copo vermelho

— Eu não estou acreditando que você vai para Londres, Grace — disse Brenda quando encontrou a amiga no corredor da escola após ver seu nome divulgado num cartaz no mural próximo à entrada.

— Nem eu — Grace disse pulando para um abraço, acabara de saber também. Estava tremendo dos pés à cabeça somente com a ideia de ter um cartaz com seu nome na entrada da escola, quanto mais com a ideia de passar três meses em Londres, e estar tão perto de Thomas, mesmo que algumas poucas horas de distância.

Pouco Grace sabia sobre a geografia dos lugares, mas sabia que ambos faziam parte do mesmo reino, e isso tinha que significar que os países ficavam relativamente próximos. Ou não?!

— Acho que vou vomitar — Grace pôs a mão sobre a barriga.

— Não é hora disso, Grace. É hora de arrumar as malas. Você parte em uma semana! — Brenda animou-se.

— Isso não ajudou muito na minha ansiedade. — Grace respirava fundo, sentindo seu coração pulsar rápido demais para a fisiologia normal.

— Eu mal posso imaginar a cara do Thomas ao saber dessa novidade.

— Ah, o Thomas! Vou ver o Thomas! — exclamou Grace, como uma bobinha.

— Sim! Ah, eu quero te matar por isso. Se eu pudesse ver o Tom... — Brenda se mostrou um pouco mais maravilhada em seus pensamentos do que o normal.

— Ah! — Grace respondeu com um sorriso meio sem graça, um pouco enciumada.

— Não estou dizendo que... não! Credo! Você não entendeu meu ponto. Ele é um irmão para mim. Estou com saudade. Não que eu tivesse fantasias de encontros românticos com o Thomas no aeroporto, beijando-o, etc., como eu sei que você fantasia, Grace. — Brenda riu.

— Eu não fantasio. — Grace fez cara de desdém, mas imaginando um abraço gostoso em Thomas, do jeito que eles tinham se abraçado uma vez.

— Aham, sei. — Brenda sorriu maliciosamente. — Você é meio ciumentinha, não é? Reparei...

— Quem? Eu? — Grace fingiu estar ofendida.

— É... meio insegura... comigo principalmente, o que é uma loucura. O Thomas nunca quis nada comigo. — Brenda sorriu, surpreendentemente meio sem graça.

— Posso falar com sinceridade? — Grace falou enquanto abria seu armário e pegava os livros do dia. — Não que eu não confie nele, ou em você, obviamente. Mas vocês têm uma amizade antiga, não? Uma história. E eu meio que me apaixonei por ele muito facilmente. — Grace sorriu. — Fico pensando em vocês dois. Por que nunca aconteceu? — Brenda olhou para Grace, um pouco surpresa. — É que eu sempre imaginei que vocês dois tivessem alguma coisa, sabe? No passado... sempre juntos. — Grace logo se arrependeu do que disse. — Desculpa, mas tô sendo sincera.

— Ainda é difícil para você acreditar que eu não gosto dele? 

— Não que seja difícil. Eu... e
Enfim... acho que você tem razão, fico vendo coisas, sou insegura. — Grace deixou os ombros caírem.

— Não acredito que você está prestes a encontrar com o Thomas e criamos esse clima pesadão entre a gente. — Brenda suspirou.

— É, não faz sentido. — Grace sorriu fechando o armário.

— Temos um tempo para conversar sobre isso?

— No intervalo, pode ser? Já estamos atrasadas para a aula. — Grace olhou o relógio em seu celular.

— Ótimo! — Brenda respondeu, um tanto apreensiva.

•••

— Bom, — começou Brenda enquanto sentava num banco afastado no pátio do colégio, junto a Grace, — o Thomas, bem, ele é meio diferente.

— Diferente? — Grace ajeitou-se no banco, sem entender.

— É. Ele não gosta muito de abraços, carinhos. Tipo, uma vez eu digitei um texto gigante de aniversário para ele, postei no Facebook com uma foto legal, e ele digitou um: "kkkkk, eu não vou responder isso, mas eu gostei". E sempre que eu tentava me confidenciar com ele, ou demonstrar alguma afeição, ele sempre me repelia. A última e única vez que ele foi fofo comigo foi no dia que ele foi embora pra Escócia, e olha que ele nem chegou aos parâmetros normais de uma pessoa minimamente afetuosa. — Brenda parou para encher seus pulmões com mais um pouco de ar, já que falava rápido demais para se lembrar de respirar. — E ele não saía muito com a gente... Mas, quando saía, ele era a alegria do trio, sabe? Sempre foi super animado, divertido, mas nunca profundo. Ele é o máximo com aquela marra toda, sabe? Mas muito na dele. Não se abre, nem expressa sentimentos. Você deve saber melhor do que eu.

— Sim e não... Eu não o conheço assim exatamente, apesar dele ser mesmo muito engraçado. Não consigo imaginar ele desse jeito. E, quanto aos sentimentos, ele pode ter sido bem grosso comigo no início, mas hoje ele demonstra para mim; na verdade, ele se mostra vulnerável, até... não perdendo as estribeiras, claro. Mas ele sabe se expressar comigo. É profundo comigo...

— Eu imaginei. Ele realmente mudou quando te conheceu, o que foi extremamente engraçado. Ele lutando contra ser fofo ao falar sobre você. Muito engraçado. — Brenda ria nostálgica, até que voltou a ficar meio séria demais para seu tipo de feição normal. — Mas, devo confessar. Meu jeito com os meninos, por ser amiga só de garotos, não sei, os faz pensarem diferente sobre mim.

— Diferente? Como assim? — Grace questionou.

— É... como se eu fosse um dos manos. Os três mosqueteiros. Eu, Luke e Thomas. Eu não era de fato uma menina para eles. E eu não me importava; até crescer um pouco mais e me perceber bastante diferente deles. Não só biologicamente; a mentalidade era outra mesmo, sabe? Eu cresci mais rápido do que eles. Eu pensava de um jeito, eles queriam fazer coisas de moleques. A gente acabou se afastando um pouco. Até que eles cresceram. E cresceram muito. Tipo, viraram os caras mais altos da escola, o Thomas principalmente. Espinhas, aparelhos dentais, essas coisas, até começarem a notar que precisavam de desodorante, culminando em pensar com mais maturidade. E voltamos a nos falar.

— Entendo — Grace assentiu, achando graça daquilo.

— Eles voltaram falando coisas mais maduras. Principalmente o Luke, que ficava perguntando sobre garotas para mim. O Thomas ouvia as perguntas e ficava rindo, meneando a cabeça negativamente para o comportamento do Luke. E eu me sentia muito grata, eles finalmente estavam me vendo como uma garota. Ledo engano. O Luke me via como uma conselheira amorosa para conquistar todas as garotas da escola. O Thomas me via como uma grande contadora de piadas, e um bom público para as piadas dele. Estou falando demais? Posso continuar?

— Continue — Grace afirmou.

— Eu me vi apaixonada pelo Luke, o que eu tenho tentado superar. E o Thomas, das poucas vezes que falou sério comigo, dizia que o Luke não merecia alguém como eu. Eu, na verdade, não entendia isso. Eu conhecia o Luke desde criança, sempre soube como ele era. Queria ele mesmo assim. Aí o Thomas foi se tornando um pai para mim, daqueles que só fazem piada sem graça, que até não demonstram muito afeto, mas que você tem certeza que te ama.

Brenda tentou encontrar as palavras para continuar.

— Por um ato falho, eu acho, eu comecei a pensar que ele gostasse de mim. Sabe aqueles filmes clichês onde o melhor amigo é apaixonado pela garota que só quer saber do carinha que não presta? Então... eu — Brenda soltou um riso preso, — achei, de verdade, que ele, o Thomas, gostasse de mim. Sim, minha autoestima parece bastante elevada pensando assim, — Brenda sorriu, — mas não funcionava assim na minha mente. Ele era meu melhor amigo que não queria que eu ficasse com o melhor amigo dele... Eu só podia supor que ele gostasse de mim, certo? Não era para eu supor que, de fato, o Luke não prestasse.

Grace estava em silêncio, ora rindo ora séria, absorvendo tudo que Brenda dizia. De certa forma, gostava de saber que sua intuição estava um pouco certa sobre a amizade dos dois.

— Eu falei com ele. Joguei um verde mesmo, sabe? Foi numa social na casa de alguma pessoa que não me lembro no momento... Thomas estava na sala tomando alguma bebida num copo de plástico, sentado numa poltrona estilo "vovô", balançando, sozinho, meio que refletindo com aquela cara desagradável dele de "que porcaria estou fazendo aqui?". E eu sentei no fino braço da poltrona, um pouco alterada, claro, e fiz a pergunta cretina: "Thomas, se nada der certo, a gente pode namorar, que tal?!", eu não sei exatamente o que eu disse, na verdade. E o Thomas soltou uma risada tão idiota, que me impulsionou a beijá-lo, não sei por quê. — Brenda engoliu a seco, seu rosto moreno errubesceu ao dizer isso. — Desculpa te falar isso. Acho que eu não deveria...

— Está tudo bem. Isso faz tempo. Pode continuar — respondeu Grace compreensiva, ainda sem assimilar muito bem a imagem do que ocorreu. Thomas numa social? Com um copo na mão?

— Ele disse: "Não, tá louca?". Ele me afastou quando eu caí do braço da poltrona em seu colo e agarrei seu pescoço para não cair, o que aproximou muito o meu rosto do dele. Ele se levantou da poltrona, me colocou no chão e simplesmente foi embora.

— Embora? — Grace sentia seu coração pulsar forte de ciúmes imaginando aquela cena.

— Sim. Eu me senti horrível. Pensei que foram as palavras que eu falei que haviam magoado, que ele tivesse se assustado, não sei. No outro dia, eu fui à casa dele. Ele estava lendo um livro na cama. Bati na porta. E ele sorriu para mim como se nada tivesse acontecido. Eu perguntei: "Lembra do que aconteceu ontem?". Ele sorriu e disse: "Sim, gostaria de poder esquecer". Eu: "Fui tão má assim?". Ele: "Você foi uma garota muito má, sim, ontem à noite, Beôla". Ele me chama assim desde sempre. Eu não sabia decifrar as palavras dele, não sabia se estava falando sério ou sendo sarcástico. Como tudo era muito sério para mim, achei que deveria levar a conversa para esse lado. Eu disse: "Me desculpa ter falado daquele jeito..." Ele sorriu de novo e disse que não tinha problema algum. Aí eu disse: "Eu nunca vou querer te magoar, não quis dar a entender que você é minha segunda opção". Pra quê eu disse aquilo?! Maior arrependimento da vida.

— Por quê? — Grace questionou, sem entender.

— Porque ele quase morreu de rir. Eu nunca vi o Thomas rindo tanto na vida. Ele estava caçoando de mim sem pudor algum. Disse que não havia a menor possibilidade de ele ter ficado magoado, que a possibilidade de eu e ele ficarmos juntos era menor ainda, que havia ido embora da festa porque já não estava bem, que meu show foi o estopim para ele cair fora da festa, que eu não deveria achar que ele agiria com base nos sentimentos; que ele é racional, vive no mundo real, etc. etc. etc. Enfim, ele simplesmente disse que eu devia parar de achar que o mundo gira entorno do meu umbigo. Um grosso.

— Isso é bem a cara dele, de fato...

— Pois é, essa é minha curta história frustrante. Meus dois melhores amigos continuam me vendo como um moleque...

— O Thomas não te vê assim, ele confia muito em você.

— Sobre isso de confiar. Quando ele veio na minha casa no dia do seu aniversário, eu senti uma pitada de ciúmes, sim, porque ele estava mudado, derretido mesmo, coisa que eu nunca vi nem consegui fazer com ele. Te odiei nos primeiros segundos de conversa contigo, tentando imaginar o que você teria que eu não tenho. E eu descobri que, na verdade, uma amiga como você era tudo que eu precisava. Eu não queria mais me comparar a você. Eu queria estar com você, entende?

— Sim.

— Por isso, eu peço: Não se compare a mim. Eu já fiz muito isso e não cheguei a lugar algum. Não pense no Thomas e em mim como pessoas que se combinam, porque eu não estou aqui para separar vocês. Não somos inimigas. Não sou melhor do que você. Nem qualquer outra coisa. Você escolheu o Thomas. O Thomas escolheu você. Acredite nisso até o fim, acredite nesse amor. Tenho certeza que vocês vão longe.

— Como você é maravilhosa, Brenda. — Grace sorriu. — Estou até meio emocionada. Obrigada por isso, de verdade. Toda essa comparação, essa dúvida, isso não ajuda em nada. Eu agora consigo ver o quanto tenho sido injusta com relação à história de vocês. Eu sei que a gente comete muitos erros. Mas eu estou muito grata porque você foi capaz de contar isso para mim, por você confiar em mim a esse ponto. Eu não sei como agradecer por essa injeção de confiança.

Essa conversa, ainda que muito benéfica para pôr os pingos nos is, deixou Grace com uma pulga atrás da orelha. Ela conhecia Thomas tanto quanto pensava? Percebeu que havia uma lacuna na história. Ele realmente era um cara diferente no passado? O que teria mudado? Quando ele teria mudado?

Aquela viagem reservava ainda muitas conversas e grandes revelações, presumia.

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Preparada para viajar para Londres, resolver umas coisas, tirar umas dúvidas e viver os últimos conflitos? Vem comigo que estamos chegando no principío do fim (por que isso soou escatológico? 🤣)

Não esquece a estrelinha. ⭐

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