eyes on you, eyes on me
Era quinta-feira, e o aniversário de Grace parecia que ainda estava muito longe para chegar. A festa — se é que haveria alguma — seria no sábado, mas, com Sabrine em sua casa, o tempo parecia não passar.
— Bom dia, Sabrine! — disse Grace com medo de que a garota pudesse pular em seu pescoço de raiva por causa do horário em que a estava acordando.
Sim, Grace achava ridículo ter medo de uma garotinha de 13 anos. Mas sabe-se lá o que essas crianças de hoje em dia podiam fazer...
— Me deixa em paz! — disse Sabrine, enrolando-se nos lençóis da cama de Grace.
— Você tem que ir pra escola! — disse Grace quase puxando os lençóis, mesmo com pouca coragem de fazê-lo.
— Cuida da sua vida! — E voltou a dormir.
— Tudo bem. — Grace deu de ombros e foi para a escola.
Havia chegado cedo demais, realmente. Esperava que, de alguma forma, Sabrine acordasse sozinha e fosse à escola, senão era Grace quem teria de assumir a responsabilidade. Decidiu ir à biblioteca e terminar de ler o e-book do C. S. Lewis, que lera às pressas no dia anterior.
— O que a senhorita anda lendo? — O coração de Grace disparou quando ouviu o som suave e rouco de sono da voz de Thomas, vindo do outro lado da mesa.
— Hummm. — Grace voltou os olhos para o tablet e tentou ignorar o fato de que havia enviado seu texto para Thomas e ele não havia respondido nem sequer com um "legal". — Relendo Os Quatro Amores.
— Entendi. É um dos melhores livros sobre o assunto — disse Thomas colocando sua mochila na mesa e sentando-se ao lado de Grace.
— U-hum — disse Grace, sem desviar o olhar do tablet.
— Eu fiz alguma coisa?
— Não.
— Tá, olha pra mim. — Thomas virou o queixo de Grace, até que os olhos dela fitassem os seus. — Tá vendo meus olhos? Notou como estão mais fundos e com mais olheiras que o normal? — Antes que Grace falasse qualquer outra coisa, continuou. — Então, eis aqui uma pessoa que não conseguiu dormir. Estive lendo o seu texto milhares de vezes. Talvez seja por isso que eu tenha vindo cedo para a escola hoje, não estava com um pingo de sono. Fiquei pensando que...
O celular de Grace tocou.
— Um instante... — Grace colocou um dedo sobre os lábios para indicar silêncio.
— Ah, oi, Matthew — Grace disse, sem notar a feição de decepção que Thomas tentava esconder.
Thomas se virou para a janela, fingindo estar muito interessado num galho batendo no vidro.
— Ah sim, tudo bem. Eu entendo. Não tem problema. — O tom de voz de Grace foi ficando cada vez mais estranho, mesmo não querendo transparecer aquilo. Matthew confirmara que não poderia estar no seu aniversário, mas ele não parecia entender que Grace estava disposta a dar um basta assim que pudessem se encontrar.
Aquele comportamento desentendido de Matthew estava mexendo com Grace. Ela sabia que, se ele continuasse assim, ficaria cada vez mais difícil ter forças para terminar tudo.
Depois que a ligação acabou, Thomas parecia não querer mais falar do assunto que estava tão disposto a compartilhar com Grace.
— Ei! Pronto. Pode continuar.
— Não, eu... Deixa pra lá. — Thomas se virou para Grace, quase que fingindo um sorriso.
— Bom... eu quero saber sua opinião sobre o texto.
— Eu acho que você melhorou muito.
— Quê? — Grace disse, quase ofendida.
— É, desde a sua última redação lida em toda a escola, você tem escrito muito melhor. Não consegui discordar de nada dessa vez. Estou orgulhoso. — Tocou na ponta do nariz de Grace com seu indicador.
— Ah. — Grace ruborizou um pouco com os elogios e deu com o ombro em Thomas para o afastar, sorrindo. — Eu disse pra não fazer mais isso.
— Tá, tudo bem. Desculpa.
— Obrigada pelos elogios.
— "Obrigada", não.
— Nunca vai aceitar um obrigado?
— Dessa vez eu quero um pisão no meu pé, já que te abraçar seria demais.
Grace deu uma gargalhada baixinha.
— Você é muito estranho! — Ela deu uma leve pisada no pé de Thomas, que fingiu ter doído mais que o normal. Grace achou a cena tão fofa que se aproximou um pouco mais e deitou sua cabeça no ombro de Thomas por um tempo, o que a fez lembrar do dia em que esteve no quintal da casa dele.
Quando sentiu que seu estômago estava começando a fazer uma borboleta sair do casulo, corrigiu sua postura e olhou para o e-book.
— Como você consegue ler pelo tablet? — Thomas limpou a garganta. Grace não respondeu. — Ow! Conversa comigo.
Grace virou sua cabeça para olhar para o Thomas reclamão.
Os dois se fitaram por um grande momento. Sem sequer desviarem o olhar, nem por uma fração de segundo.
— Eu gosto dos seus olhos — Thomas disse, subitamente.
— Acho que você já me disse isso — disse Grace, sorrindo, sem desviar o olhar.
— Existe alguma chance de isso significar alguma coisa? — Thomas insistiu.
— Não. — Grace revirou os olhos, com muito medo que todo aquele clima se transformasse em outra coisa. — Não vamos falar sobre isso. Poderíamos mudar de assunto?
— Claro. Hum... Ah! — Thomas abriu o zíper da sua mochila como se soubesse exatamente a coisa certa a se fazer. Pegou o seu caderno e uma caneta que estava pendurada na capa.
Abrindo na última folha de seu caderno, ele faz dois desenhos que ocupavam metade da folha. Ele não tinha muito talento, mas sabia o que estava fazendo.
No primeiro, desenhou duas cabeças, uma ao lado da outra, como que uma silhueta de duas pessoas olhando para determinada direção.
— Que isso? — Grace riu. — Desenho egípcio?
— Silêncio. Deixa eu terminar, Grace Daves — ele disse, concentrado.
No outro lado, desenhou duas cabeças, de igual forma, porém, agora, uma estava olhando para a outra.
— Não estou entendendo.
— A imagem feita pelo Lewis é clara, você não percebe? Aqui — Thomas apontou para o primeiro desenho —, as duas pessoas estão olhando para uma mesma direção, seguindo o mesmo caminho, juntos com o mesmo objetivo. Isso se chama... — Thomas esperou que Grace respondesse.
— Philia! — Grace se animou.
— Sim! Amigos são os que caminham juntos para mesmo objetivo. Porém, este aqui — Thomas apontou com a caneta sobre o segundo desenho, posteriormente fazendo exagerados círculos em volta do desenho enquanto falava — é característico de Eros. Um olhando para o outro.
— Que legal!
— Eu, por muito tempo, achei que estivesse vivendo isso aqui — Thomas disse, apontando para o desenho que representava a amizade. Ele tinha um olhar sugestivo, mas sentia suas mãos suarem de nervoso com o que estava prestes a dizer.
— Vivemos Philia, obviamente. Eu não te odeio mais, você agora é meu amigo. — Grace olhou para Thomas, que também olhava para ela, imitando o desenho que Thomas fizera do segundo tipo de amor, mesmo que sem querer.
— Não acho que você tenha me entendido, Gracinha! — Thomas sorriu impressionado em como ela desconversaria aquilo até o fim.
— Ei! Eu pedi pra mudar de assunto, e você só piorou! — Grace reclamou.
— É, mas... — Thomas tomou coragem para falar — é que eu queria deixar claro para você que, na verdade, eu gosto quando você olha para mim e eu pra você.
— O quê? — Grace tentou entender, mesmo já tendo entendido tudo. Queria que ele falasse com todas as palavras.
— Eu gosto muito de olhar as coisas com você, mas prefiro quando você olha para mim. Eu não sei como eu posso te explicar melhor.
— Eu... — Grace ficou sem palavras para responder.
— Você acha que eu falei demais, eu sei — Thomas comentou, já sabendo que Grace reclamaria de ele ter dito aquilo.
— Não, eu...
O sinal para a primeira aula estava prestes a tocar.
— Fala.
— Eu acho que, definitivamente, este é o último dia que vamos nos falar — Grace disse quase que atropelando as palavras, com o seu coração mais acelerado do que um liquidificador.
— O quê? Isso é sério?
— Sim. A gente não pode fazer isso — Grace se segurava para não chorar. — Eu não posso continuar com isso, não posso fazer isso com a Lídia. E eu tenho que resolver a minha vida. Eu não posso viver assim, Tommy!
— Eu entendo. — Thomas abaixou a cabeça. — Me desculpa, Grace.
— Me desculpa por ter deixado isso ir longe demais. Foi um erro, mais uma vez, me desculpa — Grace respondeu.
— Eu preciso te falar uma última coisa. Por favor — Thomas insistiu.
O sinal tocou.
— Acho que... — Grace hesitou.
— Por favor, só uma última conversa.
— Tudo bem, depois da aula. No mesmo lugar de ontem. E vamos colocar um fim nisso tudo.
Grace saiu correndo e vacilante para a sua primeira aula, certa de que não conseguiria se concentrar direito em qualquer coisa. Deu graças porque não teria aulas nem com Thomas nem com Lydia naquele dia.
Era o fim definitivo. Essa última conversa tinha tudo para não acabar nada bem. Mas ambos estavam dispostos a correr esse risco. O último risco. Para nunca mais.
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Não esquece a estrelinha. ⭐
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