conversas
Chegar em casa não foi nada fácil. Depois daquele fatídico pedido, Grace e Thomas simplesmente ficaram calados por vários segundos, até que Thomas resolveu falar alguma coisa.
- Você sabe que não precisa responder agora. Talvez nunca. Foi bom te conhecer, Grace Daves.
- Foi um prazer ser sua amiga por tão pouco tempo, Thomas Fraser!
Queriam mesmo era dizer o quanto estavam gostavam um do outro, mas nada melhor do que esconder esse "segredo" até o final da vida, não é?
Grace deitou na sua cama, sem ao menos pensar que Sabrine poderia estar ali. Constatou depois de alguns minutos que, sim, a garota havia ido à escola e, melhor, ainda não havia chegado.
Foi o momento mais doloroso do dia. Talvez porque só naquele momento a ficha havia caído e ela havia percebido que Thomas se fora, e para sempre. Agarrou um travesseiro e chorou descompassadamente, um choro com soluços e falta de ar que a deixou com muita, mas muita, dor de cabeça.
Depois daquilo, Thomas também ficou um tempo em seu quarto, pensando em todas as coisas que havia falado e se perguntando: será que ela está bem? Naquele momento, só conseguia pensar nela. Se ele estava se sentindo quebrado por dentro, imaginava o quanto ela também estaria. Se lamentava por não poder consolá-la. Sentia-se impotente. Não era um sentimento comum a Thomas. Na verdade, foi a primeira vez que Thomas se sentiu completamente vulnerável. Estava constatando que, de fato, era a primeira vez que se encontrava apaixonado.
- Tommy? - Soou distante e suavemente a voz de Sra. Taylor, batendo na porta fechada do quarto de Thomas.
- Oi... - limpou a garganta - mãe, oi.
- Não vai almoçar? - disse abrindo um pouco a porta.
- Não... eu... tô sem fome - disse Thomas, cobrindo o rosto com o cobertor.
- Tá tudo bem, filho? Você nunca rejeita um bom prato de comida - disse entrando no quarto e indo em direção à cama do filho.
- Não quero, obrigado. - Soou a voz de Thomas, abafada pelo cobertor.
- Mas temos Haggis, que você tanto gosta! - disse Sra. Taylor, passando a mão pelo cobertor.
- Mãe! Eu gosto de tudo! - Thomas ainda estava escondido.
- Eu sei. - Ela sorriu. - Mas é que você realmente vai gostar desses Haggis. Ainda mais por ser da gastronomia escocesa. Vamos lá, é o nosso almoço de comemoração pela sua conquista - falou ela puxando levemente o cobertor do filho.
- Mãe... eu não quero. - Thomas desistira de se cobrir e olhava para os olhos da mãe.
- Thomas! O que é isso? - Ela o olhou nos olhos, um pouco vermelhos, espantada.
- Isso o quê? - Thomas colocou a mão no rosto, preocupado.
- Você está chorando?
- Argh, - Thomas bufou, - era isso?
- Sim, meu filho. Você nunca chora. O que está acontecendo? Amor, - ela levantou a voz, - vem aqui.
- Não, mãe... não, o pai não...
- Oi, querida - o Sr. Jake chegou à porta calmamente.
- Meu bem, nosso bebê estava chorando. - Ela disse sem desviar os olhos do filho.
- O que? - Sr. Jake se aproximou. - Chorando?
- Chega. Vocês dois: Saiam do meu quarto, por favor. Licença, vai - Thomas disse, se escondendo novamente dentro do cobertor.
- É sobre a viagem pra Escócia? - perguntou a Sra. Taylor.
- É claro que não, meu amor - disse com ar de "sabe tudo" o Sr. Jake, impressionantemente parecendo mesmo saber. - Está claro que é sobre alguma garota...
Thomas parou de respondê-los.
- Ah, meu filho... É aquela menina, filha dos Ross? Lydia? Nós já te aconselhamos que não parecia ser um bom caminho...
- Mas é claro que também não, meu amor. É aquela garota que ele fica saindo para tomar sorvete - Sr. Jake disse, rindo silenciosamente sobre o assunto.
- Grace? - Sra. Taylor se animou.
- AAAAAAh! Como vocês são insuportáveis! - Thomas surgiu para fora do cobertor.
- Se não fôssemos não seríamos pais! - disseram juntos, e riram disso.
- Acabou tudo com a Grace - Thomas disse, ajeitando-se na cama.
- Como assim, acabou tudo? Eu já estava me acostumando com a ideia de te dividir com ela - brincou a sra. Taylor.
- Mas ela tem namorado, filho. Você disse - disse Sr. Jake, a voz da razão.
- É, e por isso mesmo acabou.
- Ela preferiu o namorado - disse sra. Taylor, como se tivesse entendido tudo.
- É... acho que sim - Thomas deu de ombros.
- Ela não sabe o partidão que está perdendo - disse Sra. Taylor.
- Sinto muito, filho. Às vezes dá certo, às vezes não - disse Sr. Jake, tentando soar convincente.
- Tá. Agora podem sair - Thomas indicou a porta com a mão.
- Espera. Antes deixa eu te contar como eu conquistei essa mulher aqui do meu lado. - Os pais de Thomas agora se olhavam apaixonados.
- Acho que eu já conheço a história... - Thomas revirou os olhos.
- Não conhece os pormenores - começou o Sr. Jake. - Sua mãe era a fi-
- Filha do pastor presidente do seminário... Tá - Thomas disse, impaciente. - Me conte algo que eu não saiba.
- Exato. Filha do presidente do seminário que eu havia acabado de ingressar. Eu estava convicto de que seria solteiro, que aquela seria a minha vida: dedicação total à igreja, nenhuma família. Nem ao menos sentia vontade de me casar. Eu dizia ter um dom! - Jake sorria para a esposa.
- Quero os detalhes... - Thomas se interessou pela conversa.
- E aí uma vez eu fui à sala do reitor do seminário e havia uma linda garota sentada numa cadeira ao lado da janela, lendo as Institutas! - Jake sorria orgulhoso para a esposa, que corava cada vez mais. - Que mulher!
- Ah, para! - disse Sra. Taylor enquanto seu marido lhe dava um beijo na bochecha.
- Tá. E aí?
- Aí eu definitivamente entendi que o celibato não era meu dom. - Todos riram. - A verdade é que eu tinha que casar com ela, nem que fosse para pedir ao seu avô naquele momento.
- Seu pai sempre foi apressado. - Taylor sorria. - Me lembra alguém...
- Não, eu sempre fui certo do que eu queria. Nem apressado nem lento, sempre pontual - Sr. Jake ria para a esposa, como se fosse algo que eles lembrassem sempre.
- E você a pediu em casamento? - Thomas tentou limpar a consciência de que não era o único a propor uma garota em casamento assim, no susto.
- Não, eu não era louco. - Jake e Taylor riram. Thomas revirou os olhos, desesperançoso.
- Mas ele achou o número do meu pai num daqueles termos da faculdade e ligou pra ele, um dia depois. - Gabou-se sra. Taylor.
- Um dia e meio depois! - Jake ria. - Acontece que ela era perfeita demais para perder de vista. E aí eu liguei para o pai dela e perguntei o nome da filha dele.
- E o seu avô simplesmente disse que eu estava noiva! - Taylor riu, olhando seu marido rir ainda mais.
- Sério? Você estava mesmo noiva?
- Não! O seu avô tinha um pretendente para mim, um pastor irlandês. Mas eu não gostava dele, só o tinha visto uma vez na vida! - Sra. Taylor justificou.
- E, digamos que seu avô não gostava muito de mim. - Sr. Jake explicou, olhando para a amada. - Ele me achava muito ambicioso e revolucionário, só porque meus pais não eram muito simpatizantes com os rumos que o seminário estava tomando. Eu tinha muitas críticas ao sistema, de fato. Era só um jovem cheio de ideias. Que bom que amadureci.
- Não acredito que eu quase não existi, ou que eu existiria num mundo onde vocês não seriam meus pais. - Thomas balançou a cabeça.
- Eu também não vejo meu mundo sem o seu pai. E sem vocês, é claro. - Taylor sorria gentilmente.
- Como você fez para conquistar a mamãe? - Thomas se ajeitou na cama.
- Hum, nada. Ela simplesmente me quis.
- Nada disso, Jake. - Taylor ria. - Foi muito difícil me conquistar.
- Talvez um dia e meio - Jake disse, com um tom de voz engraçado.
- Filho, seu pai fez tudo o que estava ao seu alcance para me conquistar. Desde me olhar nos olhos sempre que eu passava pelos corredores do seminário,-
- O qual ela passou a frequentar assiduamente somente depois que viu que eu estudava lá.
- Isso é verdade. - Taylor corava. - Enfim... Até mesmo me indicar livros e músicas.
- E só? Foi o suficiente? - Thomas perguntou.
- Eu fiz o que pude. E fui muito agraciado com a firmeza da sua mãe em ir contra os planos do seu avô. Apesar de respeitá-lo muito, sua mãe sabia que ele estava passando dos limites, beirava a tirania. Tudo acabou fazendo com que ficássemos juntos. Sem forçar a barra. Éramos feitos um para o outro, sabíamos. Senão, eu ainda continuaria convicto de que ficaria solteiro para sempre. Mas, não. Eu sabia que era ela quem despertava isso em mim... E ela sabia que era eu quem estava disposto a cuidar devidamente dela. No fim das contas, não precisávamos fazer muita coisa. Estava claro que ficaríamos juntos.
- Então... se eu esperar, acha que tudo vai ficar bem?
- Você fez tudo o que pôde? - perguntou Jake, com os olhos fixos nos do filho.
- Eu fiz mais do que eu pude, acho.
- O-o-que-que...? - gaguejou Taylor - Você beijou a garota, Thomas Vincent Fraser?
- Não! Mãe! - Thomas disse, nervoso.
- O que você fez, meu filho? - perguntou calmamente o Sr. Jake.
- Eu a pedi em casamento.
- Você o quê? - Seus pais disseram simultaneamente. E, para a surpresa de Thomas, depois disso riram descompassadamente.
- Que que foi? - Thomas ficou sem entender, mas também estava rindo.
- Eu não esperava ouvir isso, mas parece ser bem a sua cara - disse sra. Taylor.
- Vocês acham que eu fiz certo?
- Só o tempo irá dizer, Thomas - disse seu pai. - Das duas, uma: se fez certo, ela vai aceitar o seu pedido. Se fez errado, ela não vai aceitar, e isso não fará diferença, porque isso significará que ela realmente não quer você. Mas, pra ser sincero, você é meu filho, quem não iria te querer?
- Tá bom. - sorria Thomas, feliz por ter pais tão companheiros.
Seus pais se levantaram e foram até a porta depois de compreenderem que Thomas só comeria mais tarde.
Antes de fechar, sua mãe voltou a cabeça à porta e disse:
- Já que vai casar, favor começar a arrumar esse quarto. Não quero bagunça sua neste lugar.
- Por que neste lugar? - Thomas ficou confuso.
- Porque você sabe do meu sonho de ter um ateliê. Como não temos mais espaço algum, seu pai me prometeu que o primeiro filho a ir embora terá seu quarto reformado num ateliê. Embora seja o caçula, você está me dizendo que vai embora primeiro. Sempre gostei mais deste quarto mesmo - ela disse, olhando para a estrutura.
- Mas, você não pod-.
- Claro que posso. Você quer casar. Esse quarto aqui será meu! Meu! - disse Sra. Taylor, fechando a porta lentamente enquanto seu rosto ia sumindo no escuro e sua falsa-risada-maléfica soava ao fundo.
- Credo. Tem certeza que a senhora não é a minha madrasta? - gritou Thomas, feliz porque tinha os melhores pais do mundo.
•••
Grace havia pensado em mandar alguma mensagem para Thomas, mas sabia que aquilo seria totalmente contrário ao trato que fizeram. Queria muito conversar com ele. Sentia que havia feito a pior escolha de sua vida. Definitivamente, se afastar de Thomas não melhoraria em nada as coisas. Muito pelo contrário, a faria ter mais saudades dele... e mais vontade de estar com ele.
Pensou em ligar para Lydia, mas fazia dias que a amiga estava estranha, não falava mais que o necessário com ela, nem esboçava algum interesse no que Grace tinha para dizer. Mais uma vez, se afastar de Thomas não faria as coisas com Lydia melhorarem. A verdade era que a situação da amizade delas já não estava mais tão animadora assim.
Ainda havia uma pessoa. Ela estaria fora de cogitação, se não fosse pela insistência em saber do assunto.
- Grace! Me conta, o que está acontecendo? - Sabrine havia chegado da escola e notado que Grace não saía debaixo dos cobertores e travesseiros.
- Nada - Grace dizia.
- Eu sei que é alguma coisa! Você e meu irmão terminaram, não é? - Sabrine perguntou.
- Como assim? - Grace questionou, preocupada. - Bem... Na verdade não
- Ah, que bom!
- Bom? - Grace surgiu debaixo dos cobertores.
- Sim, bom, ué - Sabrine ficou sem entender.
- Não é isso que você sempre quis? - Grace engoliu a seco quando percebeu o que foi capaz de perguntar.
- Não, eu... - Sabrine demonstrava estar impressionada com a coragem de Grace. - Antes de te conhecer, você sabe... Meu irmão namorava a Kariny e eu a amava, e...-
- E você sempre me dizia que preferia a Kariny... porque ela é sua amiga... e blá blá blá.
- É... eu fui muito cruel com você. Mas era porque eu estava acostumada com ela. E meu irmão simplesmente a deixou, do nada, para começar a namorar com você. É considerável que eu fique ressentida por causa de uma amiga.
- Mas eu não pedi para seu irmão terminar com a ex dele! A culpa não é minha.
- Eu sei, Grace. Mas eu pensava que sim.
- Esse seu desprezo por mim me feriu muito. Foi muito difícil - Grace confessou.
- Não deve mesmo ter sido fácil. Mas você tem que entender que eu sinto muito.
- Mas, até ontem você estava implicando comigo!
- Não estava. É o meu jeito, Grace. Você que me interpreta mal. Talvez se considerasse que eu mudei, você perceberia que não faço por mal. Só queria ser sua amiga.
- Sério? - Grace se espantou.
- Sim. Eu até te pedi conselhos sobre garotos. E você, não sei, parece que não gosta de conversar comigo.
- Não é isso... é que você... me assusta - Grace disse antes das duas caírem na gargalhada.
- Você? Com medo de mim? - Sabrine ria.
- Enfim! Você ainda quer um conselho sobre garotos?
- Quero. - Sabrine se animou.
- Antes de conversar com um garoto, certifique-se de que ele não tenha nenhuma irmã mais nova. - Ambas riram.
- Anotado! - Sabrine dava gargalhadas pela primeira vez em anos de convivência, mas Grace acabara de voltar ao seu semblante triste. - Ei, o que está acontecendo? Posso saber?
- Não é nada.
- É sim! - Sabrine insistiu.
- Eu e seu irmão não estamos muito bem.
- Por que não? Ele me mandou vir para cá e não comentou nada comigo. Tem certeza?
- Nós estamos dando um tempo, e ele disse que não vai poder vir me ver. Deve ter te mandado aqui para que eu não me esqueça dele, não sei. - Grace tentou congitar.
- Então você está dizendo que essa trégua que nós tivemos foi programada? - insinuou Sabrine.
- Não - Grace disse, não querendo ofender. - Acho que essa trégua foi a melhor parte disso tudo.
- O que você me diz está me deixando um pouco preocupada. Você não gosta de surpresas. Até eu sei disso. Mas o meu irmão não entende!
- O que você quer dizer com isso? O seu irmão vem? - Grace franziu o cenho.
- Somos amigas, não é? - Sabrine sorriu, Grace confirmou com a cabeça, segurando a mão de Sabrine. - Não deveria estar contando isso, mas pode ser que o Matthew venha. E venha com tudo.
- É bom que venha. Precisamos conversar pessoalmente - Grace agradeceu pela confissão.
- Só estou dizendo para que esteja preparada. Eu realmente não sabia que vocês estavam dando um tempo.
- Fica tranquila. Sabendo assim, posso me preparar melhor.
No final das contas, Sabrine nem era tão ruim assim. Não sabia que um dia diria isso, mas sentiria falta da cunhada quando terminasse o namoro.
Só estava pensando: como terminar um namoro depois que Matthew aparecesse de surpresa, com rosas e chocolate nas mãos?
________
Não esquece a estrelinha. ⭐
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top