Não sou a única

        Conheci Lucas quando estávamos no primeiro ano do ensino médio e foi amor a primeira vista. Muitos sujeitos acham isso algo muito piegas de se dizer, mas é a verdade. No momento em que pus meus olhos nele, soube que ele seria o meu felizes para sempre e, assim está sendo. Passamos a morar juntos assim que completamos idade suficiente para isso e já estamos juntos a mais de sete anos. Por incrível que pareça, o amor que sinto por ele não mudou em nada, ainda é uma grande chama ardente que ao que parece – e eu espero – nunca virá a se apagar.

        Ele fica mais bonito a cada dia. Observo seu rosto enquanto ele dorme e abro um sorriso. Seu cabelo é a bagunça loira mais bonita na qual já coloquei meus olhos. Ah e seus olhos, mesmo agora estando fechados, são os mais belos que já vi; são de um castanho tão claro que chega a quase parecer irreal. Sinceramente, não sei o que ele viu em mim a anos atrás, mas espero que ele continue vendo. Vejo–o abrir seus olhos e meu sorriso se amplia.

        — Bom dia — me abaixo e toco suavemente meus lábios nos dele.

        — Bom dia, baby — segura em minha mão e começa a acariciá–la. — Já está acordada a muito tempo?

        — Sim. Estava admirando–o enquanto dormia — confesso e ele sorri, dá um beijo em minha testa e se levanta.

        — Vou me aprontar para o trabalho — diz, perante minha careta interrogativa.

        — Mas hoje é sábado — lhe informo.

        — Eu sei Ana — caminha até a porta do banheiro que tem no nosso quarto. — Preciso organizar algumas coisas no escritório. — entra no banheiro e fecha a porta.

        Deixo meu corpo cair pesadamente sobre a cama e solto um suspiro profundo. Isto começou a duas semanas. Lucas não tinha o costume de ir trabalhar nos finais de semana, afinal é o dono da empresa de advocacia onde trabalha, portanto não via necessidade em estar lá todos os dias, mas aparentemente algo mudou.

          Deito de bruços na cama e enterro meu rosto no travesseiro, aguardando que ele saia do banheiro para que possamos conversar, porém pouco depois adormeço.

...

         Meus olhos se abrem pouco depois e levo minha mão até o espaço do meu lado. Quando agarro o lençol frio me recordo que Lucas está no trabalho e me levanto, caminhando até a porta do quarto e andando até a cozinha.

        Abro a geladeira e enfio minha cabeça dentro dela, procurando algo para comer. Pego alguns morangos, leite e manteiga. Preparo uma vitamina com a fruta e me sento à mesa, degustando uma torrada  amanteigada. Olho para a cadeira vazia ao meu lado, querendo que ela estivesse ocupada pela pessoa que amo, mas com o semblante triste por ele não estar aqui.

        Ouço o som do telefone fixo de casa tocar e vou até a sala.

        — Sim? — questiono a quem quer que esteja do outro lado da linha.

        — Sra. Alonço, seu marido se encontra? — a voz da secretaria de Lucas é ouvida.

        — Não, ele foi para a empresa — respondo–lhe com o cenho franzido, já que ela trabalha em uma sala à frente da dele e é impossível que não o tenha visto.

        — Ele ainda não chegou...

        — Então deve estar próximo — olho para o relógio na parede em cima do sofá e constato que ele deve ter saído a cerca de uma hora e meia atrás, tempo suficiente para já ter chegado na empresa.

        — Tudo bem, vou aguardar. Muito obrigado senhora.

        — Por nada Suzanne — desligo o telefone, me sento no sofá, pego meu celular e disco o número do Lucas.

        Após chamar algumas vezes cai na caixa postal. Tento de novo e novamente sou saudada pela voz eletrônica.

           Nesses anos que estamos juntos sempre fui atendida, mesmo quando ele estava extremamente atarefado. Será que algo aconteceu?

        Volto para o quarto e troco de roupa, com o intuito de tentar ligar para ele mais uma vez daqui a alguns minutos e no caso dele não atender ir até a empresa aguardar sua chegada.

...

        — Está tudo bem? — pergunto quando Lucas atende o  celular, dez minutos depois.

        — Sim — responde e  sua voz soa ofegante.

        — Onde você está?

        — Na empresa — levanto as sobrancelhas, mesmo que ele não possa ver.

        — Suzanne me ligou a apenas alguns minutos atrás dizendo que você ainda não tinha chegado.

        — Ocorreu um imprevisto, mas já estou aqui — ele responde após alguns segundos de pausa; parecia que estava pensando no que dizer. — Preciso desligar agora amor — sua voz soa mais ofegante do que outrora estava e ele nem mesmo espera que eu diga algo, apenas desliga.

        — Eu também te amo — falo, olhando para o aparelho telefônico em minhas mãos.

... ...   ...   ... ...  ...  ...  ...  ... ... ...

Dois meses depois
        

        Minhas pálpebras estão pesadas, pois no dia anterior fiquei acordada até tarde esperando que meu marido retornasse para casa e, acabamos brigando. Foi nossa primeira discussão onde estávamos com os ânimos realmente exaltados. Falei para ele que desconfiava de que estava a me trair – já que atualmente diz estar a todo momento no escritório, nem fica mais em casa nos finais de semana e quando eu ligo para lá Suzanne diz que ele não está – e ele gritou em meu rosto que eu era louca. Logo em seguida nos deitamos na cama, cada um virado para um lado e é desse jeito que acordo. Com o corpo virado para a janela que há no quarto, ao invés de olhando para meu esposo.

        Me levanto da cama,
pois marquei de fazer compras com minhas amigas e enquanto me arrumo percebo que Lucas está me olhando.

        — O que foi? — ele avalia meus trajes e sorri.

        — Baby você está linda — comenta e nem mesmo parece se lembrar que nas vésperas estava gritando em meu rosto. — Me desculpa — pede com a voz carinhosa. — Vamos esquecer o que houve ontem.

        — Ok — digo, mas não estou sendo totalmente verdadeira. Sei que tem algo errado.

        — Você está linda — repete e segura no meu pulso, me puxando para mais perto da cama, onde ainda está deitado.

        — Obrigada — deposito um beijo em meio aos seus cabelos. — Não sei que horas volto, mas não me espere para o almoço. Eu e as meninas pretendemos comer em um restaurante — ele meneia a cabeça e segura a parte de trás do meu pescoço, obrigando–me a continuar abaixada.

        — Você sabe que eu te amo, né? — seus lábios tocam os meus em um beijo apaixonado.

        — Eu sei. Também amo você — dou–lhe um selinho, pego minha bolsa no criado–mudo e saio do quarto, seguidamente da casa.

        Entro no meu carro e dirijo até a casa de uma das minhas amigas, que mora próximo a minha casa e que havia combinado comigo para que fosse buscá–la.

        — Raquel — chamo, depois de apertar a campainha e ela não atender.

        — Não vai dar mais para eu ir — é o que diz assim que abre a porta.

        Reparo que ela ainda está com um robe – que muito provavelmente foi colocado em cima de uma camisola – e acho estranho que ainda não esteja pronta, já que foi a que planejou esse dia.

       — Por que não? — pergunto.

       — Vou me encontrar com uma pessoa daqui a pouco — me informa com um sorriso malicioso.  — Estamos saindo a algumas semanas.

        — Posso saber quem é? — ela nunca se casou com ninguém e não tem o costume de se encontrar com um homem mais de uma vez, então esse indivíduo deve ser realmente especial.

        — Não vou te dizer — dá uma piscadela. — Porém acredito que descobrirá em breve — enrola uma mecha de seu negro cabelo no indicador.

        —  As outras ainda irão, certo?

        — Sim.

        — Então já vou.

        Ela se aproxima e dá um beijinho em minhas bochechas, depois volta a entrar na casa e fecha a porta. Sigo para o carro e dirijo rumo ao local onde marquei de encontrar minhas outras amigas.

...

        — Ainda não estão cansadas? Meus pés já estão me matando — digo a Rose, Ester e Maria quando as três concordam em continuar andando quando terminarem de tomar suas bebidas.

        — Você se cansa muito rápido — diz Maria e volta a entornar seu copo sobre os lábios.

        — Tenho que concordar — solto um riso. — Acho que vou voltar para casa — me levanto e engancho minhas mãos nas seis sacolas que contém as roupas que comprei.

        — Amanhã vai voltar ao trabalho na butique? — pergunta Rose.

        — Sim, afinal só descanso nos finais de semana — abraço as três, depois volto para o carro e sigo para casa.

        Entro em casa, retiro os sapatos de salto dos meus pés (repreendendo a mim mesma por tê–los colocado), volto a pegar as sacolas e subo para o quarto. Abro a porta devagar – pois como as persianas das janelas estão fechadas e a luz apagada, Lucas deve estar deitado – e adentro mansamente o cômodo.

        Coloco as sacolas no chão ao lado da porta e é quando percebo que os lençóis da cama estão em movimento, é como se...

        — Vai com calma — o desejo em sua voz é quase palpável e eu dou um passo vacilante para trás.

        Lágrimas instantaneamente começam a descer dos meus olhos e deslizar por minhas bochechas, enquanto sinto meu corpo ficar trêmulo, diante da cena a que estou sendo submetida.

        Na cama vejo a cabeça do meu marido e a de uma mulher. Os olhos dele estão fechados e ele parece estar perdido no momento de prazer em que se encontra. A mulher tem os cabelos longos e escuros, se parece com...

        — Raquel amor, merda! — Lucas solta um grunhido quando vejo os lençóis se movimentarem com mais rapidez.

        Então como se tivesse sido atingida por um soco no estômago, eu curvo meu corpo; abraço minha barriga e saio com passos cambaleantes do quarto.

        Um grito de dor pede passagem por minha garganta, mas eu coloco o punho fechado sobre a boca e o mordo para reprimir qualquer possível som que queira escapar por meus lábios.

        Início uma corrida para fora  da casa e entro no carro. Com os dedos trêmulos coloco a chave na ignição e piso com firmeza no acelerador. Quero me distanciar o máximo da cena que presenciei.

        Minutos mais tarde percebendo minha imprudência no trânsito (não estava respeitando os limites de velocidade, nem parara em um sinal vermelho), estaciono ao lado da estrada e saio do carro.

        A primeira gotícula cai sobre minha mão e as que se seguem começam a banhar meu corpo. Se alguém me visse agora não perceberia que na verdade o que molha meu rosto não são apenas as gotas de água que caiem do céu, mas também as desesperadas lágrimas de dor que estou a 'derramar'. Meu coração encontrá–se completamente partido.

        Ao que parece eu não sou a única a quem meu marido chama de amor.
       

       ......  ...   .....   ..


Espero que tenham gostado do conto.

Amo a música na qual ele foi baseado. 😃

Obrigado por ter lido.

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