perdão
Grace sentiu-se muito honrada quando a família terminou o culto doméstico com uma oração de agradecimento por ela estar presente com eles naquele dia. Eles eram tão hospitaleiros e a faziam sentir-se tão confortável em seu meio! Mesmo Sr. Welch pareceu simpatizar-se com ela, perguntando-lhe sobre seus pais e sua educação. Ele deu-lhe um pequeno livreto chamado "Um Guia Seguro para o Céu", que havia sido escrito por volta de 1650, por Joseph Alleine. Grace agradeceu pelo presente, certificando-lhe que começaria a lê-lo mesmo no avião.
— Vem comigo. Tenho um presente — Thomas disse num salto do sofá, ao que Grace o olhou com surpresa nos olhos.
— Presente? — ela perguntou, levantando-se.
— Só um pequeno souvenir — Thomas disse num sotaque escocês exagerado, encaminhando-se até a escada lateral direita. — Espere aqui. — Ele solicitou enquanto corria escada a cima, Grace julgou que ele pegaria algo em seu quarto, por isso ficou ali no primeiro degrau da escada, esperando-o.
— Me desculpe pelo meu comportamento hoje. — Jake II chegou sorrateiro, dando-lhe um susto de fazer saltar o coração. — Desculpa... por isso, de novo. — Ele riu.
— Você não fez nada demais, Jake. — Grace certificou-lhe com um sorriso de compaixão no rosto.
— Eu prometi ao meu irmão que o faria passar vergonha o dia inteiro... acho que a vergonha está sobre mim, na verdade. — Jake riu um pouco sem graça, colocando a mão sobre a cabeça enquanto olhava para o chão, algo que Grace já vira Thomas fazendo. — Sempre estive ansioso por uma irmã. Eu ficarei muito satisfeito se ela for você.
— Você não vai largar do meu pé se isso acontecer, não é? — Grace perguntou, sorrindo.
— Eu não sou tão chato assim! — Jake II defendeu-se. — Hoje foi o máximo que consegui.
— Seu máximo é demais para a capacidade humana. — Grace riu. — Que eu não me arrependa do que estou prestes a falar! Mas eu sempre quis ter um irmão mais velho, não me importo com suas brincadeiras.
— Ei. — Thomas surgiu no topo da escada. — Deixe ela em paz — gritou enquanto descia.
— Ele estava me pedindo desculpas pelo comportamento — Grace admitiu, olhando do cunhado para Thomas. — Mas não sei qual o problema no comportamento dele. — Ela deu de ombros.
— Você é felizardo, Jake, porque ela é boa em "suportar as fraquezas, encobrindo-as com amor". — Ele piscou para o irmão, fazendo referência a um dos provérbios que eles decoraram quando crianças. — Você pode sumir daqui, irmão? Tenho aquilo a fazer — Thomas lembrou seu irmão, que, numa fração de segundo já estava bem longe deles.
— O que você vai fazer? — Grace o encarou, os olhos apreensivos e cheios de brilho. — Não era um presente? Onde está? — Ela procurou com os olhos.
— Eu... não vou conseguir fazer isso aqui na escada — Thomas disse, um pouco nervoso, olhando para os degraus. — Vem, sobe. — Ele segurou sua mão enquanto subiam com rapidez os degraus e chegavam ao topo, parando ali, à altura de uma larga janela que dava para certas montanhas lá fora.
Havia um castelo em ruínas no topo de uma daquelas montanhas. O céu estava começando a escurecer lá fora. Havia tons de roxo, laranja e anil no céu. Os cumes dos montes estavam cobertos de neve, e os raios do sol começavam a se esconder por detrás, ainda que ele já estivesse bem escondido pelas densas nuvens lá fora. Grace maravilhou-se com a vista, Thomas não desviava os olhos da moça à sua frente, encantado com o modo como ela se encantava pela criação.
— Volta aqui pro planeta terra — Thomas a chamou com calmaria na voz. Sua mão ainda não havia soltado a dela.
— Certo. — Grace sacudiu a cabeça rapidamente, voltando seu olhar para Thomas. — Cadê?
— Cadê o quê? — Thomas fez-se de desentendido.
— Thomas... — Grace começou a falar com dúvida na voz. — Vamos descer, não tem ninguém aqui em cima...
— Shhh — Thomas fez um longo chiado com a boca. — Meus pais estão logo ali. — Ele apontou para uma porta perto deles. — Por isso, vou falar baixinho. — Ele sorriu um pouco sem graça, olhando para a porta e pedindo aos céus para que seus pais não fossem capazes de ouvir o que estava prestes a dizer. — Grace Daves...
— Thomas — Grace repetiu seu nome. Agora tinha alguma ideia do que poderia ser, uma sensação em sua barriga fazia parecer que o chão havia sumido, estava em queda livre.
— Eu já te fiz esse pedido há alguns meses. Sinto que me deve uma resposta. Falei com seu pai, ele foi louco o suficiente de aceitar e me fez um belo discurso de elogios. Acho que seu velho gosta mesmo de mim. — Thomas sorriu, lembrando-se do sogro.
"Eu resolvi que esta será a última vez que vou te propor uma coisa dessa. Você não me escapa. Eu sou insistente o suficiente. Você é a minha companheira, essa é a coisa que eu mais admiro em você. Meu pai me ensinou a buscar uma boa mulher para mim na América, se essa fosse a minha vontade. Confesso que não era. Eu não pensava em terminar o ensino médio já pensando em ter uma família, nem nunca busquei uma garota para ser mais um igual na multidão. Mas desde que eu te conheci, vi que estava pronto. Você cumpria todos os requisitos, percebi aos poucos. Você é cristã. Você quer uma família, eu também. Você me mostrou frutos do Espírito enquanto conversávamos. Eu sei que cometi alguns erros, erros na maneira como lidei com algumas coisas. Era tudo uma novidade para mim".
"Eu passava um tempo te observando, vendo como você se comportava na escola. Lembro de te admirar sendo a única que levava a bandeja de comida no intervalo de volta para a cozinha, ao invés de esperar que alguém fizesse isso por você. Poucos fazem isso. Eu gostei do seu modo de se vestir. Suas roupas refletem muito a pureza do seu coração, mas seu coração é ainda mais bonito. Eu sempre te achei muito inteligente, sempre muito estudiosa. Você ia a lugares que as demais pessoas não se preocupavam muito em frequentar: ambientes mais sérios como bibliotecas, palestras e igreja. Ou seja, você era, racionalmente, a mulher perfeita para mim. E eu escolhi te amar. E foi a escolha mais acertada que eu fiz nos últimos tempos."
Ao terminar de falar, o momento mais temível era chegado. Thomas soltou um sorriso como se ele mesmo não acreditasse no que estava prestes a fazer. Grace, neste ponto, segurava o choro com muita dificuldade. Seus olhos estavam fixos nos olhos de Thomas e em cada movimento que ele fazia. Quando percebeu que ele havia soltado sua mão para pegar algo no bolso de sua calça, não conseguiu conter um riso. Estava nervosa demais para saber como lidar com aquilo.
Thomas agachou-se rapidamente, apoiando-se em um só joelho. Olhou nos olhos de Grace, mesmo muito mais baixo que ela, e amou contemplá-la por aquele ângulo. Ela o olhava com os olhos marejados, levando ambas as mãos ao rosto, mostrando seu estado apreensivo. Thomas tirou com calma uma caixinha preta de veludo do bolso e, com um sorriso no rosto, disse as lendárias palavras:
— Grace Daves. — Ele suspirou ao olhar os olhos espantados da moça. — Quer casar comigo?
Um momento de silêncio. Grace estava chorando, não conseguia responder. Thomas notou que havia esquecido de abrir a caixinha. "Eu sou um desastre", pensou ele. Sem que ele tivesse chance de abrir a caixinha, ela respirou para responder:
— Eu quero, muito — ela apertou suas mãos uma contra a outra, sem saber o que fazer com elas naquele momento.
Thomas levantou-se devagar, abrindo a caixinha e tirando um lindo e delicado anel solitário. Era de ouro, com uma pequena pedrinha amarela-clara central, como que uma flor brotando do anel. Aquilo fez Grace se lembrar de suas flores preferidas, a cor de seu vestido preferido, a parede do seu quarto. Amarelo lhe dava a sensação de felicidade; um turbilhão de sensações naquele que era um dos momentos mais especiais de sua vida.
Thomas pegou em sua mão direita e, com bastante cuidado, colocou-lhe o solitário no dedo anelar. Grace percebeu, de fato, que aquele adorno era o que estava faltando em sua mão. Thomas, ao contemplar sua mão, beijou-a com delicadeza.
— Agora é oficial. Somos noivos. E você tem um anel. — Ele sorriu com um tanto de confiança no olhar.
•••
Toda a família de Thomas, após um simples jantar, resolveu que seria de bom tom que todos se deslocassem ao aeroporto para conhecerem o pai de Grace.
De fato, Arthur tinha algum tempo para conversar antes do embarque. Ele viu o anel no dedo da filha e sorriu. Ele já sabia que ela o receberia naquele dia.
— Espera aí. Como foi que você descobriu o tamanho correto do anel? — Grace perguntou a Thomas, desconfiada de que seu pai teria se dado ao trabalho de entrar no seu quarto e medir o diâmetro de algum anel.
— Sua mãe me ajudou — Thomas disse, com simplicidade. — Eu tive que conversar com ela também.
— Você o quê? — Grace perguntou. Sabia que sua mãe ficaria um tanto preocupada com o termo "casamento".
— Ela ficou um pouco desconfiada. — Thomas assentiu olhando seus pais e avós conversarem muito amigavelmente com Arthur. — Mas seu pai me ajudou.
•••
Já no avião, Grace tentava controlar suas emoções por ter acabado de se despedir, novamente, de Thomas.
Depois de se despedir com um abraço as mulheres da família de Thomas e os homens com um aperto de mão, Thomas segurou sua mão e a puxou para um abraco mesmo ali, na frente de sua família, que os contemplavam com um brilho no olhar (talvez Jake II tenha fingido estar enojado, mas achou a cena uma graça, também). Grace envolvia o tronco de Thomas com força, enquanto ele abraçava-lhe os ombros e se esforçava para guardar o cheiro de seu cabelo. Deu-lhe um beijo no topo da cabeça e afastou-se um pouco. Grace ainda segurava as bordas de sua jaqueta, olhando-o nos olhos e entendendo perfeitamente que deveria partir antes que não conseguisse mais.
Ela voltou-se para a família atrás de Thomas, acenou e se foi.
Thomas respirou fundo e virou as costas para ela. Olhá-la indo embora era doloroso demais, e ele não podia chorar de novo por isso.
— Thomas, você está encrencado! — Jake II constatou quando o irmão chegou mais perto da família.
— O que eu fiz de errado? — Thomas olhou para seu pai e avô, que não pareciam carrancudos, mas conversavam sobre um assunto qualquer.
— Você ama aquela mulher — Jake II falou com convicção enquanto andavam pelo aeroporto.
— Odeio admitir coisas do tipo logo para você, mas eu não poderia negar. Eu amo a Grace, é bem óbvio.
— Ver meu irmão assim me faz quase voltar a acreditar que existe alguma esperança — Jake disse, olhando para o chão, um pouco tímido.
— É quando você menos espera, mas também é algo construído aos poucos. Espero que um dia você sinta o mesmo. Mas, quando acontecer, faça o certo. E se case logo com ela.
No avião, Grace constatava que também sentiria falta das brincadeiras de Jake II, da marra do Sr. Welch, das repreensões da Sra. Taylor, dos conselhos do Sr. Jake e da doçura da Dona Eliza. Sentia que havia se apegado a essa família. Percebeu que se sentia muito confortável perto deles, ainda que tivesse passado somente um dia em sua companhia.
— Filha. Eu sei que falei sobre você entrar na cabine hoje. Mas não estou me sentindo muito bem... — Arthur comentou enquanto andavam pelo aeroporto.
— Como assim? O senhor não pode pilotar. — Grace precipitou-se.
— Não é nesse sentido... estou bem... em casa conversamos — Arthur falou, por fim, com um sorriso um tanto forçado no rosto.
•••
O dia parecia não ter fim. Havia passado por tantas emoções! Sabia que, na verdade, algo a aguardava em casa. Grace temia que seu pai tivesse se arrependido em tê-la concedido a permissão de entrar em noivado com Thomas, que ele a obrigasse a voltar atrás. Ela o respeitava muito, queria agradá-lo e honrá-lo, mas sabia que doeria muito se ele a afastasse de Thomas. Mas, pelo que Thomas disse, essa teoria não fazia muito sentido.
Ele estava com um semblante indecifrável enquanto subiam no elevador do prédio. Grace sentia seu coração bater mais forte a cada andar que o elevador chegava. Tinha certeza que o dia não teria como ser perfeito...
Abriram em silêncio a porta do apartamento. E, para a surpresa de ambos, Louise estava lá, jogada no sofá, assistindo algo na televisão, com um fino e curto vestido de seda.
— Louise, o que você está fazendo aqui? — Arthur disse, com uma voz muito alterada.
— Eu achei que... — Louise levantou-se rapidamente do sofá, um sorriso meio cínico nos lábios — que ela não voltaria hoje.
— Eu te disse. — Arthur passou a mão pela cabeça. — Eu te disse que ela voltaria hoje.
— Não disse. — Louise se mostrava desentendida. — Ah! Talvez tenha falado... Confundi completamente.
Grace estava em choque, sem entender o que estaria acontecendo. Ao mesmo tempo, sua cabeça martelava coisas como "eu sabia". Mas, ao contrário de esclarecer as coisas, aquilo deixava Grace cada vez mais obscurecida e diminuída. Não poderia acreditar que aquilo que estava vendo era realmente verdade. Entrou num devaneio, ouvindo tudo o que eles estavam dizendo, sem assimilar realmente os significados de suas palavras.
— Vá embora daqui — Arthur gritou com ela. — Não volte nunca mais.
Foram as únicas palavras que Grace realmente entendeu antes que Louise resmungasse, corresse para a porta e a batesse com muita força. Grace estava paralisada, em choque com o que seus olhos haviam acabado de ver.
— Filha, eu posso explicar. — Arthur iniciou após alguns minutos em silêncio.
— Eu não quero saber. — O sangue quente que lhe corria pelas veias fazia com que ela falasse o mais asperamente que podia.
— Eu tenho que falar. Era sobre isso que quis conversar. Eu tenho que me confessar. Ou vou explodir. — Seu pai sentou-se no sofá, o olhar totalmente perturbado.
— Vou para o meu quarto — Grace disse, decepcionada. Agora só pensava em sua mãe sozinha do outro lado do mundo, aguardando ansiosamente pela volta da filha e do marido. Como ela pôde ter deixado sua mãe sozinha e ter querido morar, nem que fosse por três meses, com o seu pai? Seu pai... a quem ela tanto admirava. A máscara do herói que por muito tempo ele havia colocado sobre si havia acabado de cair, definitivamente. E ele nem ao menos se esforçou para segurá-la.
Ela sentia-se traída. Sim. Traída. Seu pai havia traído toda a família quando resolveu colocar outra mulher em sua casa. E aquele sentimento de insegurança lhe batia mais uma vez: "se o meu pai foi capaz de fazer isso com a minha família, o que qualquer outro homem não poderia fazer comigo?". Estava prestes a se casar com um homem a quem admirava tanto quanto seu pai. E se ela se frustrasse novamente?!
— Grace. Eu peço a você que fique e me deixe explicar. Você não precisa me perdoar. Somente me escute.
Ela, como que no automático, sentou-se na poltrona que Thomas havia sentado há algumas semanas. Lembrou-se de seus conselhos sobre não tomar atitudes precipitadas e respirou fundo para ouvir o que seu pai tinha para dizer-lhe.
— A Louise e eu temos, tínhamos, um caso há meses — ele falava com um quê de nojo em suas feições, sem forças o suficiente para olhar a filha nos olhos. — Ela era somente minha assistente, mas os nossos desejos falaram mais alto. Eu estava há muito tempo sem ver a sua mãe, mas isso não é desculpa. — Ele negou com a cabeça, corrigindo-se. — A verdade é que eu prometi a ela que eu me divorciaria de sua mãe. E ela acreditou em mim. Eu nunca quis me divorciar da sua mãe. Mas eu... Eu falaria qualquer coisa para me satisfazer. — Ele fitava as próprias mãos enquanto falava, sentido que elas estavam tão sujas quanto trapos.
"Então eu disse a ela que você viria passar uns meses comigo, ela pareceu gostar da ideia. Prometeu que se comportaria. Mas quando ela percebeu que eu não tinha intenção de me separar da sua mãe, ela começou a me ameaçar sutilmente. Ela brincava comigo, eu nunca achei que ela seria capaz de te contar algo..."
"Quando você chegou, notei o quanto você tinha crescido dos últimos meses para cá. Você estava diferente, mais madura. Notei a sua Bíblia descansando ao seu lado na cama enquanto você dormia. Vi você conversando com Deus. Vi você namorando um rapaz muito diferente, um que te respeitava muito, e que me respeitava também. Logo eu, alguém que não é digno de respeito".
Arthur sorria tristemente enquanto falava.
"Vocês falaram comigo sobre a pureza do relacionamento de vocês. E eu me senti sujo... não que eu não me sentisse sujo antes de vocês. Mas eu vi a minha filha tomando as decisões mais prudentes do mundo, enquanto eu estava cada vez mais afundado no meu pecado escondido. Era isso... vocês dois estavam lançando luz sobre o relacionamento de vocês, abrindo as cortinas, abrindo as janelas. O meu pecado, tão encoberto, escondido, crescendo como um mofo que não gosta da luz do sol, foi também lançado à luz por meio de vocês".
"Hoje, eu e a Louise brigamos. Eu acabei tudo com ela. Ela não aceitou muito bem, disse que eu iria pagar por tudo que fiz a ela, por todas as mentiras. Bem... acho que já estou pagando".
Arthur finalizou, tentou buscar o olhar da filha, que permanecia irredutível, contemplando a janela.
— Vou para o meu quarto — Grace levantou-se. Estava machucada. Nem uma partida de boxe a deixaria tão dolorida, por dentro e por fora.
•••
Chegando ao seu quarto, chorou descompassadamente. Grace remoía cada sentimento ruim que nutria por causa da descoberta da traição. Era incapaz de perdoar aquilo. Ele foi sujo... por meses. Apresentou-lhe a amante, assim, na cara dura. Nada que ele havia dito moveria o seu coração a ter compaixão, ainda que, no fundo, soubesse que era o certo a se fazer.
Sua Bíblia estava ali em sua cama. Grace sabia que seria confrontada, como sempre era quando lia. Então ela deixou para depois, não queria ser tratada agora. Queria a amargura, a raiva, o rancor.
Lembrou-se que teria uma prova sobre Hamlet na segunda, então correu para ler mais algumas páginas do livro. Talvez isso não a confrontasse, a distraindo um pouco.
Enquanto lia, pensava em algo que Thomas havia dito sobre ela naquele dia.
"Você é felizardo, Jake, porque ela é boa em 'suportar as fraquezas, encobrindo-as com amor'..."
Ele estava enganado. Não era boa nisso. Não era nada boa. Perdoar era difícil. A amargura era a opção mais fácil. Sem contar que parecia-lhe fácil fazer o que fez e depois vir com meras desculpas.
Ela continuava a ler e, mesmo sem querer, sentia que até mesmo Shakespeare a confrontava naquela noite. Como já foi dito, Grace tentava entender porque Hamlet não havia matado Cláudio quando teve a melhor oportunidade, quando encontrara Cláudio de joelhos, em oração. Continuava a ler o livro com muitos conflitos em sua mente. E, como se estivesse deitada em sua banheira, feito Arquimedes, e tivesse descoberto um complexo dilema de um importante rei, ela quase gritou:
Eureka!
Cláudio rogava a Deus por perdão. Que vantagem Hamlet obteria na morte de um justo? Que vingança seria essa se não levasse Cláudio a perecer no fogo do inferno, onde encontram-se os pecadores impenitentes, mas lhe concedesse a graça de entrar no gozo celeste, onde se encontram os santos arrependidos? Hamlet não matou Cláudio por temor de que a morte não fosse uma vingança, mas a vitória de seu maior inimigo em vida.
Isso foi o suficiente, não para que Hamlet o perdoasse, mas para que o mesmo se enfurecesse. A morte agora não mais seria um castigo. Um homem que se arrepende abraça a morte como uma amiga para se encontrar com um Deus misericordioso.
O rancor é um veneno que tomamos esperando que os outros morram.
Não podia pensar como Hamlet, ou como tantos outros que vão até o fim em sua ira. Grace queria a salvação da sua família, queria que Deus lhes perdoasse os pecados... e o perdão deveria começar por ela.
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Tenho a leve impressão de que esse é o penúltimo capítulo. Já estou saudosa, pensando que Thomas e Grace farão muita falta...
Será que ainda existe restauração para o estrago que Arthur fez?
Não esquece a estrelinha. ⭐
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