hamlet

Os primeiros dias de aula foram intensos. Grace estava lendo pela segunda vez a obra Hamlet para as aulas na Universidade. Na primeira vez que leu, pouco entendia. Na segunda vez, parecia que era a primeira.

"Shakespeare, seja um pouco mais claro, menos melancólico; mais literal, menos poético", pedia Grace ao ler as primeiras páginas do livro.

A pergunta que não queria calar na classe era: Por que Hamlet não havia matado Cláudio assim que teve a oportunidade? Todo o livro parecia girar em torno desse desejo cego de Hamlet em vingar a morte de seu pai. Para ele, era óbvio que fora Cláudio quem havia matado tão cruelmente seu pai; afinal, Cláudio havia se casado com a mãe de Hamlet, Gertrudes, pouco tempo depois que ela ficara viúva.

Então Hamlet teve uma visão de seu finado pai, o que confirmava os fatos: "Sim, meu filho, foi ele quem me matou, vingue minha morte!", exclamava o pai. Sem desconfiar que aquilo pudesse ser somente mais uma insanidade de sua cabeça, Hamlet foi até o fim com seu famoso crânio em mãos.

Ele montara todo o esquema: montar uma peça de teatro sobre traição e morte para que sua mãe e o assassino Cláudio pudessem ver, junto a uma grande revelação ao final: Traidores! Vocês dois foram representados aqui. Morram.

De certa forma, sua mãe foi perdoada... Mas, Cláudio? A ira de Hamlet não cessaria nunca.

Porém, por quê? Por que não matara Cláudio, depois de o procurar por todo o mundo, assim que o havia encontrado numa tão vulnerável situação?

Hamlet esteve bem atrás de Cláudio enquanto o mesmo orava, de joelhos.

O que Cláudio estaria pedindo? E por que não matá-lo, Hamlet?

Grace passava mais uma semana na universidade sem entender, cheia de dúvidas sobre a lituratura e de perguntas sobre o real sentido da história. Ela achou que finalmente entenderia Hamlet, mas estava ainda mais confusa do que na primeira vez que leu. Ouvia muitos alunos falarem nas aulas, com ideias e teorias bastante interessantes sobre a estória, mas ela mesma não fora capaz de tecer nenhum comentário genial.

Já havia semanas que Grace e Thomas não se viam. Ele estava bem de saúde, sentindo um pouco de dificuldade para respirar, no entanto; o que o médico havia dito que seria um efeito adverso normal da medicação que ele estava tomando.

Grace ousou orar, com muita fé, para que Deus o curasse, ainda que, ao fim, pedisse que a vontade do Senhor fosse feita. Todas as coisas tinham um propósito, então ela pediu para que Thomas pudesse entender quando fosse a hora certa. Agradeceu a Deus por ter lhe dado uma pessoa tão especial como Thomas, ainda mais por toda experiência maravilhosa que Ele havia lhe concedido em conhecer melhor Sua Palavra e Seus atributos.

Acordou naquele dia de sábado com o coração explodindo de alegria. Mesmo em meio à geada nas folhagens lá fora, alguns raios de sol atravessavam as densas núvens, dando um quê de beleza à paisagem que visualizava de sua janela. Era incrível o que simples raios de sol poderiam fazer a um dia. A temperatura estava mais amena, parecia que tudo conspirava para que o final de semana na Escócia fosse maravilhoso.

Sim, na Escócia. E não foi preciso ameaças para que isso acontecesse, claramente. Thomas tratou com o pai de Grace, certificando-lhe de que ela lhe seria entregue ao fim da noite e que seu pai, Jake, estaria presente como chaperon, auxiliando os dois em seu comportamento. Thomas até fez com que ambos os pais trocassem uma ideia por telefone, apesar de já se conhecerem.

Grace levantou-se logo cedo. Pegaria o avião que seu pai pilotaria até Edimburgo e seria buscada pela família de Thomas no aeroporto. Se estava muito agitada por conta daquilo? Obviamente. Agora ela era oficialmente namorada-ou-alguma-coisa-do-tipo de Thomas — isso pelo fato de que ele não havia deixado muito claro se eles deveriam se chamar de namorados, já que não estavam namorando, não do jeito que o mundo moderno namora. E ele também a havia pedido em casamento, mas ela não havia dado uma resposta, não é?

— Bom dia, filha. Pronta para um dia bem escocês? — Arthur estava ajudando Louise a preparar o café da manhã.

— Sim... nem acredito que é hoje. — Grace abraçou-o.

— Então quer dizer que você fisgou mesmo o escocês? Como é rápida no gatilho — Louise comentou enquanto sentava-se à mesa, deixando Arthur um pouco incomodado com o comentário.

— Ele é um ótimo rapaz, gosto dele. — Arthur defendeu o genro.

— Vocês dois se gostam até demais. — Grace tentou segurar a risada com um guardanapo.

•••

Grace chegou ao aeroporto de Edimburgo exatamente às 8h30 da manhã, como previsto. Sabia que não conseguiria mais falar com o pai assim que chegassem no aeroporto, por isso já haviam se despedido no início da viagem. Foi tudo muito tranquilo, Grace julgou que seu pai era mesmo o melhor piloto do mundo. Ele havia lhe prometido que deixaria que ela entrasse em sua cabine no vôo da noite, pois aconteceu de os horários de ida e volta casarem com a escala do seu pai. Voar com ele lhe dava muita segurança.

Não tinha nada além de uma bolsa de mão e uma mochila, por isso não precisou despachar nada para a esteira. Visualizou de longe o que seria a família de Thomas, altos o suficiente para destacarem-se na multidão.

Seu rosto ruborizou logo que os viu. Era a hora da verdade, iria ser apresentada a eles como a companheira de Thomas. Poderia haver algo mais constrangedor?

Olhou para Thomas, que a olhava com um sorriso bobo enquanto ouvia com atenção alguma coisa que seu irmão, Jake II, falava ao seu ouvido, dando um leve empurrão no irmão mais velho com o ombro ao final e rindo do que ele havia falado.

Sra. Taylor estava muito animada em vê-la, Sr. Jake estava atrás da esposa num abraço, com um sorriso constante em direção a Grace.

— Oi, Sr. e Sra. Fraser, é um prazer encontrá-los — Grace disse ao chegar mais perto da família.

— Ah você já nos conhece, Grace. — Sra. Taylor falou para deixá-la mais tranquila, dando-lhe um caloroso abraço.

— Nada disso, ela não me conhece. — Sr. Jake estendeu a mão para cumprimentar a nora. — Muito prazer, senhorita.

— Igualmente. — Grace sorriu, com medo de soar forçado pelo tanto que sua face tremia de nervoso.

— Ah, parem de encher a garota. — Thomas avançou para segurar a bolsa de mão de Grace. — A mochila está pesada?

— Não, mas obrigada. — Grace sorriu gentilmente e ruborizou-se quando ele tocou levemente em sua mão para pegar a bolsa.

Será que demoraria para se sentir à vontade entre eles?

•••

Sentaram-se no banco de trás Thomas, Grace e Jake II, nessa ordem. No Reino Unido, os carros tinham o volante do lado contrário, o que deixava Grace um pouco tonta.

— Como foi a viagem, Grace? — Sra. Taylor perguntou, olhando para trás no carro.

— Foi ótima, meu pai foi meu piloto hoje — comentou para ter algo de interessante para a conversa.

— O Thomas contou — Sra. Taylor respondeu.

— E existiria alguma coisa que eu não vos contaria, senhores? — Thomas perguntou num sotaque escocês bem arcaico, para descontrair.

— O Tomtom acha que vai impressionar a garota falando como um escocês do século retrasado — Jake II falou pela primeira vez, ao que Grace riu.

— Tomtom? Mas que... você nunca me chamou assim, seu idiota! — Thomas levantou um pouco a voz com o irmão, caindo na gargalhada ao lembrar do que seu irmão havia dito antes: faria de tudo para envergonhá-lo na frente de Grace.

— Idiota? Vós nunca cognominastes a mim com tamanha austeridade. Temo o que as afeições advindas de vossas tripas estejam engendrando às vossas volições — Jake II rebateu.

— Garotos... — Sra. Taylor repreendeu-os.

— Só não jogo esse ser infeliz da janela deste carro porque temos convidada. — Thomas ajeitou-se no banco quando terminava de falar.

— Ele não aprendeu nada sobre os instintos de macho alfa, pai. — Jake II cutucou o pai no ombro.

— Que instintos? — Seu pai se deliciava com conversa.

— Um bom macho ataca todos os demais para se certificar de que a fêmea fique só com ele...

— Nenhum macho te consideraria uma ameaça, Jake — Thomas caçoou.

— Quando eu sair desse carro eu vou te pegar, seu moleque insolente. — Jake II segurou-se para não rir. Esperava que Grace ficasse com certo medo dele, o que foi um fracasso.

— Vocês não sabem mesmo se comportar na presença de uma moça — Sra. Taylor lamentou o comportamento dos filhos.

•••

Por fim, chegaram num antigo casarão e pararam o carro bem em frente ao portão. "Então é nessa espécie de castelo que o Thomas mora?!", pensou Grace, maravilhada, ao que Thomas respondeu baxinho, como se lesse sua mente.

— Um exagero, não?! — Thomas abriu a porta para sair e esperou que Grace saísse para que pudesse fechá-la.

— Onde estão os lacaios e o mordomo para nos receber? — Grace perguntou enquanto contemplava a beleza da antiga mansão envelhecida pelo tempo.

— Acredite... não temos nenhuma ligação com a família real, ou com o ministério. A parte mais valiosa nessa casa é a biblioteca. Herdamos de um teólogo muito importante, era a preciosidade dele.

— Então vocês trabalham com essas obras? — perguntou Grace enquanto ambos encaminhavam-se para a porta de entrada.

— Sim, nós digitalizamos com muito cuidado cada página e reescrevemos numa linguagem menos arcaica. Algumas obras precisam de um trabalho até paleográfico, porque a forma como eles escreviam antigamente era bem diferente.

— Imagino — disse Grace finalmente adentrando o interior da sala, ficando espantada com a altura do teto, os detalhes nas duas escadas que varriam os dois cantos da sala, a qual era gigante, redonda e central. Um grande sofá e uma mediana mesa de centro se reuniam ao redor de uma grande lareira na parede. Havia dois idosos sentados no sofá, ambos lendo um só livro com seus óculos. Nem pareciam ter percebido que cinco pessoas haviam entrado no cômodo.

— Papai, mamãe? — Chamou Sr. Jake, enquanto todos aproximavam-se do sofá onde estavam sentados.

— Ah, meus filhos, vocês chegaram muito rápido — Sra. Elizabeth desviou o olhar do livro, um tanto preocupada. — Vocês não correram com o carro, não é?

— Não, mãe, fica tranquila. — disse a Sra. Taylor, que assim chamava a sogra carinhosamente.

— Eles ficam absortos nesses livros, nem vêem o tempo passar — Thomas comentou para que só Grace ouvisse, ao que ela assentiu.

— Fiquem quietos, estou concentrado — Sr. Welch disse com severidade, sem desviar o olhar do livro.

— Ah, não... não vá ler sem mim. — Sra. Elizabeth reclamou. — Eu vou fazer o almoço. Temos visitas. — Ela levantou-se, aparentemente lembrando-se agora do que a família tinha ido fazer no aeroporto.

— Vovó, essa é a Grace. Grace, essa é a incansável Sra. Elizabeth, dona dos melhores títulos nos campeonatos de gastronomia da vizinhança — Thomas disse enquanto via as duas cumprimentarem-se com um abraço.

— Mas o título de que eu mais me orgulho é de ser sua avó — dona Elizabeth disse com meiguice, por fim.

— Prazer, dona Elizabeth — Grace disse. — O Thomas fala muito bem da senhora.

— Por favor, me chame de Eliza — ela solicitou com um doce sorriso no rosto, sem soltar a mão de Grace. Dona Eliza pegou a mão de Thomas com sua outra mão para continuar. — Sua noiva é muito bonita e simpática, filho.

— Obrigada — Grace disse, sem graça.

— Eu não sou nada bobo. — Thomas piscou para sua vó, o que fez o coração de Grace derreter.

— Desculpe o vô, ele não é muito hospitaleiro, já pedi a Deus para moldá-lo. — Vó Eliza lamentou. — Mas é um bom homem, só esperem ele terminar esse capítulo.

Thomas e Grace riram da situação. Grace achou toda a família de Thomas muito simpática, mesmo que o seu avô ainda não tivesse desviado os olhos das páginas do livro.

— Ô, vôoooo — Jake II tentava azucriná-lo.

— Deixe seu avô em paz — seu pai o repreendeu.

— O que será que ele está lendo? — Jake II inclinou a cabeça para tentar ler a capa, quase fazendo menção de levantar um pouco o livro.

— Deixe de ser insuportável, meu neto — Sr. Welch retrucou, sem desviar a atenção. — Já termino.

— Jake é muito insuportável mesmo — Thomas concordou, lançando-lhe com certa força uma almofada no colo enquanto encaminhava-se com Grace para o sofá onde as três gerações de homens estavam sentadas.

— Grace, você está disposta a ter este ser como seu cunhado pelo resto da vida? — o pai de Thomas perguntou, só para descontrair.

— Desde que ele não venha junto com o casamento... — Grace deu de ombros, ao que todos gargalharam alto, tanto Jake II quanto o próprio Sr. Welch por detrás do livro.

— Ele não é assim. — Sra. Taylor tentava defender o filho mais velho. — Ele só quer descontrair um pouco...

— Traduzindo: ele só quer me irritar, porque você está aqui — Thomas explicou.

— Ele só quer reafirmar o lugar dele como primogênito — seu pai afirmou.

— Tolos. — A voz rouca do Sr. Welch soou pela primeira vez. — Ele só quer tentar mostrar que não está decepcionado consigo mesmo porque não cresceu o suficiente para ter uma noiva. — Sr. Welch fechou o livro num forte barulho e olhou para o neto.

— Não seja tão rude com o rapaz, Welch. — Sra. Eliza lamentou. — Ele ainda está novo.

— Eu não quero me casar nem tão cedo, okay? — Jake II assegurou, por fim. — Estou decepcionado com a moça que vocês arrumaram para mim. Tem dois anos. Não me esqueço desse fracasso...

— Não foi um fracasso. Foi um livramento — Sra. Taylor constatou. — Que bom que descobrimos...

Grace, obviamente, não estava entendendo absolutamente nada daquilo.

— Ele estava cortejando uma moça aqui da Escócia, meus avós que se responsabilizaram por isso — Thomas falou baixinho para que Grace entendesse, e ela constatou que gostava que ele falasse assim, perto do seu ouvido, até demais. — Mas ela tinha um namorado escondido. Meus avós descobriram. Não sei como. Perspicácia antiga, eu acho. Então eles cancelaram todo o processo de cortejo. Meu irmão ficou decepcionado com a garota. Ele estava mesmo considerando se casar com ela.

Grace tentou disfarçar sua surpresa.

— Ainda temos a filha dos Henderson. Uma ótima moça — Sra. Eliza comentou.

— Os tais dos Henderson? Ela não era a prometida do Thomas? — Jake II perguntou, mesmo sem pensar nas consequências.

— Prometida? — Grace sussurrou para Thomas.

— Você sabe que não existe prometida nenhuma, filho. A Grace está aqui, se não se recorda... — Seu pai repreendeu-o.

— Foi somente algo que comentamos quando ela nasceu, por ser da idade do Thomas. Ela era uma linda bebê dos nossos amigos queridos, e nós ficamos apaixonados. Porque nos comprometemos a educar o Thomas nos princípios corretos, e eles também, quando os nossos bebês crescessem, comentamos que seriam bons pretendentes um para o outro. Mas não existe um compromiso. — Sra. Taylor explicou, mais para Grace do que para qualquer outro na sala. — Se eles não se interessassem um pelo outro no futuro, não haveria problema algum.

— Na verdade, o processo que aconteceu com vocês dois foi bem heterodoxo — comentou Sr. Welch, o que deixou Grace um pouco apreensiva por uma repreensão. — Mas sabemos que não somos nós quem ditamos a história... Deus os tem unido, pelo que tenho visto.

Grace corou, Thomas ofertou um sorriso de gratidão ao avô. Sabia que ele não seria mal educado. Aliás, ele, apesar da marra, era um dos homens de coração mais gentil e generoso que havia tido a oportunidade de conhecer.

— E agora vocês querem que eu fique com a mulher que ele rejeitou?! — Jake II murmurou.

— Jake! Isso é jeito de falar sobre uma mulher? — Sra. Taylor exaltou-se.

— Não é. Desculpa. Não quis ofender. Deixe o pequeno casar primeiro, eu resolvo isso depois. — Jake II sorriu, sabia que não havia problemas se seu irmão mais novo se casasse primeiro. Não havia tido nenhum sentimento pela garota do cortejo anterior, Gwen; mas uma curiosidade sobre como deveria ser essa outra garota escocesa, filha dos Henderson, agora o intrigava. Só que isso, leitores, parece-me um assunto para outra longa história. — Eu só peço que a próxima que vocês escolherem seja uma morena bem gata, do cabelo cacheado...

— Jake! — Sra. Taylor parecia incansável na arte de gritar seu nome para repreendê-lo.

— Ué! O que posso fazer se prefiro as mais morenas? — Jake II deu de ombros.

— Você sabe que isso não importa, certo? — Sr. Welch começou o sermão. — Entre uma morena e uma cristã, você não tem escolha...

— Eu quero uma cristã... morena! — Jake II brincou, o que fez todos gargalharem.

— Eu simplesmente desisto desses homens. — Sra. Eliza levantou as mãos em rendição. — Vou pra cozinha. Quem vem comigo?

— Eu! — Sra. Taylor e Grace falaram ao mesmo tempo.

________

Vocês acham os capítulos muito grandes? Estou tentando mostrar o máximo de conteúdo possível nessa reta final.

Não esquece a estrelinha. ⭐

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top