cave mais fundo
Depois que conseguiu se recompor do choro, Grace tentou ligar para a mãe, que ainda insistia em não atendê-la. Thomas se ofereceu para levá-la para casa, mas a última coisa que Grace queria era ser vista pela cidade andando no carro de Thomas Fraser. Decidiu que era melhor conversar mais um pouco e esperar que a sua mãe a buscasse, tinha certeza que a mãe já estaria quase acordando.
— Então... essa é a igreja de vocês? — perguntou Grace olhando para as cadeiras um pouco distantes.
— É, sim. Não é engraçado ter uma igreja em casa? Na verdade, a sua casa ser a sua igreja?
— Não é exatamente a sua casa. Seu quintal é uma igreja.
— É. Estamos construindo um prédio lá no centro, você já deve ter visto a construção...
— Acho que sim. Mas, por que a igreja é aqui?
— É provisório. Na verdade, montamos isso aqui por cinco meses, até que a obra ficasse pronta. Antes éramos uma igrejinha bem menor. Locávamos uma sala de poucos metros quadrados de área. Mas crescemos, e o lugar não permitia abrigar todo mundo.
— Entendi. Então aqui não foi sempre a sua igreja... — Grace balançou a cabeça para baixo e para cima.
— Isso... é engraçado... — Thomas estava com os olhos focados em algum lugar perto do pulpito.
— O que é engraçado? — perguntou Grace, desviando o olhar das cadeiras para Thomas, que não desviou o olhar, porém estava sorrindo lembrando de alguma coisa.
— Desde então meus amigos da igreja têm me perguntado se eu vou aos cultos. Porque — Thomas riu e se virou para Grace, — eles sabem que eu vou. É a minha casa!
— Mas você pode se trancar no quarto... — Grace também estava rindo.
— Impossível quando se é o dirigente dos salmos...
— Isso é sério? — Grace riu — Você é assim tão crente?
— Isso te espanta?
— Não. Eu só não acredito no que vejo.
— Tá. Vem cá.
Num salto, Thomas saiu do banco e puxou Grace para dentro de sua casa.
— Ei, não. Eu tenho vergonha.
— Não. Você precisa acreditar em mim.
— Eu acredito. Acredito.
— Não acredita, nada — Thomas passava num corredor iluminado dentro de sua casa e Grace ia atrás com medo do que Thomas iria mostrá-la. Seria agora que ele revelaria o seu ódio mortal por ela a sufocando na privada?
Mas não foi ao banheiro que ele a levou. Foi ao seu próprio quarto.
A princípio, Grace não gostou nada da história de entrar num quarto com um menino. Porém, quando entrou, percebeu que Thomas deixara a porta aberta — não aberta, mas escancarada —, com a sua mãe a poucos metros de distância, e achou que não fazia mal ver o que ele estava querendo mostrar.
Só então que percebeu o lugar onde estava. O quarto seria bem simples se não estivesse cercado por livros. Havia uma escrivaninha organizada com mais uma outra pilha de livros que Grace julgou serem os mais importantes para Thomas, ou que ele estava lendo no momento. Havia uma cama grande demais, o que era aceitável devido ao tamanho do garoto. Não havia porta-retratos, nem enfeites que deixassem o ar um pouco nerd. Só livros. A não ser por uma pequena escultura de madeira com uns 20 centímetros de altura bem ao lado da cama de Thomas. Era uma espécie de torre pontiaguda com um relógio no alto, Grace não pôde deixar de notar.
— Big Ben? Gosta de Londres?
— Que? — Thomas olhou para onde Grace estava olhando — Ah, não. Esse não é o Big Ben. É a torre do Balmoral, na Escócia.
— Escócia, claro — Grace brincou com o fascínio do rapaz com tudo que vinha de lá.
— Gostou?
— Sim. É lindo. Gostaria de ir à Europa qualquer dia desses.
— Vamos. Eu te levo.
— Ah, tá — Grace revirou os olhos.
— Te mostro o meu quarto cheio de livros e a única coisa que você comenta é esta singela miniatura da Escócia?
— É que eu realmente gostei — falou segurando a torre nas mãos. Ao se lembrar do quanto era desastrada e ao pensar que aquela miniatura poderia custar uma fortuna, decidiu colocar cuidadosamente sobre a mesinha e reparar nos livro. — São todos seus?
— Sim — disse Thomas, com orgulho.
Eram livros dos mais diversos assuntos. Desde teologia à ciência. Desde política à física. Desde economia à história. Desde filosofia a bíblias dos mais diversos tamanhos e traduções.
— Tá. Isso é muito. Vou fazer a pergunta clichê: já leu pelo menos um terço disso tudo?
— Não sei ao certo. Mas leio grande parte. Sempre leio.
— Isso é incrível — falou pegando um livro meio pesado e, sem conseguir segurá-lo, deixando-o cair na escrivaninha. — Opa. Nenhum dano. — Recuperou o fôlego. — Então... você quer mesmo ser um teólogo?
— Não exatamente. Quero ser um pastor. Um teólogo eu já sou.
Grace levantou uma sobrancelha um pouco em dúvida se aquele comentário soava um pouco convencido. Às vezes ele dizia umas coisas que ela não conseguia entender.
— Como assim? Já fez curso antes de terminar o ensino médio? Como é possível?
— Não... É que, segundo este livro, — começou a procurar numa das estantes, até achar o que estava procurando —, toma — e deu a Grace —, todos nós somos teólogos.
— Nós? Não estou entendendo. Eu não sei quase nada sobre Deus, não me idenficaria como uma teóloga. — Grace, que agora tinha o livro em mãos, leu o que estava escrito na capa. "Cave mais fundo", dizia o letreiro, com uma imagem de uma pá formando o "v" do "cave".
— Olha. Deixa eu ler para você. — Pegou o livro da mão de Grace abrindo numa página marcada com uma orelha na folha.
"Teologia é o estudo da natureza de Deus - quem Ele é e como Ele pensa e age. Mas a teologia não está no topo da lista de interesses diários de muitas pessoas. Outros vêem a teologia como algo que deve interessar apenas aos pastores e aos eruditos. Eu costumava pensar dessa maneira. Entretanto, aprendi que isso não é verdade. A teologia não é apenas para certo grupo de pessoas. De fato, é impossível alguém escapar da teologia. Ela está em todo lugar. Todos nós estamos constantemente 'fazendo' teologia. Em outras palavras, todos nós temos alguma ideia ou opinião sobre quem é Deus. Todos temos algum nível de conhecimento. Esse conhecimento pode ser muito ou pouco, bem instruído ou mal instruído, verdadeiro ou falso, mas todos nós temos algum conceito de Deus (ainda que seja o de que ele não existe). E todos nós alicerçamos nossa vida no que pensamos sobre o que Deus é. A teologia é importante não porque desejamos obter uma boa nota em um teste, e sim porque o que sabemos a respeito de Deus muda nossa maneira de pensar e viver. A teologia é importante porque, se temos uma teologia errada, toda a nossa vida será errada. Todos somos teólogos. A questão é se o que sabemos a respeito de Deus é verdadeiro."
— Uau! Faz sentido. — Grace sentia que Thomas sempre estava convicto de tudo o que dizia e isso lhe passava uma segurança sem igual.
— Fica com ele — disse Thomas, entregando o livro a Grace. — É seu.
— Não posso aceitar.
— Eu insisto. Pode ficar à vontade para pegar qualquer livro aqui na minha humilde biblioteca.
— Humilde? — ela questionou olhando o número de livros à sua frente. — Mas, enfim, muito obrigada, então.
— "Obrigada"? Que nada! Você devia saber que eu vou te encher até você acabar esse livro. E eu ainda quero ler a resenha.
— Pode deixar comigo! Mas, uma dica...— Grace falou enquanto analisava o quanto o livro que tinha em mãos estava amassado.
— Fala, Grace Daves! — Thomas revirou os olhos.
— Nunca se deve usar as abas de um livro para marcar a página. Não sabe que isso estraga o livro?
— Nhé! O livro é meu, louca.
— Não mais— Grace foi interrompida pelo seu celular tocando antes que pudesse rir da situação.
Era a sua mãe, que havia acabado de acordar. Taylor insistiu que Grace ficasse para o almoço, mas sua mãe chegou em poucos minutos.
•••
— Filha, quem era aquele rapaz? — As duas já estavam no carro. A mãe de Grace, ainda que entendesse que a filha estava firme com o namorado, nunca deixou de comentar sobre outros garotos.
— É um amigo — Grace deu de ombros.
— Ele é muito bonito! — Sua mãe fez uma cara de quem gostou do que viu.
— Hum — Grace achou melhor deixar a mãe falando sozinha dessa vez.
Ao chegar em casa, viu que havia recebido uma mensagem de Lydia.
Lydia: Preciso conversar com você. Me liga, FaceTime.
A barriga de Grace gelou assim que leu a mensagem. Lydia nunca fora tão objetiva assim em toda a sua vida. Suas mensagens de texto tinham, no mínimo, duzentos caracteres. Pensou na manhã perfeita que teve com Thomas e em como aquilo parecia tão certo, porém tão errado. Pela primeira vez naquele dia lembrou que, se alguém os tivesse visto, ela estaria completamente sem chão em questão de poucos minutos. E se alguém os tivesse visto e contado para Lydia que os dois passaram toda uma manhã juntos? Grace sempre pensava que aquilo que imaginava nunca iria acontecer, então pensou em todas as possibilidades ruins. Contaram para Lydia. Contaram para Matthew. Contaram para Lydia e Matthew. Contaram para Lydia, Matthew e toda North Adams.
Grace só não contava com a possibilidade improvável de que a própria Lydia os vira na sorveteria.
Depois de pensar sobre diversas desculpas esfarrapadas, de cara limpa Grace ligou a chamada de vídeo com Lydia.
— Oi — disse Lydia simplesmente.
— Ei! Tudo bem? — Grace perguntou, fingindo não saber que nada estava bem.
— Tudo bem, Grace? Tudo bem? Eu vi vocês.
— Viu? Quem?
— Você e o Thomas. Sorveteria — Lydia revirou os olhos.
— Sim... mas não era nada demais. — Grace tentou manter a calma.
— Ah, não? Por que vocês estavam, de manhã, na sorveteria?
Pensou em dar as desculpas que havia imaginado dar. Mas achou que a verdade seria a melhor opção. Afinal, não queria ter que mentir para a melhor amiga, nem podia.
— Então... eu sei que é difícil de acreditar mas eu fui à escola hoje.
— Quem vai para a escola no Dia do Presidente?
— Eu me esqueci. Aí eu tava indo para casa a pé. Você sabe que minha mãe tem acordado super-tarde.
— Sei...
— Então eu passei em frente à casa do Thomas, que estava lavando o carro dele e—
— Sem camisa?
— Com, Lydia — Grace continuou, revirando os olhos. — Enfim, eu estava esperando minha mãe ir me buscar. Mas antes tomamos um sorvete, porque estava muito calor.
— Sei... — Lydia finalmente se deu por convencida. — Ele falou alguma coisa?
— Alguma coisa? — Grace franziu o cenho.
— É, sobre mim...
'Não', Grace pensou em dizer. Mas ficaria muito chato dizer algo assim. Resolveu tentar puxar da memória algumas coisas que, em outra situações, Thomas já havia falado sobre Lydia. Foi difícil lembrar de algum elogio, algum comentário. Notou que Thomas quase nunca falava sobre Lydia.
— Ele gosta de você — Grace lembrou de quando ele confirmou isso para ela. — Me pediu ajuda para te conquistar.
— Isso é sério? — Lydia estava com os olhos brilhando.
— É — Grace sorriu para a amiga, tentando ser convincente.
— Mas é tão estranho, sabe? Ele nunca me liga. Eu até inventei de sumir um pouco, li numa revista que eu não posso correr muito atrás dele. Ele tem que sentir a minha falta. Mas ele não me manda mensagem quando eu sumo. Mas ele é super-fofo comigo quando eu o chamo para conversar. É como se eu não importasse muito, sabe?
— Entendi. Mas acho que é só impressão, Ly. É que ele não é muito de chamar atenção das pessoas.
Lá estava Grace defendendo o Thomas de novo. Como pode? Há algumas semanas, ela simplesmente o odiava com todas forças que tinha. Hoje era a sua maior defensora.
A conversa terminou depois de alguns instantes. Lydia finalmente decidiu romper com seus dois dias de desprezo e chamou Thomas numa conversa on-line. Eles conversaram muito. Thomas era realmente muito agradável, mas Lydia sentia que ele não estava totalmente entregue. Mesmo que desconfiasse um pouco sobre os sentimentos dele por Grace, sabia muito bem que a amiga nunca faria uma coisa dessas com ela e que ela podia, sim, fazer com que o Thomas se apaixonasse por ela. Algum dia.
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Não esquece a estrelinha. ⭐
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