traíra
Na escola, no primeiro horário, Grace deparou-se com seu professor de filosofia. Tanta coisa já havia acontecido em sua vida que nem ao menos se lembrava que havia escrito uma redação para concorrer a uma viagem a Inglaterra. Assim que seu professor parou-a no corredor, Grace não foi capaz de entender a ocasião para aquela conversa.
— Olá, senhorita Daves.
— Oi, senhor Boston.
— Gostaria de informar que estamos na última fase de classificação das redações. E você está representando a nossa escola em todo o nosso Estado.
O coração de Grace parecia que ia saltar pela boca. "Como assim? Classificada para o Estado? Estou na final?", Grace gritava em seu pensamento.
Isso queria dizer que ela tinha grande probabilidade de passar três meses na Inglaterra? Logo aquela redação sobre os amores, que ela sabia que não tinha sido uma das melhores?
De repente, aquela redação lhe parecia cair como uma luva. Passar três meses na Inglaterra seria estar perto, bem perto da Escócia. Estaria bem perto de Thomas. Ele poderia visitá-la em Londres, não poderia?
Após despedir-se do professor, fingindo não estar afoita com a novidade que acabara de receber, — ou melhor, com a premiação que poderia receber, — Grace se encontrou com Júlia, a colega com quem havia marcado de fazer o trabalho de física. Já havia um tempo que Júlia olhava estranho para Grace, como que a evitando. Julgou ter visto Júlia duas ou mais vezes tentando trocar de dupla com outras pessoas.
Com insucesso, teve de continuar em sua dupla, marcando de fazer o trabalho de Física à tarde, na casa de Grace.
Quando chegou à casa na companhia de Júlia, percebeu que não conseguiria contar a novidade a Thomas até que a colega fosse embora.
Tentou imaginar o porquê de Júlia estar tão estranha e só conseguia pensar no dia em que vira a colega com Lydia.
— Júlia, está tudo bem? — perguntou Grace, por fim, enquanto escreviam o conteúdo do trabalho no computador.
— Está sim, por que não estaria? — Júlia se mostrava nervosa com a conversa.
— Você está estranha comigo, não sei. Antes estava animada para fazer o trabalho, e agora está se mantendo o mais distante de mim possível.
— É que... — Júlia começou, mas desistiu.
— Pode contar, não vou ficar brava contigo. — Grace a encorajou.
— Não achei justo o que você fez com a Lydia. — Júlia falou apressadamente, como se fosse uma palavra só.
— Como assim? — Grace franziu o cenho, sua respiração começando a ficar difícil.
— Isso já tem muito tempo, né? Mas ela disse que você foi uma traidora. Nunca pensei que você fosse assim. Eu sempre quis ser sua amiga.
— Traidora? Ela disse mesmo isso? — Grace estava sentindo uma mistura de raiva e tristeza.
— É. Disse que você ficou com o Thomas, mesmo quando ela namorava com ele.
— Eu nunca fiquei com o Thomas...
— Não?
— E ela nunca namorou com ele!
— Mas como ela pôde inventar algo do tipo? Todo mundo agora acha que ela namorou o Thomas.— Júlia disse, confusa. — E agora, com esse sumiço misterioso do Thomas, ela disse que ele está trancado no quarto por horas, sem comer, porque ela não quer voltar para ele.
— Não acredito que ela espalhou isso... O Thomas está morando na Escócia, fazendo faculdade.
— Mas que história estranha!
— Que mentiras descabidas! — Grace exclamou.
— Sinto muito por isso estar acontecendo com você.
— Tudo bem, mas espero que isso acabe. Obrigada por me contar.
•••
Quando Júlia foi embora, Grace correu para seu quarto a fim de contar para Thomas todas as novidades que havia recebido naquele dia. Sem contar que estava morrendo de saudade.
— Oi, sumida — disse Thomas ao atender. Estava lendo um livro de filosofia em sua cama quando Grace ligou.
— Oi, está ocupado? — perguntou Grace.
— Para você, nunca. — Fechou o livro e ajeitou-se na cama.
— Tenho novidades.
— Opa. Espero que ótimas. Na verdade, qualquer coisa deve ser melhor que Epicuro.
— Tenho uma notícia extremamente boa e uma extremamente ruim.
— Ih, começou... — Thomas coçou a cabeça. — Antes de ser golpeado, deixe-me te ver.
— Oi?
— Aceita a chamada de vídeo, por favor, vai.
Grace ajeitou o cabelo e a postura ao se sentar na cama para atender.
— Certo. Agora pode mandar a notícia extremamente ruim, acho que nada me abala depois de lembrar o quanto você é bonita. — Thomas deu um sorriso de lado.
— Para com isso, Tommy — Grace sentiu sua barriga gelar e seu rosto queimar e enrubescer.
— Antes que você vire um pimentão, conte a notícia.
— A extremamente ruim? — Grace sorria.
— Ah, Grace. Como pode ser tão ruim assim se você sorri ao contar? — Thomas perguntou.
— É que você me deixa nervosa.
— Não precisa disso, linda.
"Para de me chamar de linda senão eu derreto aqui", pensou Grace, que suspirou e começou a contar a novidade extremamente ruim.
— A Lydia está espalhando uns boatos sobre nós.
Thomas soltou uma gargalhada.
— Previsível, né?!
— Não... ela era minha melhor amiga, não podia falar essas coisas de mim.
— Qual é a natureza das coisas que ela está dizendo? — preocupou-se Thomas.
— Que eu fiquei com você enquanto você e ela estavam namorando...
— Sério? Não acredito. — Thomas fez uma cara séria, totalmente falsa.
— Sim... — Grace respondeu, indignada.
— Não acredito que você teve coragem de ficar comigo enquanto eu estava namorando. Que coisa terrível, Grace Daves! — Thomas sorria, fingindo estar chocado.
— Você não consegue levar as coisas a sério, Thomas? — Grace encarou-o seriamente.
— Não. — Thomas prendeu a risada. — Mas, agora... é sério... ela não pode espalhar essas coisas sobre você. Coitadinha da minha garota. Vou ter uma conversa com a Lydia.
— Não... Eu posso falar com ela...
— Será que essa conversa seria civilizada?
— Não sei. Levo a Brenda.
— Brenda... um ótimo exemplo de polidez — Thomas ria e meneava a cabeça.
— E tem mais... Ela disse que o seu sumiço repentino é explicado por você estar no seu quarto, trancado, sem comer, de luto, porque ela não quer perdoar a sua traição.
— Isso é muito engraçado. — Thomas disse sem conseguir conter a risada. — Essa parte ninguém acreditou, não é possível. Essa parte ficou muito boa, cena de novela mexicana.
— Thomas — Grace tentava não rir da situação. Ele realmente conseguia fazer com que coisas tão pesadas fossem consideradas leves como plumas.
— É... Lydia têm umas sacadas geniais. Incrível o efeito que meus beijos tiveram sobre ela. Ficou louquinha — Thomas fez uma careta.
— Seus beijos? — Grace levantou uma sobrancelha. Ela sabia que Thomas nunca havia beijado uma garota, mas era tão difícil de acreditar que um garoto tão atraente quanto ele nunca tivesse beijado que nem conseguia assimilar aquela verdade.
— É... nossos beijos foram muito intensos, só que muito molhados... você nunca passou dicas de beijos para sua amiga, Grace? — Thomas fez uma cara de nojo.
— Lydia babona, sei. Conta outra. Isso é tão difícil de acreditar quanto a história de que você nunca beijou uma garota. — Grace ria.
— Vou precisar te dar um beijo para poder te mostrar que é verdade que eu nunca beijei? Eu prometo que vai ser ruim o bastante. — Thomas sugeriu, segurando a risada.
— Não. — Grace limpou a garganta, sem graça, repreendendo-se por ter achado o que ele falou, e a cara dele ao falar, fofinho demais. — É que você parece saber muito sobre beijos... até demais para quem nunca beijou.
— Por dedução lógica, engolir muita saliva de alguém não deve ser tão bom... — Thomas fez uma careta de quem estava falando o óbvio.
— Então tá, acredito em você. — Grace sorriu sem mostrar os dentes.
— Mas não vamos dizer que eu não tenho treinado...
— Como assim? — Grace tentou não gargalhar.
— Com gelo, laranja... Nunca tentou?
— Não... pode... ser verdade! — Grace disse entre risadas soluçantes. — Como faço para eliminar essa cena da minha mente?
— Você é tão bobinha. — Thomas ria. — É claro que eu não fiz isso.— Limpou a garganta. — Talvez eu nunca tenha feito... se fiz, foi há muito tempo. — Thomas revirou os olhos, fingindo estar se enrolando na conversa.
— Não sei mais no quê acreditar, Thomas Fraser.
— Acho que você me deve a notícia extremamente boa agora, afinal a extremamente ruim nem foi tão extrema assim. — Thomas mudou de assunto.
— Se segura... — Grace mordeu os lábios para conter a ansiedade de falar algo tão importante.
— Vai, vai. Fala — disse Thomas, animado.
— Existe uma possibilidade, bem remota na verdade, de que eu passe os próximos três meses na Inglaterra. — Grace sorriu de orelha a orelha.
— Ah... meu coração! — Thomas colocou a mão no peito e fechou os olhos. — Você não pode me falar uma coisa dessas, meu coração não aguenta mais.
— Desculpa, tá tudo bem? — disse, preocupada.
— Estou ótimo. Só espero conseguir viver durante os próximos três meses.
— Não brinca com essas coisas, Tommy.
— Eu não poderia ter recebido notícia melhor. Estou louco para te ver. Mas de onde surgiu essa oportunidade?
— Lembra daquela redação que escrevi? — Grace falou, insegura.
— Sobre você ser apaixonada por mim? — Thomas levantou uma sobrancelha.
— Não exatamente. Então. Se eu ganhar, e eu estou entre os finalistas, vou ficar na Inglaterra por três meses para fazer um curso. — Grace sorriu para a câmera. — Mas não é nada certo, existe muita gente boa por aí... e minha redação nem estava assim tão boa.
— Ah, Grace — Thomas ajeitou-se na cama. — Conta outra, vai? Você é a minha escritora favorita. Não tem nada que você escreva que eu não ame. Sem contar que o que você escreveu estava recheado de amor, de devoção, de entrega. Não existe a possibilidade de você não ganhar. E, se não ganhar, é porque eles não sabem ler.
— Tommy — Grace não sabia o que falar.
— Estou tão feliz com essa possibilidade de te ver. Sério. Se eu te contar que estou com saudade até do seu cheiro de shampoo, você acredita?
— Shampoo? Assim você insulta o meu perfume. — Grace acabou percebendo que, por nunca usar perfume para ir à escola, realmente Thomas nunca havia sentido um cheiro diferente nela.
— Eu gosto muito. Dá pra saber que você toma banho mesmo — Thomas caçoou, mas realmente gostava do cheiro dela. — Se eu te contar que estou com muita vontade de te dar um abraço, você acredita?
— Achei que a gente tivesse dado o último abraço.
— A gente tem que conversar sobre isso. Por mais que eu morra de vontade de te abraçar, te fazer carinho, segurar a sua mão e até mesmo... hum... — Thomas pensou muito bem se deveria mesmo dizer aquilo, — eu tenha muita vontade de... beijar você, temos que combinar umas coisas antes. Coisas que eu acredito serem importantes para a gente se guardar por um tempo, ok?
•••
Depois de um tempo de conversa, Thomas lembrou-se do desafio de seu avô e de que tinha que descobrir algumas coisas sobre a vida de Grace.
— Tenho umas perguntas para te fazer — Thomas coçou a nuca, meio constrangido.
— Pode mandar.
— Não conheço seu pai... ele mora com vocês?
— Mora, sim. Mas trabalha muito, e fora dos EUA, na Inglaterra. Provavelmente eu fique com ele, caso ganhar o concurso. Enfim, não nos vemos tanto quanto antes.
— Entendi... E seus pais são cristãos?
— Sim, são... e eu sou cristã desde sempre. Por que as perguntas?
— Só estou querendo conhecer você um pouco melhor, posso? — Thomas levantou uma sobrancelha para descontrair.
— Mas é claro que pode. — Grace sorriu.
— Posso continuar?
— Sim, senhor.
— Existiu algum momento em sua vida que você considera o momento de sua conversão?
— Hum. — Grace tentou lembrar de algo. — É muito ruim dizer que não?
— Me explique melhor...
— Não existe um momento radical em minha vida em que eu pensei "pronto, sou cristã". Eu simplesmente sou desde que me entendo por gente, mas teve uma parte em minha caminhada onde eu realmente tomei consciência da dimensão do que eu estava fazendo. Não foi um estalo súbito, foi uma mudança progressiva.
— Interessante.
— Isso é ruim? — Grace deu um sorriso sem graça.
— Não estou aqui para te julgar, só ouvir.
— Ah, para de ser bobo. Me fala alguma coisa.
— Olha, Gracinha, Deus escreveu histórias distintas, o importante é que todas têm um mesmo fim: redenção. Pode ser que alguém teve que passar por uma experiência traumática para voltar-se para Deus. Ou pode ser que a pessoa conheça a Cristo só nos seus últimos dias de vida. Ou pode ser que uma criança ouça e creia no Evangelho mesmo quando bem novinha. Acontece de uma maneira diferente com cada um. Mas a conversão aconteceu de fato na sua vida, certo?
— Sim. Penso exatamente assim. Desde criança, eu creio. Mas não posso negar que um despertar imenso surgiu há um tempo, quando comecei a levar as coisas de Deus mais a sério. Num momento, eu ia a igreja só porque meus pais me obrigavam; em outro, eu estava indo porque desejava. Ah, e você foi fundamental para que eu pudesse me firmar ainda mais, você me ajuda e ensina muito.
— Você também me ajuda e ensina muito, Grace. É por isso que você vai casar comigo.
Thomas sentia seu coração palpitar, mas ainda alguma coisa passava por sua mente, como se as peças do quebra-cabeça ainda estivessem faltando.
— Vou? Não lembro de ter aceitado — Grace disse com um sorriso convencido no rosto.
— As coisas estão muito diferentes do planejado. — Thomas disse, sério. — Antes de te conhecer, eu achei que fosse fazer tudo perfeito. Não pensava que, quando eu encontrasse a garota certa para casar, eu seria tão inconsequente. Eu só preciso resolver uma coisa primeiro. Desculpa.
Grace não o achava inconsequente. Ela ainda não entendia a que ele estava se referindo. Será que toda aquela paixão que sentiam um pelo outro estava errada? E aquela vontade de ficar juntos era, necessariamente, um pecado? Ela ainda queria ter a chance de perguntar, porque, na visão dela, Thomas estava fazendo tudo muito certinho. Certinho até demais! E ela estava achando tudo muito perfeito.
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Não esquece a estrelinha. ⭐
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