? - a desafiei com os olhos.
Certo eu tava acabada e bastava ela apoiar um dedo em uma de minhas feridas que eu choraria e pediria arrego, mas orgulho é uma coisa difícil e que eu ainda tinha.
- A autoridade de mãe. - Ela cuspiu as palavras que no entanto me fizeram rir.
- A senhora está louca é? - ri mais - eu nem te conheço nunca vi seu rosto na vida, e pra sua informação minha mãe está vivíssima no Brasil. Então talvez você tenha me confundido com sua filha, mas sinto informar que não sou.
Eu esperava ela me fuzilar com os olhos, mas ao invés disso, posso jurar ter visto uma sombra de sorriso passar por seus lábios.
- Gosto de ver que honra meu sangue. Mas quem causa loucura nas pessoas sou eu e não o contrário. - ela se aproximou lentamente se movendo como se não pisasse e sim flutuasse pelo piso.
- Olha essa história toda não me interessa eu só preciso ir pra casa. Perder um dia de trabalho pode acabar em rua em uma empresa como a Eurian. - calafrios corriam meu corpo com a aproximação da mulher e meus dedos se enrolavam aflitos nos lençóis da cama.
- Ela não está em condições de sair minha senhora, vai acabar desmaiando no meio do caminho. Isso se conseguir se levantar daqui - respondeu a ruiva.
- Ela vai ficar Margareth não se preocupe. Ao menos o tempo suficiente pra alguém como ela se recuperar.
- Isso levaria no mínimo dois dias pra ela poder voltar em segurança Senhora - a ruiva olhou aflita preocupada em ver todo seu trabalho jogado fora.
- Veja as feridas e cheque você mesma o que estou dizendo Meg. - entediada ordenou a morena.
E foi o que ela fez. Aos poucos foi desenrolando a primeira bandagem em um de meus braços com cuidado. Seus dedos leves pareciam nem sequer tocar minha pele. Quando terminou de desenrolar ela cobriu a boca surpreendida.
E eu não fiquei atrás.
Onde deveria existir um talho horrendo costurado com risco de abrir, havia apenas uma linha rosada grossa com pontos já desnecessários. Aquilo era surpresa até pra mim. Da primeira vez que voltei machucada dos pesadelos e minha mãe me encontrou em um estado deplorável eu demorei um mês pra me recuperar de tudo com todos os cuidados médicos possíveis pra alguém de nossa renda.
Margareth olhava pra morena e pra mim e então pra ferida. Desenrolou as outras e estavam do mesmo jeito. Então ela pareceu compreender algo que ainda não havia chegado a mim, e se retirou pra onde supus ser á cozinha. Novamente tentei levantar, mas só pra ouvir a segunda mulher elevar a voz.
- Nem pense em dar sequer dois passos.
- Eu não vou ficar aqui recebendo ordens de uma estranha esclerosada - com um gemido comecei a enrolar as outras bandagens limpas que estavam perto da cama. Ela apenas me olhava entediada.
Enquanto eu acaba de vestir minhas roupas rasgadas que haviam secado perto da lareira - pois Meg me deixara apenas de lingerie pra tratar das feridas - sentia o olhar dela em minhas costas. Pelo espelho na parede vi meus cabelos limpos que provavelmente foram obra da ruiva, uma vez que deveriam estar cheios de lama, folhas e galhos, o que indicava que minha semi consciência realmente ocultara muita coisa.
- Agradeça margareth por mim - disse à Morena enquanto passava por ela.
Então a mulher me impediu se colocando na frente. Tentei passar outra vez e ela novamente barrou. Forcei uma terceira e ela perdeu a paciência me agarrando pelo braço e me puxando a força de volta para a cama onde antes eu estava. Me senti uma verdadeira boneca de pano enquanto parecia não pesar exatamente um grama sequer contra a força dela.
- Você vai agracê-la pessoalmente Rebecca. - seu olhar me desafiava a confrontá-la outra vez.
- Olha eu vou repetir, eu nem sei quem é você! Então por favor para de agir como se fôssemos grandes conhecidas, porque não somos. Por favor me deixe ir! - passei as mãos aflitas pelo cabelo - não sei sequer seu nome.
Ela apenas sorriu de lado, ergueu o queixo e inflou o peito pra dizer com orgulho:
- Eu sou Moringan, deusa da Guerra.
Certo.
Eu definitivamente tinha ficado maluca ou aquelas pessoas tinham ficado. Cogitei terem me drogado, ou talvez elas se drogassem. De qualquer forma eu fiquei nervosa e como em toda crise nervosa, comecei a rir.
- Morringan? É sério? Você quer mesmo que eu acredite nisso? E pior! Que você é minha mãe?
Apesar do riso ela continuava serena. Calma. Na certeza de saber quem é e não precisar afirmar.
- Você está vendo mentira em mim? Ou é apenas uma tentativa tola de ignorar o que não está conseguindo compreender? Melhor, não quer compreender.
- E o que você esperava? Que eu me ajoelhasse á você ou chamasse de mamãe? Quer que eu acenda velas ó divindade? - debochei da situação.
- Então como explica seus ferimentos se curando tão rápido? - questionou cruzando os braços.
- Metabolismo acelerado. - dei de ombros.
- Essa é a melhor resposta que consegue? - Ela ergue a sobrancelha - bastante medíocre pra alguém que se diz tão esperta. Talvez você tenha também uma resposta dessas pro fato de nunca ter adoecido. Nem mesmo uma gripe, em vinte e cinco anos.
Ela se aproximou mais.
- Ou sua força, um pouco acima da média humana comum. Sua audição que já te fez ouvir mais do que queria da conversa alheia. Ou a visão aguçada que você se esforçava pra esconder e não parecer anormal. Os reflexos ágeis pra alguém que nunca praticou esportes.
- São apenas... habilidades. Meu físico é um pouco mais bem desenvolvido apenas isso. - brinquei com a ponta dos dedos.
- Alguém nas suas condições de vida jamais teria alimentação e exercícios apropriados pra jogar a culpa na evolução biológica humana - desdenhou - talvez eu deva mencionar os pesadelos?
Nesse momento levantei o olhar até o dela. Era poderoso. Era antigo. Era algo parecido com aquele cômodo subterrâneo da biblioteca. - era um misto de morte e vida circulando mas íris negras.
- Doze anos de idade. Primeira noite de horror. Sozinha e com medo no escuro se sentou e abraçou as pernas, foi arrastada pelos demônios e torturada pelo que pareceram dias antes de acordar com todos os machucados e danos daquela experiência. Você contou a seus pais e eles não acreditaram, bom seu pai acreditou, mas pra continuar mentindo fingiu que não. O resultado foi te levarem a um psiquiatra que disse que você se mutilou e precisava de tratamento. De acompanhamento. Depois de outras consultas o médico queria te internar em uma clínica.
Aquelas lembranças surgiram como lâminas em minha face. Era por isso que eu corria em meus pesadelos, por que no dia em que cedi, eles me levaram. As presenças malignas que na verdade eram demônios ficavam na espreita apenas esperando as vozes me enlouquecerem o suficiente pra me deixar frágil e então me cercarem e arrastarem pra jaula.
As coisas que fizeram comigo lá dentro... as torturas, as surras, eu fui feita de brinquedo. Foram as aves que me salvaram.
- Seu pai vendo que tinha deixado ir longe demais começou a ignorar os pedidos de exame e como a saúde onde você mora não é prioridade acabou sendo esquecida depois de um tempo. Mas a história da clínica psiquiátrica se espalhou pelos arredores e logo a vizinhança começou a excluir você por medo da garotinha louca.
Eu costumava brincar com as crianças do bairro. Depois disso elas se afastaram de mim, isso chegou na escola e foi a mesma coisa por lá. Os olhares amedrontados em minha direção, alguns me olhavam com repúdio, com nojo. As mães do bairro passavam longe de mim e viravam a cara. Afastavam seus filhos. Os tiravam de perto da aberração. Da garotinha louca.
- Acha que isso tudo foram acontecimentos normais? Acha que o pesadelo era só um pesadelo? Suas feridas, seus hematomas, o que você viu ouviu e sentiu, eram frutos da imaginação? Aquelas coisas lá fora - apontou pra porta fechada - são alucinações?
- Eu...eu não sei. - cobri o rosto com as mãos - eu não sei de nada. A única coisa que sei é que não adianta eu sentar e lamber minhas feridas velhas.
- Talvez seja bom pra você lembrar quem você realmente é. Você superou com louvor seus fantasmas Rebecca, lutou contra todos os olhares desgostosos, contra todas noites de horror, contra tudo que tentou te derrubar e venceu. Mas a Vitória não é pra ser esquecida. Faz parte de quem você é. Depois que ganhou essas batalhas fingiu que elas nunca existiram pra tentar ser alguém " normal" e você sabe que não é. Nunca foi.
– E o que você quer que eu faça? Primeiro que essa história de você ser uma deusa e minha mãe não faz o mínimo sentido!
– Eu adoraria poder te explicar, mas as suas ironias tomaram todo o tempo que eu tinha por hoje. Os portais estão se fechando e eu tenho de ir. Na próxima oportunidade nós conversaremos. Mas lembre-se de mim. Morringan, A Rainha Fantasma, o Corvo de Batalha!
– Esper...
E antes de eu completar a palavra ela se transformou em milhões de penas negras e se foi.
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Olá corvinos! Bem eu sei que desapareci e deixei vocês na mão. Peço mil perdões. Estive com muitos problemas cm essa história e em minha vida pessoal foi ano de Enem o que me tomou todo o tempo.
Estou retomando a escrita, estou com um projeto novo, mas também voltarei a tocar esse aqui pra frente.
Entenderei se vcs já tiverem desistido da história. Obrigada pela compreensão.
Beijos de um corvo
Raven Blake.
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