confissões

Já era tarde da noite quando Grace sentou-se abruptamente em sua cama depois de pensar exaustivamente sobre o dia maravilhoso que teve, sua mente simplesmente não conseguia se desligar.

"Eu sou muito louca ou, de fato, o meu pai e a Louise estão tendo um caso?", sua mente começou a maquinar.

O que aconteceria? Seu pai era um homem casado, ainda que morasse tão distante de casa. Ela sabia que morar em outro país não era nada saudável para a família, mas custou-lhe acreditar que seu pai, seu amado pai, seria capaz de fazer aquilo com a sua mãe, com ela, com toda a família.

Voltou a deitar-se na cama. Não tinha muito o que fazer. Pegou o celular e digitou uma mensagem para Thomas.

Grace: É muito estranho pensar que você está dormindo na sala, a poucos metros de mim... E que, sim, estamos num relacionamento. É muita coisa para processar. Eu queria estar 100% feliz hoje. Queria que fosse perfeito. Mas, não sei, meu pai e a Louise me tiram a paz. Vou orar sobre isso.

Nenhuma resposta. Thomas, obviamente, já estava no estágio mais profundo do sono. Não tinha jeito. Teria que tentar dormir e esperar para ver o que o amanhã lhes reservara.

Com dificuldade para dormir, Grace ligou para sua mãe julgando ser um bom horário para conversas nos EUA. Contou-lhe as novidades sobre Thomas, pediu sua bênção e prometeu que os apresentaria assim que pudesse. Sua mãe pareceu radiante com a novidade, ainda que um pouco confusa sobre o termo "casamento". Ela queria muito estar presente naquele momento, mas seu trabalho nos EUA a impedia de passar férias com a filha na Europa. Era tão injusto estar, assim, tão longe da mãe e ainda não poder contar-lhe as coisas que descobrira sobre o pai... sobre Louise. No final das contas, percebeu que devia entender um pouco melhor a situação antes de falar algo para a mãe. Grace não tinha certeza de nada até então.

Demorou, mas em certo momento o sono chegou. Grace concentrou-se no barulho inebriante da forte chuva lá fora, envolvendo-se em seus cobertores e entregando-se ao sono.

O sol estava brilhando entre as núvens lá fora, e um vento refrescante trouxe um som melodioso aos seus ouvidos. A melodia vinha de longe, trazendo-lhe uma forte sensação de calmaria. Aquilo seria um sonho?

Conseguia identificar agora um timbre de violão, uma voz macia e varonil fazia-lhe carinho aos ouvidos e a ninava. Pena que Grace estava, aos poucos, acordando. Abriu os olhos, a chuva ainda não havia cessado. O tempo estava nublado; as ruas, cobertas de neve. Com certeza, fora um sonho, exceto pela melodia vinda de um violão e de uma doce voz, que continuava a soar baixinho num sotaque escocês.

Tarde, muito tarde...
foi que eu Te amei

Thomas estava sentado no sofá que dormira; seu travesseiro, lençóis e cobertores, todos dobrados numa pilha bem organizada no canto. Ele tinha um violão em sua mão e parecia distraído enquanto cantava, do seu jeito, uma bela canção. Ele olhava para a janela da sala, mas não era nas coisas lá de fora que ele prestava atenção, era em cada palavra do poema que declamava.

Antes que pudesse continuar a cantar, Thomas sorriu para a presença de Grace ao admirá-lo na entrada da sala.

— Bom dia, raio de sol — Thomas pôs a mão nos olhos fingindo que estavam sendo ofuscados pelo brilho do grande pijama amarelo-ovo que Grace usava.

— Bom dia, acho que vou trocar de roupa. — Grace fez menção de voltar para o quarto.

— Está linda assim, filha — Arthur gritou da cozinha.

— Seu pai tem um ótimo violão aqui. Eu estava falando com ele. É um Taylor bem antigo, as cordas enferrujadas, faz pena — Thomas disse, afinando o violão e fazendo uma espécie de acorde que fez Grace imaginar que sua grande mão parecia mais uma aranha de pernas quebradas no braço do violão.

— Eu não uso mais. Não tenho tempo — Arthur justificou enquanto comia um omelete com bacon, distraindo-se com a complexidade da cafeteira. — Eu não devia ter ligado pedindo para a Louise não vir hoje.

— O que você estava tocando? — Grace disse, por fim, sentando-se ao lado de Thomas no sofá.

— Uma oração de Agostinho de Hipona. Fala muito sobre mim.

— Sobre você? — Grace perguntou.

— Sim. Sobre existir um vazio dentro de nós enquanto buscamos nas criaturas aquilo que só podemos encontrar no Criador.

— Como se a gente procurasse no mundo coisas para preencher um vazio e nunca ficasse satisfeito?

— Exatamente. — Thomas sorriu para Grace, querendo dar-lhe um beijo na testa, mas o violão e o distanciamento pareciam inviabilizar.

— Canta de novo, por favor — Grace pediu com muita delicadeza.

— Só se você prometer que ainda vai gostar de mim depois de me ouvir cantar desastrosamente mal — Thomas falou baixinho para que Arthur não ouvisse.

— Tá — Grace respondeu, tentando não corar.

— Então presta atenção.

A voz de Thomas era tão suave como Grace havia escutado ao acordar. Ele tocava o violão com muita facilidade e cantava com os olhos fitos em Grace, ora sério, ora com um sorriso no rosto.

— Uau! Mas o que ele quer dizer exatamente por "tarde demais"? Ele parece se lamentar de que não há mais tempo para amar a Deus. Mas sempre há tempo, não?! — Grace perguntou, confusa.

— Quer dizer que ele demorou muito para perceber que precisava de Deus, quer dizer que ele se lamenta em não ter amado a Deus antes. Agostinho levou uma vida devassa na juventude, se envolveu com várias mulheres, religiões, filosofias...

— Nesse sentido, é tarde demais para todos nós, certo? Uma vez que Deus nos amou primeiro, nós nunca o amaríamos sem que Ele nos tivesse amado antes. — Grace concluiu, ainda que perguntando.

— Exatamente, Gracinha. — Thomas pareceu impressionado, apaixonado. — Um dia Agostinho sentiu seu coração estranhamente aquecido, assim como nós. Ele disse uma frase que guardo sempre comigo: "Fizeste-nos para Ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti".

É. A gente não foi feito só para  viver aqui, mas para viver por Alguém aqui — Grace concluiu, bem admirada, deixando Thomas muito orgulhoso.

Com um pouco mais de reflexão, ambos oraram juntos ali naquele sofá, bem rapidamente. Arthur, pai de Grace, admirou-se do que via. Aquilo, na verdade, fez com que ele quase engasgasse com um pedaço de omelete.

Thomas já havia tomado café e só estava aguardando o pai de Grace acabar de tomar seu café para que ambos pudessem partir para o aeroporto.

Coincidentemente, descobriram que, no próximo vôo de Thomas para Edimburgo, Arthur seria o seu piloto. Por isso ambos iam juntos para o embarque.

— Tudo pronto? — Arthur perguntou, levantando-se do balcão da cozinha e indo em direção à porta da sala. Thomas e Grace estavam distraídos com o violão.

— Sim, capitão. — Thomas pôs-se de pé segundos depois, ao que todos na sala gargalharam.

— Vamos nessa, marujo. — Arthur entrou na brincadeira. — Grace, você vai ficar uns minutos sozinha, daqui a pouco a Louise chega para te levar a Cambridge.

Grace havia esquecido completamente, mas hoje iniciaria seu curso na Universidade. Tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo em Londres que ela mal acreditava que tinha mais reservado.

Depois que Grace assentiu com a cabeça vendo Thomas guardar o violão no velho case do seu pai, Arthur continuou:

— Andem. Para fora, já — disse, bancando o pai autoritário que todos sabiam que ele não era. — Vou dar um tempo para vocês se despedirem no corredor enquanto faço uma ligação.

Todos saíram para o corredor do prédio. Arthur foi afastando-se deles, virando à direita numa bifurcação, deixando-os pela primeira vez, enquanto comprometidos, sozinhos.

Thomas notou que seu coração estava batendo um pouco mais forte que o normal, ele tentou controlar sua respiração, mostrar que estava tudo bem.

— Olha... seu pai é um cara muito legal — Thomas começou, lembrando-se das preocupações de Grace. — Ainda não se sabe muita coisa sobre... você sabe. Louise. Não tome decisões precipitadas. Tudo bem? — Ele colocou uma mecha rebelde do cabelo de Grace atrás da orelha enquanto via seu semblante um tanto triste, a mecha rebelde logo voltou a cair em seu rosto.

— Tudo bem. Vou controlar minha impulsividade. — Grace assentiu, olhando para o chão. Não queria olhar para os olhos de íris âmbar de Thomas, não agora que estavam prestes a se despedir novamente.

— Peça ajuda a Deus, ok? — Thomas levantou delicadamente o queixo dela com o dedo indicador.

U-hum — Grace olhou finalmente nos olhos de Thomas, que pareciam tão tristes quanto os dela. Essa imagem fez a sua garganta embargar, como se algo muito pesado puxasse e retesasse suas cordas vocais com muita força, causando-lhe uma dor sufocante. Sabia que choraria, mas deveria segurar o bastante para que Thomas fosse embora sem o incômodo de consolá-la; ela não queria atrasá-lo.

— Hoje você tem aula. — Thomas sentiu-se um pouco nervoso sobre o que fazer: talvez abraçá-la? Então resolveu colocar as mãos nos bolsos no casaco enquanto falava. — Já resolveu que curso vai fazer?

— Um intensivo em literatura. Acho que com enfoque em Shakespeare. — Grace deu de ombros enquanto encostava o corpo e a cabeça de lado na porta. Seu corpo estava indicando que precisava entrar logo para que pudesse chorar a ausência de Thomas, mas queria aproveitar cada um dos últimos segundos com ele.

— Fantástico. Nada mais londrino! — Thomas lançou-lhe um sorriso um pouco triste. — Mas quero te apresentar a Escócia. Você vem me visitar qualquer fim de semana? — Thomas encostou-se na parede assim como Grace estava encostada na porta, ambos se encarando.

— Tenho que ver com meu pai. — Grace deu um sorriso constrangido por estarem se encarando por tanto tempo.

— Eu tenho um plano. Hoje, quando ele me deixar pilotar o avião por alguns segundos, eu peço para que ele te deixe me visitar na Escócia, sob a ameaça de deixar o avião cair — Thomas disse para descontrair o clima, o que de fato funcionou, mas seu coração ainda não havia parado de bater com força contra seu peito, deixando-o um pouco sem ar.

— Você não existe, Thomas. — Grace suspirou com dificuldade.

— Põe a mão aqui. — Thomas abriu seu casaco e auxiliu Grace a colocar a mão sobre o seu peito. Grace sentiu o coração de Thomas acelerado, pulsando forte e rápido sob sua mão, o que a assustou um pouco. — A ideia de passar a noite de ontem aqui foi perfeita, mas eu não trouxe meu remédio de taquiarritmia para Londres, não achei que fosse precisar...—

— Thomas. — Grace desesperou-se, pressionando um pouco mais fortemente a mão sobre seu peito num reflexo, como se sua mão fosse ajudar o coração a voltar a bater em ritmo normal.

— Calma. — Thomas suspirou, sentindo o toque dela em seu peito. — Tem um tempinho que estou assim. Ficar sentado me acalma, tocar violão. Ele acelera e logo passa, mas é só chegar perto de você que eu fico meio, assim, eufórico. Acho que você entende — ele disse com um pouco de dificuldade enquanto Grace soltava um pouco sua mão do peito de Thomas, e ele, mesmo assim, não largava a mão dela. — Estou bem, vou ficar bem. Só mais uma horinha sem o remédio...

— Não, você não pode ficar sem. — Grace apertou a mão de Thomas.

— Vem cá. — Thomas abraçou-a, e Grace encostou seu ouvido bem no seu peito. Ele suspirava um pouco contra o topo da cabeça de Grace enquanto ela ouvia o coração dele parar de dar saltos exagerados no peito e voltar a bater normalmente.

Quando eles se soltaram, Thomas notou que Grace estava chorando.

— Ei... Está tudo bem, viu? Passou — Thomas sorria para ela.

— Isso não é brincadeira. Por favor, vai embora para tomar esse remédio logo, Tommy. — Grace limpou os olhos, lutando contra sua vontade de mantê-lo por mais tempo ali.

Então eles foram surpreendidos por Arthur, que chamava Thomas para que fossem embora. Thomas deixou um beijo na mão de Grace, lançou-lhe um olhar meigo e um sorriso de conforto.

— Eu estou muito bem. Não poderia estar melhor, Gracinha. — Thomas piscou para ela.

— Eu estou te matando aos poucos. — Grace choramingou, ao que Thomas soltou uma gargalhada e beijou sua testa.

— Eu diria o contrário. Estou me sentindo mais vivo depois de encontrar você — Thomas disse por fim, já afastando-se de Grace.

Ao virar-se de costas para Grace, sentiu uma profunda vontade de chorar. Agora era Thomas quem sentia sua garganta fechar.

— Quando chegar, me manda uma foto com o comprimido na boca para me tranquilizar — Grace gritou da porta enquanto Thomas estava quase virando na bifurcação.

Thomas tentou olhar para trás, mas não conseguiria vê-la de longe sem deixar uma lágrima escorrer de seus olhos. Não agora que estava prestes a entrar no elevador com o pai dela.

Enquanto entrava no elevador, pegou o celular e digitou para ela, sabia que ela choraria, então pensou em algo engraçado.

Thomas: Pare de me pedir fotos indecentes, Grace; vou contar para o seu pai.

Ela nunca veria, mas, a despeito de toda brincadeira, os olhos de Thomas estavam marejados e ardidos, como poucas vezes antes. A fim de controlar-se, pensou na palavra fortaleza, que havia aprendido com o pai.

"Um homem deve ser forte para aguentar as responsabilidades da vida", dizia ele...

Antes tinha entendido que um homem de verdade não poderia chorar, hoje tinha entendido que a verdadeira fortaleza é sentir a dor sem perder a fé. Ele a veria de novo.

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Não esquece a estrelinha. ⭐

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