bizarro, bizarro
— Você sabia que... eu adoro essa sua combinação de vestido com tênis, Graceeeeeeeeeeeee? — Jake, o irmão mais velho de Thomas, disse quando chegou em casa, imitando a voz do irmão.
— Cala a sua boca — Thomas falou, constrangido. O que mais da conversa seu irmão teria escutado?
Sentaram nos bancos do balcão da cozinha vendo os pais se ajudarem na preparação do almoço.
— Sempre achei que eu teria que te ensinar a conquistar uma mulher, mas estou vendo que está indo bem, irmãozinho.
— Eu não quero conquistá-la — Thomas reclamou.
— Ah, sim. Porque você já conquistou, sei. — Jake revirou os olhos.
— Ela tem namorado.
— O que? — Disseram, em conjunto, os pais de Thomas, virando-se para os filhos.
— É. Ela é só minha amiga — Thomas deu de ombros.
— Você sempre se dando mal mesmo, heim, filho?! — disse o Sr. Jake, pai de Thomas.
— Vocês têm que ver o quanto ela é uma gracinha, — disse Sra. Taylor passando o ralador para o marido, — um amor de pessoa.
— Eu a conheci hoje — disse Jake abrindo um pacote de batata-palha e comendo. — Parece ser legal, apesar do péssimo gosto.
— Péssimo gosto sobre o quê? — Thomas falou um pouco rígido demais.
— Calma, irmãozinho — Jake levantou as mãos. — Era só uma brincadeira sobre vestidos com tênis, que você amou. Se você gostou, então deve ser horrível.
— E você devia voltar para Boston. — Thomas disse, ríspido.
— O que há de errado com esse garoto? — Jake questionou os pais apontando para o irmão.
— Meninos! — alertou Sra. Taylor, e isso já era suficiente para eles pararem de se encarar.
— Não que ela tenha me dito, mas acho que ela faz as próprias roupas, e eu acho isso incrível. — Thomas elogiou a garota, como era de costume. Sua família sabia de todas as qualidades de Grace.
— Menina esperta, meu filho. Não terá de gastar tanto com roupas, como certas mulheres... — disse seu pai olhando para a esposa e rindo de uma maneira que Thomas sempre sonhou em rir para alguém. Isso descontraiu totalmente o clima, agora estavam todos rindo. E o assunto acabou mesmo por aí. Thomas deu ficou muito grato por não perguntarem mais nada.
•••
Depois do almoço, Thomas se deitou um pouco no sofá para descansar. Estava pensando no que poderia fazer no restante daquele dia. Talvez daria um banho no Fred — o pastor-alemão da família. Mas não conseguiu fazer nada daquilo.
É incrível como uma simples mensagem de texto pode acabar com o seu dia.
Lydia: Oi, Thomas.
E não estou falando dessa mensagem. É preciso que você se lembre que eles estavam sem se falar há dias. E Thomas queria muito saber o porquê.
Thomas: Ei, Lydia. Por que você sumiu?
Lydia: Tive que resolver algumas coisas na minha vida, sabe? Tirei esse tempo para pensar sobre a minha vida. Sobre você.
Thomas: Sobre mim?
Lydia: É. Você sabe que isso que a gente tem não é qualquer coisa.
Thomas não fazia a mínima ideia do que ela estava falando.
Thomas: Hum.
Lydia: Então. Eu conversei com meus amigos. E eles me confirmaram que você não é o certo para mim. Porque, sabe?, você é muito bonitinho, muito inteligente, mas nunca se esforçou nem um pouquinho para estar comigo. Tudo que eu precisava era de um carinho, de atenção. Mas você só foi capaz de me deixar esperando a sua boa vontade de me beijar, de me dizer que gosta de mim. Você gosta de mim, claro. Mas você não sabe demonstrar isso.
Thomas: Então, o que você decidiu?
Lydia: Como meus amigos disseram, você não me merece, Thomas. Eu fiz tudo por você. E você só quer mostrar para mim o quanto eu não sou nada perto de você. Tudo bem você ser inteligente, você ser bonito. Mas você não pode usar isso como pretexto para ter as garotas aos seus pés.
Thomas: O que? De onde você tirou isso? Quem te disse isso?
Lydia: A Grace e o Matthew. Eles me abriram os olhos. Você tem sido muito arrogante.
Foi como um tiro diretamente de encontro ao coração de Thomas. Ele podia esperar qualquer coisa de Lydia. Podia esperar o pior do Matthew. Mas de Grace? Ficou imaginando, ali deitado no sofá, o que Grace teria falado sobre ele. Pensar nela falando mal dele era como se todas as coisas que eles tivessem conversado, todos os lugares que ele a havia levado, tudo o que ele lhe tinha confidenciado, estivesse sendo jogado no lixo. Queria pensar que aquilo tudo fora somente um engano. Que Lydia estivesse mentindo para os separar, qualquer coisa do tipo.
Lydia: Ei, me responde.
Thomas: Olha. Eu não sei o que te disseram. Eu não sei o que eu te faço sentir ou pensar. Mas, por favor, não me entenda mal. A sua atitude em me chamar para sair foi uma surpresa para mim. E confesso que por um momento achei que conseguiria fazer com que isso acontecesse. Desculpa por ter, de alguma forma, feito você desejar algo que eu não posso oferecer. Não sou o melhor cara do mundo, mas pode ter toda certeza que eu nunca fiz, nem disse nada para te deixar mal. Eu me importo com você. Não queria que pensasse assim de mim.
Lydia: Ah, Thomas. É que é realmente difícil pra mim. Você não é muito claro...
Thomas: Eu nunca tive um relacionamento. E eu não quero tomar decisões precipitadas. E acredito que já me precipitei até demais. Quero pedir desculpas, mas eu não posso te oferecer nada.
Lydia: Entendo. Me desculpe ter falado essas coisas para você. Acho que voltei a gostar de você kkk. Que chato!
Thomas: Podemos ser amigos? :)
Thomas queria um tempo para pensar. Não voltou a conversar com Grace naquela tarde, muito menos a chamou para conversar mais à noite. Grace, incomodada com a demora do amigo para chamá-la, achou que algo poderia ter acontecido. Resolveu que chamá-lo naquela noite seria a melhor opção.
Grace: Ei, babaca. Você não vai conversar comigo?
Thomas: Vou.
Grace: Então conversa.
Thomas: Sim.
Grace: Você vai ficar assim?
Thomas: Hum?
Grace: Monossilábico?
Thomas respirou fundo. Achou que seria bom falar logo sobre o que estava o incomodando.
Thomas: Eu preciso saber. O que você disse a Lydia sobre mim?
Grace: O que?
Thomas: A Lydia me disse que você a convenceu de que eu era arrogante.
Grace: Ai, não acredito!
Thomas: Eu sei que você já me disse que me odiava, e tudo o mais. Mas eu não acredito que, com tudo o que eu te mostrei, você ainda acha que eu sou um idiota.
Grace: Eu não te acho idiota.
Thomas: Então você falou isso para ela antes de me conhecer?
Grace: ...
Thomas: Quando foi?
Grace: Ah, há uns dias.
Thomas: Ok.
Grace estava deitada em sua cama, desesperada demais para escrever alguma coisa para se explicar. Resolveu ligar e tentar explicar as coisas. Pensou que poderia ter feito diferente, poderia ter defendido o amigo.
— Oi — Thomas atendeu depois de pensar seriamente se isso era o certo a se fazer.
— Ei, Thomas. Deixa eu me explicar — Grace parecia estar com uma voz quase que embargada de choro.
— Pode falar.
— A Lydia criou aquele grupo e o Matt falou tudo o que ele achava de você, eu não disse nada.
— Nada?
— Sim, nada — Grace estava quase exclamando um "ufa!"
— Você não percebeu que esse pode ter sido o problema? Você não foi capaz de falar nada sobre mim. Com tudo o que você sabe sobre mim, não havia nada que você pudesse falar?
— Se-se eu falasse, iria parecer que...—
— Que o que, Grace?
— Não... o Matthew não iria gostar.
— Entendi — Thomas falou um pouco mais baixo dessa vez.
— Você entendeu mesmo? — Grace fez uma carinha triste, como se ele pudesse vê-la.
— U-hum — Thomas não pôde deixar de mostrar que estava um tanto decepcionado.
— Tommy. É importante para mim que você entenda.
— Tudo be—
— Não, sério. — Ela o interrompeu. — Me desculpa por não te defender. Você merecia isso.
— Tá bem, Gra—
— Você não é nada disso que o Matthew acha. Você é muito especial.
— Tá, tá. Grace. Para de falar um pouco, bobinha — Thomas soltou um sorriso.
— Ufa! Ah, que bom que você me perdoa! — Grace soltou a respiração com força.
— Perdoo. É importante que você não pense mal de mim. Na verdade isso é a única coisa que importa.
— Você me perdoa mesmo? — Grace estava sorrindo. — Tá, estou parecendo a Lydia fazendo essas perguntas óbvias.
— Hum. Não fala da Lydia agora.
— Você está magoado com ela? Ela não fez por mal. O Matthew...—
— Não. Não fala dele também.
— Tudo bem — disse Grace, mesmo sem entender.
— O que você está fazendo neste momento? — Perguntou Thomas depois de uns segundos de silêncio.
— Agora eu estou deitada em minha cama, debaixo dos cobertores porque está chovendo demais e está frio. Estou pensando em ver um filme, algo assim.
— Não. Vai conversar comigo como penitência.
— Tudo bem, eu faço esse sacrifício. Mas, o que você está fazendo agora?
— Também estou deitado. De meias. Eu sinto muito frio nos pés.
— Isso é bizarro.
— Por que? É bizarro eu usar meias?
— Não. — Grace mexeu os pés e sentiu suas meias grossas até os joelhos. — Porque eu também sinto muito frio nos pés.
— Bizarro. — Thomas se ajeitou um pouco na cama, pensando em todas as coisas bizarras que eles tinham em comum.
— Pois é. — Grace também ficou pensativa.
— Sabe o que é mais bizarro? — Thomas começou a questionar.
— O que?
— Eu ter passado minha vida inteira perto de você, mas não o bastante. Eu queria te conhecer melhor. Impedir algumas coisas que fiz.
— Eu também queria ter impedido algumas coisas. Talvez, se a gente fosse amigo antes, nosso presente seria bem diferente. — Grace concordou, pensativa.
— Sim. Talvez eu teria te consolado quando perdeu na soletração. Comemorado com você minha vitória na Olímpiada de Astronomia. Teria passado horas brincando e estudando com você. Teria vibrado com sua genialidade ao escrever redações. Te escondido quando leram seu texto para toda escola. Eu teria até te levado ao baile na oitava série. — Essa declaração de Thomas teve um tom sério, apesar de fazer com que Grace sorrisse de orelha a orelha, entendendo o que ele estava sugerindo. Em outra realidade, eles estariam juntos.
— Ou pode ser que nada disso acontecesse...
— Bizarro. Se bem que eu creio que aconteceu exatamente como Deus quis que acontecesse — Thomas concluiu.
— É, pensar sobre isso é meio bizarro.
Falar "bizarro" era mais ou menos, para eles, como falar "olha-só-como-fomos-feitos-um-para-o-outro". Porém, ambos sabiam que isso nunca seria verbalizado. Eles sabiam que era impossível qualquer coisa acontecer entre eles. Ficariam, então, no âmbito do bizarro. Tentando convencer o coração de que não tinha nada a ver gostar das mesmas coisas, ter os mesmos sonhos. Era só uma coincidência, afinal.
Já era quase meia-noite e os dois ainda conversavam sem parar. Quando se está de noite, e o leitor pode confirmar isso, algo diferente acontece. Há um clima diferente no ar. Tudo parece estar tranquilo, todos parecem estar dormindo. E, enquanto todos estão simplesmente deixando o tempo passar sem perceber, você está acordado, sentindo cada minuto daquela madrugada passar ao lado de alguém que vale a pena perder algumas noites de sono. Durante à noite, as conversas parecem fluir mais. Porém, também durante à noite, parecemos perder um pouco do juízo. Falamos coisas que sabemos que podemos nos arrepender ao acordar no outro dia.
Por isso, durma cedo... Thomas e Grace às vezes não são exemplos de grande prudência. Nada de bom acontece após a meia-noite.
É também por isso que você tem que entender que Thomas e Grace estavam com sono naquela madrugada, mas não o suficiente para deixarem uma conversa tão interessante para lá. Então, como se aquela fosse a última noite que tinham, conversaram sem arrependimentos. Pelo menos não durante aquela madrugada.
— Você acha que será feliz? — perguntou Thomas, implicitamente falando sobre o futuro casamento de Grace.
— Hum — é claro que Grace pensou em seu futuro casamento. — Sabe que eu tenho pensado bastante nisso ultimamente? Eu sempre achei o Matthew uma boa pessoa. E ele é engraçado, sempre me tratou muito bem.
— Sim, ele é legal. — Thomas colocou a desculpa de tudo o que disse, posteriormente, em seu sono. — Mas... você acha que estaria dando o passo correto casando-se com ele?
— Não sei. Só pagando para ver. — Grace não estava disposta a contar para Thomas como estava o seu relacionamento naquele momento, nem ela mesma sabia. Só sabia que há dias não falava com Matthew, e estava em perfeita paz com isso. Thomas não precisava saber disso tudo para entender quais eram os seus conflitos.
— E você está disposta a pagar para ver?
— Por muito tempo achei que sim. Ele sempre me fez bem. E a questão de seguir a mesma fé, para mim, era questão de tempo — ela justificou.
— Você ama Matthew a ponto de fazer tudo errado por ele? — Thomas perguntou, incisivo.
— Ainda estou avaliando se vale mesmo a pena. — Grace sabia, sabia mais que tudo, que seu relacionamento era errado, mas era difícil ter que magoar um coração porque ele não se adequava aos seus novos padrões. De um modo muito errado, ela via como um egoísmo seu dispensar Matthew, pois ele ainda poderia ter grandes possibilidades de ser convencido da verdade. Terminando, ela estaria assinando um termo de desistência, não de vitória.
— Imagina nossas vidas, então — Thomas respirou fundo para tomar coragem. — Eu: casado, filhos lindos, uma esposa grávida de uma princesinha. Por outro lado, — Thomas não conseguia conter a risada no meio do que falava, — você: grávida do primeiro e último filho porque seu marido não quer ter muitos gastos—
— Ei, não é assim. O Matt ama crianças.
— Me deixa completar. Thomas: pastor, uma igrejinha para cuidar, uma esposa que o ajuda. Grace: mulher de guitarrista esperando o marido voltar do show num bar de Boston.
— Cala a boca, Thomas — Grace também começou a rir.
— Olha, olha. Thomas: viagem com a família para a Escócia todas as férias. Grace: viagem para a casa dos pais de Matthew, com direito a alfinetadas da sogra que tanto ama.
— Ela é uma ótima sogra. Você está falando do que não sabe...
— Eu sei. Mas é bom inventar. — Thomas ria de sua imaginação fértil. — Thomas: flores para a esposa quando chegar do trabalho. Grace: nunca recebeu flores.
— Eu nem gosto tanto assim de flores — Grace estava revirando os olhos. — Agora chega.
— Não, não. Mais uma — Thomas ria feito criança. — Esposa do Thomas: eu sou a mulher mais amada do mundo. Grace: não aguento mais o meu marido.
— Ei. — Grace foi severa agora. — Para com isso, sério.
— Eu só estava brincando. Peguei pesado de novo, não é? Desculpa, eu estou com sono. — Thomas bocejou para soar convincente.
— Você é tão besta, Thomas. — Grace riu um pouco. — Isso realmente é meio difícil de se ouvir. Seja um pouco mais sensível.
— Mas você acredita que possa ser verdade? — Thomas questionou.
— Não. Não será verdade. O Matt adora crianças, a mãe dele é ótima, e ele é muito atencioso. Com certeza, esses não são os problemas.
— Desculpa. Eu sou muito idiota.
Thomas realmente pensou melhor em tudo que disse e viu que não foi assim tão bom quanto estava imaginando no início. Infelizmente, ela havia ficado magoada. Mas, ao que parece, aquilo não foi suficiente para fazê-la ir embora. Ela ainda estava ali disposta a conversar com ele.
Algo peculiar na conversa deles era, também, isso. Não importando quem havia errado, havia perdão suficiente para romper toda a mágoa. A partir do momento em que ele se mostrou arrependido do que fizera, Grace nem ao menos pensou em remoer aquilo.
No entanto, Thomas sabia quais eram as dúvidas de Grace, só não achava que era de sua incumbência dar conselhos sobre aquela questão. Afinal, ele era muito suspeito para aconselhar. Se ele pudesse, declararia a ela todo o seu amor. E todo incômodo que Grace sentira com aquelas perguntas não era sobre elas em si, mas sobre Grace ter certeza de que gostaria de ter tudo que Thomas tinha para oferecer, mesmo sabendo que não poderia aceitar.
— Ei, Gracinha. Me desculpe, de verdade.
— Tudo bem — Grace quase fungou com o choro que estava segurando.
— Eu nem sei se eu seria feliz assim como eu disse. Eu tenho certeza que darei o meu melhor para ser um bom pai, um bom marido, um bom pastor. Mas isso não adiantaria de nada se eu estivesse com a pessoa errada.
— E você acha que a Lydia é a pessoa certa?
Thomas teve uma súbita vontade de falar "Não. Você é", porém foi impedido pelo seu bom senso que já havia sido acordado desde quando teve de pedir desculpas a Grace pelo que havia dito. Sabia que aquilo poderia trazer graves consequências, então, ficou no meio termo.
— Não sei. — A verdade é que Thomas não sabia ao certo qual era a melhor resposta a dar.
Grace estava sentido na pele a necessidade de ouvir um "Não. Você é". Mas foi mais uma vez frustrada por aquilo que Thomas lhe dissera. Também sabia que aquilo não era certo. Não devia nem sequer desejar ouvir aquilo. Ela estava completamente errada. Aquela amizade tinha passado dos limites.
Depois disso tudo, resolveram que deveriam dormir logo. Queriam fazer de tudo para preservar a amizade, porém ambos sabiam que estavam indo longe demais. Limites deveriam ser postos.
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O limite a ser posto é: parem de conversar até altas horas da noite. Isso nunca vai dar certo. E você que está lendo isso deveria cuidar disso também, mocinha. 😅
Não esquece a estrelinha. ⭐
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