philieros
— Sabrine, preciso me concentrar para escrever uma redação, você pode escolher um livro por enquanto... Não sei. Fica à vontade.
Já estava quase anoitecendo quando Grace resolveu começar a escrever a redação de filosofia, não que não estivesse pensando nela o dia inteiro. Já tinha uma ideia do que escreveria, mas não sabia como introduzir o assunto — esse sempre foi um problema quando Grace começava a escrever um texto. Acreditava que o início deveria ser tão bom quanto o final, por isso sempre era a última a entregar as provas discursivas.
— Nenhum me interessa — disse Sabrine ao olhar os livros que estavam na estante de Grace.
— Então tudo bem, faça qualquer coisa.
Enquanto Sabrine andava pelo quarto de Grace, entediada por não ter nada para fazer, Grace começou a pesquisar sobre as palavras que Thomas havia dito. Não lembrava exatamente quais eram, mas sabia que se referia a tipos de amor. Lembrou de Eros, quando ele disse que era o mais oito ou oitenta dos amores. E foi assim que encontrou o livro do C.S. Lewis — o autor de seus livros preferidos, As Crônicas de Nárnia —, chamado Os Quatro Amores, que perfeitamente se encaixava no tema de sua redação. Mas como conseguiria lê-lo até amanhã? E como conseguiria redigir uma redação sobre o assunto de um livro que ainda não havia lido? Comprou-o numa loja virtual e começou a ler em seu tablet. Lia rápido demais, muitas palavra spor minuto. Tinha que correr contra o tempo.
O livro era divido por tipos de amores. Leu sobre Philia, o amor entre amigos e ficou maravilhada ao ler isto: "A Amizade surge do mero Companheirismo, quando dois ou mais dos companheiros descobrem que têm em comum alguma percepção ou interesse ou mesmos gostos que os demais não partilham e que, até aquele momento, cada um acreditava ser o seu tesouro ou fardo especial. A expressão típica de um começo de Amizade seria algo como: 'O quê? Você também? Pensei que eu fosse o único'."
Ficou pensando em Lydia e como foi que a amizade delas surgiu. Não conseguia se lembrar exatamente do dia em que começaram a se falar, mas foi quando na sexta série, Lydia disse que gostava do Justin Bieber, e Grace disse que ela também. A partir de então, a amizade foi surgindo gradativamente, como se isso tivesse de acontecer mesmo. As diferenças entre elas foram sendo percebidas ao decorrer do tempo, mas ambas tinham muitas coisas em comum também, por isso eram amigas. Lembrou-se também de Thomas, mas não conseguia elencar todas as coisas que tinham em comum. Percebeu que, depois que deixou de odiá-lo, o primeiro quesito que percebeu terem em comum era Deus.
Quando chegou a Eros, seu coração deu leves palpitações ao encontrar descrições de coisas que não poderiam ser sentidas por um simples amigo. Entrou num pequeno questionamento que todo o mundo já teve dentro de si, mas nunca chegam a um consenso:
Existe amizade entre um homem e uma mulher?
"Quando as duas pessoas que descobrem estar palmilhando a mesma estrada secreta são de sexos diferentes, a amizade que surge entre elas irá facilmente transformar-se — talvez depois da primeira meia hora — em amor eros. De fato, a não ser que sejam repulsivos um ao outro fisicamente ou que um ou ambos já tenham outros compromissos, é quase certo que isso aconteça mais cedo ou mais tarde."
A princípio, não queria aceitar aquela proposição. Aceitava até certo ponto que, de uma amizade, pode-se surgir um amor. Mas não que as pessoas estavam determinadas a isto. Pelo menos, havia duas condições. Você não se apaixona por um amigo que você não se sente atraída, nem por alguém que já esteja comprometido. E Thomas estava interessado, em certo sentido, por Lydia, não? No fundo, Grace sabia que não. Ela sabia que Thomas e Lydia não poderiam dar certo pelo simples fato de que eles não eram, nem mesmo, amigos.
Pensou no seu namoro com Matthew, que também não começou de uma amizade, apenas precipitadamente se tornou em namoro, e assim seguiu. Os dois não tinham nada em comum, apesar de terem achado, no começo, que eram almas gêmeas. O tempo mostra coisas que poderiam ser evitadas se soubéssemos esperar um pouco mais.
Quando terminou aquela parte do livro, já estava preocupada se conseguiria ou não redigir um texto sobre o que havia lido. A questão é que tudo aquilo só confundiu ainda mais a cabeça de Grace sobre o amor e as suas propriedades. Chegou à conclusão de que não sabia o que sentia por Thomas, se Philia ou Eros — será que uma mistura dos dois? Para escrever sobre alguma coisa, você necessariamente precisa entender sobre essa coisa? Para Grace, esse era o princípio básico de se escrever algo. Saber. Mas a única coisa que sabia era que não estava nem tão perto de entender o amor, não em só um dia. A sua redação não ficaria boa, tinha certeza.
— Grace, por que a sua mochila está tão cheia? O que você anda levando para a escola? — perguntou Sabrine neste devaneio de Grace, que não se preocupou em lembrar o que havia colocado dentro da mochila bem naquela manhã chuvosa.
— Nada — disse Grace ainda com os olhos fixados no tablet, sem muita atenção no que Sabrine estava fazendo.
— Thomas Fraser? Quem é esse?
— O que? — Grace já estava de pé antes de assimilar que o casaco de Thomas estava bem nas mãos de Sabrine, com a mochila jogada ao chão.
— De quem é esse casaco, Grace? — Sabrine estava com os músculos do rosto enrijecidos, parecendo triste, mas também com raiva.
— É de um amigo — disse Grace, tentando manter a calma. — Ele deixou comigo porque estava chovendo muito hoje.
— Hum — disse Sabrine, sem expressão no rosto.
Grace resolveu lidar com a situação de forma tranquila, pelo menos aparentemente tranquila. Por fora estava passando a imagem de que não havia acontecido nada demais, mas por dentro estava tremendo. Tanto porque estava com medo do que Sabrine poderia descobrir, quanto porque o cheiro de Thomas havia inundado todo o quarto.
Começou a escrever a redação, e achou que estava muito ruim. Não ligava. Sabia que não passaria no concurso, até porque qualquer pessoa tinha mais conhecimento sobre o amor do que ela. Resolveu que faria somente para ganhar mais um ponto extra em filosofia.
— Então... é o cara do mercado? — disse Sabrine apontando o celular para Grace, que estava deitada ao seu lado na cama. Ela havia sagazmente pesquisado pelo nome dele nas redes sociais e percebido a semelhança com o rapaz que viram mais cedo.
— É...
— Acho ele um idiota — Sabrine concluiu.
— Entendi. — Grace estava fingindo estar concentrada em reler a sua redação já pronta.
— Como ele é? — Sabrine não estava disposta a parar de falar dele.
— Legal. A Lydia parece gostar dele. — Grace desviou o olhar de seu notebook para Sabrine.
— Então eles são namorados? Ah! Mas a Lydia é tão legal, preciso falar com ela que isto está errado.
— Entendi. — Grace deu de ombros, não achou que Sabrine poderia mudar alguma coisa.
— Vou mandar uma mensagem para ele — Sabrine disse, depois de um tempo.
— O que? Por quê? Como assim? — Sabrine fazia o tipo anônima na internet, criando fakes só para enganar outras pessoas; sendo assim, não tinha muita civilidade quando o assunto era ofender as pessoas.
— É, vou mandar uma mensagem. Olha só.
Grace olhava para a tela do celular de Sabrine com medo do que poderia sair daqueles dedinhos nervosos. Mas tudo o que viu foi: "NAUM GOSTO DE VC", assim, em caixa alta e com erros ortográficos. Grace quase riu daquilo, torcendo para que Thomas não se desse ao trabalho de responder.
Em poucos segundos, Sabrine obteve a resposta.
Thomas: Ninguém te perguntou.
Grace não pôde deixar de notar o rubor na face de Sabrine. Ela estava furiosa, como se ninguém tivesse falado daquele modo com ela um dia.
Sabrine: Você é feio.
Thomas: Eu sei.
Sabrine: Eu te odeio.
Thomas: Eu não me importo.
— Grace. Como você consegue ser amiga de um ser tão insuportável?
"Talvez seja por isso que eu não consiga ser sua amiga, Sabrine", Grace pensou, sem verbalizar.
— Deixa ele pra lá, vamos dormir.
— Tá.
Depois de um tempo sem conseguir dormir, o celular de Grace vibrou. Era uma mensagem de Thomas.
Thomas: Ei, conseguiu terminar a redação?
Grace: Ficou horrível.
Thomas: Deu uma lida no que eu te disse?
Grace: Dei, mas aquilo só complicou ainda mais.
Thomas: Me desculpe, achei que fosse ajudar.
Grace: Não se preocupa. Eu amei o livro. É que eu realmente não sei o que é o amor.
Thomas: Qual amor?
Grace: Eros.
Thomas: Você escreveu sobre ele?
Grace: Sim. Na verdade, uma mistura de Philia e Eros.
Thomas: Está me que já se apaixonou por um amigo?
Grace: Eu não disse isso.
Thomas: Vou fingir que não. Mas o que você está esperando? Vai me mandar, ou não?
Grace: Não me zoa. Segue em anexo.
Quando uma amizade se transforma em amor.pdf
________
Não esquece a estrelinha. ⭐
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top