pela coroa de Cristo
Thomas acordou cedo depois daquela conversa. Tinha que trabalhar na empresa da família. A empresa consistia numa das maiores editoras do Reino Unido, dedicando-se à tradução e à atualização de escritos de teólogos do século XVI e XVII. Havia sido fundada pelos bisavós de Thomas e então encontrava-se sob a responsabilidade de seus avós, em cuja casa ele estava residindo durante seu período de estudos na Escócia.
Por ser o filho mais velho, o pai de Thomas, Jake, seria o herdeiro de toda a empresa na falta de seus pais. Consequentemente, Thomas e Jake II receberam a oportunidade de serem responsáveis pela administração da empresa enquanto estavam na Escócia.
Saindo do quarto de hóspedes da grande e antiga mansão da família Fraser, ainda sonolento e sem conseguir pensar em mais nada além da noite passada, Thomas desceu as escadas e encontrou seus avós na sala de estar juntamente com Jake II. Sentiu que o seu coração batia mais acelerado do que o habitual, desceu as escadas um pouco ofegante.
— Thomas, meu neto querido! Bom dia! — disse Sra. Elizabeth animada. Ela era uma linda senhorinha de cabelos grisalhos e olhos azuis. Vestia um delicado vestido florido.
— Bom dia, vó! Estou um pouco cansado. — Thomas sorriu, esfregando a mão no peito que batia acelerado.
— Está com o coração ferido, Thomas? — disse seu avô, rindo. Sr. Welch era um senhor forte, com cabelos grisalhos e uma grande barba igualmente grisalha.
— Vô. — Interrompeu Jake II. — O senhor não se lembra do nome de nenhum dos seus 53 netos, sempre esquece o meu, e olha que carrego o nome do seu filho, — Jake disse entre risos, — mas o senhor sempre se lembra do nome do Thomas! Como pode? — Reclamou recebendo risadas de seus avós, enquanto Thomas se ajeitava ao lado da Sra. Elizabeth no sofá.
— Ora, mas essa é fácil de responder. — Falou animado o Sr. Welch, e Thomas respirou de alívio por ter-se livrado de ter que responder sobre seu coração apaixonado. — O fato é que o nome do Thomas fui eu quem escolhi —Sr. Welch disse, orgulhoso.
— E qual o motivo? — perguntou a Sra. Elizabeth, só para que ele contasse aquela história que todos já conheciam.
— Foi em honra a Thomas Boston. O nosso grande Covenanter, que lutou para livrar a igreja escocesa das amarras de um estado anti-cristão — Sr. Welch disse com orgulho. — Aquela bandeira ali — apontou para uma bandeira azul-marinho com fiapos dourados em suas bordas, — é o símbolo de nossa resistência!
— Pela coroa de Cristo — leram os quatro em conjunto os dizeres da bandeira.
— Sim! — Sr. Welch emocionou-se. — Que mais pessoas se levantem em honra de Cristo e pela pureza de Sua Igreja! Aqueles homens e mulheres lutaram bravamente.
— Ah, se hoje em dia existissem mulheres como Jenny Geddes! — disse melancólica a Sra. Elizabeth.
— Jenny quem? — perguntou Jake.
— Ela foi o estopim da segunda reforma escocesa. A última faísca para a explosão. — Disse sua avó, ainda mais animada. — Ela era uma jovem camponesa, estava presente durante o culto que o Rei Charles havia promulgado. A verdade é que os escoceses não queriam cultuar ao Senhor da forma como o Rei havia ordenado. Antes, o culto ao Senhor deveria seguir apenas os preceitos de Sua palavra. Jenny jogou o banquinho em que estava sentada num dos bispos de Charles na catedral de Edimburgo. Um motim começou, e logo o país inteiro se levantou contra o Rei.
— Um único golpe de uma mulher de pouca idade iniciou o século mais tumultuado da história britânica. — Completou o Sr. Welch. — A verdade é que homens e mulheres lutaram arduamente pela pureza da Igreja de Deus e perderam suas vidas em prol dela.
— Nada mais justo é lutarmos para que seus pensamentos e piedosas vontades não sejam apagados — concluiu Sra. Elizabeth, emocionada.
— É por isso que vamos sempre zelar bastante pela nossa editora — Thomas completou com sua respiração um pouco mais tranquila, deixando um beijo no topo da cabeça de sua avó, que sorriu para ele e massageou seu peito, preocupada.
•••
Depois do trabalho na editora, Thomas ainda sentia seu coração um pouco descompassado. Não queria se preocupar, afinal estava pensando em Grace mais do que em qualquer outra coisa. Havia lido em algum lugar que era assim que as pessoas apaixonadas se sentiam, então presumiu que era isso: estava palpitando de amor.
Chegou à casa dos avós para o almoço e respirou fundo para parecer que estava tudo normal.
— Você ainda está com dor no peito, meu filho? — perguntou Sra. Elizabeth enquanto estavam todos sentados à mesa.
— Está tudo bem. — Thomas confimou.
— Você não me engana, meu neto. — Riu Sr. Welch, dando um tapinha no ombro do neto um tanto forte, que o fez tossir instantaneamente.
— Não mesmo — disse Thomas, sem saber como fugir do assunto. — Devo conversar com os senhores. E com meus pais.
— Deixe-me ver se adivinho. — disse Sr. Welch com um sorriso no rosto. — Encontrou uma garota para cortejar?
— É. Ela é minha amiga. — Thomas tentou encontrar as palavras enquanto dava mais uma garfada. — E eu a pedi em casamento.
— Como assim, meu filho? Mas você nem nos disse que estava cortejando alguém — Sra. Elizabeth disse, espantada.
— É que não estamos num cortejo. Só somos amigos. Eu preciso conversar com meus pais. Sinto que falhei com eles, e com os senhores — Thomas disse, firme.
— Sempre admirei a sua hombridade, meu filho. — Disse Sr. Welch. — Apesar de ter sido apressado quanto ao pedido de casamento, acredito que já tenha motivos suficientes para casar-se.
— Sim, eu sei que podem achar ser um erro, mas eu tenho certeza sobre ela ser a pessoa certa. E, infelizmente, já estou estou muito envolvido. Não consegui não me apaixonar por ela.
— Que é apressado, sim, é. Mas pode não ser um erro. Podemos averiguar — disse Sr. Welch.
— Averiguar? — Thomas o olhou, sem entender.
— Venha até meu escritório depois do almoço.
•••
Thomas estava nervoso. Sentia que o seu coração batia ainda mais depressa por isso. Não sabia o que o avô poderia estar preparando para ele, mas sabia que era sábio demais para dar um ponto sem nó. Com certeza era alguma coisa. E alguma coisa grande.
Chegando ao escritório de seu avô, encontrou-o sentado em sua cadeira acolchoada, um charuto crepitava. Ao ver o neto chegar, fez gesto para que se sentasse na cadeira à sua frente enquanto terminava de contemplar as folhas interiores do charuto crepitando.
— Então. — Falou, por fim, seu avô. — Sei que essa conversa seria melhor com seu pai, mas não posso deixar de aplicar uma tradição sobre você, pela qual seu pai já passou.
— Tradição? Achei que o senhor odiasse essas coisas — Thomas consertou-se na cadeira para ouvir melhor a voz rouca de seu avô, colocou a mão na direção do coração mais uma vez para massagear o peito que agora estava dolorido.
— Como o Senhor não me concedeu a honra de ter uma filha, somente seis homens, não pude aplicar aquelas típicas perguntas de pai para aqueles malditos pretendentes que desejassem cortejá-la. Por isso, — Sr. Welch abriu o livro que estava em sua mesa e retirou uma folha de papel dobrada de dentro, — escrevi 21 questões para que meus filhos respondessem sobre a mulher que estavam desejosos de casar.
— Sério? — Thomas questionou, impressionado.
— É. Seu pai passou por isso, sua mãe foi muito bem aprovada. Porque considero-o um filho, preciso certificar-me de que você fez a escolha correta.
— Será uma honra — Thomas disse espantado, mas também emocionado e ofegante, e isso somente foi o que conseguiu dizer.
— Você tem vinte e um dias para me responder a cada uma delas. Ou seja, amanhã quero a sua resposta da questão número um. E quero que você se prepare discursivamente para responder à questão. Você precisará defender a sua resposta com bons argumentos para mim. Pois meu objetivo é deixá-lo quase que ofendido — disse ele, firme como sempre. — E o seu objetivo é outro.
— Qual é o meu objetivo? — Thomas perguntou, pois sabia que seu avô esperava por isso. Suas mãos estavam suando, parecia estar nervoso com tudo o que o avô falava.
— O seu objetivo é defender a honra da donzela. Sempre.
— Ao final dos 21 dias, qual será o resultado disso tudo?
— Se você conseguir passar no teste, você tem a minha bênção para se casar, pois se esforçará muito para defender a moça. E não foi também para isso que o homem foi criado? Se você cumprir bem, será merecedor dessa mulher.
— E se eu falhar? — Thomas sentiu seu coração acelerar de um modo anormal e segurou-se um pouco mais forte na cadeira, um pouco tonto.
— Aí você mesmo concordará comigo que ela merece alguém melhor do que um menino que não sabe defender sua mulher, sua família e sua casa, mesmo de um velho que está quase que batendo as botas.
— O senhor não está baten...— Thomas tossiu, sem conseguir completar a frase.
— Você está suando frio, meu neto. — Aproximou-se Sr. Welch, preocupado. — O que está acontecendo?
— Meu. Coração. — Foram as últimas palavras de Thomas antes de desmaiar e ser levado imediatamente para o Royal Hospital, o pronto-socorro mais próximo.
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Não esquece a estrelinha. ⭐
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