o abraço

— Como assim a enfermeira não está presente? — Grace ouvia Thomas gritando com alguém, que respondia baixo demais para que ela pudesse entender. Grace estava deitada numa maca desconfortável, mas sua mão estava recebendo carinho de alguém. — Mas isto é uma irresponsabilidade da escola. Ela está desmaiada e vocês não podem fazer nada? — A pessoa falou mais um pouco. — Eu exijo que a levem ao hospital...

Grace nunca gostou de hospitais.

— Tommy? — Grace tentou se levantar subitamente, mas foi impedida por uma terrível dor de cabeça. Levou a mão livre até a cabeça e fez uma careta.

— Ei! Ei! Grace — Thomas apertou a mão dela, como que de alívio. — Você está viva, Gracinha!

— Gracinha, não! — Grace fez uma careta.

— Acho que já voltou a me odiar, então está tudo bem com você. — Thomas sorriu, mas ainda não havia soltado a mão de Grace, muito menos parado de fazer carinho.

— Então... nada de hospital, né? Estou bem. — Grace fez uma cara de cão sem dono.

— Que infantil, Grace! Você tem medo de hospital? — Thomas brincou, mas estava achando aquilo estranhamente fofo. Ele nunca confessaria, no entanto.

— U-hum — Grace fez que sim com a cabeça, mas sentiu-se um pouco tonta com isso.

— Não se mexe muito. Aquele idiota não precisava ter jogado uma bola tão forte.

— Não foi tão forte assim...

— Como não? Se não fosse por mim, você teria dado de cara com o chão e destruído seu rosto. E aí você nem ao menos me agradece?

— Muito obrigada, Tommy.

— Só isso? — Thomas brincou, querendo mais.

— Isso o quê? Quer que eu beije seus pés também? — Grace disse, mas lembrou que estava muito tonta para tentar se levantar da maca.

— Nos pés, não. Mas um beijo até que não seria má ideia. — Thomas estava extremamente brincalhão, nem mesmo se reconhecia.

— Que atrevido! — Grace riu.

— Desculpa, eu me excedi. Acho que bati a cabeça também. — Passou a mão pela cabeça, fingindo dor.

— Você é muito sínico. — Grace se ajeitou na cama e sentiu uma forte dor de cabeça.

— Era obviamente uma brincadeira! Eu tenho arrepios só de falar em beijos. Eca! — Thomas puxou uma cadeira para ficar ao lado de Grace. — Toma esse remédio que a moça deixou para você aqui. Você vai ficar melhor.

— Obrigada. — Grace colocou o remédio na boca e Thomas a ajudou a engolir um pouco de água, segurando seu copo.

— Não trabalho com obrigado, mocinha. Achei que estivesse claro.

— Posso te pagar com um abraço? — perguntou Grace, agora teria uma desculpa para poder dar-lhe um abraço.

— Uau! Você não acha que um abraço é algo valioso demais? — Thomas entrou na brincadeira enquanto ajudava Grace a reclinar novamente sua cabeça no travesseiro.

— Acho que é sim. — Grace sorriu.

— Você tem certeza que vale a pena me dar o seu abraço? — Thomas levantou uma sobrancelha, ainda desacreditando que estava num joguinho de palavras.

— Sim. — Grace sorriu, colocando sua mão no cabelo de Thomas e bagunçando-o.

— Se você me der seu abraço, você acha que eu vou saber cuidar direito dele? — Thomas fechou os olhos sem acreditar no que acabara de dizer, convencendo-se que aquilo era só porque ela estava bastante debilitada e precisava de palavras dóceis.

— Você vai ter que guardar num cofre, de tão precioso e raro que é o meu abraço.

— Estou muito ansioso para receber o seu abraço. Marcado. Hoje mesmo.

— Tem devolução? — Grace brincou.

— Não. Uma vez que você me der seu abraço, eu não vou largá-lo mais. Meu precioso — Thomas limpou a garganta, um pouco constrangido com o que acabara de falar.

Thomas ainda não havia soltado a mão de Grace. E seu toque era forte e, ao mesmo tempo, carinhoso. Ele passava um pouco o polegar em cima da mão de Grace enquanto ela mantinha sua mão parada sobre a dele. Para Thomas, a mão de Grace era extremamente fofa. Era algo delicado que ele amou segurar. Era lisinha e pequena. Era como segurar uma massinha de modelar, e ele mesmo achou grotesca essa comparação que fizera. Mas era realmente bom segurar a mão de Grace. Fazer carinho sobre ela foi algo automático, como se carinho fosse algo que Thomas deveria fazer uma vez que encostasse em Grace.

•••

O medicamento surtiu efeito depois de algum tempo. Thomas não havia saído do lado de Grace por nenhum momento. E parecia que a sua mão não se cansava de ficar sob a dela.

Assim que Grace decidiu se levantar, não teve muita dificuldade para andar, nem se sentiu mais tonta. Mesmo assim, Thomas a fez prometer que depois iria ao hospital para ver se estava tudo certo. Grace estava finalmente pronta para comer alguma coisa no intervalo, que havia acabado de começar.

— Ei, amiga. Fiquei sabendo que te deram um soco. É verdade? — Lydia estava sentada numa mesa, esperando por Grace e Thomas.

— Não. Eu levei uma bolada. — Grace colocou a mão na cabeça para indicar onde havia levado o golpe.

— Ai, que ótimo! Eu estava achando que ia ter que me meter em outra briga.

— U-hum. Mas eu estou bem. Fica tranquila. — Grace se sentou à mesa mesmo sem uma bandeja e esperou por Thomas, que estava pegando comida.

— Oi, Thomas! — Lydia disse numa voz fina, que fez doer a cabeça de Grace.

— Oi, Lydia! — Thomas sorriu e deixou a bandeja em frente a Grace, sobre a mesa, e sentou-se ao lado de Lydia. — Pronto. Peguei uma sopa e uma maçã. Não coma nada muito pesado agora. Mas coma.

— Obrigada — disse Grace e sorriu por se lembrar que ele não trabalhava com "obrigados".

— Ai, Thomas. Como você é fofo! — Lydia agarrou o pescoço de Thomas para dar um abraço desajeitado, o que ele recusou se afastando um pouco. — Acho que vou bater a minha cabeça só para você cuidar de mim assim.

— Você não precisa bater a cabeça para ser cuidada. Você é meio fragilzinha. — Thomas disse tocando rapidamente a ponta do nariz de Lydia, o que fez Grace lembrar de quando ele fez o mesmo consigo. — Você precisa de cuidados. 

— Cuidados? Fragilzinha? — De alguma maneira, aquele comentário não foi bem recebido por Lydia.

— Sim. Meu pai me ensinou a proteger as mulheres.

— As mulheres não precisam ser protegidas — ela retrucou.

— Mas é isso que vocês — Thomas olhou para Grace e voltou para Lydia —, mulheres, mais almejam. Mesmo que não saibam.

— Ah — Lydia desdenhou. — Mas frágil eu não sou. Falando nisso,  esses dias eu estava lendo um artigo; naquela revista que eu te falei, Grace; que estava citando alguns comentários machistas da Bíblia. Eu de fato acredito na Bíblia, vou à igreja, e tal; mas, assim, tem umas partes que precisam ser atualizadas, vocês não acham?

— Não acho, Lydia. — Grace surgiu na conversa subitamente. — Acho que o Thomas quis dizer que a mulher foi feita para ser respeitada, cuidada. O local da mulher na Bíblia não é um local de desprezo, é um local de proteção — Grace disse quase que sem pausas. Thomas ficou impressionado com sua defesa.

— É exatamente assim, Grace. — Ele quase a chamou de Gracinha. — Existem tantas mulheres que foram importantes para a história da Bíblia e para a história da igreja! As mulheres foram criadas para um propósito diferente, e não há qualquer demérito nisso. A mulher precisa do homem. O homem precisa da mulher. Sempre foi assim.

Grace estava muito encantada com todo aquele novo conhecimento e com o olhar orgulhoso e contente que Thomas lhe lançava. Mas, bem naquela hora, Grace recebeu uma ligação. Era Matthew. Grace se retirou da mesa enquanto Thomas e Lydia continuavam a conversa.

— Alô? — Grace disse, espantada pela ligação àquela hora.

— Oi, amor! Tudo bem? — A voz de Matthew parecia um pouco embargada. 

— Matthew... eu já falei que—

— Eu reprovei em quatro matérias. Não tem como. Preciso parar a faculdade e recomeçar minha vida.

— Como isso aconteceu? Você estudou?

— Estudei, sim. Estou muito triste. E notei que preciso de você mais do que nunca. — Matthew choramingou.

— Vamos conversar mais tarde. Estou na escola.

— Tudo bem. Só preciso te dizer uma coisa.

— Fala.

— Talvez eu não consiga ir aí no seu aniversário...

— Meu aniversário? Matthew, achei que você tivesse entendido sobre termos dado um tempo.

— Mas eu insisto em ter uma conversa com você assim que puder. Mas eu tenho um campeonato que não posso faltar.

— Campeonato do que?

— De video-game.

— Entendi...

— Mas a minha irmã vai. Ok?

— Sua irmã?

— É. Na verdade ela chega hoje aí na sua casa. 

— Sério?

— Sim, amor! Ela não sabe que estamos dando um tempo...

— Matthew!

— Ela não lidaria bem com isso, você sabe como ela é — insistiu ele.

— Matthew, a sua irmã me odeia!

— Não odeia. Você vai entender como não te odeia. Eu te amo.

•••

Quando as aulas terminaram, uma forte chuva, quase que imprevisível, surgiu em North Adams. Grace, que estava com uma leve blusinha, tentou esperar que a chuva passasse para que pudesse pegar um ônibus para casa. Thomas a encontrou no banco da escola e a chamou para aquele canto onde haviam resolvido se afastar um do outro. Não sem antes retirar o casaco, aquele moletom que ela havia usado mais cedo, de seu corpo e a obrigar a levantar os braços para colocá-lo. 

— Você quer carona?

— Não, obrigada. Minha mãe pode vir me buscar se eu perder o último ônibus. 

— Já que você insiste... — ele deu de ombros, sentindo frio por estar sem agasalho.

— U-hum. 

Um silêncio constrangedor estava no ar. Ambos sabiam que estavam ali por um propósito, mesmo que muito besta. Abraçarem-se. 

— Está chovendo muito — Thomas disse para romper o silêncio. 

Grace riu com a memória de Lydia sempre dizendo que, se um garoto conversa sobre o tempo com você, ele está a fim de você. 

— Isto é muito idiota. 

— Isso da gente se abraçar? Sim, tem que ser algo natural. 

— Então, senta aqui. — Grace sentou-se no banco atrás deles.

— Tá bom. — Thomas sentou ao seu lado e tocou, sem querer, na mão de Grace. Tremeu só com essa leve sensação. — Não sei se posso fazer isso...

— É diferente para você, não? Qualquer toque parece banal para as pessoas, mas para você é demais.

— Eu sou muito estranho? — Thomas olhou para ela, sem graça.

— Não. Estou meio que sentindo o mesmo. É diferente.

De repente, o casal de amigos que Grace lembrava vagamente de ter visto na quadra surgiu, aos beijos, de trás de algum prédio da escola. 

— Eles não eram só amigos? — Grace perguntou. 

— São. Com benefícios. 

— Oi? — Ela sabia no que consistia isso, mas nunca cogitaria aquilo daquele casal de amigos.

— É a maneira pós-moderna de estar num relacionamento sem estar num compromisso — Thomas comentou, desviando o olhar deles.

— Aproveitar as partes boas de um relacionamento e ignorar as partes importantes dele?

— É... Parece uma boa ideia, mas o ser humano não nasceu para relacionamentos incompletos. Daqui um tempo, ou eles acabam a amizade, ou acabam se casando. Eros é o mais oito ou oitenta dos amores. 

— Eros? 

— Sim. Storge, philia, eros e ágape. Pesquisa por esses termos. Acho que pode te ajudar muito com a redação mais tarde — disse Thomas tocando a ponta do nariz de Grace. 

— Ei, não faz isso. 

— Isso o que? — Thomas tocou a ponta do nariz de Grace novamente. — Isto?

— Sim. — Grace segurou o dedo dele. 

— Por quê? — Thomas fez uma cara triste. 

— Porque eu não gosto. 

— Mas você nunca reclamou. 

— Não gosto mais. 

— Está bem — disse Thomas, sem saber que o motivo era Lydia. — É uma mania que herdei da minha avó. Eu faço com todo mundo. 

— Ah. — Grace sorriu, sem graça. Não havia mesmo nada de especial naquele toque. 

De repente, a chuva parou de cair. Grace tentou devolver o casaco a Thomas, mas ele não aceitou devoluções. 

— Bom. Acho que já vou. Não posso perder o próximo ônibus. 

— Tudo bem — disse Thomas levantando-se.

— Obrigada... pelo casaco — Grace levantou-se também e afastou-se um pouco, ameaçando virar para ir embora. 

— Vem cá — Thomas a segurou forte pelo braço e a puxou para si. 

Os braços de Grace se encaixaram perfeitamente ao redor do tronco de Thomas, fazendo com que Grace afundasse a cabeça no peito do amigo. Já os braços de Thomas envolviam os ombros de Grace como se a estivesse protegendo. Seu queixo, se se esforçasse um pouco, dava exatamente em cima da cabeça de Grace. Ela não usava perfume algum. Thomas sentia um cheiro suave de shampoo saindo da cabeça de Grace e isto lhe parecia melhor do que qualquer perfume.

— Essa é a primeira e a última vez que eu te abraço. Aproveita — Thomas disse. 

— Por que a última? — perguntou Grace sem a mínima vontade de ir embora. 

— Porque eu acho que isso aqui é bom demais — Thomas disse, de olhos fechados.

— Acho que estou te entendendo. 

— Eu não abraço minhas amigas. Isso está indo toltamente contra meus principíos — disse Thomas, sem a soltar. 

— Tommy, você é super estranho — disse Grace empurrando um pouco a barriga de Thomas. — Tchauzinho.

— Tchau, Grace. 

Despediram-se fingindo que estava tudo normal. Mas ambos sabiam que aquilo não poderia acabar bem. Thomas nunca havia se sentido tão próximo de uma garota. E aquilo foi suficiente para ele saber que havia ido longe demais. Grace jamais entenderia o peso total daquele abraço para Thomas, mas estava tão eufórica quanto.

Não ia acabar bem, sabiam.

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Não esquece a estrelinha. ⭐

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