um ponto final

Depois de dormir aos prantos, Grace não conseguiu levantar-se antes das nove. Estava com uma dor de cabeça insuportável. Tomou um chá e pensou no que falaria para Matthew no almoço. A dor ficava ainda mais intensa quando se lembrava do dia anterior.

Vestiu uma calça jeans, uma camisa branca e um cardigã bege por cima. Amarrou o cabelo num coque meio bagunçado e pegou sua bolsa. Esperou por Matthew no sofá da sala e ouviu sua campainha tocar. 

Respirou fundo. 

— Amor! Como você está linda! — Matthew disse, enquanto andava com ela até o carro. Grace pensou que não poderia fazer mais nada além de agradecer o elogio.

— Por favor, Matthew — pediu Grace, sem graça. 

— Vamos àquele restaurante que você gosta?! — perguntou, meio que afirmando. 

— Esse restaurante fechou — Grace disse, sem querer parecer frustrada.

— Viu? — Matthew levantou a voz, na defensiva. — Não tem como saber tudo o que se passa nessa cidade. Você não pode me cobrar atenção.

— Matthew, o motivo de termos terminado não é por não dar atenção a mim. Não precisa se justificar — Grace disse, calmamente. 

— Tudo bem — Matthew suspirou, dirigindo para o primeiro restaurante que encontrasse. 

Chegaram lá num silêncio ensurdecedor. Nem sequer uma palavra.

Fizeram seus pedidos e sentaram-se numa mesa afastada. Matthew segurou a mão de Grace, que estava repousada sobre a mesa.

Grace retirou sua mão.

— O que está acontecendo? Aquilo de ontem foi sério? — Matthew, estranhamente, sorriu. 

— Sim — disse Grace, vendo o sorriso de Matthew desmoronar aos poucos, como que em câmera lenta. 

— Você não pode estar falando sério. — Matthew voltou a sorrir, agora num sorriso nervoso, semicerrando os dentes.

— Estou. — Grace se repreendeu por estar novamente sem saber como se explicar.

— Grace. Você sabe que não pode fazer isso, não é?

— Não posso? Como assim? — Grace levantou uma sobrancelha.

— Por que já fomos longe demais. Você vai casar comigo. O que aconteceu?

— Eu apenas mudei, Matt. 

— Como você pode ter mudado? Eu mudo junto — disse ele, tentando procurar a mão de Grace.

— Não dá mais para ficarmos juntos. 

— Grace, — Matthew passou a mão pelo cabelo num estranho modo de parecer mais atraente — o que está acontecendo? Não vai me dizer que não se sente mais atraída por mim?

— Hum? — Grace arregalou seus olhos.

— Eu sei o que está acontecendo. A gente devia dar um passo maior no nosso namoro, não acha? Já que vamos nos casar... — Matthew conseguiu alcançar a mão de Grace debaixo da mesa. — Só não esperava que você quem fosse pedir isso...

— Do que você está falando? — Grace se afastou, tentando com todas as forças retirar sua mão da dele.

— Estou falando sobre, hum... — Matthew colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha de Grace, falando no seu ouvido aquilo que tinha em mente e deixando escapar um hálito alcoólico de sua boca.

— O quê? — Grace o repreendeu — Matthew, você bebeu?

— Não, — Matthew engoliu sua saliva, mostrando-se preocupado — é enxaguante bucal. 

— Listerine não tem cheiro de whiskey, ou seja lá o que isso for — Grace se afastou.

— Ah, ontem você me assustou. Eu bebi um pouco. Mas estou em sã consciência. — Matthew levantou as mãos em sua defesa.

— Eu quero ir embora.

— Não sem antes me dizer o que essa sua mente está pensando em fazer comigo. — Matthew estava com um sorriso que Grace classificaria como malicioso. 

— Eu não quero nada com você. 

Matthew começou a chorar e a falar um pouco mais alto.

— Você não pode fazer isso comigo. Eu não fiz nada para merecer isso. 

— Tudo bem. Eu só quero terminar, sem acusar ninguém de nada.

— Eu só queria saber o porquê — Matthew suplicou. — E aí eu te deixo em paz.

— Nosso namoro não estava bem. Eu não estava mais suportando. E aí eu resolvi conhecer mais sobre Jesus e—

— Espera aí. — Matthew a pausou com a mão. — Que Jesus? O da Igreja? 

— É, Deus. — Grace disse e viu Matthew rindo. — Do que você está rindo?

— É que eu achei que você queria algo mais no nosso namoro quando tudo o que você quer é Jesus... Ah, conta outra, vai.

— Você não acredita em mim? 

— Mas é claro que não. — Matthew tinha os olhos vermelhos de raiva.

— Então você nunca vai entender o porquê disso tudo. 

— Deixa eu ver se entendi: Jesus é o motivo do nosso término?

— Jesus é Aquele em quem a minha vida se baseia agora. E, consequentemente, minha vida não gira ao seu redor, não mais. — Grace se emocionou ao falar isso. Tinha plena certeza do que estava falando. 

— Então você vai virar freira, essas coisas? — Matthew tentou entender. 

— Matthew...

— Tá, eu saquei. 

Depois disso, o almoço chegou. Eles comeram e foram para o carro sem nenhuma palavra a mais. Ao chegar na porta da casa de Grace, Matthew quebrou o silêncio. 

— Grace, espero que ainda possamos ser amigos. 

— Mas é claro. — Grace sorriu, espantada com o que acabara de ouvir. 

— E, quem sabe, quando eu mudar assim como você mudou a gente não volte, né? — Matthew disse, com uma carinha de cachorro sem dono.

— Hum, é... eu tenho que entrar — Grace disse, nervosa, sem saber como responder àquilo.

Matthew saiu do carro assim que Grace abriu a porta, chegando a tempo de abraçá-la por trás enquanto ela fechava a porta de seu carro. 

— Por favor, não esquece de mim — Matthew disse, com um forte cheiro de chicletes no hálito, mas ainda com um resquício de cheiro de álcool. 

— Tudo bem, não vou. — Grace deu umas batidinhas no braço de Matthew para que ele a soltasse. Sem sucesso.

— O que você vai fazer hoje à noite? — ele perguntou, ainda abraçando-a.

— Vou à Igreja.

— Mas é claro — Matthew riu, e Grace tentou relevar essa atitude. 

— Tenho que entrar. 

— Eu sei que não tem, você só quer me ver longe de você. Eu não achei que você, logo você, fosse capaz de quebrar meu coração. 

— Como assim, logo eu? — Grace conseguiu se soltar dos braços de Matthew. 

— É... você nunca tinha namorado ninguém antes de mim. Era louca por mim. Agora está me deixando. Ninguém nunca terminou comigo, não sei explicar como é essa dor. 

— Hum. — Era a única coisa que Grace conseguia falar. 

— É... você ainda vai me matar. — Matthew riu. 

— Tchau, Matt. 

— Eu te amo, Grace — Matthew começou a choramingar, de novo. E lá vamos nós...

— U-hum.

— Fala que me ama, droga — Matthew a sacodiu pelos ombros. 

— Eu vou embora. Não fala assim comigo! — Grace ameaçou. 

— Uma última coisa: eu vou lutar todos os dias da minha vida para te ter novamente. Vou quebrar a cara do seu próximo namorado. Vou fazer de tudo para conseguir você. 

— Não é assim que você vai conseguir as coisas que quer, não no mundo real—

— Eu quero que se dane o mundo real — falou em palavras muito piores do que essas.

— Tchau, Matthew — Grace repetiu, agora com medo do que ele estaria prestes a fazer.

Mas o que parece é que ele tinha mais um campeonato de vídeo-game (que não poderia perder por nada nesse mundo, claro) em Boston. Não estaria disponível pra lutar por ela naquele dia.

Nesse dia, Grace ficou grata pela existência de vídeo-games.

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Não esquece a estrelinha. ⭐

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