saving Grace
A volta para casa foi particularmente tensa, tanto pelo fato de estarem todos quietos desde aquele debate quanto pelo fato de Lydia estar querendo animar as coisas. A verdade era que Lydia, por mais distante que estivesse do que acontecia entre Thomas e Grace, sabia que algo estava acontecendo entre eles. E até temia que eles pudessem se aproximar demais. Afinal, assim que conheceu Thomas, percebeu que ele gostava das mesmas coisas que Grace e era tão inteligente quanto ela. Lydia sentia que o clima havia esquentado não porque Grace e Matthew a estavam protegendo de alguém que não conheciam, mas porque Matthew sentia algum tipo de ódio por Thomas, e Grace, algum tipo de afeição.
Apesar de acreditar que as coisas estavam estranhas, também acreditava que elas não poderiam ficar pior do que já estavam.
Enganou-se profundamente.
— Então, gente. Uma música para relaxar. — Lydia ligou o rádio do carro de Thomas, que ainda tocava Al Green.
— Vamos dar uma inovada, não é? — Thomas tocou na pequena tela à sua frente para abrir uma pasta de seu pen-drive.
De repente, começou algum tipo de música escocesa que só o Thomas conhecia. Com direito a batidas no estilo folk e gaita de fole.
— O que é isso? — Perguntou Lydia, rindo.
— É a música da Escócia! Meu país! — Thomas disse num sorriso de orelha à orelha, cheio de orgulho.
— Mas você nasceu aqui — disse Lydia.
— Mas eu sou de lá.
Grace estava rindo da música animada, quase dançando com os pés e batendo palmas no banco de trás. Era realmente contagiante. Matthew continuava emburrado no canto.
— A cultura escocesa é uma das mais ricas, vocês precisam conhecer — Thomas disse por fim.
— Você já foi à Escócia? — Lydia perguntou interessada.
— Vou em quase todas as férias.
A voz que cantava na música falava um inglês estranho, quase que ininteligível. Mas Thomas cantava naquele inglês com sotaque escocês como se fosse sua língua materna.
— Falta um pouco de cultura escocesa nesse país, vocês não acham? Os instrumentos musicais escoceses soam bem melhor. Aqui nos EUA os caras só querem saber de tocar solos já manjados de guitarra. — Thomas riu. — Não tem instrumento mais clichê do que a guitarra, vocês não acham? Mas duvido que eles consigam tocar uma gaita — no fundo, Thomas estava só brincando, querendo que o que tivesse dito soasse muito engraçado e que toda a tensão do carro evaporasse.
O que ele não sabia era que ele havia criticado exatamente a postura e os gostos de Matthew, que amava tocar os famosos solos de guitarra.
Percebendo o que Thomas tinha feito, Grace tomou partido.
— Eu não penso assim. Guitarra é ótima, quando se sabe tocar. O Matthew é o melhor guitarrista do mundo.
Thomas, depois de perceber o que tinha falado, quis se esclarecer.
— Mas é claro que eu estava brincando, claro... — A verdade é que ele segurou para não cair na gargalhada, tamanha a mancada que tinha cometido.
•••
Ao chegar em casa, Matthew contou para Grace o quanto havia achado aquele cara, chamado Thomas, insuportável.
— Você não percebeu o quanto ele é arrogante? Viu as afrontas que ele fez a mim?
— Ele não fez afronta, amor. Ele estava brincando, ele nem sabia que você tocava guitarra. — Grace tentou convencê-lo enquanto pendurava seu casaco.
— Como você sabe que não? Ele se acha muito superior, não é? É um mané do ensino médio e quer disputar comigo? Comigo, amor? — Matthew disse com desdém no olhar.
— Ele não quer disputar. Ele queria ser simpático depois daquele acontecimento. — Grace tentou consolá-lo com um abraço.
— Você não pode — Matthew levantou a voz, soltando-se do abraço —, não pode, estar defendendo esse cara.
— Não estou defendendo ninguém — Grace disse, um tanto assustada.
— Amanhã eu vou conversar com a Lydia, não tem condição alguma de namorar com aquele cara. Se você e ela não percebem, eu percebo. Aquele cara não bom!
Já estava muito tarde para ficarem conversando, e a mãe de Grace disse para ela ir para a cama. Tudo estava pronto no sofá para que Matthew dormisse, eles se despediram na porta do quarto de Grace com um beijo. Matthew quis entrar no quarto dela, o que mais uma vez fez com que Grace questionasse se deveria mesmo continuar aquele relacionamento. Estavam no segundo ano de namoro, mas nunca haviam avançado. Não que Matthew nunca tentasse. E isso tudo apesar da conversa que tiveram mais cedo.
Quando fechou a porta do quarto, Grace pegou o celular para dar uma olhada nas redes sociais. O que não contava era que Thomas lhe enviaria uma mensagem assim que chegasse em casa.
Thomas: Um fracasso total, certo?
Grace: Sim, me desculpa...
Thomas: Desculpa pelo quê?
Grace: Não esperava que isso fosse acontecer.
Thomas: Tudo bem. A culpa foi minha, eu não devia ter falado tanto.
Grace: A coisa da guitarra foi muito desnecessária, mesmo.
Thomas: Grace, aquilo foi épico! KKKKKKKKKKKKKKKK
Grace: Como você é maldoso!
Thomas: Mas, sério, foi sem maldade. Nem pra você me contar que ele toca guitarra, garota!
Grace: Me desculpa por não ficar te contando sobre a vida de alguém que você não conhece.
Thomas: Ele é seu namorado. E me odeia. Tenho que tomar todo o cuidado do mundo para ser seu amigo.
Grace: Você está disposto a enfrentar um namorado raivoso para ser meu amigo?
Grace não sabia que Thomas enfrentaria qualquer coisa nesse mundo para ser seu amigo.
Thomas: Eu preferia quando eu era só o seu pior inimigo.
Grace: Verdade?
Thomas: É. Pelo menos não tinha nada que te impedisse.
Grace: Ei, nossa amizade não está impedida. Seremos amigos. Você vai casar com a Lydia e eu vou ser tia dos filhos de vocês.
Thomas: Pretendo morar na Escócia, você vem me visitar?
Grace: Verei com o Matt...
Thomas: Ou seja, você nunca virá me visitar.
Grace: Uau... Agora fiquei imaginando você com seus filhos, eu com os meus! Isso é uma loucura. Quantos você quer ter?
Thomas: Três, no mínimo, e você?
Grace: Quantos eu puder! Agora imagine você casado, com filhinhos, morando na Escócia e (insira aqui a profissão que você escolher). Vai ser uma vida boa, não? Nem vai se lembrar dos amigos...
Thomas: Eu vou me lembrar de você, Grace.
Grace: Não vai mesmo... cala a boca.
É claro que ela gostou do que leu, mas não queria que ele a deixasse emocionada com isso. E, sabe de uma coisa?, Thomas estava falando sério quando dizia que não iria esquecê-la.
Thomas: Sabe, meu pai é pastor numa igreja.
E, do nada, como se fizesse parte do assunto, Thomas contou algo que Grace nunca poderia desconfiar. Mesmo morando numa cidade tão pequena como North Adams, não conhecia a todos os pastores, ainda mais se não fossem da mesma denominação que ela.
Grace: Uau! Sério?
Thomas: É. A nossa igreja é bem pequena. No quintal da minha casa, na verdade.
Grace: Eu sempre desconfiei que você era cristão.
Thomas: Ah, que bom! O fato de eu ser seu irmão nunca remediou o fato de você me odiar?
Grace: Não... Irmãos vivem brigando.
Thomas: Que palhacinha...
Grace: O que você quis dizer com isso do seu pai ser pastor?
Thomas: Você falou sobre a faculdade que eu faria e sobre minha futura profissão. E meu pai sempre foi uma inspiração para mim, Grace. Ele nunca me obrigou a nada, mas fez questão de me ensinar sobre tudo, então eu sempre admirei a sua postura como pastor. Enfim, eu tinha a mania de entrar na biblioteca dele e ler sobre os mais variados assuntos, foi assim que aprendi bastante coisa. Nossa família é de origem escocesa, e as minhas primeiras lições de casa eram gravar todo o "Breve Resumo de Todo o Catecismo Escocês", é, esse é o nome. E a fé que eles tinham me invadiu totalmente desde que me entendo por gente. Quando eu tinha quinze anos, entrei na biblioteca dele e encontrei um livro. Li coisas sobre o ministério pastoral e senti no meu coração algo muito forte relacionado a isso. Desde então, tenho me questionado sobre isso... Acho que é isso que eu tenho que ser.
Grace: Você está me dizendo que quer ser pastor?
Thomas: Sim. Estranho? Eu nunca contei isso para ninguém.
Grace: Não é estranho. É bonito...
Thomas: Bonito?
Grace: É a sua vocação! Eu realmente pensei sobre isso hoje enquanto você estava falando sobre a questão da liberdade em Cristo. Você parece ter uma paixão por isso, e eu acredito que você está totalmente certo em querer ser pastor. Isso é a sua cara.
Thomas: Num pulo, passei de astronauta a pastor.
Grace: Acho que agora eu te conheço melhor. Mas, por que você contou pra mim?
Thomas: É que eu confio em você. E tem a ver com o que a gente estava falando.
Grace: Absolutamente, não tem nada a ver. A gente estava falando sobre você se lembrar ou não de mim.
Thomas: É que Grace me lembra a graça. Imerecida. Maravilhosa. Irresistível. Quando eu estiver pregando, falarei sobre a graça, com certeza. É uma das bases do Evangelho. E, se eu falar de graça, temo me lembrar de você.
Grace: Isso seria romântico se não fôssemos amigos.
Thomas: Não. Romântico seria se eu dissesse que, como a graça salvadora, a Grace me leva ao paraíso. Mas eu não disse isso. Não disse.
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E aí? Estão sendo bem alimentadas? Ainda falta bastante coisa pra rolar. Espero que gostem!
Não esquece a estrelinha. ⭐
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